Solitude, darkness and love


"I don't wanna admit, but we're not gonna fit"

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Elope, 06 A Hora



Belial
- Claro, se você deixar...
Nolan ainda estava estática na porta, esperando ouvir um “olá” em vez de uma pergunta, quase uma afirmação, súbita de Belial.
- Eu... Eu...
- Se você não quiser não tem...
- Não, eu quero.
- Então... – Belial olhou para o lado.
- Posso entrar?
- Ah sim, sim.
Belial deu espaço para Nolan entrar e depois fechou a porta. Estava nervoso e ansioso, e no momento não sabia como explicar, as duas coisas vieram juntas de uma vez e bagunçaram sua cabeça mais do que desnorteada. Hoje seria a hora das sombras? Ele esperava que não. O ruivo de olhos fechados na praça estava alí, invadindo seu império de escuridão e tinta, e aquilo era tão estranho quanto a primeira vez que Kathy entrou no seu estúdio para avaliar suas obras. Mas Kathy agora estava viajando a trabalho, e a filha estava largada na casa. Ele não queria conversar com a filha.
- Está tudo bem? Eu não interrompi você? – perguntou Nolan, indo em direção a uma das janelas.
- Não, eu estava fazendo um achocolatado, você quer?
- Eu preferiria café.
- Eu detesto café.
Nolan riu.
- Que estranho.
- O que é estranho? – Belial odiava aquela palavra. Ela era, mais do que tudo, a causadora de uma separação.
- Um artista não gostar de café.
- Eu não sou um artista.
- Mas você desenha tão bem...
- Eu sei, mas... Não me considero um artista porque não quero exibir minhas obras.
- Você não precisa exibi-las pra se tornar um artista, pois você já é.
- Eu sou só o dono de alguns sonhos. Um ou outro. De vez em quando.
Nolan se sentou no sofá e Belial preferiu permanecer caminhando a passos lentíssimos pela sala, olhando para os pés ora ou outra. O fim do dia pintava o apartamento com uma luz amarelada e fresca, e estava um dia agradável, sem nuvens nubladas, sem prelúdio de chuvas. Morno e estático.
- Então você me roubou um sonho? – Nolan sorriu. Um sorriso poderoso entre cabelos chamuscados e pele lisa.
Belial enrubesceu e fitou de novo os próprios pés.
- Me desculpa.
- Você fala como se isso fosse sério.
Belial arregalou os olhos.
- E não é?
Era a hora de sorrir mais uma vez.
- Acho que pode ser.
Belial se sentou no sofá de frente para Nolan, segurando as mãos trêmulas e suadas.
- Por que você... Por que você veio aqui? – Ele perguntou.
Nolan o avaliou para depois responder.
- Eu não tinha mais nenhum lugar para ir.
- Como não tinha? Existem muitos lugares. – Belial perdeu a vista por alguns segundos na janela.
- Eu sei, mas nenhum deles eu tive tanta vontade de conhecer quanto esse. – Nolan foi levemente categórico.
- Aconteceu alguma coisa? – Belial voltou à realidade.
- Não o suficiente para ser tão importante.
- Você pode estar mentindo.
- Não sei se quanto a isso eu precise mentir.
- Acho que você não está bem, você tem certeza de que não quer mesmo um achocolatado?
- Se você for bom em fazer achocolatados, talvez eu possa aceitar.
O rosto de Belial se iluminou, ele se levantou empolgado e piscando várias vezes, embora não houvesse nenhum grão de poeira nos olhos.
- Você gosta tanto das probabilidades.
- E você de ser insistente.
Belial andou a passos largos para a cozinha e voltou alguns minutos depois com duas canecas escuras e fumegantes, exalando um aroma adocicado por toda a sala do apartamento. Deu uma caneca para Nolan e se sentou com a sua. Nolan bebeu o achocolatado em poucos minutos, e Belial deixou a própria caneca pela metade, postando-a em cima de uma mesinha entre os dois sofás. Estava com as mãos trêmulas e os olhos ainda mais distraídos por qualquer coisa que se movesse.
- Eu... Eu preciso...
Nolan compreendeu.
- Você já quer me desenhar?
Belial não pôde disfarçar o espanto, tampouco o mais discreto dos sorrisos.
- Eu adoraria.
