Solitude, darkness and love


"I don't wanna admit, but we're not gonna fit"
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domingo, 17 de julho de 2011

The Birds - Último Capítulo


- E se as luzes se apagarem de novo? – Rhett estava trêmulo.
- Precisamos tentar, Rhett. – Angelina, sempre segurando sua mão.
- Façam silêncio. – Madalena pediu.
- Aletheia, você se lembra de onde veio? – Scarlett perguntou.
- Não, por aqui é sempre tudo igual. Mas...
Todos olharam com expectativa.
- Vamos por aqui. – A menina disse, e então curvou-se para um outro corredor.
O caminho parecia sempre ser infinito, mas o grupo estava desesperado demais para pensar nisso e sua única esperança era a menina com o estranho nome de Aletheia. Aletheia correu pelo corredor e então dobrou de novo, o grupo a acompanhava com urgência no olhar, inclusive Scarlett.
Aletheia parou, meio assustada meio ansiosa, e então abriu uma porta.
~
Aletheia olhou para a irmã mais velha. Adolescente, estragada, grávida, e fumando um irritante cigarro. A irmã correspondeu o olhar com excelente desprezo, e então se levantou para jogar o cigarro na janela. O pai chegou imundo, e foi logo tirando o cinto para penetrar na irmã, que não demorou a tirar a calcinha e abrir as pernas, sem expressar um mínimo gemido. Ela não podia. Se gemesse, levaria uma longa surra. Aletheia nunca entendeu aquilo, o que eram aqueles olhares e aqueles atos, mas sentia que não eram bons. Pra dizer a verdade, ela nunca soube como era se sentir bem.
A mãe saiu da cozinha e disse que o jantar estava pronto, um sorriso que não enganaria ninguém, os olhos amargos. A irmã mais velha foi tomar banho, o pai foi arrotar na mesa e a mãe permanecer em silêncio, sem se mover muito perto do marido. Aletheia saiu da pequena sala e abriu um pouco a porta para espiar a irmã, que estava de olhos fechados apenas recebendo a água no rosto, encolhendo e retorcendo e esmagando a vontade de gritar. Mas ela não gritou, nem pôde tentar, estava cansada demais de viver. Ela tinha dezesseis anos com alma de oitenta.
Então Aletheia se arrependeu amargamente de ter espionado a irmã, pois viu uma cena que nunca esqueceria nem se morresse. Mas era essa a questão, morrer.
A irmã mais velha saiu do chuveiro e tirou uma faca escondida perto do vaso sanitário, enfiou na barriga com força e morreu. Ela não chorou nem gemeu, ela fez o seu verdadeiro papel de boa mulher. É assim que o mundo termina, não com a dor mas com o alívio. Aletheia gritou e os pais saíram em disparada para onde ela estava. O pai culpou a mãe pelo descuido e iniciou seu ritual de espancamento, sangue e dentes para todo lado.
Aletheia saiu da casa e se enroscou no arame farpado do cercado, ferindo o pescoço e rasgando as pálpebras, o dia estava indo embora, e ela também. O pai arregaçou a porta com um chute e gritou para ela voltar, as crianças da vila olharam para Aletheia correndo em total espanto, ela estava chorando sangue por causa das pálpebras. Uma criança amaldiçoada, pensaram. E com certeza era.
Aletheia caiu várias vezes na sua fuga, e quanto mais caía, mais seu pai se aproximava, pronto para o abate. Seus frágeis joelhos e braços estavam ralados, e seu rosto mais esfolado ainda. Ninguém estava entendendo nada. Até que tudo pôde se concluir.
O pai pegou uma pá e acertou na cabeça da filha. Era uma criatura impiedosa, e por isso queria mais. Aletheia apenas ouvia vozes ao longe, e depois mais nada. O pai a matara com várias pancadas de pá na cabeça, até rachar o seu crânio e expulsá-la do mundo dos vivos. Mas antes que pudesse voltar triunfante para casa, os moradores também o mataram, atirando pedras gordas e pesadas até fazê-lo manchar uma grande poça de sangue na terra. Ele ainda pôde sentir ser castrado e ter a língua arrancada, e ainda foi deixado por um longo tempo até ele mesmo decidir que queria morrer. Mas nunca arrependido.
~
Aletheia abriu a porta e no mesmo instante as luzes daquele corredor se ligaram. Era um corredor pintado de vermelho e nada convidativo. Era a única chance de Scarlett e todos os outros saírem daquele lugar. E eles já sentiam isso. Ali estava a porta final, a provável resposta.
- Eu não quero ir. – Aletheia se postou atrás de Scarlett.
- Então você pode ao menos esperar aqui? – Scarlett sorriu, aliviando a tensão da menina.
- Acho que sim.
Scarlett olhou para o grupo que esperava alguma atitude.
- Quem vai comigo? – Ela perguntou.
Madalena e João se aproximaram. Scarlett assentiu, e então eles se foram.
João tocou com cuidado na maçaneta da porta, e então a virou, nada aconteceu. Scarlett chegou mais perto, e sentindo o olhar ansioso de Madalena, abriu com o marido dela a porta sem respirar. Uma luz amarela se acendeu e com ela se revelou um quarto que parecia uma espécie de porão. Todos olharam com estranha curiosidade.
