Solitude, darkness and love


"I don't wanna admit, but we're not gonna fit"

domingo, 22 de julho de 2012

Elope, 07 O Limbo



Belial
Louis pegou sua última mala para colocá-la na cama ao lado de um Belial mal-humorado e dar-lhe um abraço, mas o menino recuou e fechou a cara para o adolescente francês.
- Belial...
Belial fez que não.
- Eu te odeio.
- Não fale isso pra mim.
- Eu te odeio. Te odeio, te odeio, te odeio. E pronto.
- Belial, pare com...
- Não.
- Por favor. Faça isso por mim.
- Não faço mais nada por você.
- Belial, eu vou voltar.
- Está mentindo.
- Como você tem coragem de dizer isso?
- Você vai embora e vai se tornar outra daquelas sombras. E quando elas estiverem no meu quarto, você não vai mais poder me salvar, e não vai mais me tirar do banheiro ou dormir comigo.
- Você acha que eu não estou triste também?
- Você não parece triste.
- Então eu vou precisar chorar na sua frente pra provar que eu também não quero ir embora? Falar não vai ser o suficiente?
- Não.
Louis o encarava com indignação, e Belial, com desafio.
- Belial, eu prometo que vou voltar.
- Mamãe me disse a mesma coisa, antes de levarem ela embora numa van branca, cheia de pessoas vestidas de branco. Papai me disse que não vou demorar a ir pro mesmo lugar que ela, porque eu sou como a mamãe, eu vejo coisas que não existem. Mas papai também foi embora, e agora eu estou com a minha tia que me odeia. E você vai embora também.
Belial chorava. Não era um choro estrondoso. Era uma súplica contida, silenciosa, quase ausente, perto do inexistir.
- Eu não sou como as pessoas que te abandonam, Belial.
- Como você pode me provar isso? Me prometendo que vai voltar?
Seus olhos enormes e azuis submersos num oceano privado.
- E você. Quando eu for embora, quando eu estiver longe e não puder protegê-lo, você vai se esforçar pra se lembrar de mim ou vai me transformar numa das suas sombras? Num dos seus sonhos? Um ou dois quadros? Você me cobra tanto, você coloca tanta pressão sobre mim, e o que eu posso esperar de você?
Belial se calou e engoliu em seco.
- Eu odeio tanto o que eu sou.
Louis se ajoelhou na sua frente e sequestrou as duas mãos avulsas de Belial sobre as suas, Belial lhe deu um beijo na testa, mas não limpou as suas lágrimas. Em vez disso, decidiu fechar os olhos como Louis.
- Já pedi pra você parar de falar isso. Eu não odeio o que você é.
- Mas você vai embora! Eu... Eu... Como eu vou conseguir ficar sozinho? Se eu tiver algum ataque na frente da minha tia ela vai me encher de remédios, ou me bater, ou ligar para aquelas pessoas que prenderam a minha mãe numa camisa estranha. Ela não vai ser como você, Louis, que sabe me tirar disso tudo, que não tem medo de mim. Ninguém é como você, Louis, porque você é o único que tem coragem de entrar no meu império de escuridão pra vir me buscar. E agora você vai embora, e eu não vou ter mais você dormindo ao meu lado. Louis como Louis. Louis sem Belial. Eu vou funcionar longe de você?
Louis não falou mais nada, a não ser um grunhido da sua voz embargada que Belial entendeu que era um soluço. O francês afundou seu rosto nos cabelos louros do menino pintor e ficou afogado alí por um bom tempo, sentindo aquele cheiro familiar de um pinheiro doce que Belial sempre carregava na pele, pelo tempo constante que ele passava em cima da árvore na frente do seu quarto, esperando a hora que Louis chegasse para espantar suas sombras. Louis tinha cheiro de biscoito de chocolate, biscoitos que sua mãe assava para agradá-lo e começar a dizer que Toulouse seria um lugar melhor para ele morar, longe daquele garoto estranho que seria uma péssima influência para o intelecto do seu adolescente promissor.
- Você vai dormir comigo hoje?
Louis sorriu, se levantou e começou a tirar as malas de cima da cama e colocá-las num canto do seu quarto enquanto Belial esfregava os olhos e assistia a tudo com impaciência. O adolescente tirou sua camisa e se deitou na cama apenas com uma calça jeans escura, esperando pelo seu companheiro de todas as horas.
