Solitude, darkness and love


"I don't wanna admit, but we're not gonna fit"
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sexta-feira, 4 de junho de 2010

Cânone da Tempestade:5 - Tempestade II


Um escorpião passeou pelo meu corpo nu, injetando seu veneno letal perfurando minha pele vulnerável, arranhou-me as costas, lambeu meu sexo ereto e pulsando de desejo, mordeu minha boca rosada, roçou em minhas nádegas suadas, meu corpo suado, nadou nos meus cabelos, percorreu seu ferrão afiado deixando-me completamente submisso aos seus caprichos, o escorpião transformou-me em devasso, ele se tornou escuridão, então fiquei na escuridão. Cuspiu veneno na minha face, passou a língua em minhas bochechas coradas. E, então, meu corpo destrancou-se das correntes.

O deserto ardia na minha pele despida, corri nu pelas dunas colossais, meus pés afundavam na areia da dor, fugi do escorpião, e de suas garras sensuais que queriam me tornar seu escravo em seu quilométrico palácio pagão, meu peito ardia, não conseguia respirar. A escuridão dele me perseguia, até que a cegueira que me atingia deixou tudo branco, meio cinza, como aquela cidade em que eu queria mais é sair o mais rápido possível.



Me senti completamente indefeso, cego, nu, violado, com frio, até que veio a imagem do sorriso que eu vi uma única vez na minha vida, o sorriso mais especial do mundo, o melhor sorriso do mundo, mesmo com aqueles olhos que guardavam tantas mágoas, mesmo com a morte, eu percebi que ele foi feliz ao meu lado, eu o fiz feliz, e isso o satisfez. Naquele momento eu havia entendido, mas não sabia, o sorriso de Danilo Armand foi feito para me salvar.







Então me tornei luz...






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Cânone da Tempestade - Fim.






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Andrew Oliveira, ou Black Cherry :)

Cânone da Tempestade:5 - Tempestade I




Talvez ele não estivesse tão satisfeito comigo, ou nem tão feliz como parecia, talvez ele tenha sido apenas uma máscara durante os dois anos em que estive com ele. Eu não havia parado de pensar em Danilo Armand um minuto sequer desde a primeira vez em que o vi.

Minhas malas já estavam prontas, eu ía sair da cidade Cartesis, não queria mais ficar ali, aquele ar me intoxicava, me deixava com lembranças ruins. Dei um último passeio pela cidade nebulosa, e fiquei um tempo observando o quintal cheio de flores silvestres da casa de Danilo, seu irmão deveria estar por aí, jogado em algum beco com o braço entrando em processo de necrose, bem feito, pensei.

A garoazinha inocente cresceu para uma chuva grossa, espessa. Corri de volta para o meu apartamento, minha mãe decidiu que íamos embora depois que a chuva ficasse mais fraca, mas não ficou. E partimos.

A estrada estava um inferno, os faróis dos carros até foram acendidos para não ocorrerem acidentes, a chuva grossa tornou-se tempestade, meu coração fragilizado tornou-se tempestade, eu não tinha ido ao enterro de Danilo Armand, não queria me despedir dele, para mim, ele ainda estava vivo, dando o seu único sorriso.





Minha sombra tornou-se luz, e a luz que me guiava tornou-se sombra, eu estava brilhando, mas não conseguia ver para onde meu caminho áspero iria se trilhar, uma imagem de Danilo violentou os meus olhos, e me tornei cego de mim mesmo.




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Continua...





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Andrew Oliveira

terça-feira, 1 de junho de 2010

Cânone da Tempestade:4 - Pulmão


Os ossos trêmulos, mesmo naquele único sol, congelaram tão rápido que estavam prestes a se quebrar, as veias pulsaram demoníacas, o sangue que logo ferveu aqueles corpos tão próximos. A pele, amortecida, reacendeu-se como se acende a luz de um trovão, tornando-se uma fina camada sensitiva que, a cada toque, turbilhava de prazer e da necessidade de uma outra pele, essa estava ali.

