Solitude, darkness and love


"I don't wanna admit, but we're not gonna fit"
Mostrando postagens com marcador Lucas Lustat. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Lucas Lustat. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Cânone da Tempestade:5 - Tempestade II


Um escorpião passeou pelo meu corpo nu, injetando seu veneno letal perfurando minha pele vulnerável, arranhou-me as costas, lambeu meu sexo ereto e pulsando de desejo, mordeu minha boca rosada, roçou em minhas nádegas suadas, meu corpo suado, nadou nos meus cabelos, percorreu seu ferrão afiado deixando-me completamente submisso aos seus caprichos, o escorpião transformou-me em devasso, ele se tornou escuridão, então fiquei na escuridão. Cuspiu veneno na minha face, passou a língua em minhas bochechas coradas. E, então, meu corpo destrancou-se das correntes.

O deserto ardia na minha pele despida, corri nu pelas dunas colossais, meus pés afundavam na areia da dor, fugi do escorpião, e de suas garras sensuais que queriam me tornar seu escravo em seu quilométrico palácio pagão, meu peito ardia, não conseguia respirar. A escuridão dele me perseguia, até que a cegueira que me atingia deixou tudo branco, meio cinza, como aquela cidade em que eu queria mais é sair o mais rápido possível.



Me senti completamente indefeso, cego, nu, violado, com frio, até que veio a imagem do sorriso que eu vi uma única vez na minha vida, o sorriso mais especial do mundo, o melhor sorriso do mundo, mesmo com aqueles olhos que guardavam tantas mágoas, mesmo com a morte, eu percebi que ele foi feliz ao meu lado, eu o fiz feliz, e isso o satisfez. Naquele momento eu havia entendido, mas não sabia, o sorriso de Danilo Armand foi feito para me salvar.







Então me tornei luz...






~





Cânone da Tempestade - Fim.






~









Andrew Oliveira, ou Black Cherry :)

Cânone da Tempestade:5 - Tempestade I




Talvez ele não estivesse tão satisfeito comigo, ou nem tão feliz como parecia, talvez ele tenha sido apenas uma máscara durante os dois anos em que estive com ele. Eu não havia parado de pensar em Danilo Armand um minuto sequer desde a primeira vez em que o vi.

Minhas malas já estavam prontas, eu ía sair da cidade Cartesis, não queria mais ficar ali, aquele ar me intoxicava, me deixava com lembranças ruins. Dei um último passeio pela cidade nebulosa, e fiquei um tempo observando o quintal cheio de flores silvestres da casa de Danilo, seu irmão deveria estar por aí, jogado em algum beco com o braço entrando em processo de necrose, bem feito, pensei.

A garoazinha inocente cresceu para uma chuva grossa, espessa. Corri de volta para o meu apartamento, minha mãe decidiu que íamos embora depois que a chuva ficasse mais fraca, mas não ficou. E partimos.

A estrada estava um inferno, os faróis dos carros até foram acendidos para não ocorrerem acidentes, a chuva grossa tornou-se tempestade, meu coração fragilizado tornou-se tempestade, eu não tinha ido ao enterro de Danilo Armand, não queria me despedir dele, para mim, ele ainda estava vivo, dando o seu único sorriso.





Minha sombra tornou-se luz, e a luz que me guiava tornou-se sombra, eu estava brilhando, mas não conseguia ver para onde meu caminho áspero iria se trilhar, uma imagem de Danilo violentou os meus olhos, e me tornei cego de mim mesmo.




~





Continua...





~







Andrew Oliveira

terça-feira, 1 de junho de 2010

Cânone da Tempestade:4 - Pulmão


Os ossos trêmulos, mesmo naquele único sol, congelaram tão rápido que estavam prestes a se quebrar, as veias pulsaram demoníacas, o sangue que logo ferveu aqueles corpos tão próximos. A pele, amortecida, reacendeu-se como se acende a luz de um trovão, tornando-se uma fina camada sensitiva que, a cada toque, turbilhava de prazer e da necessidade de uma outra pele, essa estava ali.

