Solitude, darkness and love


"I don't wanna admit, but we're not gonna fit"
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terça-feira, 30 de novembro de 2010

Fotografia


Forseti acordou. Não porque ela queria, mas porque tinha que acordar, já fazia três dias que não fora para a escola, e ainda estava tendo acessos de raiva e soluços sem parar. Era uma garota estressada e exausta. Mas ainda conseguiu arrumar a mochila, ou pelo menos tentou. E após acordar tomou um banho e escovou os dentes, pôs um absorvente na mochila e se vestiu. Não com a fúria que estava, tampouco com o vazio entregue por obrigação à ela, se vestiu com a delicadeza que almejava um dia ter, ou com a força que um dia sonhara. Na verdade ela era forte, era uma garota forte e repleta de atitudes que passavam confiança. Só não sabia disso. Não sabia quase nada. E não queria saber. Mesmo se soubesse, colocaria isso onde? No coração é que não, ele já estava pesado demais, carregando uma tonelada ou mais de fortes sensações e pesadelos constantes numa cinza solidão.

Não entenderam? Fortes sensações e pesadelos são mais conhecidos como depressão. Ou simplesmente um estúpido, rude e estabanado vazio. Ah, o vazio era um tédio e uma necessidade, mas não se pode fugir disso. Não se pode fugir do vazio e tentar levantar a cabeça? É claro que não. Pelo menos não por enquanto.

Quando estava prestes a sair de casa, olhou mais uma vez para a estante no seu quarto, e lá estava ele, esperando ser admirado pelos olhos quase sempre marejados de Forseti, esperando ser compreendido, ele também era um vazio, mas ao menos tinha uma fotografia preenchendo-o. Diferente de Forseti, que só tinha um gosto amargo e horrendo e imcompreensível e instável da perda no seu coração de costas largas.

Eu prefiro estar me decompondo numa vala pútrida a ter que aguentar essa maldita fotografia, pensou Forseti. Mas claro que ela não preferia isso, só estava tentando machucar a si mesma. E estava conseguindo.

Um

Dois

Três

E saiu.

E abandonou o sorriso de Frey ao seu lado naquela alegria improvisada. Certo dia numa praia de uma cidadezinha invernal.

~

E claro que ele jamais abandonaria o sorriso de Frey, nem se tentasse. Mas o que mais ele faria quando fosse necessário esquecê-lo e continuar a caminhar? Quer dizer, não que fosse necessário esquecê-lo para seguir em frente. Para seguir em frente basta caminhar. E é tão fácil decorar essas frases de lugar-comum.

Tudo isso não passa de uma baboseira.

Ah, mas talvez nem chegasse ao patamar deplorável em que Hermod estava. Nu numa banheira sem água, sem comer nem tomar banho desde que saíra do enterro de Frey, dois dias engolindo as próprias tripas. Viver não era tão necessário. E por quê? Por que tudo aquilo não poderia acabar de uma vez só? Mas Hermod não se matou, não chegou nem perto disso. Hermod era tão fraco quanto Frey. E o cheiro de velas ainda se impregnava no seu corpo que não exalava o mínimo de odor, era inverno, era sempre inverno por lá, e ele não se mexera desde que entrara naquela banheira. Acostumando-se a dormir por umas duas horas até acordar excitado e chorando, pensando em Frey. No seu cabelo, nos seus olhos, nas suas orelhas frias, na sua nuca próxima ás mechas lisas e negras, nas suas bochechas, na sua boca, no seu nariz, na sua língua. E depois no seu pescoço, nos seus ombros, nos seus sinais pintando a pele quase albina de tão branca, como um dia ensolarado demais. E terminando na sua barriga magra, nas suas costas, no seu sexo, nas suas nádegas, nas suas pernas, nos seus pés,

na sua alma negra e inconstante.

Era disso que ele precisava.

Ele precisava de uma boa trepada. De uma boa cama, de um bom verão, e do amor de Frey. O amor dele era infinito demais para o infinito, incômodo demais para o universo, caloroso demais para o verão inexistente, amado demais para o próprio amor. Hermod ainda ouvia sua voz, seus gemidos, suas canções sussurradas, e ainda via seus sorrisos tímidos, seu suor a percorrer-lhe a face, seus lábios se mordendo, e ainda sentia suas frases incompletas, o seu calor necessitando de outro calor, sua sombra fria e infeliz, tão desgraçada e tão bem escondida que ele só percebeu quando o viu morrendo na banheira de sua casa, e ainda pensava no que ele estaria pensando ou em todos os seus sonhos rasgados por uma lâmina afiada como um anjo negro. E Frey era um anjo de sangue. Fugindo para não se sabe onde. Chorando pelo que não se sabe o quê. Guardando os gritos na sua caixa torácica, ou silenciando seus pulmões para que não notassem que ainda estava vivo. Mas Hermod notara, Hermod notara e sabia.

Ele sempre soube

Chega

Chega de Frey.

Não, não chega, porque ele ainda estava com o cheiro do seu amado nos seus dedos, nos seus lábios, em cada pupila da sua língua, na sua ereção, nos seus sonhos, em cada pêlo da sua pele e em cada póro da sua paixão. Talvez maior do que paixão, do que amor.

Amor e paixão são coisas limitadas.

- No que você está pensando? - Diria Hermod.

- Não posso te contar. - Diria Frey.

- E o que você pode me contar? - Retrocederia Hermod.

- Eu não posso descrever. - Responderia Frey.

E ele o abraçaria, e depois morderia seu pescoço, e depois o beijaria, e o faria gritar. Então, por quê? Tudo isso por nada? Deus estaria brincando com a sua cara? No que ele estava pensando em tirar Frey da sua vida? Mas não foi Deus, não foi ninguém. Frey foi dono da própria vida à ponto de tirá-la. Mas Hermod não se importava se aquilo fosse egoísmo, na verdade nem se foi ou não Deus, tudo aquilo continuava uma droga do mesmo jeito.

Voltou a chorar, chorar como uma criança abandonada ou um cachorro atropelado. A criança? Sempre só. O cachorro? Sempre machucado. Era sempre assim, ele sempre acabava assim, pelado no frio e sem ninguém pra desabafar. Sem nada para fazer, e até ser levado pelas ondas furiosas da sua tristeza. E mesmo depois de tudo aquilo, ele não sabia como começar tampouco como terminar de chorar. Mas nada mais importava, pois ele levantou, magro e com fome, nu e com frio, para perambular pela sua casa no terceiro amanhecer, e lá estava, a fotografia na estante do seu quarto.

Três

Dois

Um

Ele a pegou e a abraçou

Tocou nos seus detalhes, ainda chorando.


- Você está ouvindo, Frey? Você consegue ouvir? Meu coração não pára de bater. Isso é sua culpa. Você deveria pensar mais nele, e em como ele está agora. Tudo isso é culpa sua.


Você consegue ouvir?




~





Andrew Oliveira


Um pequeno epílogo que não está em Hidden Place I, mas aí está (=

domingo, 7 de novembro de 2010

Hidden Place Saga - Ficha Técnica


Ah, eu realmente esqueci de colocar a filha técnica da saga Hidden Place, e fui logo postando minha nova série de contos, Oráculo das Feras (Espero que os fantasmas que leem meu blog gostem, sabe, é minha primeira série de contos fantasiosa... Enfim). Bem, aqui está:

- Hidden Place Saga - Gênero: Drama/Romance
Ano: 2010
Autor: Andrew Oliveira/Black Cherry


- Seleção de Capítulos -
Hidden Place Parte I:
0 - Prólogo: Íris
1 - As paixões dele
2 - Os sorrisos dela
3 - O calor dele
4 - A felicidade dela
5 - O egoísmo dele

6 - O coração dela
7 - O futuro dele
8 - A decisão dela
9 - O corpo dele
10 -A vida dela

11 - A alma dele

12 - O nirvana dela

Último Capítulo - O encontro deles

Hidde Place Parte II:
0 - Prólogo: Vazio

1 - Espuma

2 - Língua

3 - Praia

4 - Pássaros
Último Capítulo: A dor da Esperança


- Origem dos nomes -
>Mitologia nórdica:
~ Frey: Deus do brilho do sol e da lua
~ Freya: Deusa do amor e da cura
~ Forseti: Deusa da justiça

~ Hermod: Mensageiro dos deuses
~ Heimdall: Vigia dos deuses, segurança do arco-íris
~ Loki: Poder do mal
~ Tyr: Deus da guerra
~ Nanna: Deusa da lua

>Mitologia grega:
~ Psiquê: A amada de Cupido

~ Apolo: Deus da música

- Original Soundtrack -
Parte I:
01 Almost Lover - A Fine Frenzy (Álbum: One Cell in the Sea)
02 Watch You sleeping - Blue Foundation (Álbum: Life of a Ghost)
03 Clowns - Goldfrapp (Álbum: Seventh Tree)