Uma escada se desceu com um estrondo e outra luz se acendeu, dessa vez branca, trazendo consigo uma velha senhora. Ela tinha os olhos murchos e azuis, porém simpáticos, os cabelos brancos estavam emaranhados, e mais um pouco deles num coque mal arrumado. Ela desceu a escada com desleixo e aborrecimento, depois afofou o vestido-camisolão e então sorriu para o grupo dos queixos caídos.
- O preço para sair é uma alma. – Ela continuou sorrindo.
- Quem é você? – Madalena pôs-se a perguntar, o rosto contorcido em horror.
- O preço para sair é uma alma. – Ela repetiu.
- O QUÊ? VOCÊ ESTÁ MALUCA? – Madalena gritou. – QUEM VOCÊ PENSA QUE SOMOS?
- Madalena, acalme-se! – João segurou o braço da mulher.
Madalena o fitou em total terror.
- Acho que apenas alguns de nós poderá sair daqui. – Scarlett disse, melancólica.
- Sim. – A velha senhora sorriu.
- Não podemos simplesmente abandonar alguns de nós. – João parecia confuso.
- É difícil. – A velha senhora franziu a testa. – Mas é o preço.
- Não entendo... Passamos por tudo isso para mais pessoas morrerem? – Scarlett estava quase sem fôlego.
- Sim. – A velha se sentou num banquinho, e ficou a esperar as decisões.
Houve um grande momento de silêncio, Scarlett olhou para trás, e caminhou de volta para o corredor. João e Madalena fizeram o mesmo, sem saber o que fazer. Aletheia os avistou com entusiasmo em um pequeno sorriso a iluminar o rosto, e abraçou Scarlett com força. Scarlett segurou as lágrimas. João e Madalena cochichavam alguma coisa, e Madalena chorava.
- E então? – Angelina perguntou, de mãos dadas com Rhett.
Scarlett respirou fundo.
- Nós temos um plano, e temos pouco tempo. Então alguns de vocês sairão por um caminho diferente. – Ela mentiu, e então olhou para João, que assentiu e beijou Madalena na boca. Gosto de lágrimas.
- Rhett, Aletheia, um dos gêmeos e Madalena irão por esse corredor mesmo. Eu e João sabemos de outro caminho.
- Você vai, Khayran. – Khaydan o abraçou forte. – Nos encontramos lá fora.
Scarlett ainda não tinha derramado nem uma lágrima.
João se aproximou de Scarlett, e Angelina também, apenas Khaydan estava longe dos condenados, dando um beijo forte na bochecha do irmão. Aletheia deu outro abraço em Scarlett, que apenas dava um sorriso triste.
- Quando você encontrar uma velha senhora perto das escadas, diga que vocês já pagaram o preço. – Ela sussurrou nos ouvidos da menina.
- O preço?
- Sim.
Aletheia olhou nos olhos de Scarlett, que escondiam nas pálpebras e cílios as lágrimas. E então partiu com Khayran, Rhett e Madalena. Outro silêncio, e depois um grande barulho, uma luz ofuscante vinda do final do corredor, e então mais nada. Scarlett encarou João mais uma vez, e mais uma vez sem falar nada, ele entendeu. João puxou Khaydan e Scarlett, Angelina.
- Vamos.
- O que vocês estão fazendo? Não era um outro caminho?
- É esse mesmo.
Scarlett chegou ofegante, a velha senhora ainda estava sentada, e os fitou com espanto.
- Não podem sair. Vocês não tem preço – Ela fez o sinal da cruz, como que repreendendo o grupo.
Scarlett pegou um objeto qualquer e tentou violentar a velha que desapareceu, João subiu a pequena escadaria e arrombou a portinhola. Angelina e Khaydan apenas assistiam toda aquela confusão sem entender nada, uma criatura escura e monstruosa surgiu no corredor vermelho e pôs-se a rastejar velozmente com uma quantidade exorbitante de tentáculos, patas pegajosas e dentes afiados. João e Scarlett subiram na luz ofuscante do teto, depois foi a vez de Angelina e Khaydan.
Então tudo ficou claro demais até que se pôde entender que seria sempre assim. Mas não foi.
Scarlett sentiu uma dor de mil lâminas no seu corpo, então pareceu que sua alma diminuiu e seu corpo estava muito maior do que antes. Ela tentou gritar mas saíram guinchos da sua boca, ou melhor, bico. Ela se levantou da rua bagunçada e abriu os olhos, que agora demoravam mais a piscar. O céu estava cinza e vermelho, o horizonte completamente púrpuro, tudo estava um completo caos. Pessoas correndo para todos os lados, carros e mais carros se empilhando e explodindo, prédios desabando. Por alguma razão ela conseguia ver por vários ângulos. Nada mais se explicava.
E lá estava Aletheia, perdida em todo aquela fúria humana, soluçando sem saber o que fazer, ou porquê exatamente soluçar. Scarlett se aproximou e ela a fitou com curiosidade, depois espanto, depois palidez, e por fim horror. Aletheia pôs-se a correr desesperadamente e um carro a atropelou, depois um grupo de homens nus com asas negras iniciaram um ritual de estupro com seu pequeno corpo de menina.
Scarlett tentou chorar dessa vez, mas não conseguiu, tudo o que saia da sua boca eram guinchos ou piados. Então ela finalmente conseguiu admirar seu reflexo, numa poça de sangue de um defunto ali perto. Ela era um demônio, cheio de olhos arregalados e um bico afiadíssimo. Ela era uma condenada, e já estava morta há muito tempo.