A estrela morna, reconfortava de uma forma tão singular aquele momento, aquele momento era único, aquele momento era o último. Borboletas violetas suspiravam em êxtase no estômago de Danilo Armand, como se estivessem num campo verde-esmeralda e não dentro dele, dentro dele estavam escritos, sorrisos mofados, abraços controlados, dentro dele era tão agitado, mas tornou-se tão calmo e seguro de si, seguro de todos os seus desejos, seu maior desejo era aquele.

Uma garoa ainda caminhava pela cidade Cartesis, mas o sol estava onde deveria sempre estar, estava claro, brando e expulsando o frio úmido de lá, os corpos ainda não estavam separados.

O carro vermelho e antigo estava pairado perto de uma loja, naquelas ruas tão grandes, enquanto o motorista paralisado de medo e tensão assistia o desespero da morte. Ele tinha bebido mais do que o normal, sua mulher se comportava como uma meretriz, ele não tinha culpa.

Os lábios se encontravam num sabor tão apetitoso que não se largaram nem um minuto, um gosto perverso, magnífico, celestial, obscuro, era gosto de luxúria, era gosto de sexo, era gosto de respiração, era gosto de vontade, era gosto de amor.

Seus braços estavam colados, seus corpos se tornaram um só, o sangue saia sem parar de Danilo Armand, ele estava morrendo, que se dane o inferno, eu já tenho um anjo só pra mim!


Lustat era o Sol, Armand era a Lua.



Ele olhou para Lucas Lustat uma última vez, seus olhos nã0 estavam mais tão cansados. Ainda no seu colo fraternal, estava feliz, e entregou para ele seu único sorriso.





~







Andrew Oliveira :)

sábado, 29 de maio de 2010

Cânone da Tempestade:3 - Chaveiro


Lucas Lustat ainda se lembra de cada detalhe de Danilo Armand, da sua alma escondida, dos seus sorrisos aparentes, dos seus sapatos sem cadarços, dos seus cabelos desarrumados, da sua calça rasgada nos joelhos, da sua voz reconfortante, da sua pele pálida e limpa, dos seus olhos cansados, quase sempre olhando para baixo, do seu corpo marcado, das suas lágrimas de desabafo, dos momentos em que ele sempre quis estar ao lado dele, das suas notas que foram recuperadas graças à amizade de Lucas, da sua casa que foi arrumada à ordem de seu novo amigo, das flores silvestres que foram plantadas no quintal de sua casa, como presente de aniversário, dos filmes antigos nas madrugadas, dos cochilos no colo dele, das tardes nubladas de música e estudos, dos seus abraços tão carinhosos e protetores, dos banhos de chuva, e da única vez que Lucas pôde ver o sol ao lado de Danilo Armand, foi seu último sol, e seu único beijo.

A tempestade ficava cada vez mais forte, de uma intensidade nunca vista naquela cidade, Lucas levantou do chão, ferido, no ócio de seu sofrimento, no limite da sua capciosa dor, lembrou dos olhos cansados de Danilo Armand, sua alma estava tão cansada quanto aqueles olhos, sua audição não alcançava mais nenhum som, Lucas se encontrava completamente distante daquele mundo;

Até que pôde ouvir o som de uma gota no chão,

e, logo após, da tempestade, a tempestade do seu coração.

Foi em direção a ela, era tão fria, porém tão confortante, se sentiu abraçado pela água, a grama úmida nos pés descalços, a roupa molhada colando-se no corpo, as mãos trêmulas e inseguras, os olhos fechados, um pouco de chuva entrando na boca aberta, a face em direção ao céu, recebendo todo o amor que sentiu apenas uma vez, toda a liberdade que viu apenas uma vez, toda a felicidade que se permitiu apenas uma vez.

A tempestade gritou, gritou insana enquanto despertava, Lucas Lustat chorou, chorou insano em forma de tempestade.




