Solitude, darkness and love


"I don't wanna admit, but we're not gonna fit"

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Elope, 09 O Demônio



Belial
A luz estava fosca e seus olhos embaçados, colados horrivelmente por cílios e areia. Sentiu o corpo pesado e indisposto, provavelmente resultado de um exagero de remédios na noite antecessora. Mas fora uma noite sem sonhos e ele estava satisfeito. Não viera o menino francês, aquele fantasma pálido de cabelos negros de nome Louis, não vieram também as sombras, submersas por uma onda de placebo, tampouco o desespero em destruir tudo aquilo que construíra. Da sua última coleção, restavam apenas seis quadros após aquele massacre de demolição súbita comandada por uma ideia pura de não fazer daquele adolescente que ele amara, uma sombra também. Agora quem sabe um adulto, educado e ainda sincero, gentil e fraternal. Ou talvez medo. As duas possibilidades o assustavam, se estivesse como antes bem poderia se lembrar do menino assustado que agora era um rapaz assustado e levemente patético. Se estivesse morto voltaria a ser uma sombra dos seus sonhos, e nada mudaria. Completamente irrelevante e alheio do mundo.
Ele teria que ter certeza, e por muito tempo estivera acomodado numa vida que oscilava constantemente entre sonhos lúcidos, imaginações doentias e dores de cabeça cruéis. E por que não obter isso agora?
Com um esforço quase sobre-humano ele chegou ao banheiro e ligou a ducha quente no rosto ainda contorcido de dor com a luz da manhã, a grande e gorda vésper. Tirou a cueca branca que se colava e transparecia na pele, ensaboando a barriga magra e dura e o peitoral pouco notável que se enchia e secava lentamente, como se respirar fosse uma batalha a ser travada pelo seu espírito, e começou a se sentir melhor e mais desperto.
- Kathy, eu preciso da sua ajuda. – ele falou ao telefone, quarenta minutos depois do seu despertar ao mundo.
- Eu já estou chegando, Belial. – A voz na outra linha estava cansada e aborrecida, mas ele sabia que não era por causa da sua ligação.
Vestiu uma calça jeans azul-escura e uma camisa preta de três botões, demorando para colocar os sapatos e assistir a movimentação nas ruas lá embaixo pela janela, enquanto penteava para trás os cabelos louro-dourados e se lembrava da maneira súbita como conhecera Nolan. Pouco mais de uma semana havia se passado e nenhum sinal de uma visita inesperada e agradável de Nolan. Ele o teria assustado tanto assim com o seu ataque? Não mais do que as suas próprias e inusitadas atitudes em cobri-lo com o seu casaco naquela primeira noite e o convidado a ser seu modelo na segunda. Duas noites bastante interessantes e pouco prováveis vindas dele. Mas aconteceram. Num gesto mecânica de cavalheirismo ou apenas algo enferrujado e adormecido que esperou que um momento simples e metropolitano como aquele surgisse.
O interfone tocou, e ele logo recebeu um abraço caloroso de Kathy, que estava com as feições abatidas e pálidas.
- Você está bem? – Ela perguntou.
- Com vontade de estar. – Ele respondeu.
A resposta lhe pareceu egoísta e mesquinha. Ele estava bem melhor do que a mulher acabada na sua frente. Mas antes que pudesse perguntar sobre ela, Kathy já caminhava em direção ao elevador, segurando a bolsa de couro negro meio impassível, os saltos sonoros no piso. Seus cabelos estavam seguros num coque meio embaraçado e as rugas de expressão se atenuavam nas luzes pálidas dos corredores. Belial gaguejou e não saiu nada.
O tempo estava gelado e nublado, embora nenhuma nuvem escura e relampejante estivesse habitando os céus da metrópole. Algo naquele tempo fez Belial se lembrar de alguma cidade nos litorais, seria Toulouse o nome?
- Kathy...
- Não se preocupe comigo, Belial. – Kathy pôs a chave na ignição, prendeu o cinto e retocou rapidamente o batom escarlate nos lábios. – Você quer vê-la, não é?
- Como você sabia?
- Imaginei apenas... Você nunca me liga pedindo ajuda.
- Eu sei.
- Deveria fazer isso mais vezes.
Ela deu um sorriso discreto no retrovisor e ele correspondeu, o carro já se movia em algumas esquinas calmas.
