Solitude, darkness and love


"I don't wanna admit, but we're not gonna fit"
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domingo, 7 de novembro de 2010

Hidden Place Saga - Ficha Técnica


Ah, eu realmente esqueci de colocar a filha técnica da saga Hidden Place, e fui logo postando minha nova série de contos, Oráculo das Feras (Espero que os fantasmas que leem meu blog gostem, sabe, é minha primeira série de contos fantasiosa... Enfim). Bem, aqui está:

- Hidden Place Saga - Gênero: Drama/Romance
Ano: 2010
Autor: Andrew Oliveira/Black Cherry


- Seleção de Capítulos -
Hidden Place Parte I:
0 - Prólogo: Íris
1 - As paixões dele
2 - Os sorrisos dela
3 - O calor dele
4 - A felicidade dela
5 - O egoísmo dele

6 - O coração dela
7 - O futuro dele
8 - A decisão dela
9 - O corpo dele
10 -A vida dela

11 - A alma dele

12 - O nirvana dela

Último Capítulo - O encontro deles

Hidde Place Parte II:
0 - Prólogo: Vazio

1 - Espuma

2 - Língua

3 - Praia

4 - Pássaros
Último Capítulo: A dor da Esperança


- Origem dos nomes -
>Mitologia nórdica:
~ Frey: Deus do brilho do sol e da lua
~ Freya: Deusa do amor e da cura
~ Forseti: Deusa da justiça

~ Hermod: Mensageiro dos deuses
~ Heimdall: Vigia dos deuses, segurança do arco-íris
~ Loki: Poder do mal
~ Tyr: Deus da guerra
~ Nanna: Deusa da lua

>Mitologia grega:
~ Psiquê: A amada de Cupido

~ Apolo: Deus da música

- Original Soundtrack -
Parte I:
01 Almost Lover - A Fine Frenzy (Álbum: One Cell in the Sea)
02 Watch You sleeping - Blue Foundation (Álbum: Life of a Ghost)
03 Clowns - Goldfrapp (Álbum: Seventh Tree)

04 Stepping Stone - Duffy (Álbum:Rockferry)
05 Oh Father - Madonna (Álbum: Like a Prayer)

06 Between Two Lungs - Florence + The Machine (Álbum: Lungs)

07 Cover my Eyes - La Roux (Álbum: La Roux)

08 Numb - Sia (Álbum: Colour the Small One

09 Blue Light - Emilie Simon (Álbum: Emilie Simon)

10 All i Need - Radiohead (Álbum: In Rainbows)

11 - Spark - Tori Amos (Álbum: From the Choirgirl Hotel)

12 - It's in Our Hands - Björk (Álbum: Greatest Hits)

[ Bônus Track: 13 - A Sunday Smile - Beirut (Álbum: Flying Club Cup) ]

Parte II
:
01 Shelter - The XX (Álbum: The XX)

02 Bulletproof - Kerli (Álbum: Love is Dead)

03 Goodnight, Travel Well - The Killers (Álbum: Day & Age)

04 Tekno Love Song - CocoRosie (Álbum: Noah's Ark)

05 Birds - Emiliana Torrini (Álbum: Me and Armini)

06 Siren Song - Bat For Lashes (Álbum: Two Suns)







~









Uma produção Andrew Oliveira & Black Cherry Series (=
Photo: David Lachapelle

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Hidden Place II: Último Capítulo - A dor da esperança


Forseti não queria mesmo, de jeito nenhum, acordar, quer dizer, ela já estava acordada, na verdade ela só não queria se levantar, o mundo estava pesado demais naquele dia. Era o jeito. Na verdade, era sempre assim. Olhou para o despertador pairado no criado-mudo ao lado da sua cama, com os olhos semi-cerrados, e resolveu abri-los de vez. Uma leve dor de cabeça pulsava no seu cérebro, talvez fosse de tanto pensar. Mas não era isso. Também não era por isso que ela tinha passado a noite chorando. Apressou-se e arrumou-se, Freya não estava ali na porta, mas ela sentiu a presença de Frey, o que a confortou por alguns instantes até se dar conta de que Frey estava morto, estava morto, e ela nunca descobriria o motivo do seu suicídio. Ela não havia descoberto o motivo do suicídio do próprio filho. O que mais ela poderia descobrir naquele mundo? O telefone tocou, podia ser alguém importante, ou outra notícia horrível, mas ela resolveu não atender. Chega de notícias, tenho que cuidar de um enterro agora.

Documentos, dinheiro, caixão, preços, tamanhos. Aquelas coisas que, quando citadas, parecem ser tão banais, mas, se fosse para encaixá-las em algo realmente bom, não daria certo. Não demorou tanto até que aquele caixão branco estivesse preenchido no meio da sala da sua casa, onde gritos silenciosos e lágrimas infinitas davam aquele amargo clima de morte. A morte, de fato, é um sabor, um sabor forte.