Belial desabou suas pálpebras agarrado em Louis e acordou. O teto do seu estúdio estava embaçado e ele estava no colo de outra criatura. O final do dia rechaçava seu último raio nas janelas, e Louis ainda estava alí em sua forma adolescente, em mais de doze quadros. Aquele era um cheiro novo, daqueles braços que o seguravam, daquelas coxas que descansavam sua cabeça, um aroma de chocolate misto a um perfume masculino. Ele olhou para cima e viu a cabeleira ruiva de Nolan, ainda mais fortemente avermelhada com o crepúsculo estampado nos céus da metrópole.
- Ele... Ele... – Belial tossiu.
- Belial, se acalme, acho que você teve uma crise de esgotamento físico. Você precisa de água e repouso e...
- Não. Ele existe! E pelos deuses, como eu pude esquecer?
- Belial, você não está falando nada com nada.
- Não, você não entende? Eu não... Eu não tive esgotamento físico. O que aconteceu?
- Você disse que a hora de alguma coisa havia chegado e então começou a gritar. Gritar por um nome.
- Que nome era esse? Eu estava sonhando com esse nome agora há pouco. E agora esqueci de novo desse maldito nome!
- Eu... Eu não sei muito bem, sua voz estava muito embargada, você gritava muito. Você me assustou, Belial.
Belial se levantou do colo de Nolan e começou a caminhar nervosamente ao redor do estúdio, tocando o quadro mais próximo do menino francês com a mão trêmula e impulsiva.
- Não importa, qual era o nome?
- Belial, recomponha-se primeiro, você não está bem.
- Eu nunca estou bem, Nolan, é essa a vida que eu tenho. Só... Me diga... Qual era... Esse nome.
- Acho que era Louis.
Belial jogou o quadro que ele tocava no chão e começou a pisá-lo com fúria, destruindo-o em poucos segundos. Nolan arregalou os olhos e se afastou, encostando-se numa parede e cruzando os braços num gesto inconsciente de autodefesa. Belial pegou o outro quadro ao lado do que ele destruíra e fez o mesmo processo.
- Belial, o que está acontecendo? – Nolan falou baixinho, mas Belial escutou.
- Eu... Não... Preciso... Desses... Quadros...
- Você não precisa destruí-los.
Bam!
Nolan fechou os olhos e Belial pegou mais um quadro pra pisar em cima.
- Ele não é uma sombra!
- Belial, você está me assustando.
- ELE NÃO É UMA SOMBRA!
Mais um quadro. O coração de Nolan acelerava e na sua testa nascia uma fonte de suor, mas ele decidiu se aproximar. Caminhou atrás de Belial enquanto este se concentrava firmemente na demolição da sua coleção de meninos franceses, e o capturou. Belial se mexeu como um cavalo potro sendo preso por cordas e levado para uma ferraria, mas Nolan não desistiu e continuou segurando o pintor inconsequente que chutava e socava para todos os cantos que sua visão alcançava. Belial caiu em cima de Nolan e começou a se sentir fraco, mas ainda tentando mexer os braços paralisados pelos bíceps do ruivo que também já estava precisando se recuperar.
- Belial, acalme-se!
- Os quadros! São todos sonhos!
- Mas você não precisa fazer isso com eles!
- E ele existe! Ele quem... Ele quem... – Belial arfou e finalmente desistiu de ficar instavelmente descontrolado. – Ele quem me protegia da hora das sombras.
- Ele quem, Belial?
- Louis!
Nolan se sentiu triste, embora naquele momento lhe fosse impossível obter alguma explicação para tal repentino sentimento.
- Você sabe onde Louis está? – Belial deitou a cabeça no peito de Nolan e sentiu que sua voz se enfraquecia. O prelúdio de alguma coisa que remonta a alguma coisa.
- Eu não conheço nenhum Louis, Belial.
- Eu... Eu preciso dos meus remédios. Acho que está vindo de novo.
- Belial, você precisa primeiro...
- Não!
Belial se levantou de novo, dessa vez mais desnorteado e tonto. Saiu do estúdio voando e se debateu no corredor, praticamente desabando no banheiro para abrir a despensa atrás do espelho e pegar os frascos de comprimidos que precisava. As sombras estavam voltando, vibrantes e cada vez mais presentes, se aproximando de Belial como um líquido contrário e independente, nas suas roupas e nos seus braços.