- Hoje está tão calmo.
- Talvez as pessoas estejam apenas cansadas demais de fazer desse lugar uma cidade. Pelo menos por hoje. – Kathy dirigia calma e perfeitamente paciente, mesmo nas ruas pouco movimentadas.
- Kathy, eu fiquei preocupado. Eu sei que você não quer que eu insista mas...
Kathy franziu o cenho.
- Foi apenas uma discussão, Belial. Uma coisa boba.
- Isso não me parece ser tão simples.
- Nunca dá pra esconder nada de você, não é mesmo? – Kathy bufou, Belial sorriu. – Certo, também estou esgotada de chegar de viagem e ficar metade do meu dia discutindo com uma garota de dezessete anos.
- Então por que você não para?
- Se ela me escutasse isso poderia ser mais fácil de resolver. Mas ela é uma adolescente, e adolescentes acham que tudo é diversão e felicidade.
- Isso me parece o pensamento de uma criança.
- Não tem tanta diferença entre eles, não? As preocupações apenas mudam. Antes eu receava que, se me distraísse por apenas um minuto, Miriam puxasse um vaso de uma estante, quebraria e se machucasse com os cacos de vidro.
- E hoje?
- Que o coração dela seja um vaso também, exposto a qualquer um para puxar e quebrar, e fazer sangrar o pé de alguém.
- Corações não são feitos de vidro.
- Ela pode se distrair.
- Como você?
- Como qualquer um. E eu vivo me distraindo mais do que o aceitável. Eu sempre a deixei solta para poder viajar, conhecer e estudar galerias e movimentos artísticos. Nunca quis que ela interferisse na minha carreira, fui egoísta mais do que o suficiente. E quando voltava para casa, a babá já havia ensinado ela a andar.
- Você ainda continua se culpando?
Ela deu um sorriso tristonho.
- Não há mais ninguém no mundo para culpar, Belial.
- Você não pode fazer desse jeito.
- E por que você diz isso?
- Você só queria viver, não há nada de errado nisso.
- Miriam já estava no mundo enquanto eu continuava me negando isso. Eu fugia da minha maior obrigação. Passei tempo demais fugindo e agora mal conheço minha filha. Não sei se ela confia em mim e eu nela.
- Eu também não conheço a minha mãe, e não vivo como você.
- Você vive, Belial. Nos seus quadros.
- São apenas sonhos. Não tem nada demais nisso.
- Então vou lhe contar uma coisa que você ainda não sabe: as pessoas adoram os sonhos. Mais do que a vida real. A vida real nunca muda e evolui, e a maioria das coisas permanecem as mesmas, ruins ou razoáveis, sempre frustrantes. Ou se não, pioram. Os sonhos são uma espécie de limbo onde você pode recarregar suas energias e enfrentar melhor as coisas palpáveis assim que abrir os olhos. E talvez seja por isso que morremos, uma hora não suportamos mais e precisamos sonhar para sempre. Fugir das coisas que não tivemos coragem de enfrentar.
Você tem sorte de ter os seus sonhos o tempo inteiro com você, ela pensou.
A chegada na rodoviária e na estrada pareceu passar rápido demais, Belial se distraiu em algum mundo particular na janela e Kathy dirigia quieta e ainda mais absorta em pensamentos, a respiração sutil e constante, embora não fosse exatamente tão em ordem que ela estivesse por dentro. Colinas se erguiam majestosas por trás de pinheiros, até o carro escuro da mulher entrar numa rota pequena de pedras em direção a uma mansão que exalava fumaça cinza por uma chaminé vitoriana, sua arquitetura se moldava com a beleza rococó e grandes jardins, portões e grades de ferro se estendiam nos campos mais abertos ao redor do local. Um segurança alí próximo abriu o portão maior quando Kathy apresentou sua carteira de identidade e estacionou na calçada do lado esquerdo da mansão, que exibia na sua entrada um letreiro metálico com os escritos Clínica Psiquiátrica Santa Edwiges, Belial já estava abrindo a porta do carro quando Kathy segurou sua mão e impedi-lo num gesto apaziguador.
- Você tem certeza? – ela disse.
- Se eu não tiver agora, provavelmente ficarei com medo de ter depois. – ele respondeu.
- Você pode pelo menos me...
- Se eu posso explicar?
Ela assentiu com a cabeça, pacientemente.
