Solitude, darkness and love


"I don't wanna admit, but we're not gonna fit"

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Elope, 08 A Ausência


Briana
Nolan chegou quebrado e suado no seu quarto e tirou urgentemente sua camisa para respirar um pouco mais a vontade, estralando os ombros e movendo lentamente o pescoço num gesto circular. Briana estava sentada na sua cama lendo um livro, tinha a aparência abatida e debilitada, embora seus gestos não demonstrassem qualquer cansaço ou ausência de saúde, sua pele estava mais pálida do que o habitual e seus olhos pareciam que iriam cair dalí a qualquer momento se ela não costurasse as pálpebras. Tudo em Briana parecia calmo e seguro, e no entanto, tão dissimulado, enganador, fingido. O que Briana esconderia tão bem? Ele sabia tudo de Briana, ele conhecia a irmã mais nova dos pés à cabeça. Mas Briana parecia mudar a cada segundo desde aquele dia em que ela quebrara o próprio espelho do quarto com um punho furioso, e aquela era qualquer pessoa, qualquer personalidade, menos Briana. A rainha dos espelhos. A realeza de pele magra e cabelos vermelhos.
- Briana.
- Oi Nolan.
- Como foi o ensaio hoje?
- Cansativo. Já querem me escalar pra uma nova peça...
- Você parece desanimado com isso.
- Eu sei... Eu amo balé mas... Ultimamente ando me sentindo tão esgotado. Eu não costumava ser assim.
- Você deveria se cuidar.
Nolan sorriu.
- Veja só quem está falando. Você tá parecendo um zumbi, Briana. O que aconteceu agora? Você pode me contar dessa vez?
- Não sei Nolan.
- Detesto esses seus “não sei”.
Briana suspirou e fechou o livro.
- Eu devo estar gostando da Miriam.
- Deve?
- Nolan, não me faça responder isso melhor do que isso.
- Eu sei como você costuma parafrasear as coisas, Briana.
- Eu não... Eu nada Nolan! Por que ultimamente estou sentindo tanta perseguição e desconfiança comigo?
- Porque você mudou de uma hora pra outra. As pessoas costumam querer alguma explicação, sabe...
- Deuses! Agora você está parecendo a mamãe! Você me conhece, sabe que eu não preciso explicar nada pra você.
Nolan crispou o lábio numa expressão de suave raiva e se sentou ao lado da irmã, pegando um travesseiro para apoiar sua cabeça na cabeceira da cama.
- Não foi muito legal da sua parte você bater nela.
- Eu não bati nela, foi só... Só um tapa.
- Só um tapa...
- E por que você está me julgando tanto? Logo você? Eu estou exausta daquele crápula dentro da nossa casa.
- A gente não pode fazer nada a não ser se adaptar a ele aqui enquanto também morarmos no teto da nossa mãe, Briana. Ela o ama.
- Amar... – Briana deu um sorrisinho irônico. – É tão diferente do que a gente lê numa merda de livro ou numa merda de filme, não é? A mamãe solteira encontra um homem maravilhoso e cristão pra sustentá-la. A garotinha só encontra um homem alto e galante para namorá-la escondido. E no final é sempre a cena pegajosa de um casamento com um filtro macro horrendo na imagem. Beijar na chuva, beijar num carro lindo de última geração, beijar e se casar. É tudo tão fácil e lindo, não é?
Nolan pensou um pouco antes de responder.
- Eu também não gosto muito dessa ideologia de vida.
- Nolan... – Briana deu de ombros. – Tudo é sempre uma porra de uma ideologia. Se as pessoas não tem uma base de vida já existente, elas não vivem. Então, estávamos tão bem com mamãe trabalhando e cuidando da gente. Só nós três, sem nenhuma vida colorida e idealizada de um filme com Julia Roberts pra encher o nosso saco, por que agora eu sou obrigada a suportar o que ela mesma estragou?
- As coisas não funcionam desse jeito, Briana. Mamãe gosta dele, e ela já pediu tanto pra você se esforçar um pouco por ela... E o que você está fazendo agora? Reclamando de novo.
Briana retorceu o lábio.
- O que você quer que eu faça?
- Se esforce.
A irmã mais nova abaixou a cabeça e começou a descascar o esmalte vermelho da unha feito na mesma manhã.
- Tudo bem.
- Ei.
- O que foi?
- Olhe pra mim.
Ela ajeitou a franja para o lado e obedeceu, Nolan lhe deu um beijo na testa e a fez formar um sorriso.