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The Birds - Fim





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Black Cherry

segunda-feira, 4 de julho de 2011

The Birds - Capítulo 5


- O que vamos fazer? - perguntou Angelina. - Parece que até durante o dia as coisas ficam perigosas...
- Não, não ficam... - respondeu João. - Mas está escurecendo muito mais rápido.
- Então vamos morrer de fome por medo de sermos atacados de novo? - Scarlett questionou.
- Não. Mas agora temos que encontrar as coisas mais rápido do que o dia. - disse Madalena, sentindo uma pontada de dor ao tentar levantar do colo de João.
A pequena porta foi espancada com violência, e todos se voltaram para ela. Estavam tentando invadir? Mas em vez de barulhos de asas ou de guinchos, eram gritos de uma criança. João foi tentar abrir imediatamente, mas foi impedido por Madalena, que o fitou em total repreensão.
- E se for um deles?
- Não é. Eles nunca se disfarçaram de humanos. Talvez não consigam.
- E se estiverem usando a criança?
- Não são tão inteligentes assim...
- Tem certeza?
João voltou-se para Scarlett, que assentiu em total compreensão. A mulher pegou uma viga de ferro aleatória no lugar e ficou preparada para o pior. O marido de Madalena abriu a porta com tudo e uma criança pulou no colo de Madalena, como um verdadeiro inseto. Angelina gritou no mesmo instante, pensando que fosse um, e Rhett apenas tremia. Khaydan levantou-se e foi analisar o que tinha no colo da esposa de João, e João postava o último trinco na porta.
- Quem é você? – perguntou Scarlett, com a voz afetuosa.
A criança apenas tremia como um liquidificador.
- Ei! Está tudo bem... – disse ela, olhando para Madalena, que entregou a criança aos seus cuidados. – Você pode nos contar como chegou aqui?
- Estava procurando... – respondeu a pequena menina, uma voz tão doce que fez todos se sentirem normais naquela situação.
- Procurando... O quê? – perguntou Khaydan, acariciando as costas da criaturinha.
- O que me disseram para procurar... e a gente sairia daqui.
- Vo... Você sabe alguma coisa sobre como sair daqui?
- Acho que sim.
A menina se pôs de pé e começou a andar para um canto, sentou-se encostada numa parede e começou a avaliar cada um na Toca. Seus olhos eram de um azul nunca visto em nenhum ser humano. Era como o mar dentro das pupilas. Seus cabelos, negros, lisos e despenteados, pareciam a própria sujeira que infestava o seu rosto e bracinhos magricelas.
- Um monstro me disse que eu não pertencia a esse lugar, todos vocês pertenciam, mas eu não, eu estou aqui por acidente.
- Não estou entendendo... Como pertencemos a esse lugar? – João perguntou, agora vendo que a menina falava como uma pequena adulta, seria mais fácil se comunicar com ela.
- Não sei. Foi só o que ele me disse. Isso e como sair daqui. – ela ajeitou um pouco os longos cabelos para trás, de uma forma tão fofa que fez todos sorrirem. Só o que ela falava era que não era nada fofo. – Se encontrar o demônio, encontra a saída.
- Demônio?
Rhett começou a dar os sinais de que iria surtar, e tudo o que os outros puderam fazer foi prender a respiração, exceto Angelina, que tentava de todo jeito (como sempre) acalmá-lo. Então ele falou tudo o que todos mais temiam e evitavam até mesmo pensar:
- Estamos no inferno.
E de novo.
- Estamos no inferno.
- Não, espere, foi isso mesmo que ele disse pra você? – João perguntou.
- Sim.
- E como encontramos o demônio? – Scarlett perguntou, olhando para a mão de Angelina que segurava a de Rhett com força.
- Estamos no inferno.
- Temos que encontrar o corredor vermelho. No final dele mora o demônio.
- ESTAMOS NO INFERNO PORRA!
A menina deu um pulo, Angelina o estapeou, Rhett a fitou, os olhos arregalados, as olheiras dançando abaixo deles. Voltou a si.
- Isso é apenas um nome, não significa nada, Rhett. – ela disse, e então ele se acalmou.
Madalena suspirou em reprovação, e então pediu a atenção da menina novamente.
- Menina, qual é o seu nome? – perguntou.
- Aletheia.
- Bem, Aletheia, você pode nos ajudar a encontrá-lo?
- Acho que sim.
- Quando sairemos? – disse Scarlett.
- Agora mesmo.
E tudo se silenciou. João a olhava em total espanto, os gêmeos com medo, Angelina segurando o tremor e o frio na nuca, e Scarlett confusa.
- Você não está sendo... – tentou João.
- Não, não estou sendo drástica demais. Já estou cansada deste lugar e agora que encontrei um meio de sair não vou ficar esperando a boa vontade de ninguém de levantar a bunda e ir comigo. Se quiserem vir, que venham, Aletheia irá me guiar.

- Aletheia, você quer ir agora? – João perguntou para a menina, com uma tranquilidade que ele não tinha.

- Eu quero ir pra casa. – resondeu Aletheia, pela primeira vez como uma criança de verdade.
- Se você quer ir pra casa, não temos tempo a perder. – Madalena puxou a menina pelo braço. – Vamos.
Aletheia olhou para todos, pedindo claramente por ajuda com a testa franzida. Scarlett segurou a mão da menina e não largou mais. Madalena se virou furiosa para Scarlett, que a enfrentou sem nem mesmo piscar.
- Está óbvio que ela não quer ir. Quando ela estiver pronta, nós vamos. – disse Scarlett.
- Não ouse me desafiar... – Madalena ameaçou. – Eu salvei a sua pele sua vagab...
- Não, fui eu quem a salvou, e como Scarlett já disse, Aletheia ainda não quer ir. Nós já temos um provável meio de sair daqui, e já passamos tempo demais para perder a sanidade no último minuto. Madalena, já chega!
Se olhar matasse, Madalena naquele exato instante conseguiria. Mas não era apenas o olhar, era o seu corpo inteiro, que estava borbulhando como uma panela de pressão. Talvez estivesse mais esgotada do que os outros, afinal, não se é possuído por uma força estranha num lugar estranho todo dia.
A noite aparentemente chegou, e com isso, todos se silenciaram de vez. Aletheia se deitou no colo de Scarlett, e Scarlett não viu problema nisso, aliás, estava sem sono. Madalena ficou apenas fingindo estar dormindo, mas a dor na sua costa apenas piorava, e a ferida parecia estar a cada hora mais aberta, João e os outros adormeceram como pedras. E o mais estranho, nenhum barulho lá fora.
A menina virou o rosto em direção ao queixo de Scarlett, que também abaixou o olhar para vê-la.
- Como era esse monstro, Aletheia? – ela sussurrou, perguntando.
- Era meu pai.