- Eu só quero descobrir se a única coisa forte na minha vida não seja também mais um fantasma ou um delírio. Mais um ataque incoerente da minha realidade.
- Alguém?
- Você viu todos eles – Belial sorriu. –, e todos eles são o mesmo. Você o conhece. Não da forma habitual, é claro. Mas você o conhece. E quer que todos o conheçam. Não é?
Kathy respondeu com um meio sorriso de aquiescência. É claro que ela queria que todos o conhecessem.
Duas enfermeiras o receberam com sorrisos e afagos nos ombros, levando-os à portaria. Belial apresentou sua identidade, mas a moça do balcão o reconheceu imediatamente.
- Belial! Que... Imprevisível. Como você está?
- Estou bem. – Foi tudo o que ele respondeu, e ela sabia que aquilo era tudo o que ele falaria durante toda a trajetória para levá-lo às alas onde estava a mulher.
- Vamos, é por aqui.
A mansão transformada em clínica parecia ainda maior e infinita de dentro. Kathy, Belial e a moça caminharam por uma alegoria de corredores, até subirem um lance de escadas e chegarem a um corredor que instalava os quartos dos pacientes. Com uma janela clara e aberta no seu ponto final. Kathy segurou a mão do pintor, mas ele a soltou gentilmente.
- Já disse que está tudo bem.
- Acho que estou mais insegura do que você.
Belial sorriu.
- É só uma visita, Kathy. Não precisa ter tanto medo.
- Não estou com medo, Belial. Mas é que... Como posso dizer?
- Você não precisa dizer nada.
E com aquilo, Kathy teve certeza de que ele também sentia seu espírito de mãe agindo ao seu lado naqueles dois anos.
A moça buscou o molho de chaves no bolso da jeans e abriu a porta daquela ala branca e sem personalidade, apenas com um guarda-roupa também branco, um banquinho e uma mesinha, e uma cama aparentemente pouco confortável. No peitoril da janela, uma mulher loura com os cabelos embaraçados fitava a área de lazer lá embaixo.
- Eu vou esperar lá fora. – Kathy lhe deu um beijo e o empurrou de leve para dentro do quarto, fechando a porta ao lado da moça.
Belial se sentou na cama e esperou a mulher se virar para conversar com ele. Mas ele mal se moveu, com exceção do seu peitoral inchando e secando numa respiração lenta e quase parada e a sua voz estalando no ar, rouca e aflita por um excesso de remédios.
- Posso ajudá-lo em alguma coisa?
- Oi mãe.
A mulher virou o pescoço, tinha o rosto surrado de rugas de expressão e os olhos caídos, cheios de olheiras e incrivelmente azuis. Os cabelos louros agora vistos de perto tinham um aspecto desnaturado, como se estivessem prestes a cair. Ela se sentou no banquinho e uniu as duas mãos por cima da coxa, como uma menininha comportada.
- O que aconteceu?
- Eu vim vê-la.
- Não, você não veio me ver. O que aconteceu?
- Eu estou aqui.
Ela pareceu ter se sobressaltado com a afirmação.
- Belial?
Belial deu um meio sorriso.
- Você ainda vive.
- Isso é ruim?
- Pensei que, quando eu me livrasse de você, você desaparecia.
Aquilo foi cruel.
- Eu sempre fui um incômodo tão grande assim?
- Seu pai... Seu pai era um... – e seu rosto se avivou no maior dos sorrisos – um crápula! Não é incrível, adorável?
- Eu não vim aqui para falar do meu pai, mãe, eu...
- E então eu falei pra ele que era intocável. Mas ele me ouviu? Não, não... E não foi só ele. Foi na mesma noite, ele e o pai dele, e quando o irmão chegou, o irmão também. Todos os três. Mas eu fui me lavar e por algum tempo achei que o inferno acabaria. Mas o inferno voltou, voltou na sua pior forma. Eu orei, eu orei com todas as minhas forças, mas Deus deve estar no inferno também, rindo da nossa cara. Eu fiz sangrar nas minhas mãos todos os rosários do mundo. E todos os rosários do mundo eram só madeira e contas, bijuterias estúpidas, lixo!
Belial não conseguiria fazê-la parar.
- Então decidi ir para o convento. Mas na minha condição não me aceitaram, e já era tarde demais para abortá-la.
- Para o quê? – Belial sentiu o ar ir embora dos pulmões.
