Solitude, darkness and love


"I don't wanna admit, but we're not gonna fit"

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Elope, 02 O Sonho


Louis
Ela estava de cabeça baixa quando ele abriu a porta, segurando o que parecia uma caixinha embrulhada, um presente? Aquilo era tão irônico. Ele avaliou seus cabelos grisalhos, seu rosto suavemente bordado com as rugas de expressão, a testa baixa, as sobrancelhas como as dele, e o nariz idem. Mas ela tinha olhos claros, e os seus, eram impossíveis de se afundar em algum abismo.
- Posso entrar?
- Eu... Não sei. Não estou muito bem hoje. Não estava afim de ver ninguém.
- Só quero conversar um pouco. Prometo que não irei demorar.
Louis bufou, cruzou os braços no peito nu e olhou para os pés descalços, esperando que alguma parte do seu corpo respondesse. Seus cabelos negros habitualmente caíram na testa quando ele fez o mesmo gesto que aquela senhora, mas ele não os afastava, deixava-os alí, eram donos de si mesmos, aquelas mechas escuras e lisas, sutilmente sinuosas, como cachos que tentaram se consolidar, mas o plano em transformar sua cabeça num recanto de serpentes escuras e enroladas deu errado.
- Me espere na sala, vou pegar uma camisa.
A mulher entrou, meio entorpecida com aquela atitude inusitada, não completamente, mas ela esperava que ele batesse a porta na sua cara e quebrasse seu nariz com prazer. Seria uma atitude de Louis esperando por ela, motivo pelo qual sua cabeça estava baixa quando ele abriu a porta. Ela preservava o seu nariz, afinal.
Louis voltou com uma camiseta vermelha, mas permaneceu descalço, embora a mulher estivesse nervosa com suas sapatilhas maltratadas, ela deveria tê-las tirado na entrada, e isso seria um motivo plausível para ele expulsá-la?
Ela se sentou desconfortavelmente no sofá, uniu as duas mãos como que numa prece e olhou diretamente para Louis pela primeira vez, que a fitava em pé, de braços cruzados, alto, mal humorado e ainda assim belo com suas mechas descendo em cascatas pela testa, altivo na sua lucidez de penetrar com seus olhos impenetráveis, como uma espécie de barreira esmagando quem quer que tivesse coragem de olhá-la.
- Você... Você está bem? - ela começou.
- Pergunta imbecil.
- Sim, me desculpe.
- Não precisa se desculpar. O que você quer?
O olhar da mulher, muito sutilmente, pareceu ficar maior, quase uma súplica.
- Eu só queria vê-lo. Sinto sua falta.
Louis contorceu a boca.
- Que interessante.
- E você, não quer saber como sua mãe está?
- Não.
Não foi como um tapa, foi mais como se ele tivesse enfiado o gancho de um anzol nos seus pulmões e depois puxado com força apenas para assistí-la gritar, deleitar-se com seus pulmões se mutilando com a força dos seus braços. Eficiente e pouco subjetivo.
- Já me viu e já sabe que estou vivo, satisfeita, Meredith?
- Por que você não...
- Porque chamá-la de "mãe" vai me fazer ter um gosto amargo na boca, e eu acabei de tomar um café bastante açucarado, sabe? Quero ficar com o gosto dele na minha língua até eu fazer a próxima chaleira de café, e não gosto da sua palavra.
Meredith abaixou a cabeça, estava atordoada, pálida, e no entanto se esforçava ao máximo para se manter forte na presença do filho.
- Seu pai queria vê-lo também. Louis, faz tanto tempo...
- Não, não faz, Meredith. E fale para o - e ele fez questão de tossir. - meu pai que talvez eu cogite em ir no enterro dele, ou no seu, ou coisa parecida.
- Você não prefere ir vê-lo pessoalmente? - ela tentou unir forças na pergunta.
- Não quero me dar ao esforço, preciso trabalhar.
- Você está trabalhando em algum livro novo? - ela ergueu a cabeça e forçou os músculos a sorrirem, embora o cenho ainda permanecesse franzido.
- Não, Meredith. O jornal toma todo o meu tempo. E aliás, que irônico logo você perguntar isso.
- Sabes que não penso mais dessa forma, e que já me desculpei por isso.