- Obrigada, Nolan.
- Por quê?
- Por eu ser uma péssima pessoa e você ainda ter paciência comigo.
- Você não é uma péssima pessoa.
- Eu acho que eu sou sim.
- Achar não conta.
- Claro que conta, é quase uma certeza.
- Você disse bem, quase. Mas pare de dizer isso.
Ela riu baixinho, como um suspiro rouco da voz.
- Você não terminou de me falar como foi lá no Lunaire.
- O mesmo de sempre. Continuam me bajulando e querendo me enfiar em peça atrás de peça. Dizendo que eu sou talentoso e tudo mais, e que posso ganhar destaque rapidamente.
- Mas você é talentoso.
- Ah pare... Eu amo balé. Mas não quero ganhar destaque nenhum. Dançar já me é o suficiente.
- Que conformado.
- O quê?
- Você é tão inteligente, bonito e tudo mais. Mas não quer nada do mundo.
Nolan riu.
- Eu não sei o que eu quero, Briana, só faço o que eu gosto... Isso já não deveria ser o suficiente?
Briana não soube responder, apenas o que perguntar?
- E você Nolan, tem alguma coisa que queira me dizer? Sobre alguém ou sobre qualquer coisa.
Belial lhe desenhando no parque e depois lhe pintando no apartamento, Belial destruindo seus quadros num ataque de histeria, Belial arrancando suas roupas, exibindo o corpo sinuoso e excitante, Belial chorando na banheira e depois sendo tirado dela. Nos seus braços, aquele corpo quente e trêmulo como o de uma criança indefesa. Mas já era um homem, um homem belo e incoerente, sem nenhum significado. E no fim, Belial apertando seu rosto contra o peito de Nolan, pedindo-lhe que não o largasse, que não deixasse aquela hora sem motivos chegar muito perto. E que ele fosse embora até que a hora fosse embora, como se fizesse parte dela. Belial dormindo como um querubim, nu e entrelaçado ao seu corpo, sem precisar de lençóis de tão quente que já era. Nolan indo embora, Nolan deixando escorregar uma lágrima quando ele disse “Louis” em alto e bom som, o seu único alicerce da vida real e dos sonhos. Era o seu mundo, aquele menino francês, e agora provavelmente um homem, aquele Louis. Talvez ele tenha ficado triste pelo fato de que entrar no mundo insólito de Belial era mais difícil do que o seu rosto mostrava. Provinha de espinhos e dores, futuros e expectativas. Sonhos, muitos deles. De encontrar alguém que pudesse salvá-lo. Mas por que não Nolan?
- Não, maninha. Nada de interessante. Vamos descer para o jantar, Christopher está aí.
Briana bufou e revirou os olhos.
- Briana, por favor... – Seu tom era de “não vamos repetir esse mesmo assunto para o seu próprio bem, vamos?”.
Belial vestiu uma camisa e desceu logo após Briana. O clima na mesa era tenso e silencioso, como se o ar estivesse pesado e houvesse corações vivos em cada prato servido. Nolan sentiu a pele não muito agradável e desejou ter tomado um banho rápido antes de descer. Christopher estava numa ponta da mesa, o lugar onde o pai de Briana e Nolan costumavam ficar, e a mãe dos ruivos estava na outra. Briana e Nolan se sentaram frente a frente e abaixaram a cabeça. A mãe suspirou e uniu as mãos para orar, influência do seu novo marido fervorosamente religioso. Segundo as palavras de Christopher, ele transformara a esposa numa “mulher de Deus”.
- Vocês não vão orar com sua mãe? – O tom de Christopher era de represália.
- Christopher – Nolan foi calmo e compassivo. -, eu já lhe disse que Briana e eu não somos católicos, e mamãe sabe disso. Obrigado. – e ele pegou o garfo e a faca e começou a cortar carinhosamente o peito de peru suculento em meio à salada de batatas e brócolis.
- Não importa, vocês devem respeito a sua mãe e devem orar junto com ela. – ele apontou para Briana, carrancudo, e começou a mastigar a carne de peru no prato como uma verdadeira mula de boca aberta.
- Christopher, por favor, ninguém está muito bem hoje. – Nolan continuou pacífico e sem nenhum sinal de que seu autocontrole acabaria em poucos segundos. Afinal, ele estava falando com um lunático, e sabia que deveria tomar muito cuidado para conversar com pessoas pequenas e contraditórias.
- E eu? Ninguém está interessado em saber do homem que põe comida nessa casa?