- Abortá-la, seu estúpido! Tirar aquele monstrinho de dentro de mim. Tirar aquela sanguessuga da minha barriga. – seus grandes olhos azuis umedeceram e cintilaram. – E minha mãe disse para continuar. Disse para casar com o seu pai. E que não entendia porque eu estava tão desesperada, fazendo drama por tudo, se a minha vida estava maravilhosa. Fui pressionada... Fui tão pressionada... Eu me casei por causa de mamãe. E aí dei a luz à ela, à Lyria... Mas o inferno veio de novo. Ele chegava bêbado, gritando e quebrando tudo, e o colocava dentro de mim até sentir o cheiro do meu sangue nos lençóis. E logo em seguida veio você.
“Você, com sua saúde frágil e suas visões macabras de sombras e vozes, de coisas que não existem virando suas amigas. O que são essas coisas afinal? Elas tem algum significado pra você? E foi por culpa sua, e você sabe disso. Eu sei que você sabe... Não é? Não é? E eu já tinha aprendido a amar Lyria. Já tinha sim... Era tão fácil e simples amar aquela criaturinha sorridente de cabelos desbotados no berço... Rindo sem parar...
Lyria foi enterrada em meio a centenas de lírios, que patético. Mamãe chorou, seu pai chorou e o pai dele também, até o irmão estava no enterro, derramando suas lágrimas puras de hipocrisia. E nenhum deles afinal sabia a quem Lyria pertencia. E Lyria também nunca soube. Foi para o caixão sem ao menos completar sete anos. Era um caixão pequeno, branco, e ela usava um vestido de rendas também branco, tão branco quanto este quarto, com sapatilhas pálidas, a cor pura como a criança deve ser... Tem que ser. Então eu e seu pai escondemos isso, inventamos a pior das histórias. Para salvar você, o primeiro demônio ao mundo.
Ninguém aceitou quando eu lhe dei esse nome, mas ao menos para isso eles não tiveram coragem de enfrentar. Porque é o que você é. O demônio que me tirou Lyria. E o nome veio a calhar. E eu sabia que você era ele encarnado, desde que os médicos o puxaram de dentro de mim. Você não chorou durante duas semanas. Eu senti que aquilo era um sinal divino, e desde então já havia decidido qual seria o seu nome. Um demônio, não um anjo. Um demônio, um demônio, é isso o que você é... Mas apenas ele, apenas aquele garotinho magricela e alto de cabelo escuro vinha brincar com você. Provavelmente um anjo convertido ao mal. Sim, sim... Não deveria ser outra coisa, não?”.
Belial não tinha nenhuma frase completa para dizer sobre o que ouvira. Mas conseguiu perguntar o que queria.
- Você se lembra do nome dele?
Ela o fitou, franzindo o cenho e ajeitando os cabelos louros e bagunçados atrás da orelha.
- Pensei que soubesses...
- Eu sei, mas preciso ouvir mais alguém dizer esse nome também.
- E por quê?
- Porque, além da minha arte e de você, provavelmente é a única coisa que me resta.
- Louis? Sim, acho que sim... Louis... Deveria soar como Lúcifer.
- Sim mãe, Lúcifer.
Belial se levantou da cadeira e se dirigiu à maçaneta da porta.
- Não, não! - a mãe também se levantou. – Espere! Você também precisa ouvir. Você também precisa saber! Eu não queria você. E você já deveria estar morto... Com esse nome, já deveria estar morto. Você não merece estar aí enquanto eu estou sem Lyria. Você não merece, Belial! Seu demônio estúpido que me tirou tudo!
A mulher o atacou com punhos e garras e começou a estapeá-lo com tal fúria e força que, naquele corpo abatido e enfermo, seria impossível de existir a apenas alguns minutos atrás. Os enfermeiros entraram em ação quando a porta foi aberta e seguraram a mulher descontrolada para longe de um Belial com o rosto e o pescoço arranhados e os cabelos agora tão desarrumados quanto os dela.
- Belial! Faça eles pararem Belial! Você é o demônio! Você é poderoso.
Belial se virou para fitar a mãe uma última vez.
- Eu não tenho poder nenhum, mãe. Embora ainda não tenha descoberto como posso te amar.
Ela cuspiu no chão enquanto os enfermeiros a seguravam pelos braços.
- Não quero esse amor amaldiçoado.
- Eu também não.