Na verdade, depois da morte, não há nada, a não ser a tristeza dos vivos prendendo os mortos nesse mundo.

~

Não houve dia seguinte, não para Forseti, Freya, Psiquê, Heimdall e Hermod. Freya passou o dia numa sala mofada e inutilizada da escola enquanto que Psiquê descobria em seu armário uma carta anônima de amor. Heimdall não foi trabalhar, e Hermod decidiu se isolar do mundo. Estavam completamente desamparados, e ao mesmo tempo com um sentimento de raiva, por que essas coisas tem que acontecer? Por que não pode haver algo que possa parar tudo isso? A resposta é que, não há realmente resposta pra nada. As coisas simplesmente acontecem.

Freya, ao chegar em casa, tirou da sua mochila várias bisnagas de tinta, alguns pincéis, e logo após pegou um grande quadro que não foi usado do porão, provavelmente seria um quadro que Frey usaria, se ainda estivesse vivo. E, ao som de uma suave música, começou a usar os pincéis e as tintas sobre o quadro magistralmente, era a primeira vez que ela estava fazendo algo assim. E mesmo assim, conseguiu desenhar um lindo alvorecer, numa praia distante, onde ondas azuis-escuras cintilavam sobre os primeiros raios do filho da deusa Aurora. Sob lágrimas, ela conseguiu desenhar uma pequena vida, tão pequena que nem teve tempo de falar, ou de sorrir como se deve sorrir.Há muitas pessoas que ainda não aprenderam a sorrir de verdade.

Fugiu para aquela mesma praia.

Psiquê não parava de ler aquele poema tão simples e tão belo, aquilo, de certa forma, era a sua única esperança, as esperanças dela sempre morriam, por que não deixar aquela viva pelo tempo que desse? E ao virar-se, viu um belo garoto, alto, de olhos claros, encarando-a. Ela não conseguiu ficar séria.

Heimdall, pela primeira vez durante mais de dez anos, marcou um encontro com Hermod, que ainda não estava raciocinando muito bem, mas resolveu aceitar. E antes de todos irem para a praia, resolveram ir para um outro lugar.

Forseti abriu a porta, resmungando, arrumando o pijama sobre o corpo enrugado e colocando os enormes cabelos cinzas num coque, ainda estava com sono, era uma velha que vivia com sono, mas mesmo velha, ainda era defensora da justiça, embora tenha ficado ranzinza com o tempo. E na frente da sua casa, de manhã cedo, vários rostos conhecidos e pequenos desconhecidos. Psiquê e seu namorado, Forseti, seu marido e suas duas filhas, Hermod e Heimdall de mãos dadas.

- O quê vocês querem? - Falou em tom cansado, daqueles bem característicos da terceira idade.

- Forseti, queremos que você vá à praia conosco. - Começou Freya.

- Não estou afim, me desculpem.

- Forseti, por favor, nós iremos para aquele lugar se você quiser, antes de irmos à praia. - Insistiu Heimdall.

- Vamos Forseti, nós precisamos de você. - Disse Freya.

- Ai vocês me matam... Nem parece que se passaram tantos anos, veja o estado de vocês, parece que não dormiram a noite inteira, entrem, vamos tomar um café primeiro. - Resmungou a velha.

As crianças de Freya entraram correndo, enquanto que Hermod e Heimdall colocavam seus chapéus no cabide, Heimdall não largava nunca a sua bengala. Psiquê e seu namorado ficaram na poltrona conversando sobre novos projetos arquitetônicos. Mas logo todos sentaram-se à grande mesa de jantar de Forseti para o seu café-da-manhã.

- Mamãe, a gente vai demorar muito pra ir à praia? - Questionou uma das filhas de Freya.

- Tenha calma Nanna, nós vamos à praia sim.

- Mas por que vocês estão tão felizes se a gente ainda nem chegou na praia?

- Porque a nossa felicidade está com Forseti, filha.

A nossa felicidade depende da dela.