Nolan abriu a porta do banheiro, sem saber o que fazer, mas sabendo que deveria ajudar Belial com o que quer que fosse, e Belial rasgou sua camisa até se ver livre dela, desabotoou sua calça e, quase caindo, tirou sua cueca. Nolan franziu o cenho tentando enxergar alguma coisa de estranha, mas o banheiro estava bem iluminado e tudo o que havia era um Belial atordoado se deitando na banheira e se encolhendo como um feto no ventre da mãe.
- Tira eles daqui!
Nolan virou a cabeça para todos os lados, nada. Decidiu se ajoelhar ao lado da banheira e tocar no ombro do pintor submerso num mundo que nem ele mesmo entendia.
- Me ajude, Nolan...
Nolan estava suando frio, e seu coração se debatia debaixo da camisa violentamente. Ele tocou no ombro anêmico de Belial e este começou a respirar fundo.
- O que eu posso fazer por você? Belial! – Nolan o agitou. – Belial!
Nolan sentiu todo o seu ar ir embora quando braços o agarraram e o apertaram forte contra a sua caixa torácica. Belial afundou o rosto no seu pescoço com os olhos brutamente fechados e desabou. Nolan ficou primeiro sem reação, com as mãos no ar e uma expressão de espanto com uma mistura confusa de calor, para enfim aconchegar seus braços nas costas nuas de Belial, enquanto este fazia do seu ombro e pescoço uma fonte úmida e salgada.
- Não me largue.
E Nolan obedeceu. Ergueu-o da banheira pelas axilas e o carregou até o seu quarto, mas antes que o ruivo pudesse aconchegá-lo com as cobertas, Belial o puxou pelo bíceps e o fez se deitar ao seu lado, dormindo com o rosto úmido protegido pelo seu peitoral.

Louis
A porta foi aberta e Nina o recebeu com uma expressão de horror e depois algo como “por que você está aqui?”.
- Louis eu não posso falar com você agora.
- Mas eu posso.
- Eu estou numa situação complicada e...
- Isso não me interessa, o que você estava decidindo?
- Então você já estava sabendo?
- Eu sabia desde sempre, Nina.
Nina, num gesto incoerente de confusão e ardor moveu as mãos para trás da cabeça e fez um coque nos cabelos castanhos e lisos.
- Eu preciso terminar de conversar com Neil ainda...
- Mas eu preciso conversar com você. Isso é culpa minha.
- Não, não. O que você está dizendo? Nada disso é culpa sua. Você fez o que achava certo. A culpa de tudo é de Neil.
Louis pôs o dedo indicador e o polegar sobre as pálpebras.
- Neil está aqui?
- Está com a Victória.
- Posso entrar?
Nina desviou o olhar para os lados, esperando que alguma coisa surgisse para impedir o convite, mas não adiantava muita coisa naquele momento esperar por milagres. Ela se afastou, numa aceitação muda de que Louis poderia entrar na sua casa, e ele entrou.
No vão da escadaria, malas se amontoavam prestes a serem despachadas para o banco traseiro de um carro. Louis teve um átimo de pensamento onde também se lembrou de bagagens, bagagens suas em cima da cama e depois jogadas para o lado para que ele pudesse esquecer um pouco da realidade, com um menino que nunca tinha certeza da realidade ou da fantasia, sempre na dúvida entre enfrentar os humanos e entregar-se aos seus fantasmas. Ele amou aquele menino, amou com todas as suas forças da sua alma, e sonhava vê-lo crescer também, tornar-se um adolescente para beijá-lo, namorá-lo, tocar no seu corpo como ele desejava e, com esse desejo, se segurava para não fazer nada que o menino sonhador não quisesse. Mas ele foi puxado de volta para sua terra natal, Toulouse, até decidir sair do domínio doentio da mãe, cursar uma faculdade e trabalhar em qualquer lugar para pagar um apartamento decente. E o menino? Nenhuma lembrança palpável dele, nenhum sinal de vida agora. E quando ele se lembrava do menino pintor, seu peito doía e ele sentia vontade de chorar. Isso significava que o amor ainda estava alí? Ou talvez fossem saudades de uma amizade que mal teve tempo de compreender o que ele poderia chamar de amor? E ele prometera que voltaria para o menino, para buscá-lo, para salvá-lo, porque apenas ele o compreendia.