Kathy já o esperava no carro, ouvindo algum clássico de Françoise Hardy e retocando o batom nos lábios. Belial entrou, fechou a porta, colocou o cinto de segurança e suspirou.
- Foi tão ruim assim?
- O que você acha?
- Você conseguiu a resposta que queria?
- Acho que sim. Ela falou o nome dele, e depois mudou para um outro. Mas o primeiro que veio na cabeça dela foi esse, então significa que ele existe.
- E o que mais?
- Ela ainda me culpa pela “morte” da minha irmã.
- Mas ela...
- Não, ela não se lembra de nada. Na realidade da minha mãe, fui eu quem empurrou Lyria da janela, não ela.
- Mas você me disse que Lyria...
- Sim. Lyria está tão viva quanto nós, Kathy. Embora ela também não saiba disso.

~
Briana
Por um momento sua cabeça pareceu ter explodido, e a vibração da música no box do banheiro lhe deu náuseas. Abriu os olhos e a tampa do vaso sanitário e vomitou com vontade, enxaguando a boca em uma das pias logo em seguida. Pegou uma pastilha de menta e tirou o suor da testa, esfregando os olhos e borrando todo o rímel e o delineador pesado dos olhos.
Amor sombrio, amor sombrio, alguma música comentava. Cansou-se do ar abafado a cigarro e sexo do banheiro e voltou para a pista. Os lasers a atingiram como raios acusadores de cores e distorções, seus tímpanos eram violentados como tambores e seus olhos estavam em chamas, talvez por maquiagem em excesso que tenha entrado ou simplesmente por um incômodo mais incoerente. Mas ela não queria saber disso. Pulou sem parar, e um homem com a barba rala e o rosto cínico, de cabelos escuros e olhar cabisbaixo a puxou pela cintura e lhe tascou um beijo violento, esfregando a virilha rígida por cima da jeans da ruiva e massageando seus seios sem o mínimo pudor. Briana deixou e o homem a abraçou com força, enfiando sua língua até onde alcançava na boca semiaberta da garota. Uma música ainda mais pesada começou a tocar, algo sobre olhos fechados e conexões, de uma pele dependente e de uma morte por orgasmo.
Num canto mais visível, Miriam beijava um rapaz de rosto levemente andrógino, e colocava sua mão dentro da sua calça, acariciando-o e deixando o adolescente enlouquecido. O homem tirou do bolso um saquinho pequeno com duas pílulas azuis, Miriam o fitou, desafiadora, e colocou a língua para fora para que ele fizesse seu trabalho, entregando uma delas ao seu domínio e engolindo a outra.
Por algum tempo nada aconteceu, e Miriam apenas se rendia de olhos fechados àquele estranho perigoso e tóxico, mas quando abriu os olhos o mundo parecia mais rápido e intransigente do que nunca fora. As luzes pareciam palpáveis, e muito mais do que deveriam ser, nunca ser. Sentiu o corpo esquentar e, por debaixo da pele, algo orgânico e monstruoso se movia como se estivesse crescendo e se alimentando das suas artérias. Ela arfou e afastou a boca faminta do homem de olhar desesperador e franziu o cenho, apertando os olhos com força e parando de dançar por um momento.
- O... O que...
- Está tudo bem. – Ele respondeu, mordiscando sua orelha e fungando na sua nuca, abraçando-a por trás e fazendo o mesmo gesto que Miriam, prosseguindo numa trilha de dedos na sua barriga até dentro da sua calcinha. Mas aquela mão era áspera e grande, nem um pouco parecida com a de Miriam.
Briana abriu os olhos e o empurrou. Aquelas mãos lembravam outras mãos.
- Des... Desculpa eu preciso tomar um ar.
- Não.
- O quê? Não, me solta, eu... Não estou conseguindo respirar.
O homem a levou para fora da boate e a prendeu num beco entre os seus braços, violentando-a com beijos. Briana já estava cansada de beijar. Ela o empurrou de novo.
- Me solta...
- Não, puta que pariu, você é muito gostosa. Preciso te foder... Eu...
- Não, não quero, eu...
- Meu pau tá se apertando e pulando da minha cueca. – Ele a chupou no pescoço e buscou sua mão para ela sentir seu sexo grande e duro fazendo volume na calça jeans.
- Não!