Nolan se levantou e se aproximou de Belial, caminhando com calma e descompromisso, até estar próximo ao louro pintor. Não tanto longe que ele não pudesse ouvir sua voz baixa, mas perto, perto demais para que ele pudesse sentir o achocolatado no seu hálito. Algo meio tragante. Vicioso.
- Como você me quer?
Belial permaneceu calado, fechou os olhos e aspirou o ar infestado de Nolan e açúcar ao seu redor com a boca entreaberta.
- Minhas mãos estão nervosas. Eu preciso pintar logo.
- Como você me quer?
- Como... Como você pode estar?
- Como eu quero estar?
- Como você pode estar agora? – Belial abriu os olhos, entorpecido.
- Estou com calor.
- Esteja como você está.
- Assim?
- Não. Como você está, aí dentro, como está aí dentro. Eu não gosto das pessoas aí fora.
- Aqui dentro também estou com calor. Seu chocolate estava muito quente.
- Me desculpa.
Nolan depositou a mão direita no seu ombro, e tocou de leve na sua nuca.
- Pare de se desculpar por tudo.
- Eu adoro o jeito que você se move.
Nolan franziu o cenho.
- O jeito que eu me movo não é nenhum jeito... É apenas...
- Não. O jeito que você se move, é como nos meus sonhos, só que um pouco mais rápido. E eu imagino tantos tons no seu rosto que poderia me alimentar apenas de tintas e quadros, até que eu me decidisse imortal.
- Como são os seus sonhos?
- São ausências.
Nolan observou as mãos trêmulas de Belial, suando frio, não pela sua presença, mas pelo seu desespero em concretizar a imagem que estava em sua cabeça em quadro, do ruivo logo na sua frente.
Nolan tirou o casaco e a camisa, expondo a pele pálida e fina da barriga e do peitoral, a papel branco que era as costas e as suaves, sutis sardas nos ombros. Desabotoou o único botão da jeans, caminhou até o estúdio e Belial o seguiu.
As janelas estavam abertas e descortinadas e todos os quadros olharam ao mesmo tempo para Nolan com o tronco despido. O menino francês de verde e vermelho, o menino francês de amarelo e azul, sempre com brinquedos diferentes, mas nunca numa posição variada. De perfil a velar seu espectador.
- Não parece muito com você.
- É outro sonho, ou sonhos...
- Quem é?
- Um menino que ultimamente está aparecendo na minha cabeça o tempo inteiro.
- Você o conheceu?
- Eu não sei. As vezes costumo achar que sim. Que ele esteve na minha infância. Mas ele é como a hora das sombras.
- A hora das sombras?
- É quando... Quando algumas coisas criam vida. Coisas que não existem, que não deveriam existir.
- Como fantasmas.
- São piores. Porque até quando fecho os olhos e os abro desejando que eles tenham ido embora, eles continuam lá.
- E esse menino?
- Ele conseguia fazer essas sombras desaparecerem. E eu o amava. Ou o amo.
- Você ama um sonho?
- Um sonho? Não... Não. Como posso saber? Eu ainda não descobri se ele faz parte da hora das sombras ou se realmente existiu. Se existe.
- Então o que ele é?
Belial não pôde deixar de sorrir.
- Oras, ele é todos esses quadros. Esses quadros são a única prova de que talvez ele tenha existido, porque ele é forte demais para ser apenas um sonho, ou uma sombra.
Nolan caminhou mais um pouco para ver melhor os outros quadros, aqueles mais próximos das janelas, ou os mais ocultos pelas penumbras nos cantos das paredes. Eram todos tão parecidos e, no entanto, tão heterogêneos.
Belial pegou sua base branca e rígida para as misturas, e as bisnagas das cores que usaria. Buscou um quadro depositado e preservado delicadamente numa caixa, onde também estavam vários quadros novos e frescos para uma nova pintura, e o colocou num tripé de madeira clara e bem polida, um pouco menor que ele, chegando até a altura da sua testa. Nolan se encostou numa das paredes, a que estava mais suja e bagunçada de tinta, rascunhos e marcas de mãos, e fechou os olhos, esperando que Belial respirasse na sua barriga, no seu peitoral, nos seus braços de veias fortes, nos seus ombros e na eletricidade do seu pescoço, com suas tintas e seus tons fortes, com seus sonhos e, quem sabe, com suas sombras também.