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Black Cherry

sábado, 25 de junho de 2011

The Birds - Capítulo 4

As mãos voltaram ao chão de concreto e desapareceram sem deixar rastros. Rhett desabou no chão, ferido e desmaiado, Angelina sugou todo o ar assim que a mão na sua garganta tomou antes de desaparecer por completo. Scarlett olhou de um lado para o outro, sem saber quem deveria ajudar primeiro. Mas ela foi a primeira a ter a razão retornada ao cérebro.
- Te... Temos que encontrar um lugar logo... – ela falou, sem se dirigir a alguém específico.
João se levantou mais adiante, carregando uma Madalena desfalecida, e Khaydan também fez o mesmo com Rhett.
- E... Eu já tinha visto uma pequena porta, acho q-que é uma toca, antes di-disso tu-tu-tudo acontecer, e... – Angelina pôs a mão sobre os seios, seu coração estava perigoso, e então ela ofegou durante algum tempo, mas não era asma, era o auge do medo.
- Nos mostre, Angelina. – chegou João, com o rosto tão soturno que parecia ser um pedaço das trevas flutuante.
Angelina caminhou com as pernas bambas, com Scarlett e Khayran não era diferente. Ali, apenas João parecia ter a força recuperada, ou pelo menos parte dela. A pequena loira dobrou por um outro corredor aparentemente não tão assustador, e então empurrou o que parecia ser uma parede normal, mas logo se revelou ter uma portinhola que levava ao novo lar.
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A noite em Nova York estava deslumbrante, como quase sempre. Madalena desceu do elevador daquele grande edifício e enfim surgiu para o homem robusto e carrancudo que contava os minutos em que ela se atrasou. As luminárias cintilavam na sua pele negra, no seu vestido preto, curto e bordado, e nos seus olhos ambiciosos.
- Quanto vai ser? – ela perguntou, tirando um celular touch-screen da bolsinha preta que segurava com as longas e glamourosas unhas vermelhas, tão fortes quanto o seu batom.
- Quinhentos é o suficiente. – disse o homem, uma voz grossa e asquerosa.
- Ela não vale só isso. – ela agitou um pouco o salto direito, ansiosa.
- Me prove.
Madalena exibiu fotos sensuais e explícitas de uma garota no seu celular.
- E então, vai querer?
- Claro que quero, adoro carne asiática. – ele riu, e pegou um charuto cubano do bolso, acendendo-o com um isqueiro de ouro. – Quer um?
- Não obrigada. Parei de fumar.
- Traga-a daqui há vinte minutos. Se ela não vale quinhentos, ela vale então oitocentos.
- Ok.
Madalena apertou sua mão e se retirou do edifício quatro estrelas, entrou num carro esporte preto, grande o suficiente para mais carne, e partiu rumo a um beco. Um verdadeiro contraste onde ela estava agora e onde estava antes. De uma linda cobertura para um lugar pequeno, mofado, mal-iluminado, com cheiro de menininhas.
João abriu a porta de um quarto, estava suado e tinha um arranhão no pescoço. Atrás dele, nos cantos e na escuridão, garotas e garotos se encolhiam e abraçavam as pernas, desejando sair daquele pesadelo. Madalena o avaliou e depois avaliou sua mercadoria.
- O que aconteceu?
- Nada demais, Madalena. – João bufou.
- O QUE ACONTECEU? QUEM FEZ ISSO COM ELE? – ela se direcionou às adolescentes com olhar furioso.
- MADALENA! Deixe isso pra lá! De qualquer forma, elas não vão entender.
Madalena respirou fundo, e então a calma no seu rosto voltou.
- Jasmine queria fugir. Foi só isso. – ele explicou.
- Jasmine... Como ela está?
- Não se preocupe, está intacta.
- Ótimo, consegui um bom preço por ela. Traga-a pra mim no outro quarto.
Madalena desapareceu. João se voltou para os olhares amedrontados atrás dele e então se direcionou a uma linda garota de olhos puxados, olhos secos de tanto chorar, pouco mais de quinze anos, corpo perfeito e até bem desenvolvido. Ela sussurrava baixinho alguma coisa misteriosa, mas provavelmente estava orando ou chamando pela mãe.A pele branca como leite do seu braço se avermelhou quando João a puxou, tirou-a daquele quarto, e a postou num outro, bem mais iluminado, quase um pequeno estúdio, com um espelho bordado de luzes e uma mesa cheia de maquiagem, ali no canto, cabides exibindo vestidos, saias, camisas e calças.
Madalena já estava ali, sentada, esperando. Jasmine sentou-se na sua frente, e então pegou um lenço e tirou todo o suor do rosto, mas então novas lágrimas surgiram querendo sair dos seus olhos.
- Por que vocês fazem isso com a gente? – Jasmine perguntou, a voz rouca e pueril.
- Nesse mundo, Jasmine, existem dois tipos de pessoas. – Madalena disse, pegando um rímel e passando nos longos cílios de Jasmine. – As que sofrem e as que fazem sofrer. As que sofrem sempre terão que lutar contra as adversidades, e as que fazem sofrer um dia terão seu devido castigo.
- Por que você escolheu fazer sofrer?
- Isso não faz muita diferença agora. Já estamos no inferno, de qualquer forma. Deus é apenas a catarse disso tudo.
- Eu... Eu quero ir pra casa. Eu não aguento mais... – o delineador deixou seus olhos puxados poderosos.
- Isso já não me interessa.
Jasmine engoliu um soluço, não queria fazer Madalena borrar sua maquiagem, que já estava no fim.
- Vá se vestir. Pegue o vestido vermelho da Donna Karan, ele deixa suas curvas melhores do que já são.
- Si... Sim.
Minutos depois, Jasmine e Madalena já estavam no carro preto com o homem anônimo dirigindo, Jasmine pensou na sua mãe e teve a fértil imaginação de que esta ouviria suas preces e de alguma forma, de alguma maneira, ela a ajudaria a fugir dali. As duas entraram no mesmo edifício luxuoso onde Madalena se encontrava dezenove minutos atrás, e lá estavam o homem quarentão e carrancudo, fumando seu charuto e esperando a deliciosa mercadoria.
- Diga que é virgem, se faça de virgem na hora. E nem pense em estragar tudo. – Madalena sussurrou na orelha esquerda de Jasmine e então a empurrou em direção ao homem mórbido.
E Jasmine foi, andando lentamente e fazendo o que podia para parecer sensual, até que chegou perto do homem e deu um sorriso maravilhoso e encantador para ele. O amplo salão era mais um pesadelo do que um sonho de uma garota rica e esnobe. Mas Jasmine nunca foi rica, tampouco esnobe, e tudo ficou pior do que já era.
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Madalena despertou, e o odor de corpo humano tão logo invadiu seu nariz com ferocidade. Estava no colo de João, sua costa ardia como o inferno, mas mesmo assim ela levantou.
- Madalena!
- Conseguiram obter comida?
- Não... – disse Scarlett, surgindo de um canto escuro da nova toca. – Você foi...
- Fui...?
- Possuída. – disse João, enfim, fitando com atenção a mulher para ver se esta não desmaiava.
Madalena arregalou os olhos quase deixando-os para fora das órbitas. E então tremeu de frio e horror. O que estava acontecendo? Ela estaria pagando por tudo o que ela fez? Se sim, então esse lugar era o verdadeiro inferno. Infinito, claustrofóbico, sem explicação, e ela provavelmente agora era um demônio no seu devido lugar.