Mas ele não voltou, e agora se sentia um derrotado. Um mentiroso estúpido que abandonou a única criatura no mundo a qual ele realmente se importava.
Louis ficou um pouco desnorteado com a ebulição de pensamentos que aquelas malas amontoadas lhe trouxeram e, sem pedir, se sentou no sofá da sala de estar, batendo o pé impulsivamente. Nina lhe ofereceu uma xícara de chá, mas ele recusou, se pegasse aquela xícara ela seria reduzida a cacos nas suas mãos. Por que aquela maldita lembrança viera logo agora?
- O que você vai fazer? – Ele perguntou pra uma Nina aflita sentada do seu lado.
- O que você acha que posso fazer? Tem alguma ideia?
- E Victória?
- Vai ficar comigo. Hoje é o último dia dela com o pai.
- Ela já sabe disso?
- Não. Vou apagar Neil da vida dela até que ela se canse de perguntar dele. E quando ela perceber... Vai ser como se ele nunca tivesse existido.
- Não acho que ela vá se esquecer do pai.
- Louis, não me importa se ela vai esquecer ou não. Eu quero ele fora da minha casa.
Louis juntou as duas mãos como numa prece, fez um gesto de impaciência e depois cansaço.
- Você não acha que está sendo um pouco egoísta?
- Egoísta? Você já percebeu como a minha vida está agora? A mentira que eu vou ter que inventar no processo jurídico pra não enfiarem Neil na cadeia?
- Você não precisa inventar nada.
- Não seja estúpido. Qual vai ser o motivo da nossa separação? Com certeza eu não vou chegar na sala e dizer “estou me separando dele porque ele estava comendo o irmão enquanto eu lavava a roupa!”.
- Nina, não é nisso que quero chegar.
- Então você quer falar sobre o quê, Louis? Me ajude, eu não adivinho intenções.
- Neil não estuprava Lunn.
Nina se ergueu do sofá e começou a andar em círculos pela sala, com os braços cruzados e o cenho tão franzido que ela lembrava um bebê tentando dormir em meio ao caos dos adultos.
- Me explique... Porque eu não estou entendendo mais nada. A mãe de Lunn e Neil me contou o que você falou pra ela e... Louis, aonde você quer chegar com tudo isso? Revelando segredos e depois desmentindo?
- Não... Não dessa forma. Neil não estuprava Lunn porque Lunn também o amava.
Nina quase explodiu. Quase.
- Ele amava você, Louis! Por que você está tentando mudar isso agora?
- Nina, não! Isso foi antes, isso foi muito antes. Quando Lunn me conheceu ele... Ele tentou se livrar de Neil, mas Neil continuou insistindo e... Lunn começou a se drogar.
Nina pôs a mão sobre a boca, ainda com os braços amarrados um no outro, e respirou fundo, bem fundo, contando silenciosamente.
- Louis, eu não sei o que isso significa. Eu tampouco sei o que fazer da minha vida agora que ela foi destruída por Neil. Você não acha que já tenho peso demais pra carregar em tão pouco tempo?
- Me desculpe por tudo isso, Nina.
- Não, não... Tudo bem. É só muita coisa pra eu digerir no momento e... Nada disso é culpa sua. Você é só outro que foi pego na teia desses dois.
Louis se calou, foi a forma dele concordar com Nina.
- Lunn morreu e eu não faço a menor ideia de onde colocar tanto ódio que agora eu sinto por ele... E Neil, onde eu vou pôr todo esse amor? Ele está transbordando, fazendo desaparecer todas as bordas do meu recipiente. Esse amor mal sabe para onde ir, Louis...
Louis continuou fitando a mulher desestruturada à sua frente, sem ter o que responder, apenas com o que concordar.
- Eu não... Não acredito em você, Louis. Não nessa parte da história. Neil estuprava Lunn e... E pronto. Certo?
- Mas...
- Não! Não fale mais nada sobre isso. Minha cabeça ainda insiste em acreditar na primeira parte da história. Acreditar na segunda acabaria comigo...
- Lunn não era nenhuma criatura inocente, Nina. Ele sabia muito bem o que fazia e deixava fazer.