~
Louis
- Louis, abra essa porta.
Neil continuou batendo insistentemente.
- Louis!
Pegou seu celular, ligou e nenhuma rede. O de Louis estava desligado.
- Louis!
Bateu com ainda mais força. Girou a maçaneta e a porta estava aberta. Entrou sem permissão e encontrou a sala num estado de bagunça nunca antes visto num ambiente em que Louis e sua obsessão pela ordem moravam. Roupas e quadros quebrados, cortinas rasgadas e um sofá despencado. Copos e garrafas de vinho em todos os cantos. Centenas de papeis amassados e até mesmo em estado de cinzas. Seus rascunhos.
Por que ele estava queimando seus rascunhos?
- Louis, seu filho da puta.
Foi até o corredor e viu o banheiro num estado também deplorável e pouco conveniente de se ver. Mas nenhum sinal de sangue ou cabelo, ao menos ele deveria estar bem, ou um pouco perto disso.
A porta do seu quarto estava entreaberta e Neil decidiu entrar. Louis estava dormindo de bruços e nu na cama, agarrado a um travesseiro e respirando pela boca, os lábios secos e as pálpebras fundas, submersas em olheiras. Suas costas eram povoadas por constelações de pequenos sinais escuros, e suas nádegas e pernas eram tão brancas que provavelmente nunca conheceram a luz do sol. Suas coxas ainda se escureciam levemente com alguns pelos, mas após os joelhos, voltavam a uma palidez quase absurda as olhos.
Os cabelos negros sobre a testa e cacheando-se na nuca davam-lhe um aspecto angelical. Mas suas sobrancelhas grossas e que só faziam-no parecer sempre triste apagavam totalmente essa comparação. Era a sensação de ver uma criatura sobrenatural presa naquele corpo anêmico.
- Louis.
Louis abriu os olhos, desnorteado e meio tonto. Franziu o cenho ao sentir a enxaqueca da ressaca e contorceu a boca colocando a mão sobre a cabeça. Apoiou-se num braço e reconheceu sua visita.
- O que você quer?
- A mãe de Lunn quer conversar com você.
- O quê?
- Escuta aqui, se isso não...
- Não quero saber se você se sente bem ou mal com isso. Por que ela quer conversar comigo?
- Se eu soubesse, acha mesmo que eu viria aqui?
Louis o fitou com total indiferença.
- Você está mentindo.
Neil fechou a cara e desviou o olhar acusatório que se formava nas sobrancelhas cabisbaixas do francês.
- Eu conversei com a mãe de Lunn no dia em que fui visitar o túmulo dele. Foi ela quem me deu a localização no cemitério. E ela já havia me falado nesse dia tudo o que tinha pra falar. – ele se levantou e caminhou até Neil. – Então me fale Neil, o que você quer?
- O Lunn... – Neil começou.
- O Lunn está morto. – Louis interrompeu.
- Seu...
- Seu o quê?
Neil abaixou a cabeça, apesar de ser mais alto e forte que Louis, parecia estar rendido a alguma coisa.
- Pelos deuses. Eu nunca vou me ver livre de Lunn e de todos vocês?
- O que você quer dizer com isso?
- Se você me odeia tanto, o que está fazendo aqui no meu apartamento. Invadindo a minha morada ou... Me abraçando pra chorar?
Neil engoliu em seco.
- Sabe o que você é, Neil? Uma criatura minúscula, patética, que acha que pode substituir o próprio irmão vindo aqui e tentando, quem sabe, sabe-se-lá-o-quê com o homem que ele mais amava.
- Não... Eu amava Lunn muito mais do que você.
- E o que isso virou... Uma competição de amor? Eu não amava Lunn. Eu era viciado em Lunn. São coisas diferentes.
- Você chama amor de vício?
- E você, chama irmão de amante?
Neil engoliu em seco.
- Lunn me contou, Neil. Lunn me contava tudo. Esse era um dos poucos motivos pelos quais eu ainda salvava Lunn da vida que ele ditava para si mesmo. Seu irmãozinho mais velho fodendo ele sem parar.