" Atrás do barco de nuvens, um sol acorda de sua hibernação
Refresca-se com alguns pequenos pingos da chuva
Brinca com as quentes chamas de fogo
E faz arco-íris... "


~










Andrew Oliveira,
Poema (em azul) de Sigur Rós ^-^

Cânone da Tempestade:2 - Canário


Aquele olhar cansado
Filho da escuridão
Leitor Nublado
Exausto, exausto em vão

Aquele olhar cansado
Cântico bêbado, lamentado
Pés descalços na grama
Folhas de chuva na cama

Aquele olhar cansado
Explosão de um crepúsculo partido
No pulmão de um amanhecer
Floresta negra do seu coração anoitecido

Aquele olhar cansado
Estrela matutina do seu universo
Pássaro de chamas no seu inverno
Cinzas cósmicas, do inverso

Aquele olhar cansado
Pulsa no brilho do alvorecer
Interna dor, jamais vista
Frieza-escudo para o mundo

Aquele olhar cansado
Porão de bondade, escondido
Solitariamente sem estrada alguma
Voluntariamente sem estrada alguma

Aquele olhar cansado
Dono de si mesmo
Senhor do seu dia
Senhor do seu enredo

Com suas pequenas asas
Sua voz afável
Canta ternamente
Sua última canção de amor



Queria tanto saber voar...









~







Andrew Oliveira

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Cânone da Tempestade:1 - O Aluno Novo




Danilo Armand permitiu-se mais uma vez cochilar durante a aula de matemática, era revisão, e ele já estava no 3° ano do Ensino Médio, mas não se importava, pois sua patética e superficial vida se encontrava completamente perdida. Sonhava com pessoas boas e dias ensolarados, estou de saco cheio dessa chuva!
Fazia meses que chovia sem parar na cidade Cartesis, a terra natal de onde Danilo nunca saíra, nunca se sentiu bem ou de bom humor ativo lá, era como um veneno paralisante que o deixava preso, era como uma gaiola. Surgiu um campo cheio de arco-íris se misturando numa dança bêbada em sua cabeça, sorriu levemente, até que foi interrompido:
- Armand! Venha aqui no quadro escrever o resultado do cotangente de X! - Berrou o antipático professor.
- Ah... Eu não tô afim, e eu não sei. - Nem levantou a cabeça, não gostava de olhar muito nos olhos das pessoas.
- Isso é ordem, Armand! - Enfureceu-se.
- Pergunta pra quem sabe, oras... Eu já disse que não sei!
- Ele não passa de um idiota, professor! - Intrometeu-se Lídia, a inimiga de Danilo. - Por que o senhor ainda insiste em perguntar para as portas?
A turma pôs-se a gargalhar.
Danilo parou na sala da coordenadora pedagógica:
- Danilo... Danilo... Quando você vai mudar? Estou cansada de chamar a sua atenção! Você responde para os professores, está com a menor média da sua classe, e nunca me conta o que você tem, você não era assim! O que aconteceu com você?
Ele poderia responder sobre seu desânimo para viver após o assassinato de seus pais, e que morar sozinho com um irmão mais velho egocêntrico é terrível, mas pensou, como sempre, em controlar seus sentimentos, e preferiu responder:
- Terminou? - Seu olhar cansado não piscou.
- Danilo, vou ter que chamar seu irmão.
Danilo levantou entediado da cadeira, e partiu para casa.

Era uma casa de tamanho normal, bem protegida e à 5 quadras de distância da sua escola. O local estava uma verdadeira zona, roupas e objetos dispersos nos chãos , nas cadeiras e sofás, louças sujas, uma baderna! Apenas o quarto de Danilo permanecia intacto, limpo e completamente são. O garoto entrou no quarto do irmão para avisar que já estava em casa, avistando-o sentado no chão aplicando-lhe uma injeção, já era uma cena do seu cotidiano.

Pessimismo, melancolia, sono, tédio, depressão pós-sono, vontade de chorar, mais sono, olheiras, mais sono, mais sono... Esse poderia ser mais um dia normal na vida de Danilo, até o momento em que entrou um ser nervoso, de face tão bela, exalando ingênuidade, parecia ser tão inseguro.
- Temos um aluno transferido, pessoal. - Falou a professora de Língua Portuguesa. - Conheçam Lucas Lustat!










