Solitude, darkness and love


"I don't wanna admit, but we're not gonna fit"

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Elope, 04 A Companhia


Louis
“Vi você na praça e você estava triste. Não aquela tristeza que percebemos claramente no rosto de alguém, tampouco uma tristeza mais simples. Você estava sério, impassível e, se eu não o conhecesse depois, talvez estivesse também fumando. É claro, você não fuma. Você ama os seus pulmões. Acontece que fumar seria mais compatível com você naquela praça, sentado naquele banco, inexpressivo para o nada. Mas você não fumava nem tomava café, não daquele jeito tipicamente europeu de um francês com o nariz grande, o queixo másculo, os cabelos soltos e negros, o rosto liso e os olhos cansados, com um cachecol preto, um sobretudo azul-marinho e uma camisa branca. Você se diferenciava por uma individualidade maior, algo que ainda procuro entender. Não que isso seja difícil, não que isso seja impossível. Mas eu te vi e logo gostei de você, senti vontade de te tocar, embora tivesse medo de uma aproximação maior.
Mas eu me aproximei e você deixou, e até sorriu. Eu vejo poucas vezes o seu sorriso, ou uma exaltação maior de algum sentimento que deixaste escapar. Como um coelho que teve a toca descoberta pelo caçador, saltando como nunca através de galhos secos e troncos partidos por trovões, numa floresta enevoada. É assim mesmo. Você não entrega sentimentos. Você não os deixa fáceis ao bem-querer. Eles lhe escapam dos olhos, escorrem entre os seus dedos. Como a água.
Eu também nunca o vi chorar. E nossa! Como eu desejei que isso acontecesse. Que você estivesse triste demais para apenas estar, e necessitasse chorar. Mas naquela época eu não entendia (e até hoje não entendo, me perdoe), e você sentado sozinho no banco de uma praça era sua forma de chorar. Você gritava, berrava, quebrava tudo por dentro, e tudo o que eu via era alguém me olhando com uma indiferença mortal. Esse era você chorando, pedindo por atenção, querendo um abraço, um afago na nuca ou um aperto de mãos, um carinho no ombro e até mesmo um beijo.
É claro, um beijo. Foi assim que eu o capturei, levei-o para passear pelo parque, esse parque insistente que vive voltando para a nossa cidade. E você me olhou estranho, como se eu fosse algum retardado, mas aceitou caminhar comigo por aí, e veja só, até entrou na roda gigante ao meu lado! Mas não houve um beijo nessa hora, a sua batalha labial veio um pouco depois.
Acho que te falei um monte de coisas. Verbos e adjetivos de alguém que também estava sozinho, embora fosse mais fácil pra eu chorar para fora do que para dentro. Nunca consegui ser como você. E te admirar até o fundo do meu âmago não era o suficiente para conseguir ao menos um pouco disso? Descobri um pouco depois.
Eu estava seco, desesperado. E quando te vi logo fiquei excitado. Excitado mesmo. Você é lindo, branquelo, europeu, e tem esse rosto másculo que me encanta toda vez, e de novo e de novo. Desculpe-me a minha falta de compostura, mas estou sendo sincero. E sinceramente? A minha única vontade naquele momento era de te levar pra cama.
Mas você de repente desatou o laço e começou a conversar comigo, comprou um algodão-doce para me engordar e rimos pelo resto da madrugada. E era tão estranho você rir. Esse era o nosso quinto encontro no parque. E foi só no quinto encontro que você se permitiu rir à vontade, gargalhar. Deuses! Seu sorriso era mais lindo do que qualquer coisa que eu pudesse chamar de beleza ou poesia. Tudo em você exalava poesia e erotismo, mas naquele momento era um verso, uma estrofe. Ou seria também uma epígrafe?
Você é um pouco mais. Uma elegia, uma homenagem, uma carta de solidão, uma ode. Você é o corpo que inspira todos esses poetas. Você é um francês, você é Louis, oras!
No nosso sétimo encontro você resolveu me roubar um beijo. Um beijo forte, agressivo, pensei que não pudesse mais sobreviver depois dele. E tinha gosto de algodão-doce, o algodão-doce que caiu no chão quando você prendeu os meus braços contra a parede e colocou uma das suas pernas entre as minhas para me erguer, me apertar, e eu não sei se aquele gesto intensamente erótico significava que você também estava gostando de mim ou só queria se divertir com a presa.
Sua forma era elétrica, e seus gestos eram magnéticos, todos eles. A forma que você respirava me deixava encantado, a forma que você desabotoava seu sobretudo e tirava sua camisa, e andava só com uma calça jeans pelo seu apartamento com uma xícara de café com bastante leite, um café anêmico, descalço e descabelado, com o hálito da manhã. E mesmo acordando você era cheiroso. Tinha um cheiro natural, um cheiro só seu, não era perfume nem qualquer outra coisa, pertencia à sua pele. Um cheiro que me fazia sentir uma completude estranha, como se tudo o que eu mais precisava estivesse em você. Meu alimento e minhas roupas, meu corpo e minha alma. Era seu cheiro que fazia isso comigo. Algo meio doce, com uma pitada de amargo.