04 Stepping Stone - Duffy (Álbum:Rockferry)
05 Oh Father - Madonna (Álbum: Like a Prayer)

06 Between Two Lungs - Florence + The Machine (Álbum: Lungs)

07 Cover my Eyes - La Roux (Álbum: La Roux)

08 Numb - Sia (Álbum: Colour the Small One

09 Blue Light - Emilie Simon (Álbum: Emilie Simon)

10 All i Need - Radiohead (Álbum: In Rainbows)

11 - Spark - Tori Amos (Álbum: From the Choirgirl Hotel)

12 - It's in Our Hands - Björk (Álbum: Greatest Hits)

[ Bônus Track: 13 - A Sunday Smile - Beirut (Álbum: Flying Club Cup) ]

Parte II
:
01 Shelter - The XX (Álbum: The XX)

02 Bulletproof - Kerli (Álbum: Love is Dead)

03 Goodnight, Travel Well - The Killers (Álbum: Day & Age)

04 Tekno Love Song - CocoRosie (Álbum: Noah's Ark)

05 Birds - Emiliana Torrini (Álbum: Me and Armini)

06 Siren Song - Bat For Lashes (Álbum: Two Suns)







~









Uma produção Andrew Oliveira & Black Cherry Series (=
Photo: David Lachapelle

terça-feira, 14 de setembro de 2010

OST - Hidden Place


Ah... E aqui deixo a Trilha Sonora da Primeira parte de Hidden Place pra vocês, aconselho a baixar, essas músicas são maravilhosas :*

- Hidden Place OST's -

1 - Almost Lover - A Fine Frenzy [Álbum: One Cell in the Sea]

2 - Watch You Sleeping - Blue Foundation [Álbum: Life of a Ghost]

3 - Clowns - Goldfrapp [Álbum: Sevent Tree]

4 - Stepping Stone - Duffy [Álbum: Rockferry]

5 - Oh Father - Madonna [Álbum: Like a Prayer]

6 - Between Two Lungs - Florence + The Machine [Álbum: Lungs]

7 - Cover My Eyes - La Roux [Álbum: La Roux]

8 - Numb - Sia [Álbum: Colour the Small One]

9 - Blue Light - Emilie Simon [Álbum: Emilie Simon]

10 - All I Need - Radiohead [Álbum: In Rainbows]

11 - Spark - Tori Amos [Álbum: From The Choirgirl Hotel]

12 - It's In Our Hands - Björk [Álbum: Greatest Hits]








~










OST Por Andrew Oliveira :)

Foto: Björk no clipe Pagan Poetry s2

Hidden Place - Último capítulo: O encontro deles


Não se sabe o por quê, mas o inverno daquela pequena cidade se foi. Nas últimas pás de terra, ele foi simplesmente, sem deixar satisfação alguma, partindo, bem devagar, e o dia seguinte foi, para todos, o mais quente daquela época, e ainda permanece assim. Ninguém nunca descobriu o motivo da partida daquele inverno tão egoísta, assim como ninguém até agora conseguiu descobrir o motivo do suicídio de Frey. Mas eu sabia. Era Loki.

Aquela época foi a mais difícil para todos eles, para Forseti, que agora era uma enfermeira, para Heimdall, que agora era um renomado advogado, para Hermod, que estava no último semestre de psicologia, e para Freya, uma adolescente cheia de impulsos e rebeldia.

Agora era sol, era girassol e calor, o frio egocêntrico se foi, mas ainda há muito esperando lá na frente, todavia, estes são outros detalhes.

Hermod lembrou do dia em que pôs fogo nas suas roupas manchadas do sangue de Frey, não que ele quisesse esquecê-lo, nem se nascesse de novo ele esqueceria de seu amado, mas porque ele realmente queria dar um passo na sua vida, e não continuar sentado esperando o tempo andar, como sempre fazia. Acordou com aquilo ainda pairando na sua mente, fez a barba, se lavou, pôs uma camisa azul estilo folk e uma bermuda xadrez, e foi para a biblioteca da sua faculdade estudar. Uma leve pontada deu-se no seu peito, mas ele não se importou, e continuou estudando.

E a porta foi aberta, lá estava ela, bela e jovem, a cada dia mais idêntica a Frey, como se fosse uma irmã gêmea que nascera depois, lá estava Freya visitando a pessoa que ela mais admirava, Forseti. Forseti deu um etéreo sorriso, e a convidou para entrar, era um final de semana, e Forseti já sabia, Freya sempre gostava de visitá-la nos finais de semana, sábado e domingo, o dia inteiro lá. Tyr sentia um pouco de ciúmes, porém, ele ainda gostava muito de Freya, de fato, ela era uma ótima companheira.

- Oi Freya, entre. Tudo bem com você? - Disse Forseti numa voz materna.

- Onde está o Tyr?

Dessa vez, era Forseti sentindo uma leve pontada.

- Meu filho está lá no quarto, ouvindo música, como sempre. - Ela adorava falar 'meu filho', sentia-se segura de si.

- Ah... Depois eu falo com ele.

- Quer um sanduíche?

- Quero sim. - Sorriu Freya, era incrível como os traços dela eram igualzinhos aos de Frey.

- Como foi sua semana?

- Foi um pouco entediante. Sabe, eu ando com uma pontada estranha no peito, é como se eu quisesse visitar meu irmão.

- Então vamos, ué. Vou ligar para Hermod e para Heimdall.

- N-Não... - Disse meio envergonhada.

- Por que não? - Questionou Forseti fazendo uma expressão triste, parecia com um desamparo.

- Queria ir só eu e você, Forseti.

- Mas Frey foi importante para todos nós, Freya. Não seja egoísta.

- Tudo bem.

Forseti deu outro sorriso materno, Freya adorava aquele sorriso, ela esperava a semana inteira para vê-lo. Deu um beijo carinhoso na bochecha rosada da menina, e pegou seu celular, discou alguns números e o pôs na orelha, meio séria.

- Hermod?

- Forseti! - Forseti sentiu a vontade de sorrir de Hermod.

- Vamos visitar Frey? Agora mesmo?

- Era exatamente nisso que eu estava pensando. - Revelou um Hermod um pouco assustado. - Vou ligar para Heimdall, espero que ele esteja livre.

- Para Frey, nós sempre temos que estar livres. - Sorriu a mãe.

A casa vantajosa de Forseti ficava um pouquinho longe daquela cidade, era como uma moça do campo, Freya adorava ir lá de bicicleta, só assim, só com Forseti, só com aquele lugar tão calmo e parado, Freya se sentia bem. O sol dourava as casas e as ruas, o cemitério também, até ele ficava com uma aparência melhor, parecia que a morte tinha se transformado em libertação, talvez fosse.

E logo todos se encontraram na lápide de Frey, todos com o mesmo sentimento. Não era de perda, nem de tristeza, era de felicidade, a mais pura felicidade. Um doce aroma de uma flor era inalada naquele lugar, poderia ser o hálito de Frey, o seu perfume, o cheiro do seu corpo, mas além disso, era outra coisa. Era muito mais do que amor, do que paixão, do que qualquer sentimento bom e ruim, era grandioso, esplêndido, cheio de um orgulho necessário para se manter.

Eu ainda estou aqui, te abraçando e te dando proteção, meu mar, meu náufrago da minha ilha que pertence somente a ti. Era sim, pois naquele momento, todos sentiram o mesmo, Frey estava sorrindo, Freya sabia disso, ela sabia sim.






~





Hidden Place - Fim.
Pelo menos a primeira parte :)



~







Andrew Oliveira

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Hidden Place - Capítulo 12: O nirvana dela



- E quando você olhar para trás, vai ser válido todo esse risco?

- Eu não sei... Eu não consigo saber. É como se a minha mente estivesse presa. É como se eu
quisesse fugir da minha própria sombra.

- Você ama Heimdall tanto assim? Vale à pena sofrer tanto por ele?

- Por que você mesma não se pergunta? Pra sentir como eu estou agora? O que é exatamente correr riscos por uma pessoa? É se humilhar por ela? - As perguntas de Frey se dissiparam nas memórias de Forseti.

Forseti ainda chorava, afinal, não se tem mais nada pra se fazer num velório, além de chorar. Freya gritava desesperadamente, como se tivessem arrancado alguma parte de seu corpo, e sua avó tentava acalmá-la, sem sucesso algum. O ar estava abafado, apesar do frio lá fora. Roupas e sapatos pretos, todos sociais. Poquíssimas pessoas, na verdade, lá estava a mãe de Frey, sentada numa cadeira, perdida em seu próprio mundo. Algumas pessoas não conseguem acordar para os outros mundos, ou algum horizonte qualquer. Heimdall segurava o choro, não se sabe porquê.

Apenas o silêncio tomava conta daquela sala acalentada por uma dor dilacerante. E ainda tinha Hermod, Hermod olhava apenas de modo vago e vazio, sem expressar nada, para o corpo magro, pálido e frio de Frey, ele não brilhava mais. Não tocou nas suas mãos, nem chorou, permaneceu apenas com a boca meio aberta, com o olhar cabisbaixo. A lareira da casa da avó de Freya e Frey respirava ali, o carpete absurdamente branco, e o caixão no centro da sala, exposto para aquelas criaturas mornas de alguma coisa que eu também não consigo explicar.