- Você não é obrigado, mamãe pode muito bem voltar a trabalhar. – A voz de Briana era fria e indiferente.
- Lugar de mulher é na casa, cuidando dos filhos. Os homens que devem tomar o controle das rédeas.
- Deuses. Nolan, vamos sair daqui?
- Briana... – Nolan já lhe ía sussurrar, mas a voz de Christopher veio como um tabefe no ar.
- Vocês não vão a lugar algum. – E ele deu um sorriso pequeno, imperceptível no canto da boca, de triunfo talvez. – Quer dizer, não por enquanto.
- Não entendi. – A voz de Nolan de repente parara de ser educada. Ele estava sendo confrontado e sabia disso.
- Eu estava conversando com a mãe de vocês e... Bem, Briana, sua atitude não foi nada cristã. Deus sabe que castigo divino você vai sofrer depois disso... Bater na própria mãe? Isso não é coisa que se faça. Não na minha casa.
Nolan tossiu a salada.
- Sua casa?
Christopher ergueu a sobrancelha.
- Não lembro do seu nome estar nos documentos da posse e da compra desta casa, Christopher.
- Bem, acontece que faz um tempo que sua mãe colocou meu nome como também herdeiro e proprietário desta casa. Mas claro que isso foi feito com muito amor e compreensão, que só uma mulher como ela faria. – Ele limpou o lábio inferior com um lenço. – Mas voltando ao assunto. A mãe de vocês e eu decidimos enviar Briana para a Inglaterra, para um colégio cristão, terminar seus estudos e futuramente ser freira. Não é maravilhoso? Briana, além de se redimir daquele ato impensável, também pode se tornar uma mulher de Deus como a mãe.
Christopher sorriu, e o barulho da faca colidindo na porcelana branca do prato vazio de Nolan foi estrondoso naquele silêncio súbito e horrendo, enquanto a mãe terminava sua refeição, silenciosa e quase invisível na ponta da outra mesa.

~
Louis
- Aqui, você pode ficar nesse quarto, eu nunca soube o que fazer com ele de qualquer forma.
Neil olhou para o homem mais baixo como um pequeno gesto de aquiescência, sussurrou um “obrigado” rouco e começou a carregar uma de suas malas para o quarto vazio do apartamento de Louis. Louis o ajudou com as bagagens seguintes até repentinamente não terem mais nada para preencher a inconveniência do silêncio. Neil pegou um cigarro do maço no bolso esquerdo e se lembrou de que deixara o seu isqueiro na cabeceira da cama do seu antigo quarto de casal. Louis surgiu ao seu lado acendendo o cigarro na sua boca e se sentou no peitoril da janela, os olhos cabisbaixos de sobrancelhas tristonhas observando o nada. Louis era tão pequeno perto de Neil, quase um adolescente.
- Você tem outro aí?
Neil fez que sim, e buscou mais um cigarro no bolso da jeans, colocando-o na boca de Louis para que ele pudesse acendê-lo. Louis tossiu.
- O que foi?
- Que negócio ruim.
- Achei que você fumava.
- Na verdade é a primeira vez que estou colocando um cigarro na boca.
- E por que motivo?
- Faz um tempo que eu queria alguma coisa pra amenizar minha ansiedade.
- Existem remédios pra isso.
- Não tenho tempo pra remédios.
Neil fitou Louis de canto-de-olho, o francês deu um sorriso discreto e jogou um pouco da ponta queimada em cima da jeans na coxa sentada.
- Preciso de um cinzeiro.
- Acho que tenho um na minha mala.
- Não esqueceu com seu isqueiro?
- São poucas as coisas que eu esqueço.
Houve um pouco de Lunn nas palavras de Neil, mas para a compreensão de Louis, não para o dono das palavras.
- Neil.
- Sim?
- Há quanto tempo você já gostava de Lunn... Não de uma forma fraterna, eu quero dizer. Quando você...
- Quando eu me apaixonei?
Louis tragou o cigarro melhor, já havia aprendido.
- Sim.
A fumaça escorregou pela língua de Louis e pelas suas narinas, como se seu cérebro estivesse fritando.
- Eu não sei... Acho que quando me tornei um adolescente, e comecei a sentir o que as pessoas costumam chamar de amor. Ou algo assim. Essas noções de amor e paixão são tão distorcidas e contraditórias que desde cedo eu passei a evitar esses termos.
“Lunn já era um menino crescido, e eu, um adolescente que sentia que tudo dentro de si estava errado. Um sentimento que deveria ser apagado com urgência. Mas quando isso surge, você consegue pisar em cima desse sentimento e simplesmente esquecer porque lhe é mais conveniente?