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Black Cherry

quinta-feira, 16 de junho de 2011

The Birds - Capítulo 3

- Angelina estava muito magra quando chegou aqui. - disse Madalena, enquanto José segurava sua mão direita. - Você quer mesmo saber o que aconteceu com a grande quantidade de pessoas que estava com a gente?
Scarlett balançou a cabeça. Rhett dormia docemente no colo de Angelina.
- A minha história é quase parecida com a de Angelina. Com o fato de que eu também acordei no meio de pessoas com cabeças de corvos. Mas elas estavam vivas, e estavam esperando a hora de eu despertar para me atacar. Para minha sorte, a cela já estava aberta, e eu claro, corrí como uma louca para fora. Corri e corri, foi tudo o que fiz durante todo aquele dia, subi e desci escadas, passeei por corredores quilométricos, e não encontrei nada que pudesse explicar o fato de eu ter chegado aqui. Mas eu só estava em busca de uma pessoa, o meu marido José. - ela sorriu para o homem ao seu lado.
“Aquele ‘dia’ parecia que não acabava, era como se fossem vinte e quatro horas de sol, eu podia sentir o calor lá de fora, ou sei lá. A questão é que eu já não conseguia discernir o que eu realmente queria. Até que cheguei numa sala triangular, que continha três portas, duas só havia escuridão, uma continha o meu marido.
Quando entrei, o dia havia acabado e as luzes se apagado. Mas a luz naquele salão se acendeu, e esverdeou tudo ao seu redor, era uma luz verde que fedia a carne podre. Eu olhei mais adiante e vi um grande aquário, também iluminado com aquela luz, dentro dele havia uma quantidade exorbitante de... casulos. Casulos brancos e gosmentos, pulsando como se fossem corações anêmicos no fundo do mar. Eu fiquei de certa forma encantada com aquilo, até numa situação como essa...
Olhei para cima e lá estava José, encolhido e preso numa espécie de teia. Ele caiu e bateu a cabeça com força no chão, mas nada tão grave assim. Eu o chamei durante um bom tempo até que ele acordou, e então os casulos no aquário passaram a se agitar, se contorcer, estavam de alguma forma furiosos. O alimento deles não estava mais lá.
José e eu saímos, e ele me explicou que já estava lá a quatro dias, junto com outros quatro homens. Cada dia era um homem, e ele conseguiu se livrar da teia antes de ter o mesmo e desconhecido destino. Bem, as pessoas que nós encontrávamos obviamente nós acolhíamos, foi o mesmo com Khaydan, Khayran e Angelina, os únicos que restaram ao nosso lado.
- Mas o que aconteceu para tanta genter desaparecer de forma tão rápida? - questionou Scarlett.
- Foi num dia em que procurávamos mais mantimento por aí. O dia parecia que estava passando devagar lá fora, então aproveitamos e todos saíram conosco para ajudar. Nenhum relógio avisou que a noite chegaria, mas ela chegou. Uma surpresa que nenhum ser humano são desejaria.
Quando clareou de novo, só tinha sangue, José, Khaydan, Khayran, Angelina e eu. O único resto daquela escuridão foi uma barata preta e cheia de olhos, do tamanho de um notebook, nas costas de Khaydan. Quando ela percebeu que havia luz, ela encolheu os ferrões e algo que parecia ser um tubo para depositar seus ovos, voou e desapareceu como se nunca existisse.
Desde então, só sobrou nós nesses seis meses que se passaram.”
Scarlett engoliu em seco. Khayran adormeceu no peitoral de Khaydan, Angelina também estava sonolenta e ainda afagava os cabelos de Rhett, e Madalena e João apenas encararam Scarlett.
- Vamos descansar. Não sabemos como será o dia amanhã, infelizmente, esse lugar é que traça o nosso destino. – sussurrou Madalena, sem precisar falar com um tom normal, já que estava tão silencioso que se ouvia até a circulação de sangue nas suas artérias.
Todos arranjaram um jeito de descansar e se acomodar na Toca. Khaydan abraçou Khayran e dormiu sentindo-se seguro com seu calor, o mesmo houve com Angelina e Rhett, Madalena e João. Scarlett ficou algum tempo fitando cada um, cada alma confusa que procurava um meio de calmaria naquela tortura incoerente. Por que eles estavam ali? O que aconteceu para eles estarem ali? Aliás, como estava o mundo lá fora.
Perdida em seus devaneios, ela adormeceu profundamente durante um certo tempo. Até uma sirene soar e a Toca ganhar uma luminosidade avermelhada.
- Scarlett! Scarlett! Acorde! Temos que sair daqui! – Gritava Madalena ao seu ouvido, sacudindo-a loucamente.
Scarlett acordou com a cabeça voltando a latejar, e todos a fitavam com pressa.
- Mas deve começar a ficar escuro lá fora!
- Eu sei! Mas já não é mais seguro ficar aqui! – As olheiras de Madalena se acentuaram na luz escarlate.
- Por quê?
- Quando fica vermelho, é sinal de perigo... Vamos logo!
João já abria a portinhola da Toca, enquanto os olhos de Rhett encontravam segurança nos de Angelina, e Khaydan e Khayran seguravam suas mãos. Scarlett levantou num pulo e, atrás de Madalena e na frente de todos os outros, saiu do seu pouco lugar de descanso.
O salão estava com um odor estranho, como se algo muito ruim estivesse se aproximando, e duas das grandes luzes holofotais já estavam piscando numa gargalhada infindável. João estava correndo na frente, guiando seus companheiros naquele inferno, e na verdade sem saber muito para onde ir, apenas deixando-se levar pelo seu instinto de sobrevivência como fizera tantas vezes durante o rápido ano em que residia na prisão nonsense.
Mais um corredor, e a coisa piorava, a escuridão estava chegando mais rápido, e todos se sentiam desnorteados como baratas. Até que, sem avisar, tudo se apagou de uma vez, e as damas prisioneiras gritaram num coral de horror.
- Não... Não se afastem! – Esbravejava João no escuro do longo corredor. – Tentem se encontrar e ficar mais próximos!
Scarlett encontrou os braços dos gêmeos, e os gêmeos os de Angelina e o trêmulo Rhett. Madalena se perdeu dos outros.
- MADALENA! MADALENA! – Chamou João, também sem se encontrar com o amontoado do seu grupo perto de uma cela. Mas Madalena não respondeu.
Por um pequeno momento tudo se silenciou, e Angelina soltou um suspiro, tanto preocupada quanto com medo de fazer mais barulho do que João estava fazendo no seu provável futuro luto.
E então ela sentiu.
Uma mão tão fria que chegava a queimar segurou suas pernas, mas ela não gritou tampouco se mexeu, ela apenas segurava a mão de Rhett e orou para que aquela mão parasse de tocá-la com curiosidade, e para que Rhett não se desesperasse.. Depois, outras mãos seguraram as pernas dos gêmeos, e eles, percebendo que o mesmo acontecia com Angelina, ficaram calados e encostaram suas testas evitando ao máximo respirar forte. Scarlett levou um pequeno susto quando aconteceu com ela, o que fez as novas mãos segurarem com mais força suas canelas na calça jeans.
- Não... se mexa... vai ficar tudo bem... – sussurrou Angelina para Rhett, que não parava de tremer.
Mais mãos congelantes e fétidas surgiram para agarrar Rhett, mas seu desespero era maior, e as mãos gostavam do desespero, e então começaram a subir no seu corpo mais e mais. Rhett gritou, e as mãos se agitaram, retalhando e arranhando quem quer que estivesse ali. O grupo se dispersou e as luzes se acenderam violentando os olhos dos condenados.
As pernas de Rhett eram as que mais sangravam, e as de Scarlett estavam cheias de hematomas e marcas, mas Rhett estava ainda pior. Mãos e braços, longos, azuis e podres seguravam o adolescente como que querendo puxá-lo para baixo até esmagá-lo, Angelina não conteve os gritos e fez de tudo para salvar Rhett, mas uma mão grossa e áspera agarrou seu pescoço e a segurou levantando-a e deixando-a sufocada. Algumas mãos já estavam desaparecendo, mas aquilo não era nem o começo.
João, mais adiante, lutava contra uma Madalena enfurecida que vomitava sangue na sua face, seus dentes estavam crescendo como presas de leão e suas orelhas estavam pontiagudas, seus cabelos flutuavam como se tivessem vida própria. João a abraçou e começou a falar sem parar que a amava. Só Scarlett presenciou a cena.
Madalena gritou enquanto era abraçada pelo amor de João, e uma sombra enorme e disforme saiu das suas costas fazendo uma ferida horrenda atrás de si. Ela desmaiou, e pareceu que nunca havia se transformado num monstro feroz até a dez segundos atrás. E então, a hora de despertar chegou ao fim.





