Solitude, darkness and love


"I don't wanna admit, but we're not gonna fit"

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Hidden Place II - Capítulo 1: Espuma


Psiquê já estava exausta, o dia estava escurecendo, e ainda permanecia na escola, prestando atenção na aula, quer dizer, estava tão de saco cheio que não faria nenhuma diferença se saísse dali agora mesmo, mas resolveu ficar, aquilo era para o seu próprio bem. Olhou para Freya e sorriu, Freya era uma menina tão boa, Psiquê sentia um pouco de inveja, ao mesmo tempo em que uma admiração tomava conta de seu coração, ela queria ser como Freya.

Cartas e mais cartas de amor chegavam à Freya, ela nunca ligava, aliás, para ela aquilo era apenas amor pela sua beleza, Frey se sentia assim também? Eu não sei. Psiquê tinha espinhas na testa, uma franja mal feita, pele morena, óculos de aro grosso, se vestia da forma mais simples possível, não falava com quase ninguém, o exemplo perfeito de uma pessoa excluída. E mantinha um amor enorme por Apolo, um amor tão doce quanto doloroso, certa vez ela emprestara uma caneta pra ele, foi o melhor dia da sua vida, ele agradeceu com um sorriso, ah... Que sorriso mais belo.

Era sempre assim, a admiração por Freya, o amor por Apolo, a vida entediante e sem grandes alardes, durante as aulas só ficava presa em devaneios, estudava muito em casa, era uma menina esforçada, afinal, ela tinha que ter ao menos uma meta em sua vida. Sua vida era um circulo, e ela, uma corda. Alguém um dia precisaria dessa corda? Ah... E suspirou mais uma vez admirando a beleza lânguida de Apolo. Ela estava cada vez mais decidida.

Umas mechas cairam nos seus olhos enquanto escrevia o assunto, e de uma forma tão suave colocou-as para trás da orelha, seus lábios secos pelo frio, seus olhos hazel, tão inconstantes, era alto e bem definido, era o mais bonito daquela sala, era mais um apaixonado por Freya, a beleza arrogante e voraz de Freya, quase um grito de guerra.

A aula estava terminando e o rapaz arrumou seu material na mochila, era tão frágil, parecia de porcelana, lembrou de alguma coisa que eu não sei o que é e riu bem baixinho, soltou mais um daqueles sorrisos magnânimos dos quais Psiquê sempre guardava na caixinha da sua alma, Psiquê era tão boba... E percebeu o olhar de Psiquê, e olhou para ela.

Por um momento a sala parecia estar num silêncio forçado, onde apenas um som macio passava por ali, quase imperceptível, como uma vibração, e aquela vibração atormentou a sombra de Psiquê, que se deformou de uma maneira tão assustadora que nem ela mesma pôde recuperar a própria sombra. Era assim que ela se sentia quando os olhos de Apolo acusavam-na, e era assim que ela estava naquele momento. Ela poderia chamar aquele sentimento de nervosismo ou medo, mas era amor. O amor nunca me deixa viver da maneira que gostaria.

Apolo sorriu para Psiquê, descontraído, bobo, de um jeito tão terno que só ele conseguia fazer, aquele sorriso era persuasivo, questionador, travesso, e tudo ao mesmo tempo, aquele sorriso era uma verdadeira incógnita. Psiquê não sabia se ria ou se ficava séria, estava atordoada demais para ficar racional naquela hora, Psiquê era uma completa otária. Mas que se foda.

E a aula terminou, Psiquê, calma como sempre, arrumou seu material lenta e lerdamente, como se não quisesse mais nada, e aquele material fosse a única coisa restante na sua vida. Os alunos logo sairam e se dispersaram para todos os lados na frente da escola, Psiquê foi ao banheiro trocar de blusa e os corredores já se encontravam vazios, exceto por uma bela criatura encostada num dos vários armários, Apolo.

Dessa vez Psiquê conseguiu sorrir, mas não sabia se ele estava lá por ela, por que estaria? Ele não é mais um apaixonado por Freya? Deve estar esperando outra pessoa, mas a outra pessoa não apareceu, é, realmente era por ela.

- Por quanto tempo você ainda vai estar calada?

- Até o momento em que estiver conveniente. - Ah, droga, ela não conseguia ser nem um pouco graciosa...

- Agora está conveniente?

- Você quebrou a conveniência, Apolo.

- Está tudo bem com você? Achei você meio mal hoje durante a aula.

- Só estava pensando.

- Vamos para uma lanchonete?

- Por que alguém como você me convidaria pra comer?

- Eu não posso?

- Eu não disse que não pode. Só é de se espantar.

- Ah... Então você não se ama o suficiente, Psiquê.

- E quem é você pra falar sobre o que eu sinto?

E sussurrou um cupido travesso dentro do corpo de um deus do som:

- Um demônio que chegou para te atormentar.


Droga, agora eu estou louca para ir pro inferno.




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Andrew Oliveira

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