Talvez ele tivesse doze ou treze anos, não sei dizer. Eu já tinha dezessete, e depois do colégio e do futebol eu ía trabalhar com nosso pai. Naquela época papai já estava mal, então eu comecei a ficar sobrecarregado muito cedo na minha vida. Acho que tudo na minha vida foi cedo demais, e isso eu sempre detestei.
Eu chegava em casa apenas pra almoçar e depois voltar para o meu cotidiano. Mas Lunn não estava mais lá, ele já estava no colégio. E foi com essa simples ausência que eu comecei a perceber uma certa dependência da minha parte para com ele. Não era uma dependência de melhores amigos, de irmãos, nada disso, eu via Lunn como um irmão até aquele momento. E depois ele se tornou uma criatura que fazia borbulhar uma série de sentimentos na minha pele e nos meus sonhos. Eu comecei a esquecer que o nosso sangue era o mesmo. Ou quem sabe, eu comecei a fugir do nosso sangue.
Você consegue entender isso? Foi aí que comecei a ficar cego. A parar de discernir e doutrinar qualquer moral na minha vida.
Eu sempre chegava suado e quebrado e a primeira coisa que fazia após subir as escadas era tirar minhas roupas e tomar um bom banho. E Lunn passava a tarde e a noite no meu quarto, lendo os livros que eu comprava ou mexendo no meu computador. Eu nunca tive problemas em estar nu perto dele até então, mas certo dia fiquei excitado e precisei me vestir no banheiro. Estava na hora de me afastar de Lunn por esse impulso.
Com as economias do meu trabalho eu ajudei a nossa mãe a comprar outro computador e presentear Lunn. E com o que sobrava, eu comprava livros e enchia a estante dele mais do que a minha. Mas Lunn continuava enfurnado no meu quarto. Lendo agora os seus livros na minha cama ou pegando uma camisa minha para usar na escola no dia seguinte. Eu nunca entendi esse comportamento, mas briguei para ele me dar um pouco mais de privacidade.
Nessa época, ele já estava com seus catorze anos e eu, com quase dezoito. Lunn já estava com seu corpo adolescente e prematuro, embora sempre mais baixo do que eu. Na minha cabeça eu repetia todos os dias o quanto ele era lindo e o quanto eu queria tocar aquela pele, apertá-la, sentir seu cheiro com mais força do que de costume. Porque um abraço ou um beijo na bochecha já não me controlavam mais.
Eu estava estressado, o emprego do meu pai já era praticamente meu emprego. Ele ía para a firma apenas para resolver as papeladas mais importantes da empresa, mas em geral toda a direção ficava por minha conta. Mamãe era sempre muito tranquila e adaptável à problemas, e fazia de todo o possível para manter um bom humor esperançoso em casa, embora eu já soubesse que papai não duraria muito e aquela vida que eu não queria fosse transportada completamente para as minhas costas.
Com tudo isso eu cheguei a gritar várias vezes com ela, por não ter mais ninguém onde descarregar minha frustração e o sentimento entorpecente que Lunn causava em mim. E alí estava Lunn, me trazendo um copo de água gelada e comprimidos, um abraço e outro beijo sonoro na minha bochecha sempre esquecida de fazer a barba.
Eu tinha apenas terminado o ensino médio e, sem nenhuma faculdade, toda a dinastia empresarial do meu pai foi transportada pra mim quando ele estava tão mal que conseguia formular uma frase por dia. Cheguei em casa e me deitei na cama ainda de terno, colete, camisa e gravata, e chorei no dia em que mamãe e Lunn foram para a casa da minha avó visitar o papai. Mas apenas mamãe era quem não estava em casa. Lunn ouviu meus soluços e entrou desesperado no meu quarto.
Foi a primeira vez que ele cuidou realmente de mim. Sem calmantes ou água gelada, apenas a sua presença silenciosa e sorridente, soltando alguns comentários curtos sobre o último livro que lera, enquanto suas mãos agiam sobre o nó da minha gravata, meu terno, meus sapatos e meias, e minha camisa. Ele começou a me fazer uma massagem nos ombros e senti cada tensão se diluir entre os seus dedos. Ele disse que eu estava mais forte do que antes e achei que aquilo era um comentário bobo. Mas ele respirou na minha nuca e, apenas com o sopro da sua vida incoerente, eu já estava excitado e o meu membro estava visível sobre a calça.