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Black Cherry

sábado, 11 de junho de 2011

The Birds - Capítulo 2

- Eu não consigo entender. - disse Scarlett, enquanto corria ao lado de Madalena, atrás de José, Khaydan, Khayran e na frente de Rhett e Angelina - Como o dia pode passar tão rápido assim?

- Há coisas que simplesmente acontecem dentro desse lugar... - arfou Madalena, a cada minuto olhando para trás.

- Temos que ir mais rápido, as luzes já começaram a se apagar. - anunciou a voz máscula de João, e era uma total verdade. - A toca é na outra sessão.

- Outra sessão? - questionou Rhett, quase gritando de desespero. - Quantas sessões tem nesse lugar?

- Não sabemos, temos a impressão de que esse lugar não acaba. - respondeu Angelina, ao seu lado.

José deu um encontrão na porta no final daquele extenso corredor, e quase todos se espatifaram uns com os outros também com a parada súbita. Scarlett olhou para trás, e a escuridão já estava chegando mais perto, ela não estava entendendo, mas seu medo era a maior razão naquele momento. Uma a uma, as luzes estavam se apagando, como se tivesse uma criatura invisível dando passos em cima delas, se aproximando com tranquilidade para perto do grupo. Rhett suou frio ao ouvir um farfalhar de asas que ele conheceu durante cinco dias sem comer nem tomar banho. Um grito mastigou a sua garganta, mas ele resolveu permanecer calado, da última vez que gritou, o chão da cela tremeu e ele pôde distinguir na escuridão uma alegoria de patas nojentas dançando nos ferros das grades, enquanto guinchos agudos insuportáveis se propagavam no ar. Sua espinha dorsal se contorcia de nervosismo só de lembrar.

- Es... Está chegando! - ele balbuciou.

- Tenha calma, Rhett. - Angelina tentou tranquilizá-lo.

- Se afastem. - José fez um pedido difícil para eles cumprirem.

O homem corpulento e de brilhante pele escura levantou seu grosso machado e arrebentou a maçaneta e a tranca da porta de uma vez só. Chutou-a e entrou, com Khaydan e Khayran logo atrás falando para os outros atrás deles. Após a porta, uma escada em espiral branca e extensa foi feita de saída. José subiu pulando de dois em dois degraus rapidamente, e o grupo tentava fazer o mesmo, até a desajeitada e pequena Angelina, que ainda falava de tudo para tranquilizar Rhett.

As luzes lá embaixo iniciaram seu ritual de apagamento, como que rindo da desgraça daqueles pobres seres humanos que subiam desesperadamente os degraus infinitos. José finalmente parou de frente para uma porta, e também a arrebentou com sua arma furiosa. E então, mais um corredor para correr.

- Estou ficando cansada. - disse Scarlett, em meio a respiração acelerada e os batimentos cardíacos irregulares.

- Só mais um pouco. - disse Madalena, fitando-a com um pouco de tristeza.

Após cinco metros longe da porta mutilada, esta se fechou sozinha com uma batida estrondosa e a escuridão também chegou no novo corredor. Rhett soltou um gemido de choro e Angelina segurou sua mão, quase que instintivamente.

- Vai ficar tudo bem. Você está conosco agora. - ela disse, com um sorriso amargo.

Eles dobraram do corredor para um amplo salão triangular, onde lâmpadas fosforescentes e dezenas de computadores gigantes de última geração cobriam as paredes. José se apressou para um canto, e arredou uma máquina descobrindo ali uma porta de ferro que não se podia destruir, pegou uma chave e a destrancou, pedindo para que Madalena, Scarlett e Angelina entrassem primeiro, e elas logo entraram. Ele foi o último a penetrar, enquanto assistia silenciosamente o salão se apagar misteriosamente. Fechou e trancou a porta, sem ao menos se lembrar de que tinha que respirar.

Estava escuro. Rhett se encolheu no colo de uma Angelina encostada numa parede, e um lampião se acendeu, iluminando o rosto cintilante de suor de Madalena, que com a ajuda de Khaydan e Khayran, acenderam outros lampiões. Scarlett se sentou num canto um pouco mais distante dos outros, abraçando a si mesma num sinal de insegurança, enquanto fitava indiscretamente Rhett chorar em silêncio e Angelina afagar seus cabelos. Khayran também se acomodou nos braços de Khaydan, como que num toque fraternal da qual somente eles poderiam compreender. Madalena e José se acomodaram em caixas de madeira, e assim todos permaneceram por um tempo, um observando o outro, conversando sem precisar falar.