E lembro com clareza de quantas vezes você me acordou mordendo a minha orelha, sussurrando nos meus ouvidos e encostando seu peitoral nas minhas costas, suas coxas nas minhas e sua virilha nos meus quadris, me abraçando de corpo inteiro. Era nesse momento que eu sabia que você pertenceria somente a mim. E isso pode soar egoísta, e pode ser mesmo, mas eu não me importo. E você sabe por que, não sabe? Você sabe que sua forma elétrica, seus gestos magnéticos, seu cheiro que me tragava para o seu mundo, e de você andando pelo seu apartamento com a pele branca das costas pintadas sutilmente com sinais despida e exposta para os meus toques, e até a vibração dos seus passos, da sua voz, tudo em você me deixou viciado.
E a forma que cuidamos para que fosse amor... Não, que você cuidou, começou a se tornar algo tóxico. E eu tinha outro vício. E isso piorou. Você passou a ficar com medo de se aproximar de mim, e quando se aproximava, era de uma forma estranha, cavalheiresca e formal, mas nunca você. E eu sei que a culpa é minha. A culpa é toda minha. Eu não soube cuidar de você e cuidar do amor que você tentou colocar sobre mim. O amor me foi pesado e meus braços já estavam fracos. Eu o deixei espatifar-se no chão com brutalidade, quebrei seus ossos e arranquei as vísceras que cresciam envolta dele. Isso faz sentido pra você? Também querer cuidar desse amor mas, ao invés disso, destruí-lo?
Não me culpe por isso. Não me culpe por ser viciado em você. Ter esse sentimento tão agressivo e possessivo que cresceu dentro de mim e se instalou em cada osso meu. Porque o que cresceu em mim não foi o amor como cresceu em você. Foi um monstro, um monstro incômodo, pegajoso, autodestrutivo, corrosivo.
Por isso você pode me culpar. E eu lhe peço perdão. Embora quisesse ouvir sua voz de novo. Eu te amo. Mas não foi do jeito que você queria. Eu te amo. E eu sei que você nunca vai deixar de me odiar. Eu te amo de qualquer jeito. Embora ainda me seja um pecado proclamar isso como “amor”.
Eu não tenho certeza sobre isso. Mas eu tenho certeza que quero sentir o ar puro na minha pele, o fedor de hospital já está insuportável. E eu quero estar perto dos pássaros, maior do que uma antena. E quero estar nos meses em que vivíamos no parque, em que o nosso beijo tinha sabor de algodão-doce e de você. Meu maior vício, meu Louis. E quero estar também livre desse monstro que comeu meu braço, mutilou o outro, te assustou. Esse monstro não existe mais. E embora seja tarde demais para dizer isso, eu estou livre desse monstro por você.
Lunn.”
Louis amassou a carta, jogou-a no lixo e tirou sua camisa e seus sapatos. Agora estava confortável, apenas com uma calça jeans preta e os pés descalços no piso gelado do apartamento. Deitou-se na cama de braços abertos e tentou respirar. Estava difícil. A raiva era tanta que borbulhava debaixo da sua pele e se misturava ao ódio, num caminho de artérias e pensamentos pelo seu corpo.
Pulou da cama e deu um murro na parede, e depois outro, até seu punho se esfolar e ele parar, dessa vez se contorcendo de dor, embora a raiva ainda estivesse alí. Pegou o telefone e ligou para o número que estava no final da carta. Um único número. E ele sabia de quem era.
- Neil.
- Louis? Mas... Louis é você mesmo?
- Sim.
- O que foi? – a voz de espanto no telefone de repente se tornou seca e pragmática.
- Foi Lunn.
- O que tem Lunn? Ele voltou a se injetar?
- Ele nunca parou, Neil.
- Então Louis, o que você quer? Faz meses que não entro em contato com meu irmão, suponho que não seja algo bom.
- Ele está num hospital particular do centro.
- Eu não me lembro de ter pagado plano de saúde num hospital particular pra ele, Louis.
A fúria na voz de Louis ficou maior.
- Fui eu.
- Ele... Vá para esse hospital. É só o que eu posso... Ou consigo falar.
- Você não quer falar o quê, seu imbecil?
- Eu não...
- Vamos logo com isso, não aguento mais ouvir essa sua voz.
- Ele se matou, porra!
A voz do outro lado ficou muda.
- Vou mandar o endereço do hospital pra você por mensagem.
A voz continuou muda.
- Sinto muito ter falado desse jeito. Eu evitei ao máximo que tudo isso acontecesse e...
- Tudo bem, me mande o endereço. Vou ligar para uma funerária agora.
Foi a vez de Louis se espantar.
- Você sabe que isso tudo é culpa sua, não sabe? – disse Neil.
- Quando foi que eu me tornei responsável pela vida dele?
- Quando você entrou na vida dele.
Louis desligou o celular, enviou o endereço do hospital por mensagem, tomou um banho rápido e saiu às pressas do apartamento. Atravessou metade da cidade de carro e enfim chegou ao único endereço que sua memória arquivava, tocando a campainha várias vezes. O dia ainda estava nublado como o anterior, embora não houvesse nenhum sinal mais óbvio de que choveria mais tarde. Onde o verão se escondia para dar espaço a tanto inverno?
A porta foi aberta, e atrás dela, sua mãe de olhos arregalados.
Ele entrou, mas não tirou os sapatos, o casaco e nem a camisa. Preferiu abraçá-la antes disso.