~







Andrew Oliveira ;*

sexta-feira, 9 de abril de 2010

O Sono De Stella



- Venha para Paris comigo, meu belo anjo!

Eram as palavras que eu mais queria ouvir, naquela época, com apenas 17 anos e fugitivo da casa de meu padrasto, cuidando apenas de minha mãe, resolvi aceitar o convite daquele ricaço de 34 anos, ainda preservando uma face de criança travessa e corpo escultural, que me penetrava tantas vezes durante tantos dias de todas as formas e posições possíveis, ele era carinho e parecia me amar tanto, mas uma das maldições que um michê carrega é não poder se apaixonar por nenhum cliente, homem ou mulher, rico ou classe média, eu nunca realmente me importei com isso, já que as minhas verdadeiras paixões estavam mortas, e me mataram também. Ele só era assim comigo pelo meu corpo, e não pelo meu coração, apesar disso me prometeu mil e uma coisas, eu estava tão cego que não enxergava a gravidade das consequências.
O homem excitado carregou-me em seus braços, e, juntos, lavamos nossos corpos suados de sexo numa enorme banheira de hidromassagem da sua deslumbrante suíte.


Assentos, portões, tubulações de ar, janelas maiores do que o local onde eu durmo, pela primeira vez eu estava entrando num aeroporto, tão emocionado e debaixo de uma noite que brilhava tanto quanto Paris nos meus sonhos, todas as minhas roupas foram compradas e vestidas pelo meu cliente, às vezes ele me tratava como uma criança mimada, eu até me sentia meio desconfortável coberto por aqueles panos de grife mais caros do que ouro, pois havia me acostumado a passar dias inteiros andando nu pela suíte do meu amante temporário. A minha primeira vez foi com ele, e ele comprou minha virgindade por uma grana exorbitante, claro que a maior parte foi para o ladrão do meu cafetão. Fui leiloado como um belo objeto de arte, mas não fui feito para se admirar, e sim, para se usar. Ainda gosto de me sentir como uma pintura abstrata, daquelas em que você consegue penetrar no cérebro do artista pelo simples fato de ver de perto sua obra, mas não consegue sair de lá.



Sim, eu sou a pintura de um pesadelo, a escultura de um destino, a tinta que representa uma dor.



Ainda de mãos dadas com aquele homem, vi por uma das janelas gigantes, um avião decolando, e de repente todas as imagens de minha mãe definhando-se lentamente em câncer rodeavam nos meus pensamentos, e me dei conta novamente ao cair na realidade que estava vendendo meu corpo por ela, para pagar todas as despesas dela e curá-la o mais rápido possível. Uma culpa enorme me tomou por deixá-la sozinha no hospital, internada e sem ninguém para conversar ou consolar.
Mas eu tenho que ser forte! Tenho que ter coragem para enfrentar tudo isso por ela! No momento, meu desespero e meus caprichos fizeram um misto de implosões que resultaram numa dor ainda maior, juntando com a culpa, eu estava completamente apodrecido por dentro.
A cada passo que eu dava era uma recordação, mais forte, mais forte, mais forte...

- Eu não sei se devo realmente ir com você, Arthur. - Meu peito doía, apertava, e se acontecesse alguma coisa com a minha mãe e eu não estivesse lá?

- Fique calmo, meu anjo, eu paguei para que vários enfermeiros reparassem a sua mãe enquanto você estiver ausente. - Era óbvio que aquele canalha estava mentindo, mas naquele dia eu estava tão dopado de emoções que cheguei a acreditar.

Um frio na barriga e um arrepio me consumiram quando o avião decolou, meu amante beijou minha boca ressecada, e eu adormeci na minha solidão.
Bocejei, esfreguei os olhos e os abri nem tão ansioso quanto antes. Estava mais frio, e o avião já estava sobrevoando pela cidade da luz, se preparando para pousar. Olhei pela janelinha e meu coração pulou ao ver a torre Eiffel de cima, Paris era tão limpa e poética vista de uma janelinha de avião, eu quase cheguei a sorrir. Mas, por mais que eu fugisse ou voasse para longe dela, a manhã nublada ainda me alcançava.