- Eu costumava criar roupas... - disse Angelina, ainda acarinhando o adolescente – Até comecei a fazer sucesso, e um dia antes de eu conceder uma entrevista para a Vanity Fair, acordei aqui, no meio de um monte de... - ela engoliu em seco – corpos em estado de decomposição, presa numa cela pequena e apertada, eu iria morrer sufocada e infectada se minha namorada não me visse e me tirasse de lá.

“ Então olhei para trás, e vi onde eu estava uma única vez. Todas aquelas pessoas tinham cabeças de corvos, enormes, do tamanho de suas cabeças humanas, algumas ainda abriam seus bicos como que anunciando que estavam vivas por enquanto, talvez pedindo por salvação... Mas eu estava com tanto medo e desespero que não dei a devida importância para algo tão estranho e... surreal. Por que eu havia acordado lá? Nunca soube responder...

Minha namorada se chamava Zooey, e ela sempre tinha esse poder de conseguir me encontrar onde quer que eu estivesse...

No primeiro dia, Zooey eu obviamente não sabíamos o que fazer nesse lugar, e as luzes começaram a piscar, e depois a se apagar, uma a uma. Encontramos uma pequena sala de compartimentos de higiene e nos escondemos lá, até ficar quente e os barulhos cessarem. Saímos e passamos mais outro dia caminhando e procurando alguma coisa para comer, mas quanto mais caminhávamos pelos corredores mais pareciam que eles não acabavam. Zooey começou a ficar descontrolada com isso... passou a gritar, a correr sem medo quando ficava escuro, e eu fazia de tudo para acalmá-la, e tudo era em vão.

No quarto dia, conseguimos achar um pequeno compartimento oculto sob um tapete, onde tinha garrafas de água suficientes para mais quatro dias, comida enlatada e – ela parou para rir – um abridor de lata. Mas ela já estava completamente insana, e nada do que eu dizia ou fazia ou tentava fazer era capaz de deixá-la quieta. Até que numa “manhã”, ela não estava mais no esconderijo comigo. Tinha desaparecido sem deixar rastro algum, e dessa vez quem ficou desesperada fui eu.

Eu saí em busca dela, é claro, e passei a correr e gritar e fazer barulho nas grades das celas como ela, enlouquecida. Eu acabei ficando longe demais da minha toca atual, e o dia estava iniciando sua “noite” aqui dentro, eu não tinha lugar algum para me esconder, até que eu pude ouvir os gritos de Zooey, e todas as luzes se apagaram de uma vez.

Fiquei estática, meus pés não queriam se mover, estava com tanto medo daquele barulho de asas e de guinchos, de línguas serpenteando por todos os lugares... Tudo o que consegui fazer foi tentar gritar, mas nem minha voz saía mais. Ela só conseguiu sair quando senti duas fileiras de dezenas de patas pontiagudas nas minhas costas, me arrepiando e me deixando mais instintiva do que já estava...

Tirei minha blusa e a sensação sumiu, então voltei a correr e a gritar por Zooey e as luzes piscaram, como que brincando com as nossas vidas. E depois tudo se silenciou e a ficar escuro mais uma vez, eu desmaiei.

Quando acordei, estava sentada e apoiada numa parede quente, segurando a cabeça de Zooey, e vendo-a logo mais adiante, com uma cabeça de corvo acima do seu pescoço, ela estava piando e eu pude ver que lágrimas saíam dos seus olhos que não eram seus. Eu abandonei sua cabeça original e fui em direção ao corpo.

Seus braços e pernas estavam escamosos, sua barriga se mexia como se tivesse uma criatura ali dentro, ela pulou em cima de mim e tentou me matar, mas quem matou no final fui eu, pisando na sua cabeça até seu bico quebrar e seus olhos estourarem das órbitas. Eu não tinha mais nada. Estava tudo acabado para mim.

E eu fiquei ali, sentada até quando ficava escuro. Por incrível que pareça nada aconteceu comigo, por mais que eu desejasse que acontecesse.

Três dias se passaram até Khaydan e Khayran passarem naquele corredor e me avistarem, me acolherem e me salvarem. Quando chegamos na toca deles, eu acabei conhecendo também José e Madalena, e mais um grande quantidade de pessoas...

Um ano se foi, e eu só luto pela minha sobrevivência agora pela memória de Zooey que me salvou, e nada mais. Aqui estou.

- O que aconteceu com a grande quantidade de pessoas? - perguntou Scarlett, aflita e chocada com toda a trajetória de Angelina, olhando de um lado para o outro lentamente.

Angelina apenas sorriu tristemente, e abaixou a cabeça para admirar os longos cílios de Rhett, nas suas pálpebras intocáveis que descansavam seus olhos esquizofrênicos, num sono profundo. Anjo raptado.


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Black Cherry

quinta-feira, 9 de junho de 2011

The Birds - Capítulo 1

Suas costas deram uma pontada dolorosa, seu nariz se reprimia com o odor de urina forte e asqueroso que emanava em todo lugar, metade da sua face estava úmida e de molho na poça no chão frio e sujo. Scarlett abriu os olhos e outra pontada, agora na cabeça, quase a nocauteou. Ela olhou para as três paredes, todas fechadas, sem conseguir explicar o que estava acontecendo. E apenas uma era visível para o lugar que, aparentemente, era grande, e estava toda gradeada. Scarlett era um passarinho numa gaiola imunda, de um calor claustrofobicamente abafado.
Uma outra criatura se moveu, debaixo de uma coberta escura, como uma barata grande se espreguiçando, apoiada num canto mais escuro. Scarlett esperou um minuto até que ela pudesse fazer alguma coisa, mas não fez.
- O... Olá? – ela perguntou, medrosa.
Uma cabeça saiu das cobertas, uma cabeça descabelada e tão imunda quanto a cela, como que brotando da terra. Um adolescente branquelo e irritado. Bochechas rosadas, lábios finos e róseos, olhos azuis e enormes e cabelos negros desgrenhados. Um verdadeiro anjo malicioso de Botticelli num inferno descarado de Bosch.
- O que é? – sua voz era arrogante.
- Você sabe como... como eu ou nós paramos aqui?
- Sei tanto quanto você.
Suas feições de estresse se transformaram em angústia, um leve desespero.
- Você está bem?
- Você estaria bem acordando num lugar desses?
- Me desculpe eu...
- Relaxa. Agora que você acordou, há uma cabeça a mais para pensar em como sair daqui.
- Você já pensou?
Ele fechou sua cara, realmente irritado.
- Acha que eu estava fazendo o quê? Dançando Lady Gaga?
- Escute aqui garoto, eu não sei o que fiz para você estar sendo tão mal educado comigo. Se você quer trabalhar em dupla, é melhor ser um pouco menos estressado.