A estrela morna, reconfortava de uma forma tão singular aquele momento, aquele momento era único, aquele momento era o último. Borboletas violetas suspiravam em êxtase no estômago de Danilo Armand, como se estivessem num campo verde-esmeralda e não dentro dele, dentro dele estavam escritos, sorrisos mofados, abraços controlados, dentro dele era tão agitado, mas tornou-se tão calmo e seguro de si, seguro de todos os seus desejos, seu maior desejo era aquele.

Uma garoa ainda caminhava pela cidade Cartesis, mas o sol estava onde deveria sempre estar, estava claro, brando e expulsando o frio úmido de lá, os corpos ainda não estavam separados.

O carro vermelho e antigo estava pairado perto de uma loja, naquelas ruas tão grandes, enquanto o motorista paralisado de medo e tensão assistia o desespero da morte. Ele tinha bebido mais do que o normal, sua mulher se comportava como uma meretriz, ele não tinha culpa.

Os lábios se encontravam num sabor tão apetitoso que não se largaram nem um minuto, um gosto perverso, magnífico, celestial, obscuro, era gosto de luxúria, era gosto de sexo, era gosto de respiração, era gosto de vontade, era gosto de amor.

Seus braços estavam colados, seus corpos se tornaram um só, o sangue saia sem parar de Danilo Armand, ele estava morrendo, que se dane o inferno, eu já tenho um anjo só pra mim!


Lustat era o Sol, Armand era a Lua.



Ele olhou para Lucas Lustat uma última vez, seus olhos nã0 estavam mais tão cansados. Ainda no seu colo fraternal, estava feliz, e entregou para ele seu único sorriso.





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Andrew Oliveira :)

sábado, 29 de maio de 2010

Cânone da Tempestade:3 - Chaveiro


Lucas Lustat ainda se lembra de cada detalhe de Danilo Armand, da sua alma escondida, dos seus sorrisos aparentes, dos seus sapatos sem cadarços, dos seus cabelos desarrumados, da sua calça rasgada nos joelhos, da sua voz reconfortante, da sua pele pálida e limpa, dos seus olhos cansados, quase sempre olhando para baixo, do seu corpo marcado, das suas lágrimas de desabafo, dos momentos em que ele sempre quis estar ao lado dele, das suas notas que foram recuperadas graças à amizade de Lucas, da sua casa que foi arrumada à ordem de seu novo amigo, das flores silvestres que foram plantadas no quintal de sua casa, como presente de aniversário, dos filmes antigos nas madrugadas, dos cochilos no colo dele, das tardes nubladas de música e estudos, dos seus abraços tão carinhosos e protetores, dos banhos de chuva, e da única vez que Lucas pôde ver o sol ao lado de Danilo Armand, foi seu último sol, e seu único beijo.

A tempestade ficava cada vez mais forte, de uma intensidade nunca vista naquela cidade, Lucas levantou do chão, ferido, no ócio de seu sofrimento, no limite da sua capciosa dor, lembrou dos olhos cansados de Danilo Armand, sua alma estava tão cansada quanto aqueles olhos, sua audição não alcançava mais nenhum som, Lucas se encontrava completamente distante daquele mundo;

Até que pôde ouvir o som de uma gota no chão,

e, logo após, da tempestade, a tempestade do seu coração.

Foi em direção a ela, era tão fria, porém tão confortante, se sentiu abraçado pela água, a grama úmida nos pés descalços, a roupa molhada colando-se no corpo, as mãos trêmulas e inseguras, os olhos fechados, um pouco de chuva entrando na boca aberta, a face em direção ao céu, recebendo todo o amor que sentiu apenas uma vez, toda a liberdade que viu apenas uma vez, toda a felicidade que se permitiu apenas uma vez.

A tempestade gritou, gritou insana enquanto despertava, Lucas Lustat chorou, chorou insano em forma de tempestade.




" Atrás do barco de nuvens, um sol acorda de sua hibernação
Refresca-se com alguns pequenos pingos da chuva
Brinca com as quentes chamas de fogo
E faz arco-íris... "


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Andrew Oliveira,
Poema (em azul) de Sigur Rós ^-^

Cânone da Tempestade:2 - Canário


Aquele olhar cansado
Filho da escuridão
Leitor Nublado
Exausto, exausto em vão

Aquele olhar cansado
Cântico bêbado, lamentado
Pés descalços na grama
Folhas de chuva na cama

Aquele olhar cansado
Explosão de um crepúsculo partido
No pulmão de um amanhecer
Floresta negra do seu coração anoitecido

Aquele olhar cansado
Estrela matutina do seu universo
Pássaro de chamas no seu inverno
Cinzas cósmicas, do inverso

Aquele olhar cansado
Pulsa no brilho do alvorecer
Interna dor, jamais vista
Frieza-escudo para o mundo

Aquele olhar cansado
Porão de bondade, escondido
Solitariamente sem estrada alguma
Voluntariamente sem estrada alguma

Aquele olhar cansado
Dono de si mesmo
Senhor do seu dia
Senhor do seu enredo

Com suas pequenas asas
Sua voz afável
Canta ternamente
Sua última canção de amor



Queria tanto saber voar...









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Andrew Oliveira

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Cânone da Tempestade:1 - O Aluno Novo




Danilo Armand permitiu-se mais uma vez cochilar durante a aula de matemática, era revisão, e ele já estava no 3° ano do Ensino Médio, mas não se importava, pois sua patética e superficial vida se encontrava completamente perdida. Sonhava com pessoas boas e dias ensolarados, estou de saco cheio dessa chuva!
Fazia meses que chovia sem parar na cidade Cartesis, a terra natal de onde Danilo nunca saíra, nunca se sentiu bem ou de bom humor ativo lá, era como um veneno paralisante que o deixava preso, era como uma gaiola. Surgiu um campo cheio de arco-íris se misturando numa dança bêbada em sua cabeça, sorriu levemente, até que foi interrompido:
- Armand! Venha aqui no quadro escrever o resultado do cotangente de X! - Berrou o antipático professor.
- Ah... Eu não tô afim, e eu não sei. - Nem levantou a cabeça, não gostava de olhar muito nos olhos das pessoas.
- Isso é ordem, Armand! - Enfureceu-se.
- Pergunta pra quem sabe, oras... Eu já disse que não sei!
- Ele não passa de um idiota, professor! - Intrometeu-se Lídia, a inimiga de Danilo. - Por que o senhor ainda insiste em perguntar para as portas?
A turma pôs-se a gargalhar.
Danilo parou na sala da coordenadora pedagógica:
- Danilo... Danilo... Quando você vai mudar? Estou cansada de chamar a sua atenção! Você responde para os professores, está com a menor média da sua classe, e nunca me conta o que você tem, você não era assim! O que aconteceu com você?
Ele poderia responder sobre seu desânimo para viver após o assassinato de seus pais, e que morar sozinho com um irmão mais velho egocêntrico é terrível, mas pensou, como sempre, em controlar seus sentimentos, e preferiu responder:
- Terminou? - Seu olhar cansado não piscou.
- Danilo, vou ter que chamar seu irmão.
Danilo levantou entediado da cadeira, e partiu para casa.

Era uma casa de tamanho normal, bem protegida e à 5 quadras de distância da sua escola. O local estava uma verdadeira zona, roupas e objetos dispersos nos chãos , nas cadeiras e sofás, louças sujas, uma baderna! Apenas o quarto de Danilo permanecia intacto, limpo e completamente são. O garoto entrou no quarto do irmão para avisar que já estava em casa, avistando-o sentado no chão aplicando-lhe uma injeção, já era uma cena do seu cotidiano.

Pessimismo, melancolia, sono, tédio, depressão pós-sono, vontade de chorar, mais sono, olheiras, mais sono, mais sono... Esse poderia ser mais um dia normal na vida de Danilo, até o momento em que entrou um ser nervoso, de face tão bela, exalando ingênuidade, parecia ser tão inseguro.
- Temos um aluno transferido, pessoal. - Falou a professora de Língua Portuguesa. - Conheçam Lucas Lustat!










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Andrew Oliveira ;*