Eu quero o sol.



Na verdade, não tinha mudado muita coisa, era só mais uma suíte de luxo de sempre, os mesmos vinhos “raros” de sempre, e as mesmas horas de sempre servindo aos desejos sexuais de Arthur. Eu nunca senti prazer transando com Arthur, nem com ninguém, na verdade, era mais nojo e repulsa do que prazer. Arthur era somente um lobo com grana, muita grana, por sinal.
Arthur finalmente estava cansado, já era madrugada, e ele resolveu arrumar suas malas, ele sempre gostava de arrumá-las, assim, se sentia sob controle de qualquer situação.

O telefone tocou, era para mim:

- Lucas falando, quem gostaria? - Falei.

- Lucas, sou eu, o médico da sua mãe. Me desculpe por dizer isso agora, mas eu tenho que falar.

- O que aconteceu? - Me assustei.

- A sua mãe....

- O que tem minha mãe?

- Eu... Eu sinto muito, muito mesmo, Lucas... Descobrimos que ela tinha mais um tumor
na sua cabeça, e que ele se rompeu.....





Desliguei o telefone.












Eu não vou chorar!









Avisei para Arthur que iria sair um pouco, para tomar ar, ele não viu problema, um pouco de ar na hora da morte é respeitável, até.

Eu e os restos de minha vida andamos pelas ruas de Paris lutando um pouco contra o frio seco de lá, que queria me fazer bem, mas eu não deixava.
A noite clareada por prédios, lanchonetes, moteis, postes e pessoas me alienava totalmente, até que o encanto foi quebrado quando ouvi a voz forte e desbocada de uma mulher incrivelmente linda que passava por ali com sua cúmplice noturna, parecia que eu conhecia aquele rosto há tanto tempo, ela se espantou ao me ver de frente para a sua face reclamando do frio, ficou alguns segundos me encarando como se me conhecesse também, até que voltou à sua expressão de desdém e se direcionou a mim:

- O que foi? Vai ficar só olhando ou vai pagar?

- O quê? - Mais um susto.

- Você é otário ou o quê?

- C.... Calma, eu só estava passeando. - Sorri meio torto.

- Honey, não existem pessoas que gostam de passear por entre essas bandas de Paris, existem pessoas interessadas em trepar! - Explicou me olhando de baixo para cima, me senti avaliado.

- Você está bem? - Arrisquei!

- Nunca realmente estive, mas isso faz diferença?

- Para mim faz, eu posso te pagar para ficar comigo. - Sorri.

- E o que você vai querer? - Seus olhos pegaram fogo.

- A sua companhia! - Seus olhos arderam.

Saímos de perto das ruas claras ou andamos por entre outras ruas soturnas, sem preocupação alguma, ela parecia ser tão forte, tão inatingível, era como se eu caminhasse ao lado de uma fortaleza da qual nem os guerreiros lá dentro pudessem sair rumo à liberdade.

- Mas, e então, você tem nome? - Bocejou ela, fingindo um tédio qualquer.

- Eu me chamo Lucas, e você? - Respondi, perguntei.

- Lucas? Gostei do teu nome, garoto. Eu sou Stella, aquela que transforma tua noite em sonho ou pesadelo, o que você quiser. - Sorriu triunfante, e ela tinha razão, eu sentia isso.

- E o que você pode transformar na minha?
Stella sorriu, como se cada palavra minha fosse exatamente o que ela queria ouvir, me senti meio tragado pelos olhos dela, eram olhos profundos que ardiam a cada palavra dita, ou pensada. Mas até o fim daquela madrugada ainda restaria aquele fogo alto, ou apenas poderiam se ver cinzas de uma tristeza escondida, molhada pelas lágrimas?