As mãos de Neil tremeram e ele apertou o punho, segurando os nervos e o pouco autocontrole que tinha.
- Era por isso que se tornava mais fácil culpar o que Lunn se tornou por minha causa, não era? Tudo Louis, tudo o maldito Louis... E a sua mãe, ela não lhe quer mais lá na sua casa. Provavelmente suas malas já devem estar no vão da porta, esperando por você.
Neil deu uma bofetada em Louis. Louis riu.
- Que coisa maravilhosa, não? Você, casado e com uma filha adorável, a doce Victória. E Lunn, o veadinho, Lunn, o drogado estúpido, influenciado, fora de casa. Tudo pela forma doentia que você – e ele tossiu – o “amava”. Provavelmente a doce Victória ficará com a mãe, outra pobre coitada que cruzou seu caminho. Sorte de Victória, que não vai mais ficar perto de um... – Louis aproximou seus lábios dos de Neil, ofegante e trêmulo. – Monstro.
Neil empurrou Louis com força, mas Louis continuou.
- E então, Neil, agora está mais fácil de admitir de quem é a culpa? Ou você precisa de outro irmão pra acabar com a vida e construir a sua em cima dela?
Neil o pegou pelos ombros e o bateu contra a parede, Louis deu uma joelhada na sua virilha, mas Neil era mais forte e partiu para cima do francês, atirando-o na cama e pronto para enchê-lo de socos e tapas que toda a sua força descomunal poderia proporcionar. Mas Louis não fez mais nada para se proteger, não moveu nenhum músculo, com exceção das pálpebras e das íris, que assassinavam Neil com uma fúria pesada e densa. Neil saiu de cima do corpo nu de Louis e mais uma vez desviou a face carrancuda da do rosto do homem francês.
Neil se afastou e começou a bater as mãos sobre a cabeça.
- Eu o amava!
Louis fez que não.
- Eu ainda o amo! Por que ele não sai da minha cabeça?
- Não é ele quem não sai.
Neil encarou Louis pedindo por clemência, as pálpebras desaparecendo debaixo das sobrancelhas, os cílios apontados para o teto, as mãos trêmulas e a garganta seca. Gestos de uma eletricidade mórbida. Louis apenas se sentou na cama e colocou um travesseiro sobre as coxas.
- Como você tem coragem de dizer isso?
- O... O quê?
O francês riu de novo, mas por compaixão.
- Isso não é amor, Neil.
- Você não tem o direito...
- E você tem?
- Eu...
- Você nada.
- Cala a boca!
- Onde está Lunn agora pra você ter a plena certeza de que é amor?
- Eu não preciso de Lunn aqui pra saber do que eu sinto.
Louis respirou fundo.
- Neil, vá embora.
Neil guardou as mãos incoerentes nos bolsos e desapareceu no corredor. Louis levantou da cama, pegou uma toalha na gaveta do guarda-roupa e caminhou até o banheiro, ligando a ducha e sendo injetado por esguichos de água quente e reconfortante na pele fria e com odor de álcool. Tocou nos braços como quem acarinha um bebê e estralou os ombros, moveu o pescoço numa dança íntima e sentiu um lufada de ar quente na nuca que não vinha da ducha.
- Saia de perto de mim. – Louis sussurrou, mas ele não o ouviu.
O ar quente agora mordiscava sua orelha, beijava seu pescoço e descia em trilhas carinhosas nas suas costas até o final da sua coluna vertebral, se afogando em pele alva e insanidade, esquecendo-se do seu último resquício de consciência que ainda o deixava seguro na vida real.
Louis se afastou com força e insistência, abraçando a si mesmo e pegando a toalha branca para se cobrir. Neil fitou o francês com fúria e vontade, e menos de um minuto depois a porta do apartamento estava sendo fechada com força.
Louis se sentou na banheira e tentou não pensar muito naquele toque imprevisto, asqueroso, absurdo, delicioso.