Não se pode explicar o vazio, apenas senti-lo.

O pássaro negro estava longe, Hermod se encontrava sentado no seu inconsciente, assistindo a si mesmo deitando ao lado de Frey por tantos dias, todos aqueles dias eram ardentes para ele.
E o seu hálito quente passando pelo seu pescoço, mordendo-o como se fosse um vampiro, e soltando leves gemidos de satisfação. E Hermod adorava devorar aquela boca. Ele passeava todo o seu corpo pelo corpo de Frey, aquela palidez tão quente e devassa, de um cheiro doce como uma primavera esquecida num outono de café. Seus olhos ofuscantes, meio desfocados, meio distraídos, que dançavam com a canção de amor do coração de Hermod.

Aquilo se chamava Felicidade.

Forseti ainda sentia os abraços de Frey, mas ela não queria que ele se tornasse apenas uma lembrança, entretanto, já estava se tornando. E todas as vezes que brincaram juntos na areia, na frente de casa, nos parquinhos, na escola, e todas as vezes que conversaram sobre o amor, sobre a felicidade, sobre seus sonhos e suas expectativas, sobre seus objetivos, e todas as vezes que choraram juntos, que dormiam juntos, como dois irmãos. Tudo estava se definhando num espaço fechado, meio escuro meio clareado, não era lembrança, nem espera, nem felicidade.
O amor é um quarto escuro e fechado, onde só se ouve o ressoar de uma canção chamada Esperança, e de um sussurro chamado Dor.

As horas se descosturavam devagar, como se o tempo estivesse com preguiça, quase parando, aliás, andar num deserto durante toda a eternidade é mesmo entediante. Mas é assim que as coisas são. E por que não quase ninguém consegue mudá-las? Até que o meio dia chegou, pouco sol, como sempre, hora de enterrar. Ninguém estava com apetite, nem com a mínima vontade de fazer qualquer outra coisa, comida ou ação alguma poderia tirar aquela sensação de perda. As pessoas precisam de um fardo para suportar o mundo.

A Perda é um sentimento consequênte do egoísmo, os egos são apenas um peso cinzento no além.
Forseti deu mais uma olhada na mãe de Frey, que estava apenas com a cabeça baixa, os cabelos desarrumados, ela não estava sentindo o mesmo que aquela mulher, com certeza não. Mas mesmo assim, foi em direção à ela.

- Eu não faço a mínima ideia de como você se sente agora. Eu não sei o que você vai pensar de mim. Mas por que você o abandonou?

Ela apenas chorava, de cabeça baixa. Não respondeu nada, nem tentou, Forseti se sentiu ignorada e se irritou um pouco.

- Acho que isso se chama castigo. É o que sempre acontece. - Disse ainda Forseti.

Ela segurou um braço de Forseti, impedindo-a de ir embora. E ela não conseguia parar de ver Frey segurando aquele ursinho de pelúcia no parque, todo sujo da areia, eu tenho que lavá-lo filho! Ele está uma imundície! A senhora vai devolver ele, mãe?

Você vai devolver o meu coração?

- Forseti... O que você faria se tivesse que escolher entre respirar no inferno, ou ser uma escrava no céu?

Forseti tirou lentamente a mão da mulher de seu braço, com delicadeza.

- Eu ainda escolheria morrer e permanecer na terra. Não se pode fugir do que é certo.

- E o que é certo, pra você?

- Enfrentar as adversidades que me impõem. O que mais eu poderia fazer?

O que mais se pode fazer quando você está numa ponte prestes a arrebentar a corda que a segura?

~

Forseti e todos os outros, após o enterro, foram para suas casas, chorar, bebericar café e ouvir alguma música de um rock pornográfico esquecido. E se definharam lentamente naquele luar cheio, naquelas estrelas que davam o caminho que ainda paira sobre o amor e a solidão. Talvez o amor e a solidão andem juntos, nenhum desses sentimentos precisam do que é recíproco para viverem e ainda continuarem ali, insistindo e penetrando seus espinhos na crucificação de cada um. Nós somos apenas animais orgulhosos cheios de pregos nos segurando na nossa cruz, porque nem a nossa própria cruz consegue segurar o nosso insignificante peso. Somos as antenas de uma formiga, procurando por abrigo e comida, que patéticos.

Você tem apenas que encontrar a si mesmo

Você tem apenas que ter auto-confiança o suficiente para continuar ali, firme e corajoso.

E foi isso que Forseti fez, após ter descoberto o vazio dentro dela, o vazio onde uma criança se instalava, o vazio de seu coração. E foi essa a atitude que Forseti tomou, durante os dias que começaram a acelerar, com o tempo correndo livre ao conseguir enxergar o horizonte de um oásis. Dias, semanas, meses. E foi assim que Forseti passou seus anos, descobrindo uma nova chance para viver bem, ao lado do melhor presente que Deus poderia lhe dar.










~








Andrew Oliveira

domingo, 12 de setembro de 2010

Hidden Place - Capítulo 11: A alma dele


E ele correu, e ele sentiu seu coração pesar, e seus olhos arderam, e sua vida se entortou, e sua sombra dissipou, e ele ligou para ela, não estava nada bem, ele sabia disso, e lentamente algo dentro dele se definhou, ele não sabia o que era, e estava com medo de saber. A casa estava meio escura, ele ligou as luzes da sala e da cozinha, apreensivo, ele estava com uma vontade imensa de chorar, mas não sabia o porquê, achou ter ouvido o piar de um pássaro, mas não deu importância, o pássaro negro estava chorando, o pássaro negro se escondeu num espectro de si mesmo, enlouquecido e desamparado.

Você quer ser o oceano ou a lágrima? Disse Frey uma vez para Hermod. Eu quero ser um pouco dos dois, respondeu ele. Eu quero ser a imensidão de uma lágrima e a magnitude de um oceano. E o que você é agora? Um corpo ou uma alma? Eu sou a sua alma. Mas você não pode ser a minha alma, pois já tenho a minha. Eu sou somente seu. Você quer ser o meu corpo também? Eu quero possui-lo. Eu quero te estrangular, só assim você será apenas meu. Você pode me possuir ainda vivo. Eu quero ser seu.

Eu amo os seus olhos, eu amo sua orelha, eu amo sua nuca, eu amo seus cabelos lisos jogados no rosto, eu amo seu peitoral, eu amo seu pescoço, eu amo sua barriga magra, eu amo sua pele branca embelezada com alguns sinais, e aquela mancha parecida com um coração nas suas costas, eu amo também as suas costas, e as suas costelas, eu amo seu pênis, eu amo suas nádegas, eu amo tocá-los, eu amo suas coxas, eu amo suas canelas, eu amo seus pés, eu amo seus pêlos, eu amo seus arrepios, eu amo também seus gemidos, eu amo sua voz, eu amo suas lágrimas, eu amo seus sorrisos, eu amo seu esperma, eu amo cada póro seu, eu amo sua garganta, eu amo sua respiração ofegando em mim, eu amo seus abraços, eu amo seus braços, eu amo sua fraqueza, eu amo sua melancolia, eu amo a sua dor, eu amo seu amor, eu amo seus dedos, eu amo suas unhas, eu amo os seus ossos, eu amo suas vísceras, eu amo as batidas rápidas e fortes do seu coração, eu te amo tudo, eu te amo em mim.

E ele abriu a porta do quarto de Frey, manchas de sangue no carpete, a janela aberta, Forseti, após ter recebido uma estranha ligação, logo chegou também. E debaixo da porta do banheiro mais manchas de sangue. Ele abriu a porta do banheiro. Forseti logo atrás, se aproximando. E lá estava Frey, deitado no banheira seca, apenas molhado pelo próprio sangue. Hermod lembrou de todas as vezes em que ele ficava assim. Ele nunca sabia o porquê. Agora sabia. E uma vontade de gritar empurrou seus ossos contra seus pulmões e ele mal pôde respirar e mal conseguia falar ou se expressar e os céus negros de seu mundo particular desabaram sobre os oceanos que um dia ele chamou de amor, ainda era amor, só estava forçando o seu fim.

Eu sou o sopro da vida que passa pelo seu pescoço, eu sou os seus sapatos e as suas roupas, eu sou o seu orgasmo mais prazeroso, eu sou seu animal, eu sou sua mentira, eu sou a inocência que ainda paira sobre ti, eu sou a tua luz e o teu fim, você é a única coisa nesse mundo que eu preciso.

Você é o amor que me faz viver, você é como a minha respiração, eu te respiro, tu me ferves. Não me deixe.

Forseti gritou, não sabia se chorava ou se fazia alguma coisa, os olhos de Hermod esvaziaram, como se algo tivesse saído dali, pareciam duas petecas de um vidro hazel, não tinham nada, a não ser a dor. Ele entrou na banheira, e pôs Frey em seu colo, sem expressar qualquer sentimento, o sangue manchou sua calça e seu súeter branco, o sangue dele impregnava na sua alma, Forseti se ajoelhou no chão chorando desesperadamente. Todos eram desesperados segurando a mesma lanterna do inverno daquele mundo tão cruel.