Eu quero o coração de Stella!




Sentamos num banco de uma praça, acompanhados do frio daquela terra e do calor de nossos corações. Stella me falou de seus gostos, desgostos, perfumes, homens, origens, infâncias, blues e poesia, apesar de desbocada ela era inteligente, muito inteligente. Declamou para mim alguns poemas de Paulo Leminski: “ A noite, enorme, tudo dorme, menos teu nome”

- Quando eu te vi, eu jurava para mim mesma que estava morta sem saber e que havia acabado de ver um anjo, para me salvar. Você é muito lindo!

- Obrigado... - Fiquei rosado.

- Sinta-se lisonjeado, óh! Eu não costumo elogiar qualquer um assim, do nada! Tô louca!

Caí numa gargalhada.

- O que foi? O que tem de engraçado? Eu hein....

- Você é tão espontânea Stella, eu admiro isso. Te achei tão livre.

- Eu sou uma liberdade presa, Lucas. - Pôs seu rosto numa expressão séria.

- Eu sou uma prisão de mim mesmo, Stella. - Olhei para ela, pedindo um pouco de sentimento sincero.

Faz um bom tempo que eu não vejo alguém tão sincero como foi Stella comigo.

- E você, Lucas, está bem? - Stella estava mais séria.
Seus olhos devoradores me fitavam, mas dessa vez era por amor, eu podia sentir que aquelas palavras vinham de sua alma, direto para a minha, eu descobri que Stella era a melhor amiga do mundo. E finalmente pude desabafar.

- Todo patético dia eu acordo e sinto nojo do meu corpo, de mim mesmo...

- Por quê?

- Eu sou como você, Stella. Eu me vendo por dinheiro. Larguei a faculdade para passar dias andando nu pelas suítes dos meus clientes fúteis e sórdidos que gastam mais do que eu gastaria na minha vida inteira. E não importa o quanto eu queira sair desse pesadelo, ele me persegue como toda manhã nublada da minha vida, eu só queria salvar a minha mãe, e agora descubro que ela morreu. O que resta da minha vida agora? Prostituição? - Uma gota salgada caiu de meu olho direito, eu finalmente estava sendo honesto com mim mesmo.

- Todo patético dia eu acordo criando coragem para enfrentar as pessoas que querem me rebaixar, mas elas não conseguem porque eu sou mais forte do que elas, elas não conseguem porque eu brilho, e elas não, não passam de luzes apagadas. - Ela afagou meus cabelos enquanto falava. - As pessoas querem sempre nos colocar para baixo, Lucas, não podemos nos mostrar vulneráveis à elas, eu sei que dói, dói muito, mas algum dia todo esse pesadelo vai acabar, e quem vencerá seremos nós.
Eu a abracei, ela tinha um cheiro tão doce que me acalmava de forma tão repentina. Apesar de toda a sua agitação que pulsava nas suas veias.

Ficamos naquele banco até todas as horas da madrugada passarem, conversando e rindo da nossa época de infantes, era um jardim do éden que tinha dentro daquela fortaleza.

- Eu estou começando a ficar com sono, que estranho, é tão raro eu dormir. - Reclamou-se Stella. - Posso deitar no seu colo?

- Claro que pode.

Stella pôs sua cabeça sobre minhas coxas e fechou os olhos escondendo as suas chamas, ainda tinha muito fogo, um fogo quase impossível de se apagar. A madrugada já se clareava, e a fera indomável adormecia.

- Obrigada meu anjo. - Sussurrou de olhos fechados.

- Pelo quê? - Sussurrei também.

- Por me dar um pouco de paz...


A manhã
Grandiosa
Tudo acorda
Menos Stella...







~



Andrew Oliveira, incorporando:
Lucas Lustat, o renegado.


Personagem Stella, criada por Antonio Fernandes.