Lunn me olhou como se eu fosse um estranho, e então tirou sua camisa, disse que, se fosse preciso para eu me sentir melhor, ele faria qualquer coisa. O último resquício da minha sanidade se foi quando eu o empurrei com força na minha cama e precisei beijá-lo da cabeça aos pés para realizar aquela vontade que se instalava dentro de mim por anos. Lunn gemia baixinho e pedia para eu ser carinhoso, mas eu não fui. A porta para o meu mundo de pesadelos estava alí, e como eu amava os pesadelos naquela época! Ele pegou entre as minhas pernas com força e eu precisei enfim beijar sua boca entreaberta para sentir que tudo aquilo era real, que não era um sonho bobo que me faria acordar enrijecido. Mas Lunn estava alí novamente, e o seu cheiro já havia começado a me drogar.
Ele tinha uma forma diferente de tocar. Não era nada mágico, mas era desconhecido. E seus beijos costumavam me fazer esquecer de que eu tinha uma vida no mundo real para construir e manter.
E quando eu percebi, eu não estava apenas dependente de Lunn. Eu precisava dele para ficar firme nas minhas batalhas diárias. Eu matava os leões lá fora enquanto ele preparava uma fogueira na sua caverna. Você consegue me entender? Ele também esperava por isso. Não dessa forma, porque foi inusitado, foi um amor que ele não esperava. Um homem que ele não via desse jeito. Mas ele passou a ver por mim, e ele aprendeu a se adaptar, tanto quanto nossa mãe afrontando as adversidades. No final das contas, ele era uma projeção de mamãe, e eu, uma continuação de papai. Não é assim que as coisas costumam funcionar em cidades pequenas? Você cresce e sonha em ir lá pra fora, esbravejar o mundo com uma coragem absurda, mas nada disso acontece, porque as raízes da sua família não deixam, e no final das contas você se torna apenas mais um ramo de um galho qualquer. Foi o que eu me tornei, o que eu mais evitava me tornar. Mas de que me importava? Eu tinha Lunn todos os dias. Tinha o seu corpo quando acordava às cinco da manhã e chegava de mansinho no seu quarto para abraçá-lo e acordá-lo com beijos ardorosos nos ombros, enquanto ele já se preparava para os meus assaltos. E eu tinha o seu corpo no final do dia, quando ele já estava no meu quarto para tirar minha tensão e sugar todo o qualquer resquício da vida real passando no exterior das janelas.
Janelas...
- Eu te amo, Neil. – Ele costumava dizer quando acordava mais cedo do que eu, esperando que eu o envolvesse no peitoril da janela enquanto fumava na sua nuca e mordiscava os seus ombros.
E por mais que eu quisesse, eu não conseguia me sentir culpado. A noção de amor que se criou dentro de mim tapava essas morais comuns de corrupção e inocência, de poder e não poder. Isso não existia na minha cabeça, nunca existiu. Mas Lunn, como projeção de nossa mãe, como a sua cópia mais perfeita num corpo masculino, tinha essa mentalidade e um pouco mais. Lunn começou a ficar mal e ainda mais silencioso do que comumente já era.
Mamãe praticamente já morava na casa de nossa avó com nosso pai vegetalizado, o que significava que a sua casa já era quase minha, pois apenas Lunn e eu morávamos lá. E numa dessas noites em que cheguei perto de meia noite, Lunn estava chorando e gemendo baixinho. Ele estava frágil e se entorpecera com remédios. Mas eu não o consolei, tampouco o abracei e dei qualquer palavra de conforto. Eu tirei suas roupas, cansado e tenso, e o penetrei. Eu precisava daquilo primeiro para enfim deixar Lunn ter sua humanidade. Mas a sua humanidade não aparecia depois de uma seção doentia de sexo. Ele começou a trancar o seu quarto e não me confidenciar mais nada.
Mas como eu poderia entender? Lunn nunca falava dos seus sentimentos. Ele sempre falava dos livros, dos malditos livros. Os que ele lera na semana passada, o que estava lendo agora e os que planejava ler na sua lista de espera imaginária, tudo isso enquanto apertava meus ombros nas suas mãos macias e me deixava louco e duro por ele. Eu já estava em cima dele enquanto ele tentava falar mais algumas coisas, mas eu só o fazia gritar.
Essa frieza continuou até o dia em que cheguei prestes a implodir em casa e Lunn permanecia o diamante frívolo que se tornara, meu cataclisma para orgasmos e silêncios. Eu precisei espancá-lo com toda a força que meus punhos permitiam para arrancar alguma palavra dele. Mas eu não consegui apenas uma, eu consegui uma frase inteira da sua boca que inchava com o corte na gengiva e o sangue nos dentes.