~
Briana
Miriam pulou solta e entusiasmada na cama, assistindo uma discreta Briana brincando com o controle da televisão.
- Aqui, eu trouxe algumas blusas suas. Fui lá na sua casa hoje.
- Você o quê?
- Você me ouviu. Sabes que sua mãe me adora.
- O problema não é minha mãe, eu sei que ela gosta de você. Mas provavelmente meu padrasto vai inventar algum motivo pra você não entrar mais lá.
- E o que isso tem haver? Manda ele...
- Não, é que a minha virou um pau mandado dele e... – Briana bufou e jogou o controle na cama. – Só que faz tempo que eu não sei mais quem é aquela mulher em casa. Só não é minha mãe.
- Pra mim continua a mesma...
- Ah, deixa pra lá. Uma hora você vai entender.
- Se você não me fala nada, eu vou demorar pra entender.
Briana riu mais para si mesma do que para Miriam.
- Vamos lá, meu anjinho ruivo.
- Ah, Miriam... Desde que esse... Esse homem passou a morar lá em casa ela mudou. Eu não sei o que isso significa, mas espero que não seja algo ruim.
- Acho que já está sendo.
- Não entendi.
- Oras... Você costuma ser tão próxima da sua mãe, e agora trata ela como uma estranha. E você foi outra que mudou muito rápido...
- Eu mudei?
- Você não percebe nada mesmo, não é?
- Não sei, prefiro não pensar nisso agora.
- Desse jeito fica difícil.
Briana ajeitou a franja ruiva para o lado e começou a arranhar o esmalte recém-feito das unhas esquerdas com as direitas. Miriam projetou uma expressão boba e distraída e depois sorriu para a amiga.
- Você fica tão linda quando não tem mais respostas.
Briana sentiu um espanto quase imperceptível, mas o batimento cardíaco continuou forte.
- Então, vamos?
- Vamos pra onde?
- Para o parque que adora voltar pra essa cidade. O Solaris.
- Seria ótimo.
Briana trocou de roupa rapidamente e vestiu uma jaqueta jeans de Miriam por cima de uma blusa preta. Miriam tirou sua camiseta e Briana teve um vislumbre fugaz das suas costas magras e lisas. Era aquela pele reluzente e sempre cheirosa que deixava Briana com vontade de fechar os olhos e imaginar. Elas praticamente correram para fora de casa e pegaram um metrô que levasse ao parque Solaris. A estação era longe, e Miriam teve um tempinho considerável para cochilar no ombro de Briana, um velho senhor olhou feio para as duas, embora aquele gesto odioso de um estranho não tivesse significado algum para a ruiva que se sentia tão em paz ao lado de Miriam.
- Gosto tanto de você. – Briana sussurrou.
Miriam bocejou e abriu os olhos, faltavam duas estações para elas descerem.
- Disse alguma coisa?
- Estou sem dinheiro.
- Ah, tudo bem. Mamãe depositou dinheiro na minha conta hoje de manhã.
- Quando ela volta de viagem?
- Eu não sei, mas não vai demorar. Ela é uma das supervisoras que está organizando uma grande exposição na faculdade de artes que ela trabalha. Ela me falou que ultimamente estava encorajando um aluno seu bastante talentoso a expor seus quadros, e que não deveria demorar mesmo nessa viagem, pois queria insistir um pouco mais.
- Mas essa seria uma grande chance pra ele, não?
- Também acho. Mas pelo que entendi no telefone, ele é pouco sociável e não tem muita autoestima.
- Uma pessoa talentosa não ter nem um pouco de autoestima?
- Acho isso desnecessário. Detesto gente assim, que tem o mundo nas mãos, mas adora achar que não tem nada. Vamos, é essa a estação. – Miriam puxou Briana pelo braço.
O parque estava parcialmente cheio, mas bastante agradável de se caminhar. Carrosséis e rodas-gigantes estavam em todos os cantos de Solaris, repleto de luzes coloridas, cheiro de algodão-doce no ar e vendedores ambulantes de maçãs do amor, vestidos de palhaços e sempre de bom humor. As duas encararam logo no começo uma montanha-russa para enfim comerem alguma coisa, saber a ordem certa num parque era crucial.
Com Miriam, tudo parecia tão certo e seguro. Tão cheio de certezas. E por quê?
- Briana. Preciso lhe contar algo que há alguns dias estou tentando engolir.
- Engolir?
- Regurgitar, me acostumar com isso, eu não sei.
Briana riu.
- Fale logo, boba.
- Acho que estou apaixonada.










~











Andrew Oliveira

Um comentário:

  1. tres trechos impactantes...
    Sei lá, gostei de Belial + Nolan...
    Chocada com a história incestuosa do Neil + Lunn...
    lá vem a Miriam falar de macho... affe

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