~
Briana
- Está melhor?
Briana fechou os olhos com força enquanto a enfermeira dava o último ponto na mão, esterilizava, colocava gazes e enfaixava cuidadosamente. Nolan estava na poltrona fitando a irmã com apreensão.
- S-Sim.
- Me avise se acontecer qualquer coisa. – A enfermeira se dirigiu a Nolan e depois saiu do quarto.
Briana estudou a mão direita enfaixada e sentiu vontade de tomar outro banho. Aquilo coçava e ardia, ela queria tirar os pontos, observar melhor o ferimento. Por que entorpeceram a dor da sua mão? Aquela dor era mais conveniente do que se lembrar de tudo aquilo.
Nolan se levantou e se sentou ao lado de Briana, que não moveu um músculo para se aproximar ou falar, nada.
- Não conte isso pra mamãe.
- E eu vou contar o quê, Briana?
- Conte que... Que eu tentei me defender do ladrão e ele me feriu. Só isso.
- Briana, eu estou preocupado com você.
- Por que, Nolan? Eu estou bem, estou aqui do seu lado.
- Você fala isso, mas...
- Mas o quê?
- Pare de ser tão grossa comigo. Eu sei que você não está bem.
- E quando foi que eu estive bem?
- Quando você costumava me contar as coisas.
- Eu não estou escondendo nada.
- Briana, por que você está fazendo isso comigo?
- O que eu estou fazendo, Nolan?
- Você está mentindo.
Briana ajeitou a franja ruiva e longa para trás com a mão intacta e olhou para o irmão, que retribuía o olhar com uma mescla de tristeza e impaciência.
- O que está acontecendo, Briana?
Briana umedeceu os lábios com a língua e colocou a mão ferida e enfaixada no colo, os cabelos acobreados caindo novamente para frente enquanto ela abaixava a cabeça.
- Só estou assustada com tudo isso, Nolan.
Nolan a agarrou pelo ombro e a beijou na bochecha.
- Tudo bem.
Briana sorriu, com todas as forças que sua falsidade conseguiu transportar para os músculos do rosto.
- Você pode ligar para a Miriam?
- E a mamãe?
- Eu não quero falar com a mamãe agora.
Nolan suspirou, pegou o celular no bolso e enviou uma mensagem para a amiga de Briana. Briana segurou sua mão por algum tempo, talvez quinze ou vinte minutos, até soltá-la bruscamente quando Miriam bateu na porta e entrou. Ele lhe deu um beijo e preferiu sair enquanto Briana parecia estar mais empolgada com a presença de Miriam. Passou a se sentir em segundo plano na vida da irmã com aquele gesto, embora naquele momento esse gesto pouco significasse.
- O que aconteceu, Briana, pelo amor dos deuses? – Miriam começou atônita e abismada.
- Nossa casa foi invadida por um ladrão e... – ela levantou a mão enfaixada. – Eu me defendi e aconteceu isso.
- Céus... Por que você não se escondeu até que ele fosse embora?
- Ele estava no meu quarto.
- Ele não fez nada pra você?
- Não.
Miriam a abraçou, porque abraçar no momento era a única coisa que ela sabia fazer para uma pessoa em estado de choque.
- Está tudo bem, Miriam. Só estou um pouco assustada.
- Briana, seu irmão foi embora daqui meio triste, o que houve?
- Eu só... Meio que o expulsei.
Miriam fez um gesto com a cabeça em reprovação.
- Você já ligou pra sua mãe?
- Não.
- E pro Christopher?
- Claro que não, sua boba.
Miriam riu. Ela parecia uma menina de sete anos quando ria. Formavam-se covinhas nas bochechas, algo tão belo num rosto redondo e pequeno, delicado, cabelos lisos e castanhos cortados em cascatas, mas que não passavam dos ombros. E seu corpo era um pouco maior que o de Briana, ela tinha mais silhuetas do que a amiga. Mas seus olhos escuros, suas sobrancelhas desenhadas e seu nariz pequeno pouco convinham com o poder do seu corpo. Era estranho alguém parecer tão adulta e tão infantil ao mesmo tempo.
Briana não conseguiu rir de volta, alguma coisa dentro dela agora travava. Travou quando ela tentou contar para Nolan, e agora travava com Miriam. Ela achava que com Miriam ela conseguiria, que tudo aquilo era só uma impressão, um pequeno choque que passaria quando ela enfim conseguisse falar para ele ou para ela. Mas não aconteceu. Continuava alí.
Ela movimentou a mão esquerda e intacta e a colocou sobre o pescoço, Miriam observou o trejeito e a segurou com força.
- Vem cá.
Miriam se deitou na cama e abriu os braços esperando Briana se deitar também. E foi o que ela fez. Aconchegou-se de frente para o rosto da amiga enquanto esta a aproximava mais, puxando-a pelas costas. Briana fechou os olhos e abraçou o próprio braço direito, enquanto sentia a respiração tranquila e apaziguadora de Miriam sobre os cabelos ruivos que lhe eram acarinhados.
- Fale pra mim, meu anjo ruivo.
- Estou cansada de espelhos.