“Eu não te amo já faz tanto tempo.”
Aquelas palavras deveriam ter um efeito aterrador sobre mim. Mas tiveram um resultado contrário. Com elas eu deveria ter parado, tirado Lunn da minha vida e casado com alguma mulher, qualquer uma, para ter uma vida socialmente aceitável.
Aconteceu algo parecido, mas totalmente oposto ao esperado. Casei com Nina por conveniência da minha família e insistência da minha mãe, ou como dizem, “casamento arranjado”. Você não casa porque quer ou porque ama, mas porque um bando de abutres frustrados lhe ordena a fazer isso. É assim que as coisas funcionam para se tornarem mais belas e tangíveis para as famílias, não? Você deve casar e ter filhos, é sempre assim.
O tempo não passava mais cronologicamente na minha cabeça com os dias que eu passava longe do corpo de Lunn. Eu estava em abstinência mórbida pela simples presença dele. Como eu já disse, Lunn era a única coisa que ainda me fazer levantar todos os dias para viver uma vida que eu não queria. E era ele quem me aguardava no final de todos esses dias para me dar um pouco de ar, um pouco de amor, e um pouco de paz. Talvez você consiga viver sem essas três sensações. Mas como uma criatura extremamente carente consegue?
O casamento foi um desastre, e Nina estava linda num vestido branco de saia exageradamente balonê. Ela sabia que eu não a amava, e ela também não, ela estava fazendo isso pelos pais também. Então nos confidenciamos que aprenderíamos a conviver um com o outro. Com isso, eu senti um pouco do mundo sumir de cima das minhas costas, mas não o suficiente. Lunn estava lá, e quando fui fumar em uma sala vazia, ele viera acompanhado. Um belo rapaz de altura mediana e relativamente magro, com o rosto aparentando constante cansaço e o nariz grande. Eles se beijavam com força, com vontade, e aquilo me destruiu, porque Lunn nunca mais me beijou daquele jeito. Eu tive um acesso de fúria e Lunn me implorou de joelhos para eu me acalmar, mas Lunn era meu, não era? Eu devia protegê-lo com todas as minhas forças porque ele não pertencia à mais ninguém. E eu poderia casar, poderia ter filhos e fingir ter a vida mais bela e mais invejável pelos vizinhos, mas eu ainda o amaria.
Peguei seu o amante o espanquei, soquei com força seu rosto desnorteado, senti prazer com seu nariz grande quebrando no atrito com meu punho, e o sangue escorrendo pelos olhos que já inchavam e a boca que se rasgava numa mistura de saliva escarlate e gengiva estourada.
Quando Lunn tentou me puxar eu o empurrei com força, estava fora de mim. Não como eu ficava quando estava dentro de Lunn, não como eu ficava quando alguma papelada da firma do meu pai viera errada. Mas aquele era o meu primeiro ato de instinto de proteção pelo que era meu. E foi quando vários primos de Nina me tiraram de cima do rapaz e o levaram imediatamente para o hospital que eu percebi que a minha história com Lunn estava longe de acabar. Deixamos milhões de coisas pendentes e que estão pendentes até agora porque Lunn está morto e eu estou agora falando tudo isso para o homem que me tomou meu mundo.
O inferno real na minha vida havia começado. Lunn nem olhava mais na minha cara, não me ligava ou me mandava uma carta, nada. Mas eu não odiava o meu casamento, com o tempo aprendi a amar Nina pela dedicação que ela tinha em me ajudar, mesmo não sabendo que a pessoa que me deixava mal pelo que eu era, era Lunn. Eu aprendi a amar Nina de outra forma, porque foi um amor que ambos desenvolvemos para que ele crescesse e se tornasse constante, puro nas nossas vidas e eliminando qualquer tipo de tensão. Com o encanto de Nina ela conseguiu me levar para a cama várias vezes, fazíamos amor todo dia e, por um tempo, eu esqueci daquela vida tóxica e horrenda que era ao lado do meu irmão.
Mas ele fez eu me lembrar de novo, reacender o monstro que descansava quando Nina me tocava e se dedicava a me dar um calor aconchegante e puro que nunca conheci com Lunn. Ele me ligou e me pediu ajuda, estava num apartamento no centro dessa metrópole, me deu o endereço e fui para o carro, trêmulo. Era a primeira vez que ele falava diretamente comigo em quase dois anos.