Hermod o abraçou forte, seu corpo já estava ficando mole, e o beijou, Frey ainda estava um pouco consciente, e se sentia feliz por ainda sentir o calor de Hermod. O calor dele acalentava a sua alma cheia de gestos inconstantes. E por um momento Frey se sentiu tão feliz que já estava até arrependido de ter feito aquilo. Ele sorriu.

- Não nos abandone. Nós precisamos de você.

E ele mal terminou a frase, e as gotas salgadas de amor começaram a sair da toca de seus olhos, ele não aguentou mais. O seu peso em cima dele, fraco, no último fiapo de sua vida, na última lasquinha de esperança, Frey abriu os olhos lentamente, ainda semicerrados, e falou bem baixinho, bem perto da orelha fria de Hermod, mas não eram últimas palavras,
tudo estava se abrindo para um recomeço.

- Eu vou te dar o oceano.



Não se esqueça disso.






~









Andrew Oliveira

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Hidden Place - Capítulo 10: A vida dela


E exatamente, naquele instante, Deus olhou para Frey, com compaixão, assim como Frey olhara para Heimdall um dia desses,

acho que isso se chama universo.

O universo é uma forma que se escorrega por entre os dedos, é como água, é como um deserto de espelhos e cacos no chão, você se perde, você se fere, você enxerga somente a si mesmo. Não se pode dizer também que não é uma sombra, ou várias linhas de costura da morte e da vida.

Nós somos a roupa.

Inicialmente Hermod não sabia o que fazer vendo o corpo trêmulo de Frey, ficou apenas ali, parado, com medo, o que está acontecendo com ele? Enquanto que há algumas quadras daquela pequena cidade, Forseti levantava da cadeira de espera, com o coração a mil, prestes a arrancar seu filho do ventre, como se tira a pulga de um cão, pressionando com as unhas até matar a criatura parasita, naquele momento ela o sentia como um parasita também, e não como um ser mais belo do mundo, um presente dos anjos. Sua culpa era maior.

Heimdall apenas a vigiava com o olhar morno, sem transparecer concordar ou discordar da decisão de Forseti, mas Forseti de alguma forma se sentiu repreendida, como se ele dissesse "não faça isso". Forseti suspirou e tentou manter a calma, ainda era tempo de voltar atrás, mas o que será de mim?

E ela entrou onde fora chamada, e Frey começou a ficar inconsciente, eu tenho que tomar uma decisão, eu preciso tomar uma decisão.

Um outro garoto que passava ali perto logo reconheceu Frey. Foi em direção a ele. Pegou uma caneta e a penetrou com força na coxa do rapaz. Frey num susto levantou. E olhou para Hermod, evergonhado. E chorou.

- Seu estúpido, você tem que aprender a se controlar. - Disse o rapaz. - Se você morrer desse jeito pode sobrar pra mim.

- Me desculpa, eu estava desesperado.

- Desespero não é motivo. Todos nós somos primatas orgulhosos com uma auto-confiança barata estampada na cara, cheios de dor e desespero. Se enxerga idiota. - Resmungou o desconhecido.

- Você vai parar de vender isso pra mim? - Disse Frey esfregando os olhos.

- Você nem vai pensar em comprar isso mais, Frey. - Falou Hermod, ainda assustado com toda aquela adrenalina repentina.

Frey encarou Hermod, de uma forma duvidosa, mas logo cessou o comportamento ansioso. Hermod o levantou e foram embora para casa, o desconhecido ficou apenas ali, pairado no seu cotidiano, que, para ele, não era grande coisa.

E os segundos também se balançavam para Forseti, que hesitou um pouco enquanto observava a sala de atrocidades, sentiu um cheiro forte de desinfetante, viu vários objetos médicos numa bandeja prateada, a luz branca e forte nos olhos, suor frio, culpa, uma médica, culpa, e culpa. Ela não aguentou e logo saiu correndo daquela sala, e depois da clínica, com medo, cheia de insegurança, e outra decisão tomada.

Heimdall logo chegou perto dela, com um ar compreensivo, colocando a mão nos ombros de uma Forseti ajoelhada, com a neve molhando sua calça, suas botas pretas aquecendo seus frágeis pés, e todo agasalhada, tirou o cachecol e aguentou o choro.

- Eu... Não tenho coragem de fazer isso. Não é o certo.

E o que seria o certo? O errado?

- Vamos pra casa, Forseti, seu dia foi mais longo do que parece.

- Eu quero ver o mar.

Heimdall pegou a sua mão, e foram em direção ao som das ondas. O sol como sempre morno, o pássaro negro observando tudo por ali, e foi assim que Forseti terminou o seu dia. Sonhando ver o mar e ouvir as ondas, asas, núvens e um sol bem quente, num verão nostálgico, numa vida comum e cheia de felicidade, ao lado de seu filho.

~

E o natal chegou, para Heimdall, Forseti e Hermod, não era um grande dia. Heimdall como sempre sem descanso algum na faculdade, Forseti na pediatria ajudando a mãe, Hermod em casa olhando para o nada, e Frey, arrumando suas malas, feliz, indo para a casa de Hermod, Hermod morava sozinho, mas ainda era sustentado pelos pais, que ficavam muito longe dali. Frey colocou sua última camisa. Seu padrasto entrou no seu quarto.

- O que você pensa que está fazendo? - Grunhiu Loki.

- Eu vou sair daqui.

- E quem te deu permissão, moleque?

- Eu não preciso da sua permissão.

O som de um tabefe silenciou tudo.

- Nem pense em fazer isso. - Ameaçou.

Frey levantou a sua mala, Loki o empurrou e o socou até Frey ficar todo inchado. Partiu. Frey descansou ali mesmo, cansado daquela mesma rotina, daquele mesmo ciclo vicioso, o rosto inchado, cheiro do próprio sangue, frio, muito frio. E disse para si mesmo, bem baixinho, tão baixinho que nem Deus pôde ouvi-lo e ajudá-lo dessa vez.

"Eu vou acabar com tudo isso de uma vez, agora mesmo."

E sonhou, sonhou estar ao lado de Freya, abraçando-a, amando-a como se ama imensamente uma irmãzinha que tem o melhor amor do mundo.

Seu amor estava longe.

E cortou os pulsos com uma navalha. E sangrou até morrer.


Eu quero ver o mar.









~










Andrew Oliveira

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Hidden Place - Capítulo 9: O corpo dele


Uma faísca derramou de um chafariz fluorescente no meio de uma floresta, vinda de um coração ardente e fumegante. A faísca percorreu voando acima de mares e florestas, numa tentativa frustrada de procurar a si mesma, ela nunca se encontrava, ela nunca se permitia encontrar. Até que um dia ela conheceu a chama, e com a chama se transformaram em uma só, e com a chama puderam ver o quanto o mundo era belo, e com a chama, ela se conheceu, amou a chama, amou-a como nunca amara algo na vida, a chama era o motivo da sua vida, até chegar o fim chamado Chuva, e da chuva, restaram as cinzas de um efêmero amor.

Um violoncelo circunspecto passeava pelos ouvidos de todos, Heimdall o tocava ternamente, como se fosse a última canção para o mundo. Passeava por Forseti, que estendia seus lençois brancos, pensando no que faria dali pra frente. Passeava por Frey, que cheirava cocaína descontroladamente, tentando fugir da realidade. E passeava por Hermod, ainda com o celular nas mãos, e com o seu futuro também. O que eles poderiam fazer naquele momento? O que eles deveriam sentir ou pensar? O que mais eles fariam, e se fizessem, o que aconteceria depois?

Um dezembro insensível ainda se estendia, já era dia 23, a véspera de natal será amanhã, pensaram. O que eu vou dar de presente para ele? E para ela? Elas não sabiam de resposta alguma.

E se tornaram apenas parte de noites soturnas. E se tornaram apenas um grão de areia naquele doce infinito. E desejavam gritar, expelir toda aquela dor que se impregnava nas paredes de seus corações, mas eles nada podiam fazer, a não ser, por enquanto, serem passivos ao que acontecia a eles. Mas nada era suficientemente bom, nem o bastante para sobreviver naquele mundo. E então, resolveram ir para a luz. O natal chegou.

- Você não vai sair hoje, Hermod? É véspera de natal. - Disse Frey, colocando uma cueca.

- Não, não estou afim.

- Por quê? Você não gosta do natal?

- Não, não me sinto bem. Só isso. E você? Por que você gosta do natal?

- O natal me lembra a minha mãe, e na boa época em que ela morava conosco, junto com Freya, ela ainda era bebê nesses tempos. Por isso que eu gosto dele. - Sorriu.

- Isso é inspirador.

- Pelo menos me acompanhe. É tão chato andar por aí sozinho.

Hermod deu um olhar de désdem, ainda deitado no sofá, Frey foi em direção a ele, e se posicionou em cima do rapaz:

- Por favor.