~
Nolan
Buscou um ônibus e preferiu ir para alguma praça alí perto do que esperar por Briana. A noite ainda se estendia pelas onze horas e talvez Briana nem o chamasse mais, ela tinha Miriam e tudo estaria bem. Mesmo que por pouco tempo, ele sentiu uma pontada de ciúmes, fora tirado dalí praticamente à força e agora estava um pouco mal-humorado com o ocorrido.
Desceu no ponto mais próximo do Parque da Magnólia, comprou um sorvete de baunilha e foi caminhando em direção reta. A noite estava com uma ventania forte e ele se esquecera do casaco na poltrona do leito onde Briana estava. Sentia-se confuso. Porque se aquele tipo de coisa tivesse mesmo acontecido, Briana lhe contaria, não contaria?
O parque estava praticamente vazio, ele se abraçou e esfregou as duas mãos, colocando-as nos bolsos logo em seguida. Passeou pelo lugar que fazia jus ao nome do parque, um gramado todo bordado com magnólias brancas cuidadosamente podadas pelos moradores locais que preservavam o local, e até pela noite o local era bem claro, postes para todos os cantos e lâmpadas nas árvores. O Parque das Magnólias era um pedacinho de natal fora de época. Quase como um encanto tristonho.
Sentou-se no primeiro banco que viu e ficou esperando por algum luar que não surgiria. O céu escuro lá em cima não era dos melhores. Estava mal. Sentiu vontade de dançar, dançar sozinho e sem interrupções ou regras, sem ninguém falando num francês irritante, passos difíceis e complexos que exigiam além do equilíbrio, a perfeição. Era-lhe bonita a ideia de sair dançado por aí, e cantar, como num verdadeiro musical seiscentista. Onde estaria o terno, a gravata, o casaco e o guarda-chuva?
Um arrepio na espinha. Olhou para os lados e só viu outro homem, concentrado numa prancheta, um louro de altura mediana, mas provavelmente maior que ele. Não parecia ser muito forte, mas ele desejou que o homem erguesse o queixo para avaliá-lo melhor. Usava luvas de lã e um sobretudo preto, um cachecol quadriculado e ombros arquejados para baixo, ditando cansaço, ou talvez álcool.
A prancheta estava sendo rabiscada cruelmente por duas ou mais lapiseiras. Nolan se levantou, mas o homem percebeu no mesmo instante e fez um gesto com a mão indicando que o queria sentado alí.
Nolan obedeceu, intrigado com aquela presença repentina e fantasmagórica. E esperou até que o próprio homem o fitasse, não para desenhar, mas para dizer que havia acabado.
O ruivo caminhou em sua direção e o homem lhe deu um pequeno sorriso até se afastar um pouco para este se sentar ao seu lado.
- Posso ver?
- E... Está horrível.
- Eu sei que não está.
O homem louro deu um sorriso sem graça, tímido até demais. Nolan pegou a prancheta e viu seu próprio rosto em grafite, em mínimos detalhes, mesmo que de longe. Estava de olhos fechados e com os braços abertos, e folhas choviam no horizonte atrás dele. Não era apenas lindo, era assustadora a forma que o homem transpôs sua tristeza para um papel, com apenas duas lapiseiras e uma distância considerável. Ele imaginava que fosse ver ele mesmo sentado naquele banco, com o mesmo gramado e as magnólias anêmicas como plantas carnívoras à espreita de uma abelha. E o rosto, uma incógnita.