E quando eu o vi, qualquer sentimento ou plenitude que eu havia construído por três anos ao lado de Nina foi destruído em segundos de dentro de mim. Eu não sabia se eu o abraçava, se o beijava, se o estuprava alí mesmo nos corredores. Enquanto ele abria a porta do apartamento eu já tirava meu casaco e ele também. Eu percebi seu desespero em me tocar, sua necessidade em me sentir de novo descobrindo cada fibra do seu corpo, por mais que a dor não acabasse e por mais que ele insistisse em dizer que não me amava. Eu sabia que ele me amava, porque ele também sabia que havia destroçado o pomar de Nina no meu coração.
E depois disso, ele o conheceu. E depois de você ele já estava morto.”
Neil tirou seu casaco escuro e o jogou no sofá, pegou mais um cigarro para tragar enquanto abandonava Louis no peitoril da janela, pensativo e estático, imerso nas suas palavras atiradas ao ar. Um jogo de dardos ou talvez de alegorias. Era difícil entender ou aquilo tudo já não carregava nenhuma relevância?
- Eu preciso sair um pouco. – Ele disse, deixando o casaco no sofá e Louis com o toco de cigarro entre os dedos longos.
Quando Louis voltou às camadas da realidade, Neil não estava mais lá. Ele desceu pelo elevador, pegou seu carro no estacionamento do condomínio e foi para o seu lugar preferido: o teatro de balé.
O clima estava consideravelmente fresco, uma brisa suave e úmida escorregava por cima dos lábios e deslizava no rosto e no pouco de pele que o cachecol escuro de cashmere não conseguia cobrir. Louis saiu do carro e correu para dentro das instalações do teatro Lunaire. Estava vazio e não havia nenhum cartaz de anúncio de alguma peça nova, previsão, qualquer coisa. Era tão estranho um final de semana ao lado de quem ele mais odiava e depois sem nenhuma peça para assistir. Mas ele saíra tantas vezes desse teatro para ajudar Lunn em alguma coisa, em algum inferno novo, e agora não havia Lunn para interferir na sua terapia particular. Seu namorado por quase um ano havia desaparecido da sua vida.
- Cette soudaine envie de échapper...
Era um poema que Lunn gostava, provavelmente o único que lera.
Essa súbita vontade de fugir.
Resolveu entrar em outro corredor, tentar algumas portas. Todas trancadas, e apenas a que estava no final do lado esquerdo se encontrava entreaberta. Os dançarinos estavam lá embaixo em um andar inferior, ensaiando alguma peça muito prematura para ser anunciada. Ele viu novamente o ruivo da peça interrompida pela mutilação de Lunn. Era mais bonito quando o ambiente estava claro. Ele carregava uma aura pesada naquela apresentação, mas alí embaixo era leve e de fáceis sorrisos. Havia algo de mais intenso nele. Mas Louis preferiu voltar para o apartamento e desenvolver seu novo vício.
Finalmente as palavras de Neil estavam pesando. Um, dois, três tocos de cigarro na mesinha da sala, e depois jogados imediatamente no lixo. Ordem, limpeza, sempre essenciais.
Escreveu um pouco e depois tirou as roupas para se afundar na banheira morna. E alí mesmo também fumou mais um pouco, com os olhos semicerrados e os joelhos ainda na superfície da água ensaboada.
Estava na hora de sair do banho. Da cama seca e do tecido fino e elástico da cueca se encaixando sobre a sua pele e apertando com suavidade no seu corpo, nas nádegas pálidas e quadradas e no sexo. Deitou-se, mas não se cobriu, descansou as pálpebras, mas não dormiu, e quando se levantou, seu corpo chamava pela ventania da cidade e talvez por algo a mais.
Fechou os olhos por apenas alguns segundos e o ar ao seu redor já não estava mais frio e desolador. Estava quente, comprimido, como uma concentração de moléculas tóxicas se aproveitando da sua vulnerabilidade. Se arrancasse aquele pano de algodão, estaria como veio ao mundo.
A sensação deveria ser essa, então? De fumaça na nuca e mordidas nos ombros? Era uma sensação bizarra, aquela. Da morte tão perto e da intimidade na sua forma mais desoladora e carente. Sentiu os braços rígidos e másculos passearem no seu peitoral e escorregar na sua barriga, brincando com o umbigo e sentindo o arrepio dos pêlos que faziam uma trilha até a virilha. A mordida de Neil no seu pescoço foi como a de um vampiro. Esfomeado e insano, sangue e mais sangue, no desaparecer pleno do dia através do concreto e das sombras que chegavam para valsar a mesma coisa, a mesma sensação, o mesmo ciclo repetido de vida.