Visitem: http://www.antonioquem.blogspot.com

segunda-feira, 29 de março de 2010

A última noite de Lucas




Ele corria ainda desesperado, chorando, como se todas as lágrimas quisessem fugir de seus olhos tão dóceis, pelas ruas de uma metrópole, numa madrugada mais fria do que nunca. As luzes ofuscavam seus olhares, mas nem a claridade nem a escuridão poderia salvá-lo, ele estava só, ele era só, sempre só.
Sua infância foi doce por um curto tempo, até que foi descoberto câncer de mama em estágio avançado na sua única família, a sua mãe, a sua mãe que era mais anjo do que mãe. Agora ele tinha que sobreviver no mundo sem a ajuda de ninguém, na verdade, nunca precisou de ajuda, não até aquele momento.
Tropeçou perto de um beco, era um rapaz novo, porém de estatura física perfeitamente desenhada, entretanto não sabia se defender, nunca soube se defender, mesmo que tenha passado tantos anos vivendo sozinho vendendo o único dom que Deus lhe deu, seu corpo. O beco fedia à ratos, mendigos, fedia fome, fedia sordidez humana, fediam os sentimentos humanos mais obscuros alí. Seu medo ficava ainda maior, e um homem muito maior do que ele se aproximava, pronto para atacá-lo.
Ele estava acostumado à todos os tipos de desejos de seus clientes, mas não à um estupro, ele deveria atingir uma cota, mas não conseguiu, e por não conseguir seu cafetão ficou furioso e mandou matá-lo pois Lucas apenas dava trabalho e despesas para ele, afinal, era só mais um corpo. Só.
Lucas pôs-se a chorar mais alto, sua vida não poderia acabar naquele beco, ele tinha sonhos, muitos sonhos, como qualquer criança em corpo de adulto tem.
O homem arrancou suas vestes alí mesmo e penetrou em suas entranhas de forma bruta, violenta, odiosa, com muita raiva. Lucas tentava gritar mas o homem tapava a sua boca com sua enorme mão direita, Lucas apenas gritava sangue saindo de suas nádegas e misturando-se à saliva do monstro e do pré-semen que alí percorria.
O monstro ficava cada vez mais violento e empurrava Lucas contra a parede úmida, espancando-o, estraçalhando-o como um tigre estraçalha a sua presa louco de fome e de sede de poder.
Finalmente estava tudo acabado, o demônio jogou-o no chão, e Lucas ficou alí mesmo, fraco, violado, sujo, com mais e mais lágrimas descendo silenciosamente de seu belo rosto.
- Meu Deus, me ajuda... - Implorava ele por uma sobrevivência.
Uma mulher completamente pálida vinha em direção à ele, tinha os cabelos dourados como campos de trigo ao sol da tarde, idênticos aos cabelos de Lucas, uma voz doce, e as dores, internas e externas de Lucas passaram a sumir, ele finalmente se sentia aliviado do mundo que pesava em suas costas, aquele mundo não existia mais, ele estava livre, correndo alegre ao lado de sua mãe por um campo colorido das mais variadas flores, do céu mais azul, da brisa mais gostosa.

Lucas enfim se libertou,
A morte não era tão ruim como ele pensava, afinal.





Andrew Oliveira ;*

Lucas




De cabelos penteados para a frente,
Mãos de dedos finos e charmosos como um véu
A olhos cínicos mas até inocentes sem a mínima atenção
Braços desleixados que se movem involuntariamente
Boca perfeitamente desenhada para um delicioso beijo
Orelhas médias feitas para se morder
Sombrancelhas grossas meio tristes meio alegres
Um sinal bonito ao lado direito do nariz
Outros sinais pelo rosto, sinais pequeninos.
Sorriso de criança travessa que acabara de aprontar
Pescoço gostoso pronto para ser mordido
Corpo másculo desejando ser possuído
E de tórax, peitos, mamilos, coxas, pernas
Umbigo
Pés
Unhas



Saliva



Dentes
Sexo
Braços
Ante-braços

Mãos
Palmas
Pulsos

Sangue

Ossos

Sistemas

e músculos







Pele











Lucas me suga em mais uma noite paga,
Assim, em mim, completamente perdida.




~

Andrew Oliveira ;*