- Que conveniente, não é? - ele rodeou a sala, sentou-se no sofá branco de frente para o que Meredith estava sentada, e deu o sorriso mais corrosivo que poderia dar para a mãe. - Me afastar de todas as pessoas que amo, e depois me obrigar a fazer o que você quiser. Tocar piano, jogar futebol, ser fã de alguma bandinha esdrúxula de rock, ser popular e depois trabalhar como médico, advogado, ou qualquer merdinha alienante dessas. É claro, ser um filho modelo é o que qualquer bonequinha de subúrbio quer. E depois casar, um casamento lindo num quintal com uma esposa gentil e que todo mundo também adora. E depois mais o quê? Vamos, me ajude! É claro! E depois tratar minha possível esposa da forma que ele te trata, e fazer dela mais um enfeite do meu lar suburbano com a grama mais verde e a vidinha mais perfeita. É assim mesmo, não é, Meredith?
- Louis, eu já...
- Cala a porra da tua boca que eu ainda não terminei. - ele apontou o dedo, superior, o olhar flamejando através dos cabelos, que agora ele tinha feito questão de afastá-los para enxergar melhor o rosto horrorizado da mãe. - Mas não deu certo, não é? Comigo não deu nada certo. Eu fui exatamente o contrário. Não segui seus roteiros ou essa sua ideologia absurda de como um filho deveria ser. As coisas que vocês não conseguiram, os sonhos que vocês não realizaram, tudo projetado pra porra do filho! Um espelho perfeito pra entupir esse ego esdrúxulo de vocês, essas frustrações que não tem importância alguma. E sabe qual é a relevância disso tudo no mundo lá fora? Nada.
- Quantas vezes eu pedir perdão nunca vai ser o bastante pra você?
- Pedir perdão? Pedir pra quê? Pra todas as vezes que falei que queria viver da arte, você responder com um "não" e me mandar voltar para as minhas lições de piano?  Pra todas as vezes que eu falei que queria viver da minha escrita na adolescência e você me mandar de volta pro meu quarto ou me ignorar completamente na hora do jantar? Ou nas vezes que eu cometi algum erro e você e aquele homem só me olharem como se eu fosse uma grande decepção? Eu sempre vou ser a grande decepção de vocês e vou sempre me orgulhar disso, porque depois de tudo essa é a minha única vitória contra vocês.
- Não nos trate como monstros...
- Vai embora.
- Louis, vá ver o seu pai.
- Vai... - ele segurou os timbres da voz grossa e rouca e apertou as mãos suadas uma contra a outra - Embora.
- Ele está mal...
- Melhoras.
Ela se levantou, indignada, segurando a pequena bolsa de couro com força.
- A porta tá bem alí. - ele apontou, levantou do sofá, tirou a camiseta vermelha e foi para a cozinha, como se ela já nem estivesse mais no seu apartamento.
Pegou o coador, o pote com o pó de café, e o leite na geladeira.
Caminhou até a estante, contou seus passos, e colocou o retrato com as molduras escurecidas de volta no seu devido lugar. Ele ainda estava lá.

~
Briana
- Briana você está bem?
Briana abriu a porta do banheiro, sonolenta e com os cabelos ruivos emaranhados, usando apenas uma camisa fina rasgada na barriga e uma calcinha branca e confortável, com as laterais transparentes, sua falta de pudor também não era diferente da de Nolan à sua frente, com uma cueca boxer habitual e meias pretas nos pés. A pele feita de leite e mel com uma aparência meio doentia através da manhã nublada. Estava trovejando, mas os noticiários diziam o contrário. Aquelas nuvens iriam embora ou recairiam sobre aquela região? Se chovesse, a pele da garota ruiva iria se dissolver.
- Estou ótima, Nolan.
Nolan lhe deu um beijo na testa e depois desceu as escadas apressadamente para tomar café. Briana vestiu um shortinho e também foi empolgada para a refeição matutina, até ouvir aquela voz.
- Seus filhos costumam sempre andar pelados assim pela casa?
- Nolan, volte e vá vestir uma roupa.
- O quê? Mas eu sempre...
- Nolan, não responda para sua mãe.
Briana começou a descascar o esmalte vermelho das unhas recém-feito na noite anterior, e só viu Nolan passando por ela e a fitando com a expressão da mais pura raiva.
- Se acalme. - ela sussurrou.
- Ele tem controle sobre a nossa casa agora?