~





Hidden Place II - Le finale
And so it is (=




~







Andrew Oliveira, desculpem pela demora à postar, de novo, eu tava meio que mal :x

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Hidden Place II: Capítulo 4 - Pássaros


A enorme cortina inútil que cobria aquele enorme quadro incompleto de uma enorme dor guardada escorregou e caiu, um roçar de abstinência e amor se acomodou naquele lugar, a meia-imagem estava à mostra. Ele apagou seu cigarro num cinzeiro levantando-se da poltrona e se aproximando da tela, que o chamava, como se fosse uma ninfa semi-nua soltando gargalhadas pela floresta enquanto corre através das petunias, trevos, margaridas, e toda a variedade de flores e folhas borbulhando pelo ar. Mas era só um quadro. Ele ainda sentia o cheiro forte da tinta, tocou nos detalhes da pintura inacabada como se toca numa virgem, seu corpo todo reage num estado de medo e êxtase, mas pinturas não reagem, ou pelo menos não deveriam reagir. Mas aquela pintura reagiu, e tocou de uma forma cirúrgica-amadora no seu coração, e lá estava Frey. Ele perseguiu Frey por todo canto da sua casa e o devorou na cozinha. E quando ejaculou sobre o corpo daquela criatura, percebeu que não era Frey, não era ninguém, ele tinha acabado de acordar. Olhou pela porta aberta do seu quarto, a pintura estava coberta pela cortina branca.

A campainha tocou, e aquela campainha só tocava de manhã cedo por causa de sua sobrinha, Psiquê. Psiquê era uma daquelas garotas que choravam histéricamente, como se estivessem sendo torturadas ou sendo obrigadas a irem pro inferno. Psiquê realmente era uma garota histérica quando queria, Heimdall já sabia o motivo de tanto choro, ele sempre sabia, Psiquê contava tudo para ele, ele era o seu diário, o seu abrigo. Heimdall realmente não podia fazer mais nada a não ser consolar a pobre criança. Aquela criança suja com o próprio sangue, era como se ela adorasse se ferir. E sentaram na poltrona, de frente para as janelas daquele apartemento que davam uma ampla vista da cidade.

- Psiquê tem certeza disso? - Disse para Psiquê.

- Psiquê não sabe lidar com certezas. - Respondeu Psiquê.

- E ela sabe lidar com o quê?

- Com todas as dúvidas que surgem.

- Ela não parece ser muito corajosa. Imagine quando surgir uma tempestade...

- Ela se recolhe na sua concha.

- Ela não deveria fugir das coisas ruins o tempo inteiro. Aliás, ela está com uma aparência péssima, está parecendo um urso panda de tantas olheiras.

Uma outra Psiquê riu. Heimdall sempre conseguia. Talvez esse fosse o motivo da sua existência.

- Aliás, tio, o que tem atrás daquela enorme cortina branca?

- Um quadro.

- É seu?

- Não, eu o encontrei, num beco escuro. Está incompleto.

- Se o lugar era escuro, como você conseguiu ver?

- Eu tinha uma lanterna.

- Você sabe o nome desse quadro?

Heimdall acendeu as luzes da sua mente, e ouviu aquela voz preservada em seus devaneios.

Jezebel.

O nome da sombra sobre a janela, uma ilha. Um personagem qualquer. Uma vida de um outro lugar.

- Eu posso?

- Claro.

Psiquê se levantou e se aproximou do quadro, com calma, puxou a cortina, e ela foi caindo. Parte da imagem era negra, os detalhes em vermelho, e um pouco de cinza no centro que ainda ía se completar, dentro do meio-círculo cinza um meio-coração, e nele uma enorme asa avermelhada que se estendia pela tinta negra, e dava uma sensação de que iria se debater naquela escuridão. O coração de Psiquê acelerou, como se fosse explodir e...

- Já chega, você já o viu. Agora cubra.

- Como você consegue guardar algo tão pertubador aqui? - Assustou-se a adolescente.

- Foi a única coisa que me restou.

- Você não o tinha achado num beco escuro?

- Acho que ainda era pior que um beco escuro. Eu nunca tive realmente coragem de entrar naquela escuridão.

Heimdall escovou os dentes e preparou o seu café-da-manhã , enquanto Psiquê, ainda atordoada, lia um de seus vários livros. Cada segundo de Heimdall era dedicado à Psiquê e Frey, talvez mais à Frey, o que era uma completa baboseira. Tomou banho, comeu o café-da-manhã, e saiu naquele sábado com a sobrinha, o aniversário dela estava chegando, e ele compraria um lindo vestido.

~

Forseti não chorou, em momento algum, e nem poderia, ela teria que mostrar confiança e força na frente daquela criança dali por diante. Noite quase-chegando, vinho espumado, jazz e um clima morno. Sua cabeça estava dando voltas em cima de seu pescoço, como se quisesse fugir, e se fugisse, ela com certeza nem sentiria falta, seu coração estava ocupado demais para isso. Olhou para a lareira apagada, e pegou o telefone ao seu lado, é, ela tinha que contar.

- Hermod...

- Forseti? Nossa que...

- Eu preciso da sua ajuda.

- Forseti, eu já entendi, eu vou sair de vez da sua vida e da vida do meu filho. Não vou me aproximar dele, está tudo bem.

Forseti sentiu vontade de vomitar. E não aguentou, seus olhos entraram numa imensa tempestade de tristeza, e o peso de uma responsabilidade maior do que qualquer coisa que ela já tenha sentido. A voz de Hermod, a voz de Tyr. Ela estava flutuando no meio de um oceano com uma barra de ferro de uma tonelada sobre seu corpo. E chorou, chorou por toda aquela semana em que não tinha chorado, desde aquela segunda-feira em que o médico deu a notícia de que seu filho provavelmente iria morrer, e talvez o provavelmente nem tivesse tanta certeza disso. O provavelmente também não sabe lidar com certezas.

- Tyr está muito doente. - Soluçou.

- Forseti, tenha calma, não estou entendendo.

- Tyr está com leucemia! - Gritou, fazendo o ursinho de pelúcia de Tyr cair de sua mão enquanto assistia à mãe na penúmbra de uma porta.

- O quê? - A testa de Hermod franziu.

- Por favor, eu só peço que me ajude. Eu não vou dar conta de tudo isso sozinha.

- Forseti eu...

Tyr correu para aquele mesmo mar em que sua mãe se encontrou uma vez, ao descobrir que seu ex maior amor não a amava. Mas não era inverno como daquela vez. Sua casa ficava ali perto. Era uma criança que já tinha noção do que era a dor, e a morte, era uma criança precoce, afinal. Ele não queria causar dor à sua mãe. E correu.

Por um breve momento pôde sentir uma música passando pela sua boca, querendo respirar, querendo amar, querendo cruzar todos os oceanos e possuí-los para imperar ao lado da solidão e da vontade. Solidão e vontade. A areia deixando marcas de seus passos, a areia gostava de Tyr. O céu com tons lilás, azuis, laranjas, e um pouco de vermelho naquele pôr-do-sol, um espetáculo, um requiém, o céu chamava Tyr para um doce luar. E o mar, a espuma do mar, as ondas do mar, como se estivessem numa orquestra, desejando nunca mais parar. O mar também pára as vezes. Mas não a solidão e a vontade.

Tyr foi chamado por aquele mar parado, e se transformou em água, afogado, cheio de dores pelo corpo. Mas aquelas dores não eram da leucemia. Eram outras dores, escondidas na penúmbra de uma porta, ouvindo o que nunca imaginava ouvir da sua única esperança no mundo.








~








Andrew Oliveira,
Desculpem por demorar a postar de novo :x

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Hidden Place II: Capítulo 3 - Praia


Freya não sabia pintar as unhas, nem de tirar as cutículas sem se ferir, nem de fazer um bom penteado, nem se portar como uma mocinha. Muito menos se controlar. É, ela queria muito encher a cara de Apolo de porrada, ele merecia, realmente, mas apenas parcela da culpa era dele. De qualquer forma, Psiquê conseguiu convencê-la a não socá-lo, e no dia seguinte todos ficaram calados, tristes e sem vontade de estudar.

Psiquê gostava muito de ir à praia na frente da cidade, ela e Freya quase não se lembravam da época em que aquela cidade era completamente cinza e sem sol, tão fria que até na lareira de suas casas as pessoas usavam agasalhos, tão fria que as pessoas congelaram todas as suas lembranças ruins naquele inverno que durou décadas e de uma hora pra outra sumiu. Forseti, Hermod e Heimdall nunca esqueceram do dia em que viram o verão pela primeira vez, foi a melhor sensação que já tiveram, a melhor visão que seus olhos cheios de lágrimas congeladas já vislumbraram, era como se Deus tivesse lembrado daquele recante. Vou aquecê-los também.

Forseti sempre esquecia de ligar o celular, e já havia mil e uma chamadas perdidas nele quando ela se lembrava de ligar. Uma das mil e uma era de Hermod, por que Hermod? Tomou uma pequena decisão e discou os números.

- O que você quer Hermod? - Disse, ríspida.

- Olá Freya, só queria saber como Tyr está e...

Freya respirou fundo, ele sabia disso.

- Está começando a perguntar porque não tem um pai, Hermod. Por quê?

Hermod calou-se.

- Hermod, por favor, não comece essa história de novo. Eu já criei uma mentira pra ele, e é assim que vai ficar.

- Forseti, ele precisa de um pai...

- Precisa de um pai? Como você tem a cara de pau de dizer isso? Só agora você se arrepende?

- Você não me deu alternativas, disse que iria cuidar dele sozinha.

- Deixa de ser infantil, Hermod. O que eu mais queria naquela época era de alguém pra me ajudar a criar Tyr. Nem isso você percebeu.

Desligou.

Droga, essa história nunca vai ter fim?

Não.

Esperou até que chegasse o dia seguinte. E de manhã, bem cedo, chamou Tyr e Freya para irem a praia, Freya convidou Psiquê, que entusiasmada aceitou na hora. De manhã cedo foram para a praia, bem a tempo de ver o nascer do sol, de manhã cedo já estavam pensando em faltar às aulas, de manhã cedo seus corações se aqueceram, e conseguiram esquecer, ao menos um pouco, do mundo real. Pegaram conchas, estrelas-do-mar, corriam atrás das gaivotas, e aquele parecia ser o dia perfeito. Forseti parou para passar protetor solar no seu filho, tirando sua camisa, e vendo vários hematomas em suas costas, o sol matutino doeu nos olhos. O mundo real tinha voltado, e tudo voltou a passar rápido demais.

- Tyr, meu filho, o que é isso?

- O quê mamãe?

- Essas manchas horríveis nas suas costas.

- Eu não sei.

Freya e Psiquê pararam de brincar com a água, e encararam a mãe e o filho, até mesmo as gaivotas pararam de piar, só se ouviam as ondas chiando e fazendo espuma, que jogavam alguns gravetos pra lá e pra cá na maresia, e conchas, nem tantas nem poucas. As rochas ali perto soltaram um gemido, Forseti sentiu algo doer dentro de si, e não era no coração.

- Desculpe meninas, acho que temos que voltar.

- Tudo bem, Forseti. - Disse Freya, aproximando-se e pegando na sua mão, com um ar compreensivo. - Temos que ir ver um médico, não é?

Psiquê também se aproximou, e, com Freya, trocaram as camisas molhadas e os biquínis por outras vestes, entraram no carro e partiram de volta pra casa, com um gosto estranho na boca. Aqueles dias estavam estranhos e velozes, como se cada tique-taque fosse um dia. E o dia da consulta e do diagnóstico chegaram.

Freya já estava na porta da casa de Forseti, esperando-a se arrumar. Forseti pôs cada parte da sua armadura bem devagar, os brincos, o batom vermelho-vinho, um pouco de pó-de-arroz, os sapatos, as roupas. Penteou os cabelos como se aquela fosse a última vez, levantou, pegou sua bolsa, desceu a escada, pegou nas mãos de Freya e Tyr, e foram para o hospital.

Cheiro de sangue, remédios fortes, vômito, soro e morte, era o cheiro de hospital. Freya nunca gostou daquilo, Tyr nunca entendeu, e Forseti se sentia forçada a lembrar de uma série de coisas. Entraram na sala do médico e sentaram nas cadeiras, Freya ficou numa poltrona um pouco distante da escrivaninha do médico.

Realmente, Forseti sabia de muita coisa, muita mesmo, que conseguiu aprender durante a trajetória de sua vida até lá. Ela sabia onde encontrar abrigo, como sobreviver no fim do mundo, como escrever um poema ou até mesmo como pintar um quadro, ela sabia ler partiruras e tocar piano perfeitamente.Forseti era uma daquelas mulheres em que só pelo fato de você olhar em seus olhos você se sente seguro, ela se tornou uma boa presença, ainda que cheia de segredos que a faziam segurar uma mentira dolorosa para o seu filho, se aquilo era necessário ou não, ela também sabia, mas preferia guardar para si mesma. Mas ela não sabia de duas coisas, naquele mundo, apenas de duas coisas, que atormentavam a sua vida, e atormentariam ainda mais, o que ela não sabia também era de como começar a solucionar essas duas coisas das quais ela não sabia, tinha medo de saber, mas ainda assim queria saber.

1 - O que levou Frey a morrer.

2 - Por que meu filho tem leucemia.

Deus, eu te odeio.




~




Andrew Oliveira

sábado, 9 de outubro de 2010

Hidden Place II: Capítulo 2 - Língua



Ah, óbviamente ela sabia o que Apolo queria, e mesmo assim aceitou, cedeu-se a ele. Psiquê realmente não se amava o suficiente, e talvez só amasse a beleza de Apolo, aquele garoto tão terrívelmente belo, ah... O amor estava realmente em tudo? Isso tudo foge tão rápido da minha mente. A madrugada estrelada era o palco para a janela do quarto de Apolo, onde ele se lambuzava de Psiquê e Prazer. Uma música tocava no seu micro-system, era frágil e onírica, se chamava Shelter.Apolo a beijava de uma forma que ela acreditava ser por paixão, ele a pressionava contra o seu corpo másculo e grande, deixando-a completamente desfalecida, como se estivesse sugando sua alma para se alimentar, Apolo era um ladrão de almas. E a lambia voraz, Psiquê estava mole, apenas seguindo o ritmo daquela criatura tão incansável, seu corpo todo tremia, arrepiado, era como se o ar da meia-noite estivesse entrando na sua pele e ela estivesse se transformando em noite. Apolo a despiu, e se despiu, passeando sua boca por todo o corpo daquela garota tão confusa, ele a torturava com sua língua.E ele a beijou ainda mais, enquanto penetrava devagar o seu membro rígido no sexo da menina, expulsando a sua virgindade, uma lágrima desceu de seu olho esquerdo, mas era de felicidade. Ela se contentava com tão pouco, que garota mais medíocre.

~

Um corredor, várias portas, nenhuma janela, tudo estava mal iluminado, Freya sentia o chão gelado cortando seu pé como pequenas lâminas formando o piso, mas ela não se importava, sentiu um ar de melancolia e logo após uma ventania entrar de forma brusca no corredor, como um carro em alta velocidade na estrada, e se sentiu nua, mas lá estava, um homem distante, quase uma sombra, ela podia ver seu rosto, ela queria ver seu rosto, e tentou acordar, mas não conseguiu, orou para si mesma e conseguiu abrir os olhos de uma forma calma, seu coração não estava mais batendo forte, nem estava suando, nem estava tentando gritar, estava relaxada. E só então, resolveu acordar para outra questão.

Quem é meu pai?

E só então ela se tocou, ela cresceu apenas do lado de sua distante mãe, e de Forseti, quer dizer, ela tinha uma imagem de seu pai, talvez fosse uma foto ou um sonho, até mesmo um pesadelo, mas naquela hora ela sentiu vontade de conhecê-lo, e a partir de então não conseguiu dormir mais.

As olheiras estavam realmente grandes, ela olhava para si mesma no espelho se chamando de Panda, além de ter a pele pra lá de pálida, nem maquiagem resolveu, e lá estava Freya, chegando na escola com a cara de pau mais mal tratada do mundo, que se danem essas pessoas vazias.

Eu sou vazia também?

De qualquer forma, o cotidiano continuava o mesmo, com as mesmas cores de sempre, as mesmas pessoas de sempre, as mesmas dúvidas de sempre, as mesmas tristezas de sempre, e a mesma dor de sempre. Ela nunca soube explicar aquela dor, poderia estar com medo ou com ódio daquilo, o que é a dor? Os dias estavam com alguma coisa a mais, ela sentia isso, e não eram as perguntas que ela sempre fazia a si mesma, o que era essa sensação? Olhou para Apolo, que a encarava durante quase toda a aula, sorriu pra ele, e ele retribuiu o sorriso, Psiquê cochilava enquanto o professor de matemática falava de mil fórmulas para a prova, Psiquê não era assim, não durante as aulas de matemática, Freya estranhou ao ver uma menina tão esforçada cochilando durante uma aula importante assim.

Acho que até meninas tão boas como ela se cansam às vezes, aliás, acho que todas as meninas se cansam de viver, e preferem cochilar durante as aulas de matemática pra tentarem se manter em pé. Os saltos doem, as calças esfriam, o batom resseca. Tudo isso é uma mentira mal contada. E eu não passo de mais um detalhe de toda essa encenação. Encenar demais é cansativo, mesmo.

Até há um dia antes, Psiquê era tudo o que Freya imaginava, mas não naquele presente, naquele presente Psiquê era outra pessoa que, após ter sido descoberta, só via as segundas intenções das pessoas, seus interesses, e como elas usavam as outras para benefício próprio, que podridão. Psiquê havia perdido a inocência não apenas do corpo, mas da sua alma. Psiquê estava banhada de sangue de leão.

Após a aula, Freya resolveu chamar Psiquê, que ainda estava desnorteada de sono e melancolia, igual ao seu pesadelo da noite anterior, que fez pensar em seu pai.

- Psiquê...

- Olá Freya. - Deu um meio sorriso, parecido com o de alguém.

- Está tudo bem com você ?

- Por que a pergunta? Estou sim.

- É que você estava dormindo durante a aula.

- Só tive uma noite ruim e...

Antes que pudesse terminar Apolo passou ao seu lado de uma forma fria, sem nem mesmo dar um olá, seu peito apertou e logo pôs a mão em cima dele.

- Aconteceu alguma coisa? Pode me contar. - Disse numa voz materna, percebendo o desconforto da garota.

Psiquê respirou fundo e abaixou a cabeça, a escola já estava se esvaziando, e um turbilhão veio à sua mente, sua cabeça doeu, seus olhos doeram, por que ele nem olhou pra mim hoje? Ela de alguma forma sabia que isso poderia acontecer, só não estava pronta para tal, queria vegetar ali mesmo, mas Freya não deixou, Freya pôs a mão no ombro da menina.

Psiquê hesitou, e uma pequena lágrima ficou na toca de seus olhos.

- Eu o amo tanto, tanto Freya. E eu fui tão idiota em acreditar que ele poderia me amar, ele só queria me usar, como outra qualquer, eu acho que sou isso mesmo. - E começou a chorar copiosamente.

Freya borbulhou de raiva por tal indivíduo, quem seria capaz de fazer isso com uma menina tão doce?

- Quem é esse garoto, Psiquê? É Apolo?

Ela fez que sim. Freya pensou logo em encher a cara de Apolo com socos. Psiquê uivou de dor.






~







Andrew Oliveira

Desculpem a demora pra postar, estou sem notebook )=

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Hidden Place II - Capítulo 1: Espuma


Psiquê já estava exausta, o dia estava escurecendo, e ainda permanecia na escola, prestando atenção na aula, quer dizer, estava tão de saco cheio que não faria nenhuma diferença se saísse dali agora mesmo, mas resolveu ficar, aquilo era para o seu próprio bem. Olhou para Freya e sorriu, Freya era uma menina tão boa, Psiquê sentia um pouco de inveja, ao mesmo tempo em que uma admiração tomava conta de seu coração, ela queria ser como Freya.

Cartas e mais cartas de amor chegavam à Freya, ela nunca ligava, aliás, para ela aquilo era apenas amor pela sua beleza, Frey se sentia assim também? Eu não sei. Psiquê tinha espinhas na testa, uma franja mal feita, pele morena, óculos de aro grosso, se vestia da forma mais simples possível, não falava com quase ninguém, o exemplo perfeito de uma pessoa excluída. E mantinha um amor enorme por Apolo, um amor tão doce quanto doloroso, certa vez ela emprestara uma caneta pra ele, foi o melhor dia da sua vida, ele agradeceu com um sorriso, ah... Que sorriso mais belo.

Era sempre assim, a admiração por Freya, o amor por Apolo, a vida entediante e sem grandes alardes, durante as aulas só ficava presa em devaneios, estudava muito em casa, era uma menina esforçada, afinal, ela tinha que ter ao menos uma meta em sua vida. Sua vida era um circulo, e ela, uma corda. Alguém um dia precisaria dessa corda? Ah... E suspirou mais uma vez admirando a beleza lânguida de Apolo. Ela estava cada vez mais decidida.

Umas mechas cairam nos seus olhos enquanto escrevia o assunto, e de uma forma tão suave colocou-as para trás da orelha, seus lábios secos pelo frio, seus olhos hazel, tão inconstantes, era alto e bem definido, era o mais bonito daquela sala, era mais um apaixonado por Freya, a beleza arrogante e voraz de Freya, quase um grito de guerra.

A aula estava terminando e o rapaz arrumou seu material na mochila, era tão frágil, parecia de porcelana, lembrou de alguma coisa que eu não sei o que é e riu bem baixinho, soltou mais um daqueles sorrisos magnânimos dos quais Psiquê sempre guardava na caixinha da sua alma, Psiquê era tão boba... E percebeu o olhar de Psiquê, e olhou para ela.

Por um momento a sala parecia estar num silêncio forçado, onde apenas um som macio passava por ali, quase imperceptível, como uma vibração, e aquela vibração atormentou a sombra de Psiquê, que se deformou de uma maneira tão assustadora que nem ela mesma pôde recuperar a própria sombra. Era assim que ela se sentia quando os olhos de Apolo acusavam-na, e era assim que ela estava naquele momento. Ela poderia chamar aquele sentimento de nervosismo ou medo, mas era amor. O amor nunca me deixa viver da maneira que gostaria.

Apolo sorriu para Psiquê, descontraído, bobo, de um jeito tão terno que só ele conseguia fazer, aquele sorriso era persuasivo, questionador, travesso, e tudo ao mesmo tempo, aquele sorriso era uma verdadeira incógnita. Psiquê não sabia se ria ou se ficava séria, estava atordoada demais para ficar racional naquela hora, Psiquê era uma completa otária. Mas que se foda.

E a aula terminou, Psiquê, calma como sempre, arrumou seu material lenta e lerdamente, como se não quisesse mais nada, e aquele material fosse a única coisa restante na sua vida. Os alunos logo sairam e se dispersaram para todos os lados na frente da escola, Psiquê foi ao banheiro trocar de blusa e os corredores já se encontravam vazios, exceto por uma bela criatura encostada num dos vários armários, Apolo.

Dessa vez Psiquê conseguiu sorrir, mas não sabia se ele estava lá por ela, por que estaria? Ele não é mais um apaixonado por Freya? Deve estar esperando outra pessoa, mas a outra pessoa não apareceu, é, realmente era por ela.

- Por quanto tempo você ainda vai estar calada?

- Até o momento em que estiver conveniente. - Ah, droga, ela não conseguia ser nem um pouco graciosa...

- Agora está conveniente?

- Você quebrou a conveniência, Apolo.

- Está tudo bem com você? Achei você meio mal hoje durante a aula.

- Só estava pensando.

- Vamos para uma lanchonete?

- Por que alguém como você me convidaria pra comer?

- Eu não posso?

- Eu não disse que não pode. Só é de se espantar.

- Ah... Então você não se ama o suficiente, Psiquê.

- E quem é você pra falar sobre o que eu sinto?

E sussurrou um cupido travesso dentro do corpo de um deus do som:

- Um demônio que chegou para te atormentar.


Droga, agora eu estou louca para ir pro inferno.




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Andrew Oliveira

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Hidden Place II - Prólogo - Vazio


Ela poderia passar o resto de sua vida ali, durante dez, vinte, mil anos, ouvindo aquela mesma música, olhando pro nada, roendo as unhas e acabando com seu esmalte, mexendo nos cabelos negros, ou bocejando. Tudo da forma que desejasse. Seu professor a chamou, era sua vez de atuar, e não estava nem um pouco nervosa, apesar de que suas apresentações sempre lotavam os teatros em que se apresentava.

- Eu sou a saliva da sua boca. - Disse nem um pouco astuta. - Me ferve, meu amor.

- Vagabunda qualquer? Acho melhor não.

- Você nunca sabe de nada mesmo. - Rodeou o cenário, devagar. Apenas de calcinha.

- Não ouse falar mais isso, sua qualquer. - Ameaçou o outro ator.

- Ah... Você não consegue falar uma frase inteira sem me insultar?

- Piranha, vou te esganar.

- Tenta, fracassado. Quero ver você valer o tamanho do seu pau. - Apontou para lá.

E ele correu atrás dela, ela soltou gritinhos entusiasmados, a platéia até riu, apesar de ser uma péssia trágica. E ele a segurou forte em seus braços, parecia um romance conflituoso de verdade, ela bem que queria que fosse...

- Pare de me torturar. Esse seu corpo ardente, esses seus cabelos, esses seus olhos, eu te amo tanto que poderia te devorar aqui mesmo, no meio do nada. - Disse o ator, com a voz chorosa.

- Eu não pedi para você me amar, agora sofra sozinho.

- Sofra comigo.

- Não.

- Morra comigo.

- Não.

- Me mata, então.

- Não tô afim.

- Então eu vou te estuprar.

- Mas eu quero, então não é estupro.

- Falar em estupro me excita.

- Estupro estupro estupro estupro estupro estupro estupro estupro.

E ela a puxou pelos cabelos, sugou seus seios e sua boca, e simularam um sexo violento cheio de tapas ininterruptos. Naquele mundo suas cortinas se abriam e ele a penetrava com força, sádico, cheio de um prazer estupidamente sem fim. E a peça se esvaiu em conflitos e dramas, ela sabia perfeitamente ser outra pessoa, mentir para a platéia, fazer a platéia acreditar, ela sabia de quase tudo, só não sabia muito dela mesma, na verdade, ela nem sabia dela mesma. Para ela, atuar era tudo na sua vida, era uma amante do teatro, e era tão nova ainda, apenas dezessete anos, uma doce ninfa concebida na madrugada dos distraídos, ou dos afogados, como desejasse.

Sentou-se, e após se sentar sentiu um sentimento que de alguma forma, em alguma outra vida, ela já havia sentido, só não sabia quando, e isso era complicado. Lembrou dele, ele era uma vaga lembrança pra ela, como se fosse apenas um personagem que ela criou, e só tinha certeza dele pelas fotografias, as fotografias de uma vida tão curta, e que se transformava a cada segundo. Ela sonhava em algum dia se transformar, mas ela já estava se transformando, e não conseguia parar. Sequer conseguia parar pra pensar nisso.

Foi para casa, era noite, era um pouco de frio. Pôs sua jaqueta de couro para andar por ali, e resolveu ir para uma boate. Entrou facilmente numa ali por perto, e dançou, dançou tudo o que tinha pra dançar, mas ainda assim, mesmo depois daquele dia tão cheio, ela não conseguia encontrar nada.

Sua mente estava quase toda branca, e lá, havia somente um pontinho negro, que estava crescendo de forma lenta e dolorosa, aquilo era a sua única esperança, resolveu se agarrar à ela. E a prendeu com as suas mãos de unhas mordiscadas, não adianta, eu não vou te largar.








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Andrew Oliveira