Ela o empurrou com mais força, mas ele voltou com o dobro e a puxou pelos cabelos ruivos e bagunçados, respirando na sua orelha esquerda.
- Você pediu por isso, putinha.
- O que está acontecendo aqui? Briana! – A voz de Nolan foi como uma bomba de oxigênio nos seus pulmões.
- Nolan, me ajude.
O homem a prendeu pelo pescoço com apenas uma mão e apontou a outra para Nolan. Briana olhou para o chão e viu uma viga enferrujada e metálica perto de um lixão.
- E você não se meta, moleque.
- Ela é minha irmã, imbecil.
O homem foi para cima de Nolan e recebeu um grande e certeiro soco no olho direito pela mão pesada do ruivo. Mas o outro também era forte e tinha os punhos de ferro, revidando para cima do irmão de Briana como um touro na arena e deixando Nolan atordoado com um soco certeiro no queixo, fazendo-o morder a língua e sangrar sua boca, e mais outro no olho esquerdo, e mais um na barriga que tirou todo o seu ar. Nolan, desesperado e sem ter mais nenhuma ideia ou instinto de defesa, conseguiu segurá-lo com um braço pelo seu pescoço e bateu sua cabeça na parede, domando enfim aquela montanha de músculos, raiva e incoerência. A cabeça doendo com tudo aquilo e um filete de sangue escorrendo pelo canto do lábio estourado e do olho ardente.
- Briana, você está bem?
Briana não respondeu, ele olhou para trás, com as pupilas ainda se adaptando àquela iluminação comportada e pouco confiável do beco ao lado do clube. A irmã segurava o pedaço pontiagudo, longo e metálico que vira perto do lixão.
- Briana, o que...
Ela o fitou, inexpressiva.
- Já... Já está tudo bem, você pode largar isso.
Um franzir de cenho e um arrepio nos braços magros e expostos ao frio.
- Não está tudo bem, Nolan. Eu não...
- Briana, chega, vamos pra casa. Olhe o nosso estado.
- Você chama aquele inferno de casa?
- Bom, não temos nenhum lugar pra ir, não é? Ou você pretende que a gente durma no quarto da Miriam ou coisa parecida?
- Eu não falei isso.
- Então o que você quer, Briana?
Geralmente o tratamento de Nolan para com ela era de indignação, leve irritação ou impaciência. Mas ele estava ferido e descabelado, com suor e sangue escorrendo pelo pescoço, e tinha razão em ficar com raiva. Mas o que ela poderia fazer?
- Briana, vamos...
- CALA A BOCA!
Ele a encarou como se ela fosse uma desconhecida.
- Olhe pra mim, Nolan! Eu não sei nem me defender! Vivo sendo protegida e não posso nem ao menos levantar a voz. Eu sou a porra de uma puta escrota que não faz nada enquanto o mundo desaba ao meu redor!
Nolan piscou várias vezes e fechou os olhos com força, colocando a mão sobre o rosto e sentindo o cérebro implodir.
- Do que você está falando? O que está acontecendo com você?
- É isso que você me responde?
- Eu não estou respondendo.
- Porra, Nolan!
Nolan se encostou numa parede e cruzou os braços num gesto inconsciente de desproteção, abaixando a cabeça e respirando o ar frio da madrugada, trêmulo.
- Eu... Eu vou pra casa.
Ele começou a andar e lhe virar as costas quando ela gritou:
- O que você vai fazer?
- O que você quer que eu faça?
Ela não sabia que já estava chorando, sua posição de fúria naquele momento impossibilitava qualquer discernimento de tristeza ou dor. Era apenas o frio lhe lambendo o rosto, contorcido na pior das expressões.
- Você já olhou pra mim?
- O que tem você? A única diferença de antes pra agora é que eu não conheço esse monstro que tem aí dentro.
- Eu sou esse monstro, esse demônio... Você ainda não percebeu? Olhe pra mim! – ele virou o rosto - Olhe pra mim porra! Olhe tudo o que você tem e o fracasso que eu sou! E você ainda quer falar de monstros e mudanças. Pra você a vida é tão fácil e simples, tão cheia de sorrisos e ‘proteger aqueles que se ama’, não é? Você não está me protegendo de nada, nunca me protegeu. As coisas são assim. É difícil de entender?