Hermod cedeu-lhe um longo beijo. Aceitou.

~

- Está tudo bem? Por que estás tão triste? - Perguntou Heimdall.

Ela fez que não com a cabeça.

- Quer um pouco de café?

Ela fez que sim. Heimdall foi em direção a cozinha, pegou uma garrafa térmica, uma xícara, e a encheu de café.

- Toma. - Disse para a moça já sentada no sofá. - O que aconteceu, Forseti? Foi Hermod de novo?

- Não, dessa vez fomos nós dois. - Disse chorosa, as lágrimas não paravam de escorrer.

- Você ainda o ama, não é?

- Eu não sei se sou a pior pessoa do mundo por ainda amá-lo. Mas eu só quero que ele seja feliz. Eu não sei o que fazer com este filho, eu não sei o que fazer da minha vida agora, me sinto como se não tivesse mais nada nesse mundo. Eu só quero alguém onde possa me apoiar e me sentir segura, isso é errado?

- É claro que não, Forseti. Olha, eu vou te ajudar o quanto for preciso e até onde meu limite possa chegar, eu vou estar sempre do seu lado.

- Obrigada. - Disse abraçando-o. - Heimdall...

- O quê?

- Acho que vou abortar.

- A decisão é sua, se você quiser, eu vou com você.

Heimdall breve se arrumou para sair, trancou a casa e logo foram passar as horas de dezembro num hospital. A cada passo seu corpo ficava mais pesado, como se fosse algum tipo de culpa, não deixava de ser, era culpa, dor, angústia, arrependimento, amor, paixão, raiva, depressão, todos misturados e fazendo com que Forseti ficasse uma pilha de nervos. Chegaram no local.

- Você tem certeza mesmo, Forseti?

- Tenho.

Entraram no local, e esperaram, esperaram, esperaram....

Num beco ali próximo, Frey se entupia de cocaína, enquanto Hermod dava uma olhada numa loja. Usou tudo o que tinha, desesperado, louco por mais, até que seu corpo todo se contorceu, Frey caiu no chão, e uma overdose tomou conta da sua alma tão ferida, tão estúpida.

- Forseti! Forseti Ann, é a sua vez.




~




Andrew Oliveira

domingo, 5 de setembro de 2010

Hidden Place - Capítulo 8: A decisão dela


E passeou pelo seu corpo, explorando cada parte dele, aquela pele pálida e tímida, agora estava se entregando, ele implorava por erupções e devastações nos seus póros, sua língua soltava leves gemidos de dor e prazer, seus pêlos se arrepiavam, seu sexo pulsava e esquentava como lava incandescente, Frey era como um furacão, e Hermod a cidade assolada por ele. Até que o compasso dos dois amantes se tornou um fim de carícias na cama, Hermod gostava de ser mimado, enquanto se deitava sobre o peito de Frey.

- Às vezes eu tenho a impressão de que, quando eu fosse te tocar, você desapareceria. - Sussurrou Hermod.

- Por que essa impressão tão estúpida?

- Você é como alguma forma inalcançável e efêmera, é algo especial que deve ser apenas visto, e não tocado.

- Você não deveria me idealizar.

- Mas é isso que eu sinto.

- Hermod, o que fez você gostar de mim?

- O desejo de abraçar um anjo no inferno.

- Eu sou o anjo?

- Você é o inferno.

Hermod adormeceu, era fim de tarde e uma nevasca deixava poucos rastros de sol saírem por entre as núvens gordas e vespertinas. O pássaro negro continuava ali. Frey pegou um saquinho do seu casaco e entrou no banheiro, ali permaneceu até a noite. Hermod sentiu a sua falta.

- Frey, onde você está? - Disse sonolento, procurando-o. - Frey!

Um leve ar entrou na sua pele, a janela estava fechada, mas ele não se importou, um calafrio na nuca, resolveu ir ao banheiro. E lá estava ele, deitado na banheira, submerso na água, divagando.

- Frey... - Ele o levantou e o abraçou. - Está tudo bem.

Hermod já estava se adaptando ao comportamento de Frey. Frey hesitou um pouco, mas logo cedeu ao seu abraço.

- Quando eu olho para o chão, não consigo ver meus pés, tampouco algo sólido. É um ar denso e escuro, é inatingível.

Talvez seja eu mesmo tentando fugir de mim.

- Você tem medo?

Talvez eu pudesse correr até o infinito, e encontrar várias coisas por lá.

- Eu tenho escuridão.

Eu posso imaginar o quanto posso ser feliz, ou somente viver essa realidade cinza.

- Você não precisa viver nela por obrigação.

Eu quero voar.

- Eu não consigo sair de dentro de mim.

Eu quero beber achocolatado ao seu lado e rir das suas piadas infâmes.

- Você pode o que quiser, Frey, basta ter força suficiente para isso.

Eu quero o seu sorriso para mim.

- Tome cuidado, eu posso te roubar para mim.

- Eu sou seu.

O celular de Hermod tocou.

~

Sua visão estava turva, se sentia enjoada quase sempre e mal conseguia sair de casa, ainda não tinha contado para sua mãe. O primeiro a saber devia ser Hermod. Pegou seu celular:

- Forseti? - Falou a outra linha.

- Hermod... - Não aguentou ouvir sua voz.

- O que foi? - Estranhou.

- Eu... Eu...

- O que foi, Forseti?

- Não se preocupe, eu nunca vou falar pra ele sobre o pai.

- O quê? Forseti, não estou entendendo nada.

- Mas eu não vou, jamais vou abortar.

O teto sobre Hermod desabou.

- Forseti, você tem certeza?

- Tenho! Hoje fui ao médico. - Começou a chorar.

- Aborte-o. - Falou sem pensar muito.

- O quê? Eu não estou acreditando em você, Hermod.

- Aborte-o.

- Eu não vou abortá-lo! Já disse!

- Aborte-o!

- NÃO! - Soluçou de tanto chorar. - Não! Eu vou criar esta criança, vou amá-la de todo jeito.

- Como você vai criá-la? Sua mãe não vai estar disponível o tempo inteiro pra você. E os seus estudos? Como é que ficam? E os seus sonhos? Você vai abdicar de tudo isso por uma criança que nem desejou? Você está enlouquecida?

- Não é o que chamam de instinto materno?

Por alguns minutos Hermod ficou apenas ouvindo Forseti chorar no telefone.

- Forseti... Como é que eu vou viver sabendo que tenho um filho por aí?

- Eu vou abandonar todos os meus sonhos, Hermod. Isso não é o suficiente?

Hermod calou-se.

- Você não pode se agarrar à uma mentira que possa chamar de esperança, mas dessa vez, eu estou presa numa verdade, e não há nada, absolutamente nada mais forte do que isso.

Eu vou voar, do jeito que eu quiser, quando eu quiser.






~





Andrew Oliveira

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Hidden Place - Capítulo 7: O futuro dele


Um enjoo súbito deu-se em Forseti, mal acordou e já estava vomitando no vaso sanitário de seu banheiro, apesar disso, já estava conseguindo digerir ao que aconteceu na noite anterior, Frey já tinha ido para a escola, e ela resolveu passar o dia em casa, de luto por estar morta, talvez isso fosse exagero, mas ela realmente se sentia assim. Comprou pão por ali perto, e tomou seu café, sem conseguir sentir gosto de nada, nem da sua própria boca, já estava digerindo, mas ainda era difícil.

Ela disse uma vez para Hermod, que se ele não quisesse mais seu coração, ela o roubaria e o apertaria com a sua mão direita, e ele sentiria o quanto seu coração era importante, mas ela jamais o devolveria. Ela devolveu, porém, o sangue daquele coração, ainda estava seco em suas mãos, ela lavava e lavava, mas não se pode apagar parte de sua história tão facilmente. Forseti cresceu ao lado de Frey, Hermod sempre foi mais distante, mas ainda assim era importante, era como um abstrato fácil de se entender. Frey era a tinta, Forseti era o quadro.

Frey sentia um vazio toda vez que Forseti faltava, era como se uma parte dele não estivesse ali, mas resolveu se segurar e continuar na aula, pensou que deveria deixá-la sozinha, pensando no que faria dali pra frente.

Com o rádio ligado, uma suave música de amor tocava para todos, talvez a paixão naquele momento não fosse necessária, a paixão queima-se rapidamente, mas o amor era, era tão necessário que, em vez de pesar, levantou o coração de todos os quatro jovens naquele momento.

Eu ainda tenho alguém que me ama, que se importa comigo, era verdade para Forseti e Frey, e com certeza uma ilusão para Heimdall, uma intoxicação no peito de Hermod, mais ainda assim era amor, e era isso que os segurava naqueles dias de um inverno tão cruel, era isso que os faziam pensar: "eu ainda terei alguém me esperando quando eu voltar para casa, não importa quanto tempo eu passe longe, não importa o quanto o mundo se acabe".