Mas lá não havia incógnita, a não ser os olhos fechados e a tempestade de folhas, que poderiam não ter significado algum.
- Por que eu...
- Você está sonhando. – O homem louro respondeu de imediato.
- Estou sonhando de braços abertos?
- Seus braços não estão abertos. Foi apenas um sonho.
Nolan franziu o cenho.
- Mas eu não tive tempo de saber que foi um sonho.
- Mas sonhos são assim, você acha que é tempo demais e, quando acorda, não é tempo nenhum.
Ele observou novamente o autorretrato onírico, teve a sensação de que o desenho se mexera.
- Acho que sim.
- Por que você estava sonhando com isso? – O homem quis saber.
- Eu estava? Mas... Foi você quem desenhou.
- Não, não. Não são só os sonhos. É muito mais que isso. São quase palpáveis.
Que criatura confusa.
- Se fossem palpáveis eu não estaria dormindo. Estaria?
O homem sorriu. Dessa vez menos tímido e discreto.
- Agora você entende?
Nolan deu de ombros.
- Não é tão difícil assim.
- Tão real que é muito mais que um sonho, mas nem tão físico que eu possa ter a certeza de que aconteceu.
O homem distraiu os olhos em algum ponto no parque por um instante, afundado num devaneio, e então voltou a perceber a presença de Nolan ao seu lado.
- Você acha que o mundo gostaria de ver?
- Ver o quê?
- Esses sonhos.
Nolan passeou o polegar pelo grafite no papel, pelas suas pálpebras fechadas e pelos seus braços livres, dentro de um mundo compacto. Alí parecia ser tão frio e aconchegante.
- Iria achar adorável. – ele sorriu, tomando a discrição do homem louro para si.
O rapaz ruivo depositou a prancheta no colo para esfregar as mãos nos braços e colocá-las novamente nos bolsos. O homem louro, desajeitado e ainda com o olhar meio perdido, tirou seu sobretudo preto e vestiu em Nolan, que respondeu com uma expressão inusitada de espanto.
- Você não quer?
- Ah, não é que... Foi gentil da sua parte, mas eu não sei se vou ficar aqui muito tempo.
- Você está com medo?
- Não, oras... Não. Eu só tenho coisas pra fazer.
- Elas não podem esperar um pouco?
Nolan sentiu uma pontada de compaixão. Aquele homem parecia ser tão autossuficiente e, no entanto, tão empolgado com a mínima atenção que tinha.
- Só se eu souber o seu nome.
A resposta foi aquele sorriso discreto, tímido e praticamente imperceptível se visto de longe, de novo.
- Belial.








~









Andrew Oliveira

2 comentários:

  1. comemorando o boson de higgs, o corinthians campeão (sou viajante do futuro) e a morte do Lunn... sou dessas !

    ainda nao tinha falado... mas vejo a relação de Nolan e Brianna de forma tão incestuosa..

    muito curiosa com a Miriam...

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  2. Meu amor, o futuro deles é tão incerto pra mim quanto é pra você. Eu tenho 10 capítulos de Elope na cabeça, mas eles mudam constantemente.

    Sábado talvez já saia capítulo 05 <3

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