- Então o que você tem pra me dizer? – ele parou de encarar a rua úmida para realizar a vontade da irmã. – Você tem alguma coisa pra me dizer? Voltamos ao ponto de partida, não? Desde aquele dia no hospital. Quanto tempo faz? Três semanas? E você nunca me falou nada até agora. Eu não sei o que aconteceu com você e você não me parece muito interessada em me contar. Então antes de vir falar esse monte de merda na minha cara, pense no que você está fazendo comigo.
- Eu não estou fazendo nada!
Ela largou o pedaço de viga no chão e bateu com a testa na parede, soluçando. Nolan não se moveu.
- Vamos pra casa.
- Não.
- É sua última chance.
- Foda-se você e suas chances.
O homem começou a despertar e massagear a cabeça, gemendo horrivelmente. Nolan desistiu e passou a caminhar, Briana buscou novamente o pedaço de viga e com toda a força das suas duas mãos atingiu a costela do homem, ele gritou e chamou a atenção do ruivo que já estava partindo, e já estava voltando. Miriam saiu da porta dos fundos do clube sozinha, com um sorriso vivaz que se desbotou do rosto rapidamente.
- Briana o que você... – Ela começou, mas Briana apenas a velou com um olhar amedrontador.
- Por favor, pare, pare! Eu não vou fazer mais nada com você. Só me deixa ir embora, porra eu tô muito mal... Não, não, espera.
Briana o atingiu de novo na costela, Nolan correu e Miriam pôs as mãos sobre a boca.
- Briana, pare com isso!
- E por que você não parou quando eu pedi?
Mais uma estocada cruel e forte como se ela estivesse usando um taco de beisebol, dessa vez na barriga, que começava a empapar de sangue a camisa com os ferimentos da ponta afiada do metal. Miriam tentava se aproximar, mas Briana estava letal.
- Eu... Eu estava... Ahhh!
A cada palavra Briana batia mais uma vez.
- Por... Que... Você... Não... Parou?
- Me desculpa! Me desculpa! Eu...
Briana o atingiu no rosto e rasgou a pele da sua bochecha. O homem começou a chorar e se encolher como uma criança. Nolan chegou e, num reflexo, Briana também o atingiu na barriga. Ele caiu de joelhos tentando recuperar o ar nos pulmões. Briana começou a tremer e chorar mais compulsivamente, Nolan se levantou e puxou o pedaço de viga do seu braço, jogando-o para longe e mandando o homem ir embora dalí.
- Nolan, me perdoa eu... Eu não vi...
- Sai de perto de mim!
Ela tentou abraçá-lo e ele a empurrou com força. Briana tinha os olhos afogados, e ignorou completamente a existência de uma Miriam horrorizada, com o rosto meio oculto por uma grande sombra.
- Nolan, Nolan... Não, eu não...
- Satisfeita agora por ter conseguido se defender?
Briana o puxou pelo braço, mas ele a repeliu novamente, indo embora sem olhar para trás. Miriam a encarou sem entender nada e correu atrás de Nolan, Briana foi logo em seguida, na penumbra dos dois, por desespero ou talvez simplesmente pela madrugada que ainda estava longe de acabar. Mas eles corriam mais rápidos e ela parou para recuperar o fôlego. Comprou uma garrafa de vodka num comércio 24 horas alí perto e voltou a caminhar, tomando a bebida como água para hidratar a garganta. A vodka descia ardente e enjoativa, como fogo e saliva ao mesmo tempo, mas ela se acostumou rápido com o gosto e a boca queimando e quase conseguiu encontrar o caminho de casa. Decidiu ir para a casa de Miriam primeiro, mas Miriam não estava no seu quarto, nem com mil pedradas na janela do seu quarto a luz foi acesa. Kathy surgiu sonolenta e espantada na porta.
- Briana, mas o que...
- Não é nada... Eu só estou tonta demais, e isso tem um puta gosto péssimo.
A ruiva gargalhou e se foi, ziguezagueando pelas ruas e deixando Kathy sem entender nada daquilo. Já estava amanhecendo quando ela enfim achou a sua casa, que ficava mais fácil de reconhecer com a luz do dia. A garagem já se abria para Christopher sair com seu carro para o trabalho, mas ele saiu de volta para casa, puxando Briana pelos ombros.
- Sua vadiazinha, o que você estava fazendo?
- Me larga, seu otário.
Ele não a largou, Briana bateu com a garrafa de vodka na sua cabeça com o pouco de força que lhe restava, Christopher caiu para um lado, grunhindo e tocando na ferida que banhava seu rosto de sangue.