Hermod mal conseguia levantar da cama, com suas mentiras selvangens que machucaram mais à ele, Heimdall não estava conseguindo se concentrar, Frey parou no tempo, Forseti soltou o choro preso na garganta, e os dias daquela semana estavam sempre assim.

E outra semana, Forseti voltou à ir para as aulas, e mais outra semana, suas seções de enjoo pioravam, sua menstruação estava atrasada. Resolveu comprar um teste de gravidez.

As horas pareciam ter virado anos, o sol morno daquela cidade chamava as ondas, o pássaro negro sempre ali, Frey já havia voltado para sua casa, e pouco depois disso veio uma ligação, era Hermod.

- Frey... Eu queria sair um pouco com você. - Disse, tímido.

- Tudo bem, onde você está?

- No parque perto da sua casa.

Colocou um moletom azul escuro, lavou um pouco o rosto, e andou durante as duas quadras em direção ao parque, logo encontrando um Hermod envergonhado.

- Você está bem, Hermod?

- Acho que sim.

Frey se aproximou, o parque estava vazio, durante aquela tarde morna ninguém quis ir visitar o parque, a não ser eles. Hermod não aguentou mais segurar suas lágrimas, Frey o abraçou.

- Eu sei que não sou a melhor pessoa pra falar isso, mas vai ficar tudo bem.

- Por que Forseti não me perdoa? - Soluçava.

- Porque ela sabe quem teve a maior parcela de culpa, Hermod. Você sabe como ela é.

- Não, eu não sei.

- Quer comer pipoca? Tem um pipoqueiro bem ali. - Sorriu Frey, Hermod soltou um sorriso também.

- Quero sim.

Mais um fim de um dia estava se iniciando, o cheiro de desinfetante era forte, o banheiro estava limpo como sempre, a janelinha aberta, a urina passava pela parte macia do objeto, preocupação e mais dor, Forseti estava completamente perdida, não era a sua hora ainda, por que ela tinha que sofrer sozinha? Um turbilhão de pensamentos rodeou a cabeça da jovem, já estava esperando o teste dar sua resposta, por dentro estava torcendo para que não fosse aquilo que ela não desejava, não que ela fosse uma má pessoa, mas porque ela realmente não estava pronta para tanto, se sentia em dúvidas que nunca acabavam, dúvidas que jamais acabariam, até que o teste deu sua resposta.

Forseti chorou como se chora para um oceano de solidão, Forseti gritou como se grita para uma tempestade de culpa.

Agora, eu jamais permitirei que impeçam seu nascimento, meu filho.







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Andrew Oliveira

domingo, 29 de agosto de 2010

Hidden Place - Capítulo 6: O coração dela


Sentou-se, já estava cansada de correr, cansada de tentar imaginar o quanto aquele amor poderia ser imenso, maior do que a sua sombra, cansada de descobrir o quanto sua vida viva numa ilusão, hipnótica, avassaladora, e tão bem planejada. Suas pernas doíam, seu coração ainda mais, a neve descia lentamente sobre sua cabeça tão perturbada de devaneios, o mar a chamava, com o barulho das ondas indo e vindo, fechou seus olhos, e tentou imaginar estar nele, num dia quente e sem sombra, ela quase jogou-se nele, até que uma voz a chamou:

- Forseti! - Era Frey. - Por favor, não faça isso.

Forseti o olhou arrogante.

- E o que eu poderia fazer, Frey?

- Desculpa. Eu acabei ouvindo Heimdall conversando com você no celular.

- Ah.... - Ah.

- Você acreditou nele?

- Eu não sei,Frey. Me diga você.

Frey calou-se, envergonhado, baixou a cabeça. E logo outra pessoa se aproximava, era Heimdall.

- Forseti, você está bem? Desculpa te falar aquilo por uma ligação.

- Vá embora daqui, Heimdall. - Disse Frey em tom ignorante.

- Não estou falando com você, Frey. - Retrucou Heimdall.

Forseti levantou-se, e encarou os dois, lá vinha mais alguém correndo, agora era Hermod.

- Forseti? Eu vi você correndo pra cá, aconteceu alguma coisa?

- Talvez Heimdall possa explicar. - Encarou Forseti, tentando parecer forte o suficiente para enfrentá-los.

- Eu disse que te vi hoje saindo do meu apartamento, Hermod. - Envergonhou-se Heimdall.

- Só isso? - Falou Frey em tom cruel.

Hermod franziu a testa, sentiu-se mais confuso do que já estava.

- Eu fui conversar com Frey. - Disse Hermod olhando para as suas botas de rockeiro.

- Foste conversar comigo? Vocês nunca conseguem admitir nada? - Gritou Frey.

- Eu não estou entendendo nada. - Sussurrou Forseti.

Heimdall esbofeteou Frey.

- Você não devia criticar ninguém, você se encontra numa vidinha patética sempre precisando de alguém pra segurar seu peso, ou você cai. Envergonhe-se de você mesmo. - Repreendeu Heimdall, Frey entristeceu-se, arrependido.

Forseti passou a se sentir insegura, seu sangue ferveu, e ela gritou o mais alto que pôde:

- ALGUÉM PODE ME EXPLICAR O QUE TODOS ESTÃO FAZENDO?

Todos se silenciaram, assustados, e ao mesmo tempo arrependidos, cada um de uma forma, cada um com sua alma ferida, como numa galeria de arte, cheia de belezas e segredos terríveis. Mas não importa quanta tinta fora gastada nos quadros, não importa quanto tempo dure o quadro, haverá sempre uma lasquinha de dor escondida na paisagem. Frey e Heimdall estavam como duas crianças repreendidas, Hermod estava chorando.

- Hermod, você está mesmo apaixonado por Frey? - Disse Forseti prestes a desabar.

Hermod chorou mais alto, estava mais confuso do que nunca.

- Me responda, Hermod!

- EU NÃO SEI! - Gritou Hermod. - O fato de eu estar com você, não significa nada?

- E por que você está chorando? - Forseti começou a cair em prantos também.

- Porque eu realmente não sei.

Forseti o esbofeteou duas vezes, rancorosa, com a palma da mão, e com a costa da mão, ela já havia compreendido.

- Por que você me tocou se você não me ama? - Parou de chorar, limpou as lágrimas, e o encarou decidida, seu coração parou de bater forte.

- Meu amor por você era apenas uma mentira. Eu não me importo com você, eu não gosto de você, nem me preocupo com o seu bem estar, você nunca foi nada pra mim, todo esse tempo eu pensava apenas em Frey, Frey é o único pra mim. - Revelou Hermod, também decidido, frio e sensato.

Forseti se petrificou, parecia estar acordando de um sonho, um sonho frio e nostálgico, cheio de uma felicidade que nunca existiu, tudo foi apenas um escapismo?

Heimdall puxou Hermod e começou a espancá-lo, Frey tentou impedi-lo, mas Heimdall apenas o empurrou para longe, era sempre assim, Frey nunca podia fazer nada, Frey era sempre submisso aos acontecimentos, Forseti continuou apenas parada, Frey a reparou, levantou-se, e pegou a sua mão.

- Você sabe que eu tenho apenas você, então me perdoa, por todo o mal que eu te fiz.
Forseti permaneceu em silêncio, Frey a levou para casa, sumindo na névoa, e dormiram abraçados, tão abraçados que pareciam gêmeos siameses, era o que queriam ser, talvez assim pudessem compreender juntos aquela dor.





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Andrew Oliveira

sábado, 28 de agosto de 2010

Hidden Place - Capítulo 5: O egoísmo dele


- Está na hora de você ir. - Disse para Hermod, ainda seminu no sofá.

- Eu quero ficar mais um pouco com você.

- Heimdall chega daqui a pouco pra tomar um banho e ir pra faculdade.

- Tudo bem, eu já estou de saída. Antes disso...

- Não, por hoje já chega, Hermod.

Hermod vestiu-se, deu um último beijo em Frey, e abriu a porta, saiu. Andou pelo corredor e esperou o elevador se abrir, dando de cara com Heimdall, abaixou sua cabeça e partiu para a casa de Forseti.

Heimdall achou tudo muito estranho, ao chegar no seu apartamento, Frey ainda parecia intacto, como se nada tivesse acontecido, exceto por seu cabelo estar completamente desarrumado, isso Heimdall havia notado.

- O que aconteceu? Eu vi Hermod saindo daqui.

- Ele queria conversar comigo.

- E vocês conversaram sobre o quê?

- Sobre ele.

- Aconteceu alguma coisa a mais que você queira me contar? - Curvou-se o rapaz, para Frey.

- Não. Ele está realmente apaixonado por Forseti.

- Isso é bom, não é? Ela gosta muito dele.

- Eu sei o quanto. Talvez até mais do que ela mesma.

- Forseti não tem amor próprio? - Assustou-se Heimdall.

- Eu não sei. - Respondeu Frey

- Como você não sabe? Você não é melhor amigo dela?

- Ela não é obrigada a me contar sobre tudo que ela sente, Heimdall.

- Entendo.