Neil o abraçou forte por trás e o francês sentiu sua virilha dura e quente coberta pela calça jeans, enquanto ele deixava rastros do seu hálito na curva sinuosa do seu pescoço e cheirava os cabelos negros e lisos, europeus. Louis já crescia debaixo da sua cueca e Neil segurou com força, sentindo do fim até a base, e massageando a parte mais vulnerável e macia. O cigarro caiu dos dedos trêmulos e pisado pelo pé descalço de Louis para ser apagado, queimando a pele, mas aquele era um detalhe tão irrelevante e medíocre que a dor não existiu. Neil o empurrou contra a parede e puxou sua cueca para o lado, manipulando-o com a mão direita enquanto que o assalto da esquerda alisava o peitoral e os mamilos arrepiados. Louis não esperou e se virou para beijá-lo, Neil o ergueu pelas coxas pálidas e delineadamente sombreadas por alguns pêlos e o jogou na cama, fazendo o francês assisti-lo se despir até restar apenas uma cueca boxer azul no seu corpo de tons olivas e peitoral escurecido por cabelos pequenos e encaracolados, sobre a estrutura física embevecida em ferro e fibras.
Neil o puxou pelas pernas, agora ajoelhado na cama, e iniciou um ritual secreto de beijos nos pés até as coxas, sugando-as e deixando marcas violetas naquela pele firme e que começava a suar por aqueles furtos de suspiros irrefutáveis.
Louis fechou os olhos e mordeu as costas da mão quando Neil o capturou na sua área mais excitada do corpo e a engoliu com violência, sentindo cada dente do homem gigante passear pelo instrumento grande, grosso e rosado como um primata canibal. Suas mãos enormes batendo com força nas suas nádegas e rasgando a cueca branca enquanto ele tossia, mas não desistia por aquele tamanho. Indo e voltando com os lábios, indo e voltando o tempo inteiro até Louis o tirar dalí, lhe arrancar outro beijo com um sabor mais forte, e debatê-lo entre os lençóis de bruços e sentir cada centímetro daquele corpo fervido e duro ao mesmo tempo em que os dentes e os dedos longos tiravam a cueca azul e voltavam para as costas largas e milimetricamente sorvidas de ossos, músculos e suor. Aquela concentração secreta e firme no final da coluna vertebral, tão volumosas que enchiam a palma das mãos logo que ele as pegava para separá-las e arriscar sua língua ao meio, com beijos que chegavam ao despudor de um Neil que se virava para enfiá-lo na boca de Louis e fazê-lo ficar sem ar por um bom tempo, colocando-o até o final da sua garganta desesperadamente e quase chegando precipitadamente ao seu ápice.
Neil já estava bruto, acidamente descontrolado, forçou Louis sobre suas coxas e Louis o impediu afastando-o com os braços por trás.
- Não, espera...
- Cala a boca.
Neil entrou num único fôlego e injetou seus lábios sobre os de Louis para que este gritasse dentro dele. E o grito de Louis parecia não ter fim naquele beijo que mais parecia uma mordida de arrancar a boca do que um carinho que fizesse amenizar aquela dor aguda e insuportável, que pouco a pouco se tornava uma estocada deliciosa e sonora, no atrito das coxas com as nádegas. Neil apertava Louis contra o seu corpo em que já desciam fontes de suor das suas costas até os glúteos, pingando na cama como um veneno desconhecido. Louis ainda grunhia alto dentro da boca faminta de Neil pois, quando ele esperava que os assaltos se tornassem carinhosos, o moreno o surpreendia novamente com uma estocada mais violenta e rústica, aquela busca primitiva pelo núcleo da sua presa, a melhor parte para um predador se alimentar.
Neil o segurou como se Louis fosse seu último fiapo de esperança e grunhiu sonoramente ao seu ouvido e aos seus ombros, seus ouvintes naquele momento tóxico de cigarro, carne francesa e o frio da metrópole invadindo o quarto através da janela entreaberta, do começo da noite e de uma promessa dilacerada. Talvez duas, milhões, e o mundo jamais despencaria sobre um pouco, apenas um pouco, de traição.







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Andrew Oliveira

Um comentário:

  1. um mais doente que o outro rs

    Neil perigosíssimo...

    Nolan é um egoísta... atropelou Briana e nao deixou ela falar da Miriam...

    cade?

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