- Não, Louis, vá embora Louis... Você só está atordoado com a morte de Lunn e também não sabe o que está falando e...
- Posso falar com Neil?
Nina lhe lançou um olhar indignado e, por fim, de confusão. Sentou-se no sofá e não respondeu à pergunta lançada ao ar como um dado numa mesa de pôquer.
Louis subiu o lance de escadas e bateu três vezes na porta entreaberta. Victória estava sentada no colo de Neil, uma menina baixinha e magricela, de cabelos e sobrancelhas acastanhados como os da mãe, e o nariz pequeno do pai, segurando o que parecia uma pelúcia branca de um pinguim. A menina deu um beijo em Neil e depois saiu do quarto, educada e graciosa no seu vestido azul-bebê.
- Louis...
- Oi.
- O que você...
- Eu tentei conversar com Nina.
Neil foi para a janela fumar.
- Isso não era necessário... Não agora, sabe.
- Bem, eu...
- Você entende agora?
Louis aspirou fundo o ar que em poucos minutos estava infestado com o oxigênio acinzentado de Neil.
- Sim. – Louis respondeu, ou mais tentou responder. Sua voz saiu baixa, mínima, intransigente.
- Eu sei que não deveria ser assim, e que... Eu fiz mal à Lunn. Mas era a única forma que funcionava, que eu fazia acreditar, que fazia tudo isso existir. E desse jeito eu poderia me sentir melhor. Porque Lunn só me deixava mal. Lunn só me deixava mais viciado.
Louis sentiu um desconforto na camisa social branca e desabotoou o botão mais próximo do pescoço.
- Você o amou, Louis?
- Por um tempo eu achei que sim.
- Então você deve saber como eu me sinto, não? Do quanto ficar perto de Lunn e querer o bem de Lunn eram coisas completamente distintas num mundo ao lado dele.
Louis sentiu um certo espanto com as palavras de Neil, eram palavras que também estavam instaladas dentro dele.
- E desde o começo, nada disso deveria acontecer.
- Aconteceu...
- Mas Lunn conheceu você. E tudo poderia melhorar. Eu voltaria para Nina e a aprenderia a amá-la. Porque quando você está desesperado e não tem direção nenhuma, você não aprende como amar quem lhe era outrora indiferente?
- Você fala como se eu pudesse ter sido algum tipo de salvação pra tudo isso.
- E poderia... Não? Você poderia ser a melhor coisa na vida de Lunn...
- Expectativas me dão nos nervos.
- Mas eu sentia raiva de você, inveja de você, porque você me tirou Lunn. Você... Você tinha esse direito?
- Acha que eu conhecia o mundo o qual Lunn pertencia?
Neil apagou o toco de cigarro na borda da janela aberta, recebendo a brisa fria da tarde.
- Eu não sei nem pra onde ir...
- Eu vim buscá-lo.
A expressão de Neil foi de imprevisão total.
- Você pode ficar comigo até encontrar algum apartamento...
- E por quê?
Louis abaixou de leve a cabeça e as pálpebras.
- Por que isso agora Louis?
- Eu não sei Neil. Talvez se eu não tivesse falado nada para sua mãe. Se tudo isso tivesse sido enterrado com Lunn, pelo menos algum de nós poderia tentar prosseguir.
Louis desceu as escadas primeiro para pegar as bagagens de Neil e colocá-las na mala do seu carro. Pôs a chave na ignição e ligou os faróis. Neil olhou no vão da porta do quarto de Victória e ela estava concentrada num desenho de um grande e gordo girassol. Desceu as escadas, olhou de relance para Nina que tomava uma xícara de chá com mãos trêmulas, e saiu da casa que ele mesmo comprara. Aquele era um ponto final, e aquela casa já era de Victória, a dona do girassol exagerado.

~
Briana
Briana abriu a porta com calma, mas não adiantou de muita coisa, sua mãe a recebeu com um olhar de fúria, e depois com um puxão no braço e um tabefe.
- Onde você estava que todo esse tempo não tem me respondido?
- Mas Miriam falou que eu estava na casa dela.
- A Miriam falar é diferente de você me avisar.
- Pelos deuses, eu não estava me drogando ou bebendo, você me conhece mãe.
- Não o suficiente.
- O quê?