Heimdall tocou seus dedos nos lábios de Frey, que estavam com cheiro de sexo. Frey não o amava, Frey nunca o amaria mais, e por que ainda estava ali? Heimdall era seu suporte, e mesmo assim, ele o tratava mal, como naquele momento.

- Desculpa, hoje eu não to me sentindo bem. - Disse Frey. - Você tem remédio pra dor de cabeça?

- Tenho, na gaveta do meu criado-mudo, pegue lá. - Decepcionou-se Heimdall.

Heimdall tirou suas vestes e entrou na banheira, lavando um pouco da sua alma, e um pouco da sua tristeza, não posso me abalar assim.

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A noite chegou, e junto, uma Forseti cansada do hospital, estava ajudando sua mãe, e claro, ganharia uns trocados por isso pra comprar algum sapato ou alguma blusa. Seu celular tocou, era Hermod.

- Forseti, você já está em casa?

- Acabei de chegar, Hermod, está tudo bem?

- Está sim, só queria dizer que eu te amo.

- Obrigada, meu amor. - Forseti encheu-se de felicidade, ele me ama, e isso é o mais importante.

- Quer sair um pouco? Estou aqui por perto.

- Hoje não, desculpa. Passei a tarde inteira no hospital ajudando minha mãe, o natal está chegando, e as pessoas ficam desesperadas pra receberem alta o quanto antes.

- Tudo bem.

- Você está mesmo bem, Hermod?

- Estou sim. - Deu seu meio sorriso, ela sentiu.

Ela sentiu também uma leve pontada no peito, não era de dor, nem de felicidade, muito menos de satisfação, ela sentia isso quando alguém não era suficientemente sincero, Forseti sentiu um ar de mentira na voz de Hermod, o que teria acontecido?

Forseti foi logo banhar-se, e depois, escrever um pouco, lembrou daquele sonho ruim em que ela caíra de uma colina, penhasco, ou seja lá o que for, mas era alto. Frey pegou suas tintas e um quadro bem grande, dado de presente por Heimdall, que já estava a caminho da faculdade. O quadro tinha pouco mais de um metro, tanto de largura quanto de altura, e o pincel de Frey delineava delicadamente cada canto daquele quadro, o que ele estaria planejando desenhar?

O telefone de Forseti tocou mais uma vez, desta vez era Heimdall telefonando, Forseti estranhou, já era de madrugada, por que ele ligaria a essa hora? Ela só pensava em Frey.

- Forseti?

- Oi Heimdall, tudo bem?

- Eu acho que não?

Outra leve pontada em Forseti, dessa vez era de preocupação.

- O que foi? Posso ajudar em alguma coisa?

- Eu não sei se você pode ajudar alguém ou se ajudar, Forseti.

- Heimdall, o que está acontecendo?

- Acalme-se, eu ainda não tenho certeza. Mas tenho certeza de uma coisa, e preciso falar isso pra você.

- Me fala.

- Frey é apaixonado por Hermod.

E ela sentia também quando alguém falava a verdade, Forseti tinha esse dom, e para ela, era uma maldição, pois ela nunca conseguiria se segurar numa mentira que ela poderia chamar de esperança.

- Eu não acredito nisso. Frey está com você.

- E eu acho que Hermod também sente o mesmo por Frey.

A voz de Hermod no telefone, sua ligação estranha, e esse cheiro de peso na consciência, Forseti sentiu algo preso na garganta.

- Por que ele sentiria o mesmo por Frey?

- Porque eu o vi saindo do meu apartamento, onde Frey estava.

O celular caiu da mão dela, Forseti paralisou, Hermod de repente não estava mais lá, mas ela não queria acreditar, mesmo descobrindo sua mentira, ela seria uma pessoa patética se se prendesse numa mentira e a chamasse de esperança.

Forseti sempre teve uma infância solitária, era muito inteligente, mas muito compulsiva com seus sentimentos, ela era uma pessoa adorável, pelo menos superficialmente. Frey estava ouvindo silenciosamente Heimdall conversando no telefone, e levantou-se da cama, tirou o celular da mão dele, e o esbofeteou.

- Seu idiota, você não tem noção do que acabou de fazer?

- Eu sou o idiota? Tens certeza disso?

- Me perdoe por não te amar, mas entre todos vocês, Forseti e Freya são as únicas coisas boas na minha vida. Nem pense mais em tirar Forseti de mim.

Heimdall calou-se, Frey se vestiu e correu para salvar Forseti, que já estava indo em direção ao mar, ainda paralisada, louca para se afogar.




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Andrew Oliveira.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Hidden Place - Capítulo 4: A felicidade dela


Uma nevasca cruel assolou a noite, e logo a manhã estava branca, tão branca que doíam os olhos, um aroma de solidão, um frescor de tristeza, lembranças no ar. As crianças logo foram para o parque às oito da manhã, os adolescentes para a escola, e os adultos se escravizarem nos padrões sociais.

Uma pequena pontada de dor caiu sobre as núvens, era um pássaro negro, não era um corvo, nem um urubu, ele era somente negro e desconhecido, e nada mais, a cânone de um verdadeiro sofrimento, o prelúdio de uma canção da culpa.

Forseti logo tomou um banho e se arrumou para ir ao colégio, enquanto Hermod, um completo vadio, ainda adormecia na cama da moça. Há umas cinco Frey fez o mesmo, Heimdall estava na casa dos amigos estudando, e todos os movimentos pareciam voltar ao normal.

- Se você repetir de ano eu termino com você, não quero um namorado burro. - Riu Forseti, maldosa para Hermod.

- Você não teria coragem. - Suspirou Hermod.

- Não duvide das minhas atitudes, Hermod.

- Hunf...

- Tudo bem então, tenha um bom dia.

Forseti ía apenas caminhando, enquanto que Frey desistira da ideia de ir de bicicleta devido à grande massa branca que deixava difícil até de andar, porém, Forseti conseguiu com muito esforço chegar na escola, onde várias cabeças se movimentavam como formigas para entrar. Forseti, de praxe esperou Frey chegar, para entrarem juntos, ela estava ansiosa para vê-lo, entretanto, Frey não estava com sua bicicleta, fazendo Forseti desistir da sua espera e chegando atrasado, foram para a aula.

Os dias estavam passando rápido, Frey mudou-se temporariamente para o apartamento de Heimdall, para não sofrer tantas agressões de seu padrasto, que tinha entrado a pedido de sua sogra no AA, mas não adiantava muita coisa. Forseti estava a cada dia mais apaixonada por Hermod, e Hermod, a cada dia pensava mais em Frey, Frey por sua vez, começara a viver uma mentira com Heimdall, aceitando seu pedido de namoro, apenas para ter alguém onde sustentar seu peso.

Frey era um peso morto, Hermod era um ilusionista, Forseti era uma ignorante, e Heimdall, um cego. Todos de alguma forma estavam presos nos outros e em si mesmos, seja da forma mais egoísta possível, pois viver uma vida inventada era apenas o reflexo de um ego solitário, e quanto mais você tenta viver uma mentira, maior é a dor que ela lhe dá, pois nunca se é livre ou feliz o suficiente, nunca se está satisfeito consigo mesmo, nem com os outros, nem com o vazio que são suas almas, ou um poço sem fundo, ou o pássaro negro desconhecido rasgando o céu com sua cor de luto, dando seu canto de réquiem, anunciando um amanhã repleto de conflitos, externos e internos.

Hermod caiu em si, ligou para Frey:

- Frey, por favor, eu preciso te ver. - Disse com a voz chorosa no celular.

- O que aconteceu, Hermod?

- Eu apenas preciso te ver, por favor.

- Tudo bem, venha aqui no apartamento de Heimdall, ele saiu para estudar na casa dos amigos e de lá vai direto pra faculdade, então não tem problema.

- Tá bom.

Hermod correu, correu como nunca correra antes, em direção à pessoa que ele amava de verdade, ele não sabia o porquê, nem sabia como, mas ele amava, e isso fez dele uma rajada de vento em direção à Frey, que logo o atendeu na porta de entrada do edifício, pegando o elevador, e indo para o apartamento de Heimdall.

Hermod estava nervoso, não sabia o que falar, como começaria? Como falaria para ele que estava apaixonado? Como ele reagiria? Ele estava confuso demais, mas ao mesmo tempo, decidido a tomar uma atitude, Frey trouxe uma xícara de café.

- Toma, beba um pouco de café, você está muito...

Hermod o beijou, a xícara caiu e quebrou, um raio solar entrou na janela, o pássaro negro gritou, uma rajada de vento também, vestes no chão, cheiro de amor proibido.

Frey e Hermod traíram Forseti. Naquela tarde, ela sonhou jogar-se de uma colina bem alta, bem alta.




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Andrew Oliveira

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Hidden Place - Capítulo 3: O calor dele


A tarde ainda estava branca, Frey, Heimdall, Frey, Forseti e Hermod conversavam e faziam brincadeiras, às vezes Heimdall olhava discretamente para Frey. Frey nem conseguia olhar para Hermod, Forseti fingiu não perceber nada, simpatizava com Heimdall, Freya em seu colo. Decidiram ir para uma lanchonete ali perto, onde passaram mais meia hora conversando e gargalhando com as piadas de Heimdall, o mais auto-confiante dali. Frey estava feliz, pois no ano que breve chegaria ele iria morar com a avó, no momento ainda não dava para se mudar pra lá.

E a noite chegou, Hermod foi dormir na casa de Forseti, Freya foi embora junto com a avó, e Heimdall ficara a sós com Frey enquanto seu padrasto bebia em algum bar distante dali.

~

Frey e o amigo trancaram-se em seu quarto bagunçado, até parecia com a situação do seu interior. Pegou do fundo da gaveta do guarda-roupa um saquinho inchado de cocaína, organizou o pó em fileirinhas num pedaço de espelho, e fechou os olhos por alguns segundos.

- Quer? - Ofereceu para Heimdall.

Heimdall olhou horrorizado para Frey.

- O que você está fazendo, Frey? Pare com isso! - Levantou na mesma hora e tentou tirar as drogas das mãos de seu amigo.

Frey hesitou, mas logo guardou o saquinho e o pedaço de espelho no bolso, cabisbaixo, envergonhado de si mesmo, querendo ainda mais, o frio o deixava desesperado.

- Me dê, Frey, me dê isso aqui.

- Seu hipócrita, mostre-me o seu braço, com certeza já deve estar caindo de tanto se injetar. - Sussurrou, arrogante.

Heimdall o esbofeteou.

- Eu parei com isso há dois anos, estou completamente limpo, Frey. - Respondeu com a voz chorosa.

Após o tapa, virou a cabeça lentamente, como se tivesse se rendido.

- Desculpa, eu não sei me controlar.

- Tudo bem.

Heimdall o abraçou caloroso, Frey era vulnerável demais para recusar um abraço, e fechou novamente os olhos, dessa vez para sentir apenas o corpo grande e confortador dele, por que seu coração está batendo tão forte?

- Acho que estou me apaixonando...

- É bem tarde pra isso, você não acha?

- Eu não sei mais o que fazer.

Frey pegou o saquinho de cocaína do bolso e jogou no vaso sanitário de seu banheiro, puxou a descarga e foi se deitar, ao calor de Heimdall. Era tão fraco e covarde que sempre precisava de um porto seguro, eu quem peço perdão por não te amar mais, Heimdall.

- Você gosta dele, não é? - Sussurrou Heimdall, pensando em Hermod.

- Às vezes sinto que estou traindo Forseti por pensar tanto nele. Eu sinto uma culpa terrível. Você não faz ideia do tamanho dessa dor, Heimdall.

- Você não precisa se culpar por isso.

Frey se deitou sobre o peitoral de Heimdall.

- E queria morrer um pouco só pra esperar toda essa dor passar.

- Dá pra morrer um pouco?

- Eu queria experimentar.

Heimdall o encarou, sério, e logo Frey, cheio de compaixão por ele, deixou-se ser beijado carinhosamente. Heimdall passou as mãos em seus cabelos, ainda beijando-o desesperado, em sua orelha fria, em sua bochecha tão pálida quanto todo o seu corpo, em seu braço fraco, em sua cintura magra. A mão de Heimdall em suas nádegas, a mão de seu padrasto, a boca fétida do seu padrasto, a penetração forçada de Loki.

Frey afastou-se de Heimdall, gritando histérico, pôs-se a chorar copiosamente, ajoelhado no chão, com as mãos nos ouvidos, de olhos bem fechados, bem fechados... Eu tenho medo do escuro.

- Frey, o que foi? - O coração de Heimdall estava a mil, isso não pode ser verdade.

- Me perdoa, eu não consigo, me perdoa, me perdoa, eu tô com medo, não desliga a luz, ele vai voltar de madrugada. - Mal conseguia falar de tanto soluçar.

- Tenha calma, Frey. Eu não vou fazer nada que você não queira. - Acalentou-o tocando em seu rosto, Frey parou de gritar.

- Você promete?

- É claro que sim. Venha, vamos lavar esse rosto.

~

A janela descortinada, a luz da lua, apenas eles dois.

- Você tem certeza?

- Tenho.

- Não está com medo?

- Não sinto medo

Seus lábios tímidos tocaram os de Forseti, seu corpo roçava em seu corpo, suas mãos a massageavam, seu sexo começou a sentir o sexo dela, seu odor pedindo por mais. A primeira vez dela, seu corpo todo tremia, ela mordia os lábios, lágrimas de felicidade, ela estava sentindo o corpo dele, eu te amo Hermod.


E o frio intenso da madrugada se tornou apenas um detalhe, até o infinito.








~






Andrew Oliveira

domingo, 22 de agosto de 2010

Hidden Place - Capítulo 2: Os sorrisos dela


- Hermod, volte já aqui! - Gritou a mãe.

- Não enche, tenho que ir, tchau!

- Hermod! Escute sua mãe!

- Me deixa em paz! Seu bêbado fracassado!

O pai de Hermod levantou-se da poltrona, jogou o jornal no chão junto com o seu auto-controle e esbofeteou o filho, a mãe fez o mesmo, mas logo Hermod saiu daquela casa, respirou fundo e foi ao encontro de Forseti, tentar viver um pouco. Ele era um ano mais novo que ela, apenas dezesseis anos, era o melhor aluno da escola, todos o admiravam, mas tinha poucos amigos de verdade, meio anti social.

Esperou no banco da praça do local marcado, enquanto ouvia um pouco de música no seu celular, tentando relaxar. Seus lábios secos se mordiam, sua face corada, seus olhos tímidos intimidadores cabisbaixos, com um leve ar de melancolia. Tossiu em seco e comprou chá gelado ali por perto, seus belos cabelos eram assoprados pela brisa invernal, já se sentia melhor, e resolveu voltar para o banco, e breve Forseti chegou, Hermod pensou um pouco na imagem do sorriso de Frey, ele não entendeu o porquê, mas tentou esquecer.

- Hermod, querido, como você está? - Felicitou-se Forseti.

- Estou bem. - Deu um meio sorriso, como sempre fazia.

- Demorei muito? Detesto chegar tarde em um local.

- Não, que nada, só faz uns cinco minutos.

- Sentiu muito a minha falta?

A imagem de Frey novamente, seu peito doeu.

- Bastante. - Outro meio sorriso, ela olhou desconfiada.

Ainda assim alegrou-se, e logo o beijou, num aroma de satisfação com seu primeiro amor. Hermod, o primeiro dela, o segundo de Frey.

Conversaram e namoraram por ali durante um bom tempo, e cada minuto era especial para Forseti, eu não sei quanto à Hermod.

- Vamos visitar Frey? - Perguntou Forseti.

- Vamos sim. - Meio sorriso de praxe

~

O balanço no quintal pendurado no galho grosso daquela árvore, era movimentado pelos braços de Frey, empurrando Freya que soltava risos amorosos pelo irmão.

- Não empurre tão forte, irmão! - Riu a criança.

- Tá bom, mas você não queria voar? - Sorriu.

- Agora eu só quero ficar perto de ti! - Até o ar frio a deixava feliz, eu me contento apenas com você perto de mim, irmão bobo.

Uma presença se aproximou dos dois, logo Frey percebeu, e olhou para a rua, ali estava ele.

- Heimdall? - Assustou-se

- Olá Frey, quer um pouco de chá gelado? - Ofereceu uma lata toda colorida pro rapaz.

Passaram-se alguns minutos e breve, Frey e Heimdall iniciaram uma conversa sentados na escadinha da porta de entrada da casa de Frey, enquanto Freya ainda brincava alegre no balanço, e a vó dos dois irmãos discutia seriamente com Loki sobre a guarda dos filhos de sua filha, na sala. Já era uma hora da tarde.

- Como está indo sua vida? - Perguntou Heimdall

- Como você quer que esteja?

- Eu soube que você está se drogando. - Preocupou-se.

- Forseti já me deu uma bronca, não se preocupe.

- Frey?

- Oi?!

- Você ainda pensa em mim? - Perguntou curioso.

- Cansei de pensar em você.

- Por quê?

- Às vezes você pode esquecer rapidamente de alguém levando o tipo de fora que você me deu, sabe... - Disse Frey, ríspido.

- Desculpa, é que naquela época eu estava repleto de problemas, mas agora...

- Eu não guardo rancor de nada, Heimdall, você já deveria saber disso.

- Eu só penso em mim. - Admitiu Heimdall.

- Eu só penso em três pessoas, com amores diferentes.

- Quem são?

- Minha irmã, Forseti, e...

- E...?

- Você já está terminando a faculdade, não é? - Curvou o assunto.

- Sim, graças a Deus. - Heimdall preferiu não questionar sobre a mudança repentina de assunto. - Você pretende cursar para o quê?

- Artes.

- Não pensa em nenhuma outra área?

- Não.

Duas outras presenças também se aproximaram dali, Hermod e Forseti. A tarde de Frey se iluminou.








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Andrew Oliveira