- Sua filha de puta!
Briana entrou na casa como um trovão. Jogando quadros e vasos no chão, submersa no álcool e no ecstasy. Fazia tanto tempo que não se sentia tão bem...
Sua mãe desceu as escadas ainda de roupão, olhando horrorizada para o estado da sala e para a filha baderneira que destruía tudo o que via na sua frente.
- Briana, o que você está fazendo?
- Mãe, estou tão leve! Hahaha! A senhora precisa provar isso. – Ela exibiu a garrafa de vodka com o sangue fresco de Christopher na sua borda, orgulhosa.
- Briana, largue isso agora e vá pro seu quarto!
- É assim que você resolve as coisas? – Christopher surgiu no vão da porta, a camisa social branca suja de sangue seco e o rosto contorcido em raiva e inchaço pela agressão da ruiva bêbada. – Mandando a puta da sua filha para o quarto? Olhe o que ela fez comigo!
- Porra mãe, quero vomitar. Haha, vomitar o quê? Não tenho vontade de comer porra nenhuma. Vou vomitar minhas tripas. – Ela girou numa dancinha particular e gargalhou, jogando a garrafa de vodka em qualquer canto e derramando a bebida no assoalho.
Nolan desceu as escadas e a segurou pelos ombros, agitando-a.
- Briana! Briana!
- Já disse pra me largar! Por que vocês adoram me segurar, seus imbecis? Você quer me foder também? Igual aquele cara que invadiu nossa casa, haha. Ele me fodeu sem parar, e provavelmente sem camisinha. Ele não parou até gozar pelo menos umas três vezes. E se eu gritasse, ahh... Ele iria cortar meu pescoço! – ela deu outra gargalhada, buscando desnorteada a garrafa de vodka no chão e bebendo seu resto.
- O... O quê... – A noite da sua apresentação e Briana quebrando o espelho e chorando foi a primeira coisa que veio na cabeça de Nolan, ele a soltou e se afastou, os olhos grandes umedecendo.
- Por que você não me disse antes?
- Dizer o quê, seu imbecil? Quer me foder também? Vai lá, só não demora muito.
- Eu não estou entendendo nada, Nolan. O que ela está falando? – A mãe se aproximou, hesitante, de Briana, e tocou no seu ombro, no único gesto que lhe vinha à cabeça no momento.
- Ela foi estuprada! É isso o que ela tá falando! – Nolan começou a chorar, e Briana, a gargalhar mais alto. Christopher estava sendo ignorado completamente. – Briana, eu não fazia ideia, eu...
- Eu sou um lixo completo! Nem pra ser fodida eu sirvo!
E ela enfim tinha parado de gargalhar. O rosto ficou sério em poucos segundos, e a sombra daquela noite lhe pareceu mais vívida do que nunca, até em meio a tanto álcool no corpo.
- Aquela máscara preta de lã, aquela maldita máscara preta, típica de assaltantes...
- Não tem como isso acontecer. Ela está mentindo, nós temos vários alarmes instalados nessa casa. – Christopher cansara de ser ignorado.
Pela primeira vez a mãe dos ruivos encarou o marido com horror e certeza. Subiu as escadas e voltou com uma touca escura de lã com três furos, para a boca e para os olhos.
- Sim, Christopher. Temos vários alarmes instalados. – ela estudou a touca, transformada em máscara de assaltante, de assassino, de estuprador.
Christopher fez uma expressão indignada.
- O quê? O que você está insinuando?
- Saia da minha casa.
- Margareth, o que você pensa que está fazendo?
- Saia. Da. Minha. Casa. – ela engoliu em seco e ergueu o rosto. – Agora. Antes que eu chame a polícia.
- Não, não... Não acredito que estou ouvindo isso.... Eu...
- Estou lhe dando uma chance de sair daqui e nunca mais voltar. E ninguém mais saberá da sua existência.
Briana encarou Christopher com horror e abraçou Nolan com todas as suas forças, em gritos e soluços roucos.
- Tira ele daqui, tira ele daqui...
- Ninguém vai tirá-lo, minha filha. Ele vai por conta própria. Venha, você precisa tomar um banho. E Nolan, se ele continuar aqui, chame a polícia. Ou mate-o você mesmo.









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Andrew Oliveira

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