- Disse que não lhe conheço mais o suficiente. Nem sei quem é você agora. Você anda tão mudada e agora não me fala nada.
- Mãe, as pessoas mudam...
- As pessoas mudam, não você Briana. Você não muda.
- O que isso significa mãe? Que eu tenho que ser sempre a mesma por pura conveniência sua?
- Você não me fala mais nada!
- Adivinha! Isso se chama adolescência!
- Você me deve satisfações! Eu... Eu fico preocupada!
- Você? Preocupada? Desde quando? Preocupação é um sentimento novo que o seu cão de guarda lhe mandou ter? Mais alguma coisa pré-determinada na sua nova... Personalidade?
- Briana, não fale assim...
- Falo como então? Você está sendo uma hipócrita. Fala que eu mudei, mas eu nunca mais te vi fora dos eixos por causa daquele... Daquela coisa que agora mora conosco.
- Aquela coisa tem nome, e você deveria chamá-lo de “pai”.
- Pai? – Briana gargalhou. – Pai? Papai encheria a cara desse crápula de porrada só por ele ter a coragem de entrar na casa dele. E você – ela apontou um dedo longo na cara da mãe. – deveria ter vergonha de sujar o nome do meu pai e do de Nolan.
A mãe lhe deu outro tabefe e, após alguns segundos, mais um.
- Seu pai está morto. Você também deveria tentar prosseguir, em vez de ficar presa e congelada pra Deus e o mundo. Eu não sei mais quem é você...
Briana tocou na bochecha, sentindo a ardência dos tabefes, os cabelos ruivos desalinhados na cabeça e a roupa do dia anterior. Sua ausência de fome e as palavras de Miriam não lhe fizeram muito bem.
- Se o que eu sou agora lhe incomoda tanto, então não faça muita questão de querer me conhecer, mãe.
A mãe iria lhe dar mais um tabefe, mas Briana segurou sua mão no ar e devolveu a agressão com um tapa forte e sonoro. A mãe lhe fitou como se Briana fosse a pior pessoa do mundo.
- Acorde um pouco, pra variar. Estou cansada de ser a única que fica acordada o tempo inteiro por vocês.
A mãe se sentou na mesa da cozinha para chorar e Briana subiu as escadas, também com a mesma vontade, mas não pela mãe enlouquecida e controlada pelo padrasto, e sim por Miriam.
Evitou seu quarto e, sem pensar, entrou no quarto de Nolan.
Alguns minutos depois, o próprio entrou lá e se sentou ao lado da irmã mais nova na cama, os ombros tensos e o olhar desanimado, os cabelos ruivos tão bagunçados quanto os de Briana. Ele nem se lembrava mais dos poucos dias que passara afastado de Briana, e ela tampouco.
- Eu preciso me esforçar tanto assim pra amar? – Ele perguntou, talvez mais para si mesmo do que para a irmã.
- Queria me esforçar para que isso não acontecesse. Entrar numa espécie de sonho lúcido. Um limbo. Algo assim.
Nolan a encarou, mas isso não durou muito tempo. Ele estava cansado demais, seus ombros estavam tensos, e Briana estava na mesma situação.
- Eu vou lá fora caminhar um pouco e comprar um hambúrguer. Está afim?
- Eu vou com você. Mas estou sem fome.

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Lunn
Há seis meses.
Ele levantou da cama e abriu a janela. Seu corpo estava com aquele cheiro forte e característico, e sentiu vontade de fumar, talvez por influência assídua do irmão. Estava com frio e aquela metrópole não dava tréguas quanto ao vento, às tempestades e à ausência completa de calor do sol. Era sempre um sol sem presença, claro, cheio de raios e, no entanto, sem calor algum.
Sentou-se na poltrona encostada na janela do seu quarto. Neil acordou e pegou o maço de cigarros que havia no bolso da jeans jogada no chão, acendeu com o isqueiro branco de Lunn e se sentou atrás dele, agarrando-o com um braço e usando o outro para gesticular com o cigarro aceso. Lunn se afundou no seu peitoral e fechou os olhos, estarrecido, Neil pegou na sua virilha e apertou com força, fazendo-o soltar um gemido leve, e beijou sua nuca, fungou com vontade no seu pescoço, como se alí estivesse sua fonte de alimento.
- Eu te amo, Neil.












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Andrew Oliveira

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