Ele bufou, se desvencilhou do cobertor e tocou na parede, estava quente, era manhã lá fora, ou não.
- Tem sol lá fora. Está seguro para tentar sair daqui.
- Seguro? O que acontece pela noite?
- Barulhos, barulhos estranhos. Guinchos, zunidos, asas...
Scarlett arregalou o olhar.
- Eu fico com muito medo, e por aqui fica tudo escuro, então eu uso esse cobertor pra abafar um pouco esses barulhos e tentar dormir. Quando a parede fica quente, quer dizer que é dia lá fora, então as luzes se acendem aqui dentro, e aí fica tudo silencioso.

- Você nunca percebeu ou ouviu uma coisa mais... Humana? – ela gaguejou.
- Não.
- Você está há quanto tempo aqui? Aliás, você viu como eu cheguei aqui?
- Não sei. Eu acordei e você estava aí, acho que deve ter passado quatro dias até você acordar. Eu percebi que as regras desse lugar funcionam assim no final do segundo ou terceiro dia, acho... Aliás, meu nome é Rhett.
Ele parou, olhou para os pés cheios de unhas bordadas com o preto da sujeira, e então voltou-se para ela.
- Você se lembra do que estava fazendo antes de acordar aqui? Se estava na sua casa ou trabalhando?
- Eu... eu não sei. Só me lembro de ter assistido pela madrugada uma notícia de última hora e bastante estranha, e então eu dormi. Devia ser quinze de maio.
- Hoje é dezenove.
Outra vez, seus olhos pularam das órbitas.
- Como você sabe?
Ele levantou o braço e apontou para além da grade. Numa parede, havia uma espécie de máquina retangular residindo bem no meio, dizendo que era dezenove de maio em letras eletrônicas sob um fundo esverdeado.
- Por que não diz as horas?
- Parece que temos que saber por conta própria os horários.
Um barulho ensurdecedor começou, e depois passos apressados ecoaram pelos corredores como marca-passos assustadores. Rhett se encolheu num canto da parede de volta, a luz dentro da cela se acendeu, e o coração de Scarlett rufou e quase quebrou sua caixa torácica, seguido por uma série de arrepios.
- Ahh... AAAhh... – gemia Rhett, traumatizado com aquilo. – Não pode haver barulho durante o dia, não pode haver barulho durante o dia... – falava para si mesmo.
O barulho foi seguido por uma gritaria, e depois um pedido de silêncio. Scarlett pôs a mão entre os seios, pensativa. Sim, eram outras pessoas!
- EI! AQUI! – gritou. – ESTAMOS AQUI!
Rhett se levantou num pulo.
- Você está louca?
- Estou louca para sair daqui, Rhett.... EEEEEIIII! AQUIIIIIIII!
- Tem gente naquela direção! – disse o eco de uma voz feminina. – Vamos ver!
O rosto de ambos se iluminou. Um grupo de cinco pessoas, três homens e duas mulheres, chegou com vigas de ferro e facas nas mãos. Scarlett abriu a boca em suave medo, mas logo foi acalmada.
- Não precisa ter medo. Vamos ajudá-los e não matá-los. – sorriu uma das mulheres, de pele negra e cabelos crespos, tranquilizando os dois prisioneiros.
- Agora, se afastem da grade. – disse um dos homens, também negro, musculoso, segurando um grande martelo.
Bastaram duas fortes marteladas no cadeado enferrujado para este se destrancar. Rhett saiu como uma lebre ansiosa da cela, olhando apressadamente para todos os lados. Scarlett teve que ser a educada.
- Obrigada. – disse, tentando sorrir tanto quanto a mulher negra.
- Por nada. – disse o homem negro. – Bem, vamos logo nos apresentar, eu sou José.
- Eu sou Madalena. – disse a mulher negra.
- Khaydan. – sorriu um dos homens, de pele mestiça e olhos castanhos. – e esse é meu irmão gêmeo Khayran. – e postou a mão direita sobre o ombro de Khayran.
- Angelina. – apresentou-se a outra mulher, loira, baixinha, com grandes seios e grandes olhos esverdeados.
- Meu nome é Scarlett, e aquele garoto é o Rhett. – disse Scarlett, meio constrangida com o comportamento excêntrico de Rhett.
- Ele está bem? – perguntou João, assistindo Rhett correndo para lá e para cá.
- Acho que sim. Só é um pouco neurótico. – e deu um meio sorriso.
José fechou a expressão risonha para um ar preocupado, entrou na cela arregaçada e tocou na parede. Estava morna.
- Essa não. – ele anunciou.
- Aconteceu de novo? – perguntou Angelina, seus olhos eram duas petecas assustadas.
- Sim. Temos que nos apressar e voltar para nossa toca.
- Toca? – perguntou Scarlett.
- É um dos refúgios seguros que existem por aqui. – explicou Madalena.
- Vocês estão aqui há quanto tempo? – questionou Rhett, parecendo agora menos afoito.
- Um ano. – respondeu Khaydan, com um meio-sorriso mórbido.
Scarlett e Rhett respiraram fundo. E então voltaram a si.
- O que aconteceu de novo? – Rhett estava com as bochechas mais rosadas do que o habitual.
- O dia está passando rápido. E isso é muito, muito ruim quando você está um pouco longe da toca. Vejam. – Madalena apontou para o calendário eletrônico.
Scarlett sentiu um arrepio tenso e horrendo percorrer pelo seu corpo, seguido de Madalena que segurou sua mão e a mão de Rhett, e todos correram num silêncio estuprado com o barulho de uma campainha estridente e violenta. As luzes começaram a piscar, como que anunciando a chegada da noite prematura. O calendário eletrônico marcava vinte de maio, e embaixo da data, um anúncio.
“Hora de despertar”.



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Black Cherry