- O seu "papai"...
- Vou começar a ter asco dessa palavra.
Nolan subiu as escadas e Briana chegou debochada e cínica na mesa da cozinha, pegando uma caixa de cereal, uma tijela e depois a jarra de leite, com um lindo sorriso que apenas a sua beleza ancestral conseguiria produzir, reluzindo sobre os cabelos flamejantes. Sua mãe a olhava com indignação e seu padrasto, com reprovação.
- Briana! - a mãe bufou.
- Bom dia mãe.
- Seus filhos não tem conduta alguma? - o padrasto saiu espumando da cozinha.
- Briana, vá para a escola.
- O quê?
- Você me ouviu.
Briana se levantou e cruzou os braços.
- O que está acontecendo aqui?
A mãe a olhou com desconfiança.
- Vamos, responda.
- Está acontecendo que eu estou casada e vocês precisam respeitar o homem que eu amo.
- Tudo bem, respeitamos, mas eu tenho que ficar sem minha liberdade indivídual dentro da minha própria casa?
- Pelo amor de Deus, o que custa meus filhos colocarem alguma roupa antes de descer as escadas?
- Ah, veja só. Discutindo com a filha por causa de uma roupa?
- Sim, Briana. Lembre-se que não somos mais apenas três.
- Vamos sempre ser apenas três, mãe.
A mãe secou as mãos no avental e colocou a mão sobre o rosto, para então responder:
- Briana, por favor, faça isso por mim. É tão difícil assim mudar algumas coisas e se sentir feliz por mim?
Briana retorceu a boca, para então abraçá-la e dar-lhe um beijo na testa.
- Você sabe que eu demoro a me acostumar, é só que... Pra mim basta você e Nolan no mundo, e o resto pouco me importa.
- Obrigada, filha.
Briana subiu as escadas, trancou a porta do quarto e tirou a camisa rasgada. Seus seios estavam do mesmo tamanho, sutilmente volumosos, brancos e firmes, bordados com seus belos mamilos. Suas pernas estavam magras, como sempre, assim como sua barriga e os quadris pouco notáveis, porém curvilíneos. Mas o espelho nunca dizia isso. Para ele, ela estava sempre mais gorda, com uma feiúra a mais, o que havia de errado naquilo tudo?
Ela esticou os braços e o seu tronco doeu, abaixou-os rapidamente, correu para o banheiro e tirou todo o café da manhã do estômago.
Mas não porque ela queria.
Pegou seu celular na bolsinha escura de couro e tentou ligar para ele várias vezes. Sem sucesso, sentou-se na cama e aquele turbilhão a atormentou novamente.
Aquela maldita festa, com aquela reunião de imbecis.
Do que ela deveria se lembrar?

~
Louis
Sentou-se numa cadeira da primeira fileira, tirou as luvas de lã pois as mãos suavam e esperou. Devia ter chegado muito cedo, ou não, talvez a apresentação não fosse tão boa assim. Mas ele estava sobrecarregado, e entediado também, embora a união dessas duas sensações não fosse das melhores. Estar descansado e no entanto ainda sentir um peso enorme no corpo, quase como se seu espírito tivesse criado uma força física e independente e agora quisesse andar por aí com a forma de Louis, e sem a sua permissão.
O espetáculo começara, a abertura vinha com duas dóceis dançarinas fazendo uma coreografia simétrica nos passos mais difíceis que o ballet poderia educar, acompanhadas de um dançarino ruivo e forte, que deixava aquela apresentação ainda mais viva e empolgante, mais... Violenta? Sim, ou algo assim. Uma poesia forte e erótica, uma poesia respirando nas páginas, tornando-se mais física e presente, dançando nos olhos, serpenteando por cima da língua. Louis ficou hipnotizado e encantado pela sedução daqueles passos, daqueles cabelos flamejantes no ar, e a flexibilidade de suas pernas eficientes, fugitivas e transgressoras. Ele estava triste? Sim, estava estampado no seu rosto com clareza, e bem poderia fazer parte da performance, ou apenas alguém que ele esperou e não veio vê-lo. Mas todo o seu encanto se derreteu quando seu celular vibrou e ele viu o nome de Lunn piscando na tela.
Não olhe, não atenda, ignore.
O celular continuou vibrando. Duas, quatro, sete chamadas não atendidas. Ele saiu esfumaçando do teatro e entrou no banheiro masculino, mais esmagando o celular do que atendendo.
- O que você ainda quer seu...
- Louis... - veio uma voz fálica e debilitada. - Preciso da sua ajuda.
- Que novidade...
- Por favor Louis...
- Lunn - e ele se esforçou ao máximo para segurar a raiva habitual que o consumia em poucos segundos. -. Me deixe em paz.
- Louis, só dessa vez, não me deixe aqui. Eu fiz... Eu fiz uma besteira.
- Lunn, por que você ainda insiste tanto? - a raiva estava se transformando em outro sentimento. - Eu não aguento mais olhar pra você porque sinto minha alma doer.
- Louis, eu prometo que essa é a última vez, eu... Me ajude, Louis.
O celular ficou mudo. Louis saiu do banheiro e foi correndo para o estacionamento. Entrou no seu carro cinza e bateu a porta com força, a única coisa mais próxima disponível para receber sua raiva, e então enfiou a chave na ignição. Ele já havia prometido para si mesmo que não se aproximaria mais de Lunn, que se esforçaria ao máximo para esquecê-lo. Porque aquilo não era amor, nunca foi amor, Lunn era a ponte, a porta que se abria para receber sua raiva constante, seu objeto masoquista que fazia de tudo para amá-lo, entendê-lo, descascar Louis aos poucos até chegar ao núcleo, e então engolir sua luz pela eternidade, até que Louis se desse por vencido e aprendesse a amá-lo. Mas nada daquilo aconteceu. Aconteceu só o contrário. Porque os caminhos ao lado de Lunn sempre eram na direção contrária do que Louis queria. Louis sempre prosseguia, e Lunn, sempre voltava para o ponto de partida, para o ponto mais escuro, até afogar-se em si mesmo num declive de obsessões pela sua fuga doentia da realidade. E então Lunn descobriu a heroína, e Louis não descobriu mais nada.
Estacionou o carro em qualquer rua, sem se importar com placas ou futuras multas, sentiu gotículas do tempo nublado no rosto, entrou no prédio e apertou repetidamente o botão do elevador. Décimo quinto andar. Décimo quinto andar. Décimo quinto andar.
Décimo quinto andar.
E a sua raiva pareceu desaparecer, o corredor estava sempre deserto, e a porta lhe aguardava para a reunião no inferno compactado. Ele bateu três vezes, e depois percebeu que ela estava aberta. O apartamento estava como antes, bagunçado, imundo, sobreposto ao cheiro intenso de Lunn.
- Lunn, estou aqui.
Nenhuma resposta.
- Lunn, por favor, só me deixe acabar com isso logo.
- Louis...
Louis abriu a porta do quarto, e o mundo nublado lá fora parou de funcionar, seu relógio quebrou e seus ponteiros caíram sobre a terra em forma de garoa, de chuva, e então de tempestade. Lunn estava sentado no chão, encostado na parede de frente para a sua cama, para com o braço esquerdo ainda espetado por uma seringa, que recebia na sua ponta uma goteira de pus, e outro braço completamente mutilado, com a arma daquilo tudo alí perto. Seus lábios secos, rachados, seu rosto doentio, sonolento e expressando uma pequena tristeza, os cabelos castanhos e secos, o olhar pairando sobre algum mundo em que ele não conseguiu encontrar o caminho de volta.
Louis pôs a mão sobre a boca e desabou, e só então reuniu forças para pegar o celular no bolso da calça jeans preta e ligar para uma ambulância. Lunn apenas o olhava com a distância que ele desconhecia, pois Louis agora era um lugar na terra que ele nunca conseguiria habitar. O que mais ele poderia fazer? E quando ele conseguiria fazer? E no entanto, não havia mais nada naquele apartamento. A não ser os sapatos de Louis presos no chão, e Lunn, um balão vermelho perdido no céu, de alguma criança desleixada num parque, que se distraiu por pouco tempo, e se pôs a chorar pela desgraça daquele pedaço de borracha inchado, sendo mais livre do que ela, embora sua liberdade se privasse até onde o oxigênio estivesse disponível. Até onde o oxigênio fosse o núcleo de toda a verdade do balão, o seu limite, sua chance de voar por algum tempo, e espocar. E essa era uma verdade universal.
- Eles... Eles estão chegando. - Louis ainda não havia derramado nenