Solitude, darkness and love


"I don't wanna admit, but we're not gonna fit"

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Especial de Halloween: O Baile das Crueldades



Dobrei o papel e coloquei no envelope, lambendo a borda para colá-la e depois colocando um selo. A carta era para o Mal. Sim, isso mesmo. Eu não sei como você ou qualquer outra pessoa define o mal, mas eu decidi definir como o Mal conhecido pelo Cristianismo, aquele que tem vários nomes. Esse mesmo. Lúcifer, Memnoch, Anjo Caído, todos esses nomes que se tornaram doce na boca até dos mais descrentes, inclusive daqueles mais céticos que exclamam “ai meu Deus” sem perceber quantas vezes fazem isso. Se é ironia ou não, eu não quero saber.
Decidi fazer isso por uma brincadeira boba de Halloween. Você sabe, eu estava entediado no meu quarto, conversando em redes sociais no computador e vendo pornografia de vez em quando. Mas eu cheguei num estado de tédio em que o próprio tédio se entedia de ser entediante, se isso faz algum sentido. O Halloween estava chegando e eu não queria mais uma sessão boba de filmes clássicos como aquele do John Carpenter ou outros filmes inspirados em livros do Stephen King, eu também não estava nem um pouco a fim de ver terror trash. Na verdade eu estava entediado por tudo. Não queria sair com meus amigos ou com a minha família, cheguei a um estado insuportável de “nada” e, no cansaço do meu desespero, enderecei uma carta anônima para o Mal, e aguardei uma resposta que provavelmente nunca chegaria. Digo provavelmente porque gosto muito dessas histórias verídicas do sobrenatural e sempre um tive um pé para isso. A quantidade de sonhos bizarros que eu tenho chega a ser maior do que a quantidade de horas em que já dormi nos meus dezessete anos. Exatamente. Mas eu nunca cheguei a entrar em desespero por causa deles ou algo assim. Na verdade, eu até gosto, e em alguns deles cheguei a ficar muito triste por ter acordado. Quer dizer, com exceção de um em específico, em que a própria Lilith pulou em cima de mim e gargalhou, uma gargalhada gutural e soberba, dizendo que adoraria ver a minha cara de dor assim que enfiasse qualquer coisa dentro de mim (e eu a batizei assim porque a mulher tinha mais de dois metros e mais músculos na barriga do que eu, além de ter ombros de um jogador de futebol americano, e cabelos mais longos que o próprio corpo. Não posso ter certeza de que fosse realmente Lilith, mas você me entendeu). Isso foi na minha época de garoto esotérico, em que eu vivia acreditando em energias e tentava fazer psi-ball, telecinesia e todas essas coisas que eu lia pela internet para me sentir mais participativo no mundo. Hoje em dia eu vejo o quanto era babaca nessa época, mas não me entenda mal, as vezes ainda acredito em coisas desse tempo que acreditava com muito mais vigor. Mas isso também me entediou depois de um tempo, e o máximo que consegui disso tudo foi fazer uma lâmpada queimar.
Um outro sonho bastante macabro que tive foi numa das vezes em que meu primo Jonas veio dormir aqui em casa nas férias. Eu estava correndo num lugar árido, e tinha um monte de vozes estranhas em línguas ainda mais estranhas por todos os lados, e eu não sabia que voz seguir. Quero dizer, não que devesse seguir, mas eu me sentia perdido no sonho, e só queria escapar dele porque eu já sabia que era um sonho. Mas o que quer que tenha sido, não me deixou sair dele tão cedo, e quando eu acordei, Jonas estava quase em cima de mim me agitando pelos ombros e dando tapas, porque eu estava falando alguma coisa muito amedrontadora. “Evan, você está tendo aulas de latim ou coisa parecida?”, Jonas me perguntou, mas a única coisa que eu havia aprendido em latim fora uma oração católica com a minha mãe, e não me lembrava de ter tido aula nenhuma. E foi isso.
Jonas havia ficado com medo de mim, ou dos meus sonhos, ou de qualquer coisa na minha casa, não fazia diferença porque de um jeito ou de outro depois desse sonho ele raramente ia para lá. Mas essa foi a única coisa estranha que aconteceu na presença de Jonas, todas as outras se limitaram a estar comigo.
Bem, não estou aqui para falar sobre isso, apenas me perdi nesse pequeno dilúvio de devaneios. Quando eu me refiro ao “todas as outras coisas estranhas”, são pesadelos e rápidas aparições que fui vendo durante esse tempo. Eu sempre gostei muito de ficar em casa e a minha família adora viajar por qualquer motivo bobo que tiver para fazer isso. O resultado era que, como nem meus irmãos nem meus pais conseguiam me arrastar para fora do meu quarto, eles sempre chamavam algum parente da família para ficar comigo em casa. Uma pena que depois do episódio do Jonas isso não aconteceu mais com tanta frequência, mas eu ficava mais ou menos tranquilo de qualquer forma. É bom ficar sozinho, você acaba fazendo parte das coisas que você tem mais medo, mesmo que você não pense muito nisso.
Na verdade, agora mesmo, eles estão arrumando suas mochilas no porta-malas do carro para ir acampar na fazenda do meu avô paterno. Mamãe e minha irmã não gostam muito dele, mas elas gostam da fazenda, então elas fingem que gostam dele pela boa convivência. Já o meu irmão e meu pai não parecem se importar com outra coisa a não ser futebol, cerveja, e todos esses interesses previsíveis que nunca me interessaram muito. A não ser uma constrangedora vez em que meu irmão me deu vodca pura alegando ser água, eu estava com sede e bebi num gole só, e fiz o maior drama por isso porque o gosto era horrível e minha garganta estava sendo rasgada, mas ele disse que só me daria água quando eu bebesse o suficiente. Estávamos só nós dois em casa, e meu irmão sempre foi mais forte do que eu, então tive que aceitar o desafio. Quando eu já estava bêbado o suficiente, acabei soltando sem querer que o primeiro beijo que recebi foi de Jonas, e que ele não beijava muito bem para deixar o momento especial, mas que um momento após ele recompensou com outra coisa que ele sabia fazer com a boca. Depois disso, meu irmão não me fez mais desafio nenhum.
Vesti uma calça jeans e fui para a rua colocar a carta numa caixa do correio antes que todo mundo fosse embora. Atitude meio boba, enviar uma carta para o Mal achando que apagaria meu tédio, mas decidi ir adiante com a ideia, por mais que começasse a achá-la o cúmulo da babaquice. De qualquer forma, fiz o que não queria fazer durante o dia: aluguei filmes e filmes de terror, de clássicos a atuais, e sentei no sofá pelo resto dia vendo sangue e corpos sendo mutilados como se fossem frangos de bandeja de supermercado. Que divertido.
Quando eu já estava no quarto filme do dia, e a hora já passava da meia noite, decidi dar uma pausa para descansar os olhos e fazer alguma outra coisa para comer. A campainha ficara tocando desde as seis da tarde com crianças e crianças pedindo doces, situação que eu não tive que evitar porque mamãe comprara sacos e sacos cheios de bombons e chocolates, e eu os havia deixado no criado-mudo próximo à porta da sala para entregar uns e outros, também pegando alguns para mastigar enquanto passeava livremente de cueca pela casa. É muito bom, eu me sinto arejado e mais livre, uma experiência que todos deveriam fazer.
Passando da meia noite, quando a maioria das crianças já estava voltando para suas casas, decidi colocar uma boa música num volume relativamente alto, com janelas e tudo o mais devidamente fechados, e sair pulando pela sala e quartos, subindo e descendo as escadas freneticamente. Um pequeno costume que eu tenho desde que quase nenhum dos meus primos quiseram ficar sozinhos comigo, mas não foi algo que me magoou.
Quando já estava pingando de suor e exausto demais pra fazer qualquer coisa a não ser continuar minha sessão de filmes, desliguei o som e fui tomar um banho. A campainha tocou, enrolei uma toalha no corpo e desci para ver pelo olho-mágico. A rua estava aparentemente vazia e eu não liguei, por ser obviamente uma brincadeira de mau gosto, mas em cima do tapete tinha uma carta endereçada a mim.
- Ótimo, o carteiro viu minha brincadeirinha e decidiu responder.
Mas a carta estava bastante caprichada pra ser uma simples brincadeira. Estava selada com uma cera vermelha e não havia nenhum remetente. Bem, decidi abri-la, e seja lá quem aceitou a minha brincadeira, respondeu com um cordial:
“Olá senhor Evan Peters, fiquei intrigado na sua curiosidade em saber como estão as minhas festividades para o Halloween, imagino que você esteja entediado pra fazer uma pergunta desse tipo para alguém como eu. De qualquer forma, você não pode saber como estão as minhas festas sem antes participar de alguma, por esse motivo irei lhe mandar esse singelo convite para a última festa antes que a maioria dos espíritos mais interessantes tenha que ir embora, e não me reste tantas coisas interessantes para descobrir e ver. A festa irá começar às três da manhã, mas você pode chegar antes, porque muitos também chegam mais cedo. A festa também é um baile, se você preferir, também porque uma grande presença estará lá entregando presentes para os convidados. Eu acho que você já a conheceu uma vez. Atrás do convite há o endereço da festa. Mas sinta-se livre para ignorá-lo, apesar de que se o fizer, estará perdendo uma grande noite.
Com carinho, eu mesmo.”
Peguei o envelope novamente e vasculhei com os dedos, encontrando o que parecia ser o convite. Um pequeno papel vermelho cortado em triângulo, com letras escuras suavemente escritas dizendo “O Baile das Crueldades”. Título estranho, mas atrás do convite não havia nenhum endereço da tal festa, então peguei a carta do “eu mesmo” novamente.
“P.S.: você não vai conseguir ver o endereço com as luzes acesas.”
Certo. Desliguei todas as lâmpadas e senti um frio anormal percorrendo pela sala, que por sua vez estava fechada. A resposta da minha brincadeira estava começando a me dar medo e voltei aos interruptores que não estavam mais lá. Um poste se acendeu e eu estava no meio de uma rua deserta, sem enfeites de halloween, abóboras ou qualquer coisa parecida. Eu ainda estava só de toalha e descalço, e a ventania me fazia bater a mandíbula violentamente. Olhei para os lados e não tinha nenhuma alma viva. Que irônico.


- Você chegou cedo. – uma voz disse.
E a dona da voz era o que me parecia ser o homem dentro de uma capa enorme. Não há bem como explicar, mas a capa era uma espécie de iglu escuro envolta dele, era cheia de tecidos retalhados e tinha cabelos escuros colados em cima, além de um círculo de metal cheio de símbolos e um rosto triangular feito de argila colado na frente do rosto. Descobri que era uma mulher com uma voz grossa quando o casaco flutuou para trás e ela emergiu do casaco como se estivesse nascendo dele, seu rosto era todo pintado de branco com um triângulo preto na testa, e cabelos louros e lisos. Ela usava uma espécie de sobretudo preto com mangas que chegavam ao chão, mas eu também podia ver suas mãos nuas e pintadas com a mesma tinta do rosto, com escritos escuros nos dedos e nas palmas das mãos.
- O que é isso? – foi a primeira coisa que consegui perguntar.
- Minha irmã. – a mulher disse.
Espera, eu deveria estar perguntando outra coisa.
- Que lugar é esse?
- Você não sabe? – ela franziu o cenho, me avaliou e depois cheirou o ar. – Ah, você está vivo e foi convidado por ele.
- Eu estar vivo é um problema? – perguntei.
- Não, não. Alguns vivos passam por aqui. Difícil dizer se eles conseguem voltar pra casa depois. Karenina, vá buscar uma roupa decente para o rapaz, ele está nu neste lugar tão perigoso.
E a capa flutuante desapareceu.
- Não entendo como aquela capa pode ser sua irmã.
- Não a chame assim. Ela é forte, ela vai sobreviver.
Aquela conversa não tinha sentido algum, e eu resolvi não insistir demais nas perguntas, porque as respostas acabavam sendo ainda mais confusas.
- Bem, então onde é o Baile das Crueldades?
A mulher loura sorriu.
- Agora você está entendendo como as coisas funcionam por aqui. Mas por que a pressa, não quer nenhuma veste?
- Não, não... Quer dizer, claro que eu quero.
- Como você se chama, rapaz?
- Evan, e você?
- Evan? Que nome estranho. Chamo-me Karin Dreinarr Von Lyse. Mas lhe permito me chamar de Lyse, minha irmã não gosta do meu primeiro nome porque é parecido com o dela.
- Certo, Lyse. – meu nome era bastante estranho comparado ao dela, de fato.
A capa reapareceu com um... Mugido.
- Pare de reclamar, ele não lhe fez nada.
- O que ela está dizendo?
- Que eu vou pegar seus pulmões para assar primeiro do que ela.
- Você faria isso?
- Não. Você parece ter um gosto ruim. E Karenina, pode voltar para mim.
A capa flutuou sobre Lyse e a escondeu novamente, com um mugido de aquiescência. Lyse ergueu o braço segurando um sobretudo escuro parecido com o dela e me entregou. Vesti o sobretudo/vestido rapidamente e tirei a toalha por baixo, jogando-a no chão.
- Você não teria nenhuma roupa de baixo também? – perguntei, desacostumado com as minhas coisas ao ar livre.
- Roupas de baixo? Deixe-me ver. – Lyse entrou na irmã e voltou com outra coisa nas mãos, esticando o braço novamente para mim. – Aqui. Está bom para você? – era uma saia também preta e sem nenhum detalhe, similar a um kilt, mas eu achei que já era o bastante, melhor do que ficar vestindo apenas um sobretudo longo e completamente pelado além disso.
Lyse e eu caminhamos pela rua deserta e bastante iluminada com postes e postes dispersos por todos os lados, era como uma versão mais bagunçada da minha rua, e mais estranha também, obviamente. Mas mesmo com aquelas duas presenças excêntricas, eu não estava com medo, e Karenina parecia bastante simpática depois de alguns minutos perto da sua presença silenciosa, de vez em quando mugindo em confirmação ou desgostando de qualquer coisa. Mas Lyse também estava conversando bastante. Ela viera do Himalaia com sua irmã, fugiu da casa dos pais porque eles não aceitaram a nova forma de Karenina, que aparentemente fora amaldiçoada por uma “bruxa das grutas”. Isso aconteceu porque Karenina se apaixonara pelo mesmo caçador que a bruxa, mas o caçador havia preferido Karenina, que também era tão loura quanto Lyse e muito bonita. A bruxa tentou atacá-la na primeira vez, mas Lyse estava perto e a protegeu com seus espíritos bons. Frustrada, a bruxa começou a aprender feitiços mais perigosos, e conseguiu amaldiçoar Karenina naquela forma numa noite de sono ao lado do caçador. Quando Karenina acordou e não sentiu mais suas pernas e tampouco suas formas, ela mugiu tão alto que estourou os tímpanos e os olhos do caçador, além de tê-lo matado segundos depois com o horror. Ela e Lyse decidiram ir embora dali e se encontraram com uma xamã, que ensinou as técnicas de pintura no rosto para Lyse se aliar à irmã quando ambas precisassem proteger uma à outra.
- Quando eu ficava perto de Karenina por muito tempo, eu começava a tossir sangue e sabia que se continuasse assim eu morreria, e deixaria minha irmã sozinha. Mas quando aprendi a pintar meu corpo e rosto, foi como se Karenina começasse a fazer parte de mim. Eu me senti melhor e passei a compreendê-la, e ela também. – Karenina mugiu em concordância.
Chegamos a uma porta que estava pairada no meio da rua, o braço de Lyse emergiu para fora de Karenina e girou a maçaneta. Não havia nada atrás da porta, mas do outro lado da porta uma escadaria iluminada por lâmpadas vermelhas iluminou a rua quando fora escancarada.
- É aqui? – perguntei.
- Sim. – Lyse respondeu, emergindo novamente para fora da irmã.
Comecei a entrar e Lyse me puxou pelo braço.
- Você está louco?
- O quê? Mas pensei que aqui...
- Não. Você vai mesmo entrar aí sem nenhuma proteção? Isso pode ser só a brincadeira de uma Aranha.
- Mas você disse que...
- Sim, eu disse que esse é o lugar, mas você não sabe como entrar nele sem cair numa armadilha de espírito. Uma Aranha pode ser um espírito qualquer querendo companhia ou um Demônio querendo um alimento. Pode ser qualquer coisa. Neste lugar é onde tudo é livre.
- Então você pode me responder agora onde estamos?
- Aqui é Samhain. O próprio. Estamos dentro dele, e ele sempre abre suas portas nesse dia até que a Coroa do Sol apareça nos céus.
- Então ainda estaremos provavelmente seguros enquanto ainda for noite?
- Sim. Temos ainda mais oito horas para nos divertir. – Lyse deu um sorriso de menina, e Karenina voltou a mugir.
- E a armadilha? Como faço pra entrar da forma certa sem cair nessa tal armadilha? – debochei.
Lyse me deu um olhar furioso.
- Não fale desse jeito por aqui. Se você não levar a sério as leis que aqui funcionam, você não vai durar nem dois minutos lá dentro.
- Tudo bem, me desculpe. É que eu fiquei... Ansioso.
- Eu sei que sim. – Lyse enfiou um braço dentro de Karenina e tirou de lá um grande colar que pendurava um apanhador de sonhos do tamanho do meu punho fechado, feito de ferro, peles, garras e penas, penas que ela me disse serem de uma falecida fênix, e tinha uma aura quente como se o objeto tivesse ficado perto de uma brasa. – Tome, coloque no seu pescoço. Você vai estar mais protegido do seu pescoço para baixo.
- Eu conheço isso, é um apanhador de sonhos. – mas quando Lyse me fitou em repreensão, entendi que aquilo tinha um outro nome no mundo dela. – Mas como assim do meu pescoço para baixo?
- A nossa cabeça precisa de uma proteção diferente em relação ao nosso corpo. Coração e cérebro são muito distintos, é como se tivéssemos dois trabalhos diferentes em nós mesmos. Três, se contarmos o nosso espírito.
Lyse colocou a mão num bolso oculto do seu casaco e saiu com dedos escurecidos de tinta, desenhando um triângulo na minha testa.
- Eu não vou precisar dessa tinta branca também? – perguntei, sorrindo para ela.
- Não. Você ficará mais apetitoso sem essa “tinta branca”. – ela me respondeu com um sorrisinho cínico.
- Agora sim. Para onde você quer ir? – ela perguntou, e embora soubesse a resposta, eu imaginei que aquilo era alguma espécie de guia para não cair na armadilha de uma Aranha.
- Para o Baile das Crueldades.
Karenina mugiu e Lyse abriu a porta novamente. Dessa vez tinha um longo corredor iluminado por lâmpadas azuis e verdes. Entendi que as lâmpadas naquele lugar, Samhain, significava alguma espécie de advertências e guias para alguém como eu. Imaginei que deveria ter estudado mais sobre as cores primárias nas aulas de Artes.
Caminhei com ansiedade e medo ao mesmo tempo, mas me sentindo seguro com o triângulo preto na minha testa, o apanhador de sonhos no meu pescoço e agora devidamente vestido para a ocasião. Chegamos a mais uma porta que Karenina abriu com sua telecinesia e me deparei com a mulher alta e forte do meu antigo sonho, aquela que batizei de Lilith por ser tão andrógina tanto de rosto quanto de corpo. Mas a questão é que ela era realmente Lilith (Karenina mugiu em concordância quando leu meu pensamento), o que me deixou confuso sobre sentir ainda mais medo ou mais ansiedade.
Lilith usava um longo vestido púrpura sem alças, com um decote que empinava e apertava seus seios. Ela estava com cílios longos e também púrpuras, sombreados por um delineador, e segurava nos dedos um longo filtro com um cigarro na ponta. Mas o mais interessante era que ela se sentava numa poltrona vermelha e individual, em cima do que parecia um santuário vertical com degraus que formavam uma pirâmide no salão. Nesses vários degraus, escravos ruivos de pele extremamente pálida, nus, sentados, ajoelhados ou de quatro, comportavam-se silenciosamente, todos com uma coleira no pescoço que terminavam sempre na outra mão desocupada da deusa, demônio, ou que quer que aquela criatura fosse.
- Chegaste cedo, senhor Evan. Acho que já nos conhecemos antes.
- Sim, eu também acho. – disse, abaixando a cabeça e fazendo uma reverência quando Lyse me olhou com fúria e indignação. – Perdoe-me a falta de educação.
Lilith gargalhou altíssimo.
- Pare com isso. – ela disse, dando uma longa tragada no seu longo cigarro. – Pode escolher um deles. Estou presenteando todos os convidados desta festa.
Olhei para os ruivos silenciosos, e nenhum deles parecia triste, cabisbaixo ou raivoso, nenhum sentimento negativo. Era como se eles gostassem de ser escravos daquela criatura. Um deles me olhou com mais atenção, e sem querendo demorar-me mais na frente de Lilith, apontei para ele.
- Bela escolha. Este é muito obediente. Adão me disse que ele geme como louco. – ela desenrolou a coleira dele do seu dedo mindinho e o ruivo, nu, caminhou em minha direção. Me senti incomodado por todos aqueles homens descobertos na minha frente, inclusive pelo o que eu tinha escolhido, e pedi para Lyse vesti-lo com uma kilt escura como a minha. Lyse realizou meu pedido de bom grado e agora o meu presente de Lilith não estava mais com o instrumento balançando para lá e para cá como se não fosse nada. Ele era ainda mais lindo de perto, e carregava algo meio angelical meio másculo no seu rosto, talvez fosse por ter olhos grandes e claros e um furinho no queixo. E obviamente, mais alto do que eu. Também havia algo nele de nostálgico, algo que me lembrava algo ou alguém, mas resolvi apagar aquilo rapidamente da cabeça.
- Obrigado, Lilith. – agradeci, fazendo outra reverência com a mão sobre o peito e a cabeça abaixada.
Quando eu ia fazer um gesto para segurar a mão do meu ruivo, Lilith soltou outra gargalhada ainda mais alta e gostosa, como se gargalhar fosse algo parecido com fazer amor.
- Não, meu querido Evan. Ele é seu escravo, não seu igual. Ele fará o que você quiser, e você nem precisa pedir “por favor”. Ele obedecerá toda e qualquer ordem sua até o fim dos tempos. Segure-o pela coleira, porque é assim que funciona.


Obedeci e peguei a ponta da coleira escura, enrolando-a e amarrando no meu pulso. Fiz uma última reverência para Lilith junto com Lyse e a flutuante Karenina e caminhamos por mais um corredor, dessa vez iluminado por lâmpadas fluorescentes. Deparamo-nos com uma grande porta de madeira maciça, toda moldada com formas e desenhos, e um curioso anfitrião vestindo uma burca de um azul vivo, com o rosto coberto por um fino véu.
- Evan, que prazer vê-lo por aqui, fico feliz que tenha aceitado meu convite.
- Então era você? – perguntei. O episódio da carta me parecia uma brincadeira de criança comparado com o lugar em que eu estava no momento, na cerne de um mundo de espíritos e deuses.
- Sim, sim. – ele ergueu o véu azul-claro e o colocou em cima do objeto pontiagudo sobre sua cabeça. Parecia um humano como qualquer outro, e tinha o rosto simpático e afável, com uma barba rala e olhos risonhos, de um ar meio ingênuo. – Ah, e desculpe por não me apresentar. Não coloquei meu nome na carta porque ela poderia cair em mãos erradas. Eu sou Corona Solaris, mas prefiro ser chamado de Huracán. Karenina, Lyse, podem entrar, a festa é de vocês.
Lyse aquiesceu e me deu um sorriso de despedida, enquanto Corona Solaris/Huracán abria a grande porta para ela com apenas um olhar e um gesto de mãos. Ela desapareceu com seu ruivo na coleira e Karenina no seu encalço, cujo escravo já havia sido engolido por ela como aperitivo.
Huracán apenas continuou comigo para dizer que eu não deveria tentar conversar com qualquer criatura que não se dirigisse a mim, e caso ela o fizesse, eu deveria ser obrigado a conversar. Aquilo não fazia muito sentido, mas resumindo, era mais ou menos como “não fale com ninguém a não ser que alguém queira”. Segundo Huracán, boa parte dos espíritos e outros seres preferiam tomar suas próprias atitudes, aquilo tinha haver com o ego deles, ou algo perto disso.
- A festa tem seis alas diferentes, juntas elas formam o hexagrama da mansão de Samhain. Três delas estão no subnível da casa, subníveis que você não pode em qualquer hipótese entrar, ou se não o meu convite pra você se transformará num atestado de óbito. Está me entendendo?
- Sim.
- Os três outros níveis estão nesse nível e você está livre para se divertir nele. Você verá muitas escadas no nível de Maria Antonieta, mas como Lilith já lhe presenteou com um escravo, imagino que você não precise visitar aquele lugar, a não ser que se sinta curioso demais.
- Como se chamam os outros dois níveis que posso entrar? – perguntei.
- São o nível de Drácula e o nível de Dalí. O nível de Dalí é este primeiro, é muito parecido com um lugar humano, imagino que você se sentirá mais à vontade nele.
E era verdade. Quando entrei com meu escravo ruivo no meu encalço, me senti numa boate qualquer de um lugar qualquer no centro da minha cidade. Cheio de lasers e globos numa arquitetura parecida com a egípcia, com o fato de que nas paredes havia frases e frases em sânscrito. Era como uma mistura de vários adornos religiosos num mesmo lugar, e a sala era um triângulo gigante. Provavelmente os outros níveis também o eram. Várias criaturas encapuzadas me olharam, outras várias me ignoraram, e acho que vi mais uns três humanos perdidos ali além de mim, e alguns escravos ruivos ainda vivos e não engolidos por seus donos. Será que eu teria que engolir meu ruivo mais tarde também?
Sentei numa poltrona longa e púrpura no canto de uma parede inclinada e o meu escravo continuou em pé.
- Você pode se sentar se quiser. – eu disse.
- Eu não quero, eu lhe obedeço. – o ruivo disse, numa voz afável, e se sentou no meu colo.
Primeiro enrubesci e fiquei sem reação, até porque além do sobretudo que Lyse me dera eu estava usando apenas um kilt de pano fino, e me senti crescendo embaixo do calor das coxas do ruivo. Ele me encarou, entendendo meu estado, e colocou seus braços em cima dos meus ombros, esperando a minha concordância. Eu balancei a cabeça e ele aproximou seus lábios de um rosa claro dos meus e deixou que eu tomasse o partido dos movimentos. Demorei-me no gosto porque era bom, ou porque eu também não queria nenhum espírito interrompendo aquele momento tão... Inebriante. Parei por um momento e ele também, que estava movendo os quadris em cima de mim e me sentindo cada vez mais rígido embaixo das suas coxas, voltando a me encarar.
- Você tem um nome? – eu quis saber.
- Nós deixamos de ter nomes quando Lilith nos escraviza. – ele respondeu.
- Mas você tinha um nome antes, certo?
- Não posso dizê-lo mais. Eu mal lembro quando foi que tive um nome. Sequer se isso chegou a acontecer. – sua vista se perdeu numa criatura que usava uma túnica vermelha e tinha mais de dois metros, balançando-se naquela música densa e psicodélica que nenhum ser humano conseguiria produzir.
- Certo. Vou chamá-lo de Nick. – eu disse, com o primeiro nome que viera a minha cabeça. E também porque ele era praticamente idêntico a um outro Nick.
Ele franziu o cenho.
- Isso importa? Eu sou só um escravo. Lilith viaja pelo mundo para encontrar os ruivos que já tiveram um toque da descendência dos seus iguais há milênios, e esses ruivos sempre são os mais belos. E eu fui encontrado, e até o fim dos tempos eu servirei para as maiores, porque em algum momento da minha árvore genealógica, um antepassado meu teve contato com Lilith.
Sorri, porque ele enfim teve uma reação diferente além da constante expressão de êxtase na sua cara e na sua voz.
- Tudo bem, Nick. Estou com fome.
- Quer me comer?
- Não, não é isso. É que eu saí de casa acho que faz um bom tempo, e eu só tinha comido pipoca e sanduíche.
- Não sei se você vai gostar da comida daqui. Eu sou acostumado a beber só água e sangue.
- Sangue?
- Já fui servo de um vampiro. As vezes ele passava dias fora de casa e lá só tinha sangue para beber.
- Evan? – uma voz conhecida veio na minha direção.
- Espera. Levante-se. – pedi para Nick que obedeceu rapidamente. – Jonas?
Jonas surgiu rindo e dançando como se estivesse fazendo uma valsa. Ele estava com uma roupa normal e sem nada para proteger seu corpo e sua cabeça, nenhum talismã, apanhador de sonhos ou desenho com tinta do Himalaia. Aquilo era um mau sinal.
- O que você está fazendo aqui? – perguntei.
- Cara, que porra de sonho mais estranho. Mas eu estou adorando. O que você está fazendo nele afinal?
- Eu não estou no seu sonho. Eu estou aqui mesmo, e vivo. – embora aquilo não fizesse sentido algum.
- Pouco me importa. Esse otário está aqui também? Que ótimo. Quando você enfim aparece num sonho meu, é com esse idiota também. – ele apontou para o meu escravo.
- Jonas, você enlouqueceu? Eu estou aqui e agora e você também. E eu acabei de conhecer esse cara. Você não está falando nada com nada.
- Porra Evan. – ele disse, franzindo o cenho e colocando as mãos sobre a cabeça, sua testa suava frio. – Eu gostava muito de você, mas você só falava nesse cara, e agora ele está aqui também. Eu quero acordar. Não quero mais ficar aqui.
- Jonas, você comeu alguma coisa que não deveria daqui? – perguntei, segurando seu braço.
- Deve ter sido alguma bebida. Ele está perdido aqui. Ele não foi convidado. – Nick me disse. – Está vendo? Ele não tem nenhum presente de Lilith.
- Mas como isso aconteceu? – segurei o braço de Jonas com mais força, que parecia cada vez mais atordoado.
- Você nunca ouviu falar em projeção astral? O espírito dele deve ter escorregado para cá enquanto ele estava dormindo. – Nick explicou.
- Eu tenho que levá-lo embora daqui. Não posso deixá-lo nesse lugar.
- Você não precisa fazer nada. Enquanto ele estiver aqui em cima...
- Me larga! Não quero mais te ver perto desse... Ah, porra! – Jonas correu para outra porta, provavelmente indo para outro nível. O nível de Maria Antonieta.
- Vamos. – eu disse, e Nick correu no meu encalço.
Abri a outra grande, esplêndida e pesada porta e senti que havia chegado num pedaço do mundo em que o tempo parou no século dezessete ou algo próximo a isso. Luminárias extravagantes, baluartes cheios de castiçais de velas, cortinas vermelhas de uma costura sinuosa nas janelas largas que não mostravam nada a não ser um falso céu cheio de estrelas excessivamente brilhantes. Mulheres humanas com aqueles vestidos da época, saias balonê inchadas, prendendo a respiração com espartilhos e ajeitando perucas cinzas extravagantes. No meio do salão e próximo à pista de valsas, criaturas que tinham espelhos pairando no lugar de suas cabeças conversavam e riam, e mais adiante, outras criaturas com metade do rosto mutilado, os olhos em carne viva, gargalhando alto e bebendo champanhe. Uma criatura alta, morena e a única que não usava peruca, pois seu cabelo era preto e curtíssimo, atenuado apenas com um topete e uma tiara de pérolas, se aproximou de mim e do meu escravo. Ela afofou o vestido vermelho-sangue e ajeitou o decote nos grandes seios antes de falar, com uma voz doce e leviana.
- Desculpe-me pela falta de compostura. Matei Maria Antonieta e agora este lugar me pertence. Sou Berceise, a Rainha das Feiras, e todas estas são minhas servas. Bebam quanto champanhe aguentarem, mas se o fizerem demais, as gêmeas irão engolir vocês. – e ela soltou um risinho cínico, abrindo um leque vermelho que há apenas alguns segundos não estava em nenhuma de suas mãos, e nos levou para perto dos sofás bordados com penas e penas de pavão e um chafariz sinuoso no centro feito de um mármore que eu nunca havia visto. Ao redor dela, meninas de seis anos com a pele enrugada de uma velha exibiam seus anéis pesados de ouro umas paras as outras.
- Tive que matar mamãe para conseguir esta. – uma chilreou, orgulhosa e exibindo um anel tão largo que necessitaria de todo o seu braço para conseguir apertar. – Depois que ela me amamentou, eu a acertei com um pedaço de tijolo e deixei meus cachorros comerem-na. Precisavam ver a cara de sofrimento dela.
- Minha mãe nunca me obedece. Tive que chicoteá-la e mandá-la para uma senzala uma vez. Só assim ela passou a me ouvir. – uma outra narrou aflita, a que tinha a pele mais enrugada e podre nos braços e no rosto, uma leprosa que, pelo que ouvi, se chamava Jô Anna.
As outras garotas envelhecidas riram e me olharam, interessadas.
- Certo. Senhora Berceise, me desculpe não poder ficar mais tempo com a sua presença, mas estou procurando um amigo.
Berceise me olhou por cima do leque vermelho com interesse.
- Ele é da minha altura, é branco também, e tem o cabelo muito escuro e um rosto que parece estar sempre cabisbaixo. Você o viu?
- Ele subiu uma de minhas escadas. Jô Anna, leve o senhor Evan para onde está um de seu igual.
- Mas agora? – Jô Anna fez uma expressão de teimosia.
- Você ainda é minha serva. Ou vai querer que eu tire ainda mais sua juventude por me desobedecer?
Jô Anna se levantou e começou a caminhar, apressei-me com Nick ao meu lado e subimos um lance de escadas. Ela só apontou para a última porta do primeiro corredor e voltou para as suas amiguinhas feias e fúteis. Quando enfim abrimos a porta do quarto, só havia novamente a entrada para o nível de Maria Antonieta. Mas dessa vez estava cheio de criaturas despidas se deleitando com seus presentes de Lilith. Nick apertou a minha mão e fechamos a porta, descendo as escadas novamente e chegando à grande porta de entrada por onde havíamos entrado na primeira vez. Suspirei por ter voltado ao nível de Dalí, com suas características de clube noturno, exceto pela diferença de que os lasers nasciam da pele de uma criatura grotesca no centro da pista, refletiam e se despedaçavam em milhões de formas nos globos espelhados. Mas aquilo não tinha importância no momento. Corri com Nick para outra grande porta, do lado direito desta vez, sem saber aonde iria dar. E quando vi as escadas indo para baixo, percebi que era um subnível que eu não deveria entrar.
- Você não pode entrar aí, Evan. É perigoso demais. Você pode ser devorado num instante e eu... Agora que estou começando a gostar de ser seu escravo.
Nick abaixara a cabeça, mas eu percebi que ele estava vermelho. Eu apenas não tinha mais tempo de aproveitar aquela estranha celebração dentro de Samhain com o espírito de Jonas à solta nela.
- Você não terminou de falar naquela hora, sobre os subníveis e o espírito de Jonas. – eu disse.
- Eu iria falar que se o espírito dele continuasse aqui nos níveis superiores, no de Drácula, Maria Antonieta ou Dalí, quando ele ficasse cansado e quisesse dormir o espírito dele seguiria seu rumo natural de volta para o seu corpo, e ele acordaria bem no mundo de vocês. Mas se ele for aos subníveis, é muito difícil isso acontecer. Vão achar que ele já está morto e vão querer se alimentar dele.
- Droga... – eu disse, Nick suspirou, fez uma oração sussurrada e descemos as escadas de mãos dadas.
O lugar era como uma versão animada de uma pintura de Bosch, com pássaros grotescos e carnívoros que grasnavam incessantemente, criaturas disformes e sombras engolindo maçãs e escravos humanos. No teto, mandrágoras em formas femininas imploravam por perdão enquanto eram torturadas com equipamentos pontiagudos e todos os tipos de lâminas, de espadas a tesouras longas e afiadas que flutuavam perto de um velho com seis longos braços. Uma harpa gigante no centro do salão era comandada pelos dedos de um homem nu, que estava sentado sobre ela e tinha uma aparência doentia. Mas a harpa produzia um som perturbador e nem um pouco angelical, o que apenas tonalizava o ambiente como uma espécie de inferno compacto. Mas para todas as criaturas que estavam ali, que torturavam e eram torturadas, era a mais pura diversão de uma boa festa.
- Evan, lembre-se que você tem que encontrar seu primo. Pare de olhar para essas coisas, elas só vão querer convidá-lo a sofrer junto com elas.
- Tu-Tudo bem. Eu estou bem.
Ouvi um mugido conhecido e me virei, desesperado demais para fazer qualquer coisa a não ser isso.
- Karenina! Onde está sua irmã?
Lyse surgiu de dentro dela com um coração escuro e pulsante nas mãos.
- Evan! O que você está fazendo nesse subnível? Vá embora daqui! Você precisa sair enquanto eles ainda não prestaram atenção em você!
- Não, Lyse! Eu preciso de ajuda. Eu acho que o espírito do meu primo se perdeu aqui, e ele ainda está vivo no meu mundo. Vocês precisam me ajudar, eu não sei mais o que fazer.
- Certo, acalme-se e respire fundo. – Lyse me ordenou, e eu respirei. – Agora preciso dizer uma coisa antes: você sabe que tudo tem um preço, certo?
- Certo.
- A bruxa que amaldiçoou Karenina está aqui, e ela é muito fraca e vulnerável com humanos. Ela se encanta com eles rapidamente. E ela está mais poderosa. Vou lhe pedir para se aproximar dela e matá-la com isso daqui. – ela entregou o coração nas minhas mãos suadas. – Quando você o fizer, Karenina vai voltar à sua forma original e nós lhe ajudaremos a encontrar o espírito do seu primo e a sair daqui, porque acabei de ver que o Senhor da Grande Harpa lhe viu e já está anunciando um novo alimento para seus amigos. O alimento é você e seu escravo. Agora vá, e não deixe eles te tocarem. A bruxa está no Lago das Lágrimas bem ali.
Lyse me empurrou e voltou para dentro de Karenina, que também mugiu para me apressar. Amarrei a coleira de Nick envolta dela, que deixou de bom grado, mas Nick tentou me impedir.
- Quero ir com você.
- Não. Não quero que nada aconteça com você. E se acontecer qualquer coisa, Karenina o protegerá. – eu disse, e corri em direção ao Lago das Lágrimas, onde uma horda de criaturas gritava de dor e medo, prazer e alívio. A única criatura que não fazia nenhuma dessas coisas era uma mulher nova com um vestido escuro próxima à uma árvore morta, segurando um graveto, ou uma varinha. Ela era a bruxa certa, pois quando me viu, deu um sorriso jovial e sedutor para mim, e eu me aproximei, segurando o coração com força nas mãos, que agora estava vermelho e apetitoso.
Ela colocou os braços envolta da minha cintura e eu lhe dei o coração. Ela sorriu, achando o coração lindo e de bom gosto. Mas quando o mordeu, o coração voltou a ficar negro e venenoso e ela vomitou uma bolha de sangue no meu rosto.
O delírio coletivo fez com que tudo acontecesse muito rápido. Vi ao longe Lyse abraçando uma menina loura e nua que acabara de sair do casaco flutuante que antes era ela mesma, Karenina agora na sua forma original. Depois Lyse empurrando Nick e o espírito de Jonas para dentro do casaco flutuante que agora parecia ser uma espécie de portal. E por fim Lyse e a menina Karenina me dando um abraço rápido e me empurrando lá para dentro também.
Acordei no meio da rua da minha casa com um Nick desmaiado e eu o agitei com o máximo de forças que me restavam para acordá-lo, e consegui. Nick me olhou como se eu fosse um estranho, saiu correndo para o nada, e cansado demais para me perguntar o que aquilo significara, fui para casa descansar. Quando olhei o relógio na sala, ainda era a mesma hora e o mesmo minuto em que eu fora para aquele outro lugar com o convite de Huracán.
Foi quando acordei no meio da tarde do outro dia que me lembrei do rosto de Nick. Era o Nick que eu conhecia no meu mundo. O primeiro cara por quem eu havia me apaixonado e que causara um ciúme doentio em Jonas na época. É claro, muito lógico você numa hora estar num inferno real e depois estar pensando nos seus primeiros amores, mas foi o que aconteceu. E o Nick do meu mundo me ligou na mesma tarde. Ele havia tido um sonho estranho, e nesse sonho eu o protegia o tempo inteiro. Ele queria muito falar comigo, e queria muito terminar o que nunca havia começado. Por medo ou ansiedade, ou até mesmo por uma coincidência dispersa num mundo estranho, ele queria muito falar comigo.
Fiquei com muita vontade de enviar outra carta anônima no período de solstício.



















Black Cherry
Artes: Christopher Conn Askew

Feliz dia de Samhain :)

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

À Parte


Que se faz presente mas não por completo
Que está lá de alguma forma
Enxergando bem mas sem poder ver muito
Não que esteja totalmente ou completamente
Absorto
Alheio a tudo isso
E se pode sentir ou não
Se pode saber se irá sentir
Não é algo retórico
É uma pequena ausência escondida
Um pecado que se tem de não querer contar
Se sabe também que pode não chegar
Essa vontade, esse esclarecimento
Através de coisas dispersas
Um exagero de cigarros
Mais do que se pode aguentar
Não da fumaça, mas dessa pequena
e incômoda frustração
A fumaça é para depois
A ansiedade quase nunca
virá como uma liberdade à parte
Ela o rodeia como uma dúvida
Uma convenção de raiva
e dedos trêmulos
O som de algo mais forte e algo que sem querer
desbotou depois da viagem
Acho que estou precisando de novo
Uma nova tragada, uma nova vontade,
E nenhuma ausência
O tempo não deveria fazer parte disso
O tempo deveria me pertencer
E uma nova tragédia também
Daquelas que despencam em cima dos ombros
e não saem mais de lá.




~







Verano
Arte: Zdzisław Beksiński

sábado, 13 de outubro de 2012

O Inexistir


Existe uma garça esperando por você
na ponta de uma ponte pequena e mal-ajustada
mas não completamente debaixo do mar
ou debaixo da praia
é meio-a-meio
Ela costuma aparecer quando o céu está nublado
e o clima está frio, faíscas de gelo cortando a pele
do rosto e das mãos
Ela enche balões vermelhos e os ensina a voar
porque os balões costumam se desfalecer naquele mar
Quando ninguém está olhando, os balões flutuam e
se transformam em estrelas de cinco pontas,
iluminam as nuvens cinzentas e lhe dão outras cores
Ela também gosta de sorvete e todos esses doces terrenos
Essas delícias das quais ela não pode alcançar por muito tempo
Essa garça, ela gosta muito de brincar
Mas isso não quer dizer que ela não tome as próprias decisões
Ela sabe muito bem para onde voar, e quando voar
As vezes ela passa dias sem se alimentar porque pensa muito
muito mesmo, em você
Não é algo que deveria acontecer
Ela deveria simplesmente fechar os olhos e imaginar que
naquele mundo ela inexiste,
Não seria mais fácil imaginar que você não existe para o mundo
e para todos que o cercam?
E ela pode ser qualquer coisa
Ela gosta de ser uma vampira, um monstro qualquer
o que ela puder alcançar na sua fraca existência
E você pode não saber o que isso significa
Mas ela ainda vai te esperar.






~






Verano

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Elope, 09 O Demônio



Belial
A luz estava fosca e seus olhos embaçados, colados horrivelmente por cílios e areia. Sentiu o corpo pesado e indisposto, provavelmente resultado de um exagero de remédios na noite antecessora. Mas fora uma noite sem sonhos e ele estava satisfeito. Não viera o menino francês, aquele fantasma pálido de cabelos negros de nome Louis, não vieram também as sombras, submersas por uma onda de placebo, tampouco o desespero em destruir tudo aquilo que construíra. Da sua última coleção, restavam apenas seis quadros após aquele massacre de demolição súbita comandada por uma ideia pura de não fazer daquele adolescente que ele amara, uma sombra também. Agora quem sabe um adulto, educado e ainda sincero, gentil e fraternal. Ou talvez medo. As duas possibilidades o assustavam, se estivesse como antes bem poderia se lembrar do menino assustado que agora era um rapaz assustado e levemente patético. Se estivesse morto voltaria a ser uma sombra dos seus sonhos, e nada mudaria. Completamente irrelevante e alheio do mundo.
Ele teria que ter certeza, e por muito tempo estivera acomodado numa vida que oscilava constantemente entre sonhos lúcidos, imaginações doentias e dores de cabeça cruéis. E por que não obter isso agora?
Com um esforço quase sobre-humano ele chegou ao banheiro e ligou a ducha quente no rosto ainda contorcido de dor com a luz da manhã, a grande e gorda vésper. Tirou a cueca branca que se colava e transparecia na pele, ensaboando a barriga magra e dura e o peitoral pouco notável que se enchia e secava lentamente, como se respirar fosse uma batalha a ser travada pelo seu espírito, e começou a se sentir melhor e mais desperto.
- Kathy, eu preciso da sua ajuda. – ele falou ao telefone, quarenta minutos depois do seu despertar ao mundo.
- Eu já estou chegando, Belial. – A voz na outra linha estava cansada e aborrecida, mas ele sabia que não era por causa da sua ligação.
Vestiu uma calça jeans azul-escura e uma camisa preta de três botões, demorando para colocar os sapatos e assistir a movimentação nas ruas lá embaixo pela janela, enquanto penteava para trás os cabelos louro-dourados e se lembrava da maneira súbita como conhecera Nolan. Pouco mais de uma semana havia se passado e nenhum sinal de uma visita inesperada e agradável de Nolan. Ele o teria assustado tanto assim com o seu ataque? Não mais do que as suas próprias e inusitadas atitudes em cobri-lo com o seu casaco naquela primeira noite e o convidado a ser seu modelo na segunda. Duas noites bastante interessantes e pouco prováveis vindas dele. Mas aconteceram. Num gesto mecânica de cavalheirismo ou apenas algo enferrujado e adormecido que esperou que um momento simples e metropolitano como aquele surgisse.
O interfone tocou, e ele logo recebeu um abraço caloroso de Kathy, que estava com as feições abatidas e pálidas.
- Você está bem? – Ela perguntou.
- Com vontade de estar. – Ele respondeu.
A resposta lhe pareceu egoísta e mesquinha. Ele estava bem melhor do que a mulher acabada na sua frente. Mas antes que pudesse perguntar sobre ela, Kathy já caminhava em direção ao elevador, segurando a bolsa de couro negro meio impassível, os saltos sonoros no piso. Seus cabelos estavam seguros num coque meio embaraçado e as rugas de expressão se atenuavam nas luzes pálidas dos corredores. Belial gaguejou e não saiu nada.
O tempo estava gelado e nublado, embora nenhuma nuvem escura e relampejante estivesse habitando os céus da metrópole. Algo naquele tempo fez Belial se lembrar de alguma cidade nos litorais, seria Toulouse o nome?
- Kathy...
- Não se preocupe comigo, Belial. – Kathy pôs a chave na ignição, prendeu o cinto e retocou rapidamente o batom escarlate nos lábios. – Você quer vê-la, não é?
- Como você sabia?
- Imaginei apenas... Você nunca me liga pedindo ajuda.
- Eu sei.
- Deveria fazer isso mais vezes.
Ela deu um sorriso discreto no retrovisor e ele correspondeu, o carro já se movia em algumas esquinas calmas.
- Hoje está tão calmo.
- Talvez as pessoas estejam apenas cansadas demais de fazer desse lugar uma cidade. Pelo menos por hoje. – Kathy dirigia calma e perfeitamente paciente, mesmo nas ruas pouco movimentadas.
- Kathy, eu fiquei preocupado. Eu sei que você não quer que eu insista mas...
Kathy franziu o cenho.
- Foi apenas uma discussão, Belial. Uma coisa boba.
- Isso não me parece ser tão simples.
- Nunca dá pra esconder nada de você, não é mesmo? – Kathy bufou, Belial sorriu. – Certo, também estou esgotada de chegar de viagem e ficar metade do meu dia discutindo com uma garota de dezessete anos.
- Então por que você não para?
- Se ela me escutasse isso poderia ser mais fácil de resolver. Mas ela é uma adolescente, e adolescentes acham que tudo é diversão e felicidade.
- Isso me parece o pensamento de uma criança.
- Não tem tanta diferença entre eles, não? As preocupações apenas mudam. Antes eu receava que, se me distraísse por apenas um minuto, Miriam puxasse um vaso de uma estante, quebraria e se machucasse com os cacos de vidro.
- E hoje?
- Que o coração dela seja um vaso também, exposto a qualquer um para puxar e quebrar, e fazer sangrar o pé de alguém.
- Corações não são feitos de vidro.
- Ela pode se distrair.
- Como você?
- Como qualquer um. E eu vivo me distraindo mais do que o aceitável. Eu sempre a deixei solta para poder viajar, conhecer e estudar galerias e movimentos artísticos. Nunca quis que ela interferisse na minha carreira, fui egoísta mais do que o suficiente. E quando voltava para casa, a babá já havia ensinado ela a andar.
- Você ainda continua se culpando?
Ela deu um sorriso tristonho.
- Não há mais ninguém no mundo para culpar, Belial.
- Você não pode fazer desse jeito.
- E por que você diz isso?
- Você só queria viver, não há nada de errado nisso.
- Miriam já estava no mundo enquanto eu continuava me negando isso. Eu fugia da minha maior obrigação. Passei tempo demais fugindo e agora mal conheço minha filha. Não sei se ela confia em mim e eu nela.
- Eu também não conheço a minha mãe, e não vivo como você.
- Você vive, Belial. Nos seus quadros.
- São apenas sonhos. Não tem nada demais nisso.
- Então vou lhe contar uma coisa que você ainda não sabe: as pessoas adoram os sonhos. Mais do que a vida real. A vida real nunca muda e evolui, e a maioria das coisas permanecem as mesmas, ruins ou razoáveis, sempre frustrantes. Ou se não, pioram. Os sonhos são uma espécie de limbo onde você pode recarregar suas energias e enfrentar melhor as coisas palpáveis assim que abrir os olhos. E talvez seja por isso que morremos, uma hora não suportamos mais e precisamos sonhar para sempre. Fugir das coisas que não tivemos coragem de enfrentar.
Você tem sorte de ter os seus sonhos o tempo inteiro com você, ela pensou.
A chegada na rodoviária e na estrada pareceu passar rápido demais, Belial se distraiu em algum mundo particular na janela e Kathy dirigia quieta e ainda mais absorta em pensamentos, a respiração sutil e constante, embora não fosse exatamente tão em ordem que ela estivesse por dentro. Colinas se erguiam majestosas por trás de pinheiros, até o carro escuro da mulher entrar numa rota pequena de pedras em direção a uma mansão que exalava fumaça cinza por uma chaminé vitoriana, sua arquitetura se moldava com a beleza rococó e grandes jardins, portões e grades de ferro se estendiam nos campos mais abertos ao redor do local. Um segurança alí próximo abriu o portão maior quando Kathy apresentou sua carteira de identidade e estacionou na calçada do lado esquerdo da mansão, que exibia na sua entrada um letreiro metálico com os escritos Clínica Psiquiátrica Santa Edwiges, Belial já estava abrindo a porta do carro quando Kathy segurou sua mão e impedi-lo num gesto apaziguador.
- Você tem certeza? – ela disse.
- Se eu não tiver agora, provavelmente ficarei com medo de ter depois. – ele respondeu.
- Você pode pelo menos me...
- Se eu posso explicar?
Ela assentiu com a cabeça, pacientemente.
- Eu só quero descobrir se a única coisa forte na minha vida não seja também mais um fantasma ou um delírio. Mais um ataque incoerente da minha realidade.
- Alguém?
- Você viu todos eles – Belial sorriu. –, e todos eles são o mesmo. Você o conhece. Não da forma habitual, é claro. Mas você o conhece. E quer que todos o conheçam. Não é?
Kathy respondeu com um meio sorriso de aquiescência. É claro que ela queria que todos o conhecessem.
Duas enfermeiras o receberam com sorrisos e afagos nos ombros, levando-os à portaria. Belial apresentou sua identidade, mas a moça do balcão o reconheceu imediatamente.
- Belial! Que... Imprevisível. Como você está?
- Estou bem. – Foi tudo o que ele respondeu, e ela sabia que aquilo era tudo o que ele falaria durante toda a trajetória para levá-lo às alas onde estava a mulher.
- Vamos, é por aqui.
A mansão transformada em clínica parecia ainda maior e infinita de dentro. Kathy, Belial e a moça caminharam por uma alegoria de corredores, até subirem um lance de escadas e chegarem a um corredor que instalava os quartos dos pacientes. Com uma janela clara e aberta no seu ponto final. Kathy segurou a mão do pintor, mas ele a soltou gentilmente.
- Já disse que está tudo bem.
- Acho que estou mais insegura do que você.
Belial sorriu.
- É só uma visita, Kathy. Não precisa ter tanto medo.
- Não estou com medo, Belial. Mas é que... Como posso dizer?
- Você não precisa dizer nada.
E com aquilo, Kathy teve certeza de que ele também sentia seu espírito de mãe agindo ao seu lado naqueles dois anos.
A moça buscou o molho de chaves no bolso da jeans e abriu a porta daquela ala branca e sem personalidade, apenas com um guarda-roupa também branco, um banquinho e uma mesinha, e uma cama aparentemente pouco confortável. No peitoril da janela, uma mulher loura com os cabelos embaraçados fitava a área de lazer lá embaixo.
- Eu vou esperar lá fora. – Kathy lhe deu um beijo e o empurrou de leve para dentro do quarto, fechando a porta ao lado da moça.
Belial se sentou na cama e esperou a mulher se virar para conversar com ele. Mas ele mal se moveu, com exceção do seu peitoral inchando e secando numa respiração lenta e quase parada e a sua voz estalando no ar, rouca e aflita por um excesso de remédios.
- Posso ajudá-lo em alguma coisa?
- Oi mãe.
A mulher virou o pescoço, tinha o rosto surrado de rugas de expressão e os olhos caídos, cheios de olheiras e incrivelmente azuis. Os cabelos louros agora vistos de perto tinham um aspecto desnaturado, como se estivessem prestes a cair. Ela se sentou no banquinho e uniu as duas mãos por cima da coxa, como uma menininha comportada.
- O que aconteceu?
- Eu vim vê-la.
- Não, você não veio me ver. O que aconteceu?
- Eu estou aqui.
Ela pareceu ter se sobressaltado com a afirmação.
- Belial?
Belial deu um meio sorriso.
- Você ainda vive.
- Isso é ruim?
- Pensei que, quando eu me livrasse de você, você desaparecia.
Aquilo foi cruel.
- Eu sempre fui um incômodo tão grande assim?
- Seu pai... Seu pai era um... – e seu rosto se avivou no maior dos sorrisos – um crápula! Não é incrível, adorável?
- Eu não vim aqui para falar do meu pai, mãe, eu...
- E então eu falei pra ele que era intocável. Mas ele me ouviu? Não, não... E não foi só ele. Foi na mesma noite, ele e o pai dele, e quando o irmão chegou, o irmão também. Todos os três. Mas eu fui me lavar e por algum tempo achei que o inferno acabaria. Mas o inferno voltou, voltou na sua pior forma. Eu orei, eu orei com todas as minhas forças, mas Deus deve estar no inferno também, rindo da nossa cara. Eu fiz sangrar nas minhas mãos todos os rosários do mundo. E todos os rosários do mundo eram só madeira e contas, bijuterias estúpidas, lixo!
Belial não conseguiria fazê-la parar.
- Então decidi ir para o convento. Mas na minha condição não me aceitaram, e já era tarde demais para abortá-la.
- Para o quê? – Belial sentiu o ar ir embora dos pulmões.
- Abortá-la, seu estúpido! Tirar aquele monstrinho de dentro de mim. Tirar aquela sanguessuga da minha barriga. – seus grandes olhos azuis umedeceram e cintilaram. – E minha mãe disse para continuar. Disse para casar com o seu pai. E que não entendia porque eu estava tão desesperada, fazendo drama por tudo, se a minha vida estava maravilhosa. Fui pressionada... Fui tão pressionada... Eu me casei por causa de mamãe. E aí dei a luz à ela, à Lyria... Mas o inferno veio de novo. Ele chegava bêbado, gritando e quebrando tudo, e o colocava dentro de mim até sentir o cheiro do meu sangue nos lençóis. E logo em seguida veio você.
“Você, com sua saúde frágil e suas visões macabras de sombras e vozes, de coisas que não existem virando suas amigas. O que são essas coisas afinal? Elas tem algum significado pra você? E foi por culpa sua, e você sabe disso. Eu sei que você sabe... Não é? Não é? E eu já tinha aprendido a amar Lyria. Já tinha sim... Era tão fácil e simples amar aquela criaturinha sorridente de cabelos desbotados no berço... Rindo sem parar...
Lyria foi enterrada em meio a centenas de lírios, que patético. Mamãe chorou, seu pai chorou e o pai dele também, até o irmão estava no enterro, derramando suas lágrimas puras de hipocrisia. E nenhum deles afinal sabia a quem Lyria pertencia. E Lyria também nunca soube. Foi para o caixão sem ao menos completar sete anos. Era um caixão pequeno, branco, e ela usava um vestido de rendas também branco, tão branco quanto este quarto, com sapatilhas pálidas, a cor pura como a criança deve ser... Tem que ser. Então eu e seu pai escondemos isso, inventamos a pior das histórias. Para salvar você, o primeiro demônio ao mundo.
Ninguém aceitou quando eu lhe dei esse nome, mas ao menos para isso eles não tiveram coragem de enfrentar. Porque é o que você é. O demônio que me tirou Lyria. E o nome veio a calhar. E eu sabia que você era ele encarnado, desde que os médicos o puxaram de dentro de mim. Você não chorou durante duas semanas. Eu senti que aquilo era um sinal divino, e desde então já havia decidido qual seria o seu nome. Um demônio, não um anjo. Um demônio, um demônio, é isso o que você é... Mas apenas ele, apenas aquele garotinho magricela e alto de cabelo escuro vinha brincar com você. Provavelmente um anjo convertido ao mal. Sim, sim... Não deveria ser outra coisa, não?”.
Belial não tinha nenhuma frase completa para dizer sobre o que ouvira. Mas conseguiu perguntar o que queria.
- Você se lembra do nome dele?
Ela o fitou, franzindo o cenho e ajeitando os cabelos louros e bagunçados atrás da orelha.
- Pensei que soubesses...
- Eu sei, mas preciso ouvir mais alguém dizer esse nome também.
- E por quê?
- Porque, além da minha arte e de você, provavelmente é a única coisa que me resta.
- Louis? Sim, acho que sim... Louis... Deveria soar como Lúcifer.
- Sim mãe, Lúcifer.
Belial se levantou da cadeira e se dirigiu à maçaneta da porta.
- Não, não! - a mãe também se levantou. – Espere! Você também precisa ouvir. Você também precisa saber! Eu não queria você. E você já deveria estar morto... Com esse nome, já deveria estar morto. Você não merece estar aí enquanto eu estou sem Lyria. Você não merece, Belial! Seu demônio estúpido que me tirou tudo!
A mulher o atacou com punhos e garras e começou a estapeá-lo com tal fúria e força que, naquele corpo abatido e enfermo, seria impossível de existir a apenas alguns minutos atrás. Os enfermeiros entraram em ação quando a porta foi aberta e seguraram a mulher descontrolada para longe de um Belial com o rosto e o pescoço arranhados e os cabelos agora tão desarrumados quanto os dela.
- Belial! Faça eles pararem Belial! Você é o demônio! Você é poderoso.
Belial se virou para fitar a mãe uma última vez.
- Eu não tenho poder nenhum, mãe. Embora ainda não tenha descoberto como posso te amar.
Ela cuspiu no chão enquanto os enfermeiros a seguravam pelos braços.
- Não quero esse amor amaldiçoado.
- Eu também não.
Kathy já o esperava no carro, ouvindo algum clássico de Françoise Hardy e retocando o batom nos lábios. Belial entrou, fechou a porta, colocou o cinto de segurança e suspirou.
- Foi tão ruim assim?
- O que você acha?
- Você conseguiu a resposta que queria?
- Acho que sim. Ela falou o nome dele, e depois mudou para um outro. Mas o primeiro que veio na cabeça dela foi esse, então significa que ele existe.
- E o que mais?
- Ela ainda me culpa pela “morte” da minha irmã.
- Mas ela...
- Não, ela não se lembra de nada. Na realidade da minha mãe, fui eu quem empurrou Lyria da janela, não ela.
- Mas você me disse que Lyria...
- Sim. Lyria está tão viva quanto nós, Kathy. Embora ela também não saiba disso.

~
Briana
Por um momento sua cabeça pareceu ter explodido, e a vibração da música no box do banheiro lhe deu náuseas. Abriu os olhos e a tampa do vaso sanitário e vomitou com vontade, enxaguando a boca em uma das pias logo em seguida. Pegou uma pastilha de menta e tirou o suor da testa, esfregando os olhos e borrando todo o rímel e o delineador pesado dos olhos.
Amor sombrio, amor sombrio, alguma música comentava. Cansou-se do ar abafado a cigarro e sexo do banheiro e voltou para a pista. Os lasers a atingiram como raios acusadores de cores e distorções, seus tímpanos eram violentados como tambores e seus olhos estavam em chamas, talvez por maquiagem em excesso que tenha entrado ou simplesmente por um incômodo mais incoerente. Mas ela não queria saber disso. Pulou sem parar, e um homem com a barba rala e o rosto cínico, de cabelos escuros e olhar cabisbaixo a puxou pela cintura e lhe tascou um beijo violento, esfregando a virilha rígida por cima da jeans da ruiva e massageando seus seios sem o mínimo pudor. Briana deixou e o homem a abraçou com força, enfiando sua língua até onde alcançava na boca semiaberta da garota. Uma música ainda mais pesada começou a tocar, algo sobre olhos fechados e conexões, de uma pele dependente e de uma morte por orgasmo.
Num canto mais visível, Miriam beijava um rapaz de rosto levemente andrógino, e colocava sua mão dentro da sua calça, acariciando-o e deixando o adolescente enlouquecido. O homem tirou do bolso um saquinho pequeno com duas pílulas azuis, Miriam o fitou, desafiadora, e colocou a língua para fora para que ele fizesse seu trabalho, entregando uma delas ao seu domínio e engolindo a outra.
Por algum tempo nada aconteceu, e Miriam apenas se rendia de olhos fechados àquele estranho perigoso e tóxico, mas quando abriu os olhos o mundo parecia mais rápido e intransigente do que nunca fora. As luzes pareciam palpáveis, e muito mais do que deveriam ser, nunca ser. Sentiu o corpo esquentar e, por debaixo da pele, algo orgânico e monstruoso se movia como se estivesse crescendo e se alimentando das suas artérias. Ela arfou e afastou a boca faminta do homem de olhar desesperador e franziu o cenho, apertando os olhos com força e parando de dançar por um momento.
- O... O que...
- Está tudo bem. – Ele respondeu, mordiscando sua orelha e fungando na sua nuca, abraçando-a por trás e fazendo o mesmo gesto que Miriam, prosseguindo numa trilha de dedos na sua barriga até dentro da sua calcinha. Mas aquela mão era áspera e grande, nem um pouco parecida com a de Miriam.
Briana abriu os olhos e o empurrou. Aquelas mãos lembravam outras mãos.
- Des... Desculpa eu preciso tomar um ar.
- Não.
- O quê? Não, me solta, eu... Não estou conseguindo respirar.
O homem a levou para fora da boate e a prendeu num beco entre os seus braços, violentando-a com beijos. Briana já estava cansada de beijar. Ela o empurrou de novo.
- Me solta...
- Não, puta que pariu, você é muito gostosa. Preciso te foder... Eu...
- Não, não quero, eu...
- Meu pau tá se apertando e pulando da minha cueca. – Ele a chupou no pescoço e buscou sua mão para ela sentir seu sexo grande e duro fazendo volume na calça jeans.
- Não!
Ela o empurrou com mais força, mas ele voltou com o dobro e a puxou pelos cabelos ruivos e bagunçados, respirando na sua orelha esquerda.
- Você pediu por isso, putinha.
- O que está acontecendo aqui? Briana! – A voz de Nolan foi como uma bomba de oxigênio nos seus pulmões.
- Nolan, me ajude.
O homem a prendeu pelo pescoço com apenas uma mão e apontou a outra para Nolan. Briana olhou para o chão e viu uma viga enferrujada e metálica perto de um lixão.
- E você não se meta, moleque.
- Ela é minha irmã, imbecil.
O homem foi para cima de Nolan e recebeu um grande e certeiro soco no olho direito pela mão pesada do ruivo. Mas o outro também era forte e tinha os punhos de ferro, revidando para cima do irmão de Briana como um touro na arena e deixando Nolan atordoado com um soco certeiro no queixo, fazendo-o morder a língua e sangrar sua boca, e mais outro no olho esquerdo, e mais um na barriga que tirou todo o seu ar. Nolan, desesperado e sem ter mais nenhuma ideia ou instinto de defesa, conseguiu segurá-lo com um braço pelo seu pescoço e bateu sua cabeça na parede, domando enfim aquela montanha de músculos, raiva e incoerência. A cabeça doendo com tudo aquilo e um filete de sangue escorrendo pelo canto do lábio estourado e do olho ardente.
- Briana, você está bem?
Briana não respondeu, ele olhou para trás, com as pupilas ainda se adaptando àquela iluminação comportada e pouco confiável do beco ao lado do clube. A irmã segurava o pedaço pontiagudo, longo e metálico que vira perto do lixão.
- Briana, o que...
Ela o fitou, inexpressiva.
- Já... Já está tudo bem, você pode largar isso.
Um franzir de cenho e um arrepio nos braços magros e expostos ao frio.
- Não está tudo bem, Nolan. Eu não...
- Briana, chega, vamos pra casa. Olhe o nosso estado.
- Você chama aquele inferno de casa?
- Bom, não temos nenhum lugar pra ir, não é? Ou você pretende que a gente durma no quarto da Miriam ou coisa parecida?
- Eu não falei isso.
- Então o que você quer, Briana?
Geralmente o tratamento de Nolan para com ela era de indignação, leve irritação ou impaciência. Mas ele estava ferido e descabelado, com suor e sangue escorrendo pelo pescoço, e tinha razão em ficar com raiva. Mas o que ela poderia fazer?
- Briana, vamos...
- CALA A BOCA!
Ele a encarou como se ela fosse uma desconhecida.
- Olhe pra mim, Nolan! Eu não sei nem me defender! Vivo sendo protegida e não posso nem ao menos levantar a voz. Eu sou a porra de uma puta escrota que não faz nada enquanto o mundo desaba ao meu redor!
Nolan piscou várias vezes e fechou os olhos com força, colocando a mão sobre o rosto e sentindo o cérebro implodir.
- Do que você está falando? O que está acontecendo com você?
- É isso que você me responde?
- Eu não estou respondendo.
- Porra, Nolan!
Nolan se encostou numa parede e cruzou os braços num gesto inconsciente de desproteção, abaixando a cabeça e respirando o ar frio da madrugada, trêmulo.
- Eu... Eu vou pra casa.
Ele começou a andar e lhe virar as costas quando ela gritou:
- O que você vai fazer?
- O que você quer que eu faça?
Ela não sabia que já estava chorando, sua posição de fúria naquele momento impossibilitava qualquer discernimento de tristeza ou dor. Era apenas o frio lhe lambendo o rosto, contorcido na pior das expressões.
- Você já olhou pra mim?
- O que tem você? A única diferença de antes pra agora é que eu não conheço esse monstro que tem aí dentro.
- Eu sou esse monstro, esse demônio... Você ainda não percebeu? Olhe pra mim! – ele virou o rosto - Olhe pra mim porra! Olhe tudo o que você tem e o fracasso que eu sou! E você ainda quer falar de monstros e mudanças. Pra você a vida é tão fácil e simples, tão cheia de sorrisos e ‘proteger aqueles que se ama’, não é? Você não está me protegendo de nada, nunca me protegeu. As coisas são assim. É difícil de entender?
- Então o que você tem pra me dizer? – ele parou de encarar a rua úmida para realizar a vontade da irmã. – Você tem alguma coisa pra me dizer? Voltamos ao ponto de partida, não? Desde aquele dia no hospital. Quanto tempo faz? Três semanas? E você nunca me falou nada até agora. Eu não sei o que aconteceu com você e você não me parece muito interessada em me contar. Então antes de vir falar esse monte de merda na minha cara, pense no que você está fazendo comigo.
- Eu não estou fazendo nada!
Ela largou o pedaço de viga no chão e bateu com a testa na parede, soluçando. Nolan não se moveu.
- Vamos pra casa.
- Não.
- É sua última chance.
- Foda-se você e suas chances.
O homem começou a despertar e massagear a cabeça, gemendo horrivelmente. Nolan desistiu e passou a caminhar, Briana buscou novamente o pedaço de viga e com toda a força das suas duas mãos atingiu a costela do homem, ele gritou e chamou a atenção do ruivo que já estava partindo, e já estava voltando. Miriam saiu da porta dos fundos do clube sozinha, com um sorriso vivaz que se desbotou do rosto rapidamente.
- Briana o que você... – Ela começou, mas Briana apenas a velou com um olhar amedrontador.
- Por favor, pare, pare! Eu não vou fazer mais nada com você. Só me deixa ir embora, porra eu tô muito mal... Não, não, espera.
Briana o atingiu de novo na costela, Nolan correu e Miriam pôs as mãos sobre a boca.
- Briana, pare com isso!
- E por que você não parou quando eu pedi?
Mais uma estocada cruel e forte como se ela estivesse usando um taco de beisebol, dessa vez na barriga, que começava a empapar de sangue a camisa com os ferimentos da ponta afiada do metal. Miriam tentava se aproximar, mas Briana estava letal.
- Eu... Eu estava... Ahhh!
A cada palavra Briana batia mais uma vez.
- Por... Que... Você... Não... Parou?
- Me desculpa! Me desculpa! Eu...
Briana o atingiu no rosto e rasgou a pele da sua bochecha. O homem começou a chorar e se encolher como uma criança. Nolan chegou e, num reflexo, Briana também o atingiu na barriga. Ele caiu de joelhos tentando recuperar o ar nos pulmões. Briana começou a tremer e chorar mais compulsivamente, Nolan se levantou e puxou o pedaço de viga do seu braço, jogando-o para longe e mandando o homem ir embora dalí.
- Nolan, me perdoa eu... Eu não vi...
- Sai de perto de mim!
Ela tentou abraçá-lo e ele a empurrou com força. Briana tinha os olhos afogados, e ignorou completamente a existência de uma Miriam horrorizada, com o rosto meio oculto por uma grande sombra.
- Nolan, Nolan... Não, eu não...
- Satisfeita agora por ter conseguido se defender?
Briana o puxou pelo braço, mas ele a repeliu novamente, indo embora sem olhar para trás. Miriam a encarou sem entender nada e correu atrás de Nolan, Briana foi logo em seguida, na penumbra dos dois, por desespero ou talvez simplesmente pela madrugada que ainda estava longe de acabar. Mas eles corriam mais rápidos e ela parou para recuperar o fôlego. Comprou uma garrafa de vodka num comércio 24 horas alí perto e voltou a caminhar, tomando a bebida como água para hidratar a garganta. A vodka descia ardente e enjoativa, como fogo e saliva ao mesmo tempo, mas ela se acostumou rápido com o gosto e a boca queimando e quase conseguiu encontrar o caminho de casa. Decidiu ir para a casa de Miriam primeiro, mas Miriam não estava no seu quarto, nem com mil pedradas na janela do seu quarto a luz foi acesa. Kathy surgiu sonolenta e espantada na porta.
- Briana, mas o que...
- Não é nada... Eu só estou tonta demais, e isso tem um puta gosto péssimo.
A ruiva gargalhou e se foi, ziguezagueando pelas ruas e deixando Kathy sem entender nada daquilo. Já estava amanhecendo quando ela enfim achou a sua casa, que ficava mais fácil de reconhecer com a luz do dia. A garagem já se abria para Christopher sair com seu carro para o trabalho, mas ele saiu de volta para casa, puxando Briana pelos ombros.
- Sua vadiazinha, o que você estava fazendo?
- Me larga, seu otário.
Ele não a largou, Briana bateu com a garrafa de vodka na sua cabeça com o pouco de força que lhe restava, Christopher caiu para um lado, grunhindo e tocando na ferida que banhava seu rosto de sangue.
- Sua filha de puta!
Briana entrou na casa como um trovão. Jogando quadros e vasos no chão, submersa no álcool e no ecstasy. Fazia tanto tempo que não se sentia tão bem...
Sua mãe desceu as escadas ainda de roupão, olhando horrorizada para o estado da sala e para a filha baderneira que destruía tudo o que via na sua frente.
- Briana, o que você está fazendo?
- Mãe, estou tão leve! Hahaha! A senhora precisa provar isso. – Ela exibiu a garrafa de vodka com o sangue fresco de Christopher na sua borda, orgulhosa.
- Briana, largue isso agora e vá pro seu quarto!
- É assim que você resolve as coisas? – Christopher surgiu no vão da porta, a camisa social branca suja de sangue seco e o rosto contorcido em raiva e inchaço pela agressão da ruiva bêbada. – Mandando a puta da sua filha para o quarto? Olhe o que ela fez comigo!
- Porra mãe, quero vomitar. Haha, vomitar o quê? Não tenho vontade de comer porra nenhuma. Vou vomitar minhas tripas. – Ela girou numa dancinha particular e gargalhou, jogando a garrafa de vodka em qualquer canto e derramando a bebida no assoalho.
Nolan desceu as escadas e a segurou pelos ombros, agitando-a.
- Briana! Briana!
- Já disse pra me largar! Por que vocês adoram me segurar, seus imbecis? Você quer me foder também? Igual aquele cara que invadiu nossa casa, haha. Ele me fodeu sem parar, e provavelmente sem camisinha. Ele não parou até gozar pelo menos umas três vezes. E se eu gritasse, ahh... Ele iria cortar meu pescoço! – ela deu outra gargalhada, buscando desnorteada a garrafa de vodka no chão e bebendo seu resto.
- O... O quê... – A noite da sua apresentação e Briana quebrando o espelho e chorando foi a primeira coisa que veio na cabeça de Nolan, ele a soltou e se afastou, os olhos grandes umedecendo.
- Por que você não me disse antes?
- Dizer o quê, seu imbecil? Quer me foder também? Vai lá, só não demora muito.
- Eu não estou entendendo nada, Nolan. O que ela está falando? – A mãe se aproximou, hesitante, de Briana, e tocou no seu ombro, no único gesto que lhe vinha à cabeça no momento.
- Ela foi estuprada! É isso o que ela tá falando! – Nolan começou a chorar, e Briana, a gargalhar mais alto. Christopher estava sendo ignorado completamente. – Briana, eu não fazia ideia, eu...
- Eu sou um lixo completo! Nem pra ser fodida eu sirvo!
E ela enfim tinha parado de gargalhar. O rosto ficou sério em poucos segundos, e a sombra daquela noite lhe pareceu mais vívida do que nunca, até em meio a tanto álcool no corpo.
- Aquela máscara preta de lã, aquela maldita máscara preta, típica de assaltantes...
- Não tem como isso acontecer. Ela está mentindo, nós temos vários alarmes instalados nessa casa. – Christopher cansara de ser ignorado.
Pela primeira vez a mãe dos ruivos encarou o marido com horror e certeza. Subiu as escadas e voltou com uma touca escura de lã com três furos, para a boca e para os olhos.
- Sim, Christopher. Temos vários alarmes instalados. – ela estudou a touca, transformada em máscara de assaltante, de assassino, de estuprador.
Christopher fez uma expressão indignada.
- O quê? O que você está insinuando?
- Saia da minha casa.
- Margareth, o que você pensa que está fazendo?
- Saia. Da. Minha. Casa. – ela engoliu em seco e ergueu o rosto. – Agora. Antes que eu chame a polícia.
- Não, não... Não acredito que estou ouvindo isso.... Eu...
- Estou lhe dando uma chance de sair daqui e nunca mais voltar. E ninguém mais saberá da sua existência.
Briana encarou Christopher com horror e abraçou Nolan com todas as suas forças, em gritos e soluços roucos.
- Tira ele daqui, tira ele daqui...
- Ninguém vai tirá-lo, minha filha. Ele vai por conta própria. Venha, você precisa tomar um banho. E Nolan, se ele continuar aqui, chame a polícia. Ou mate-o você mesmo.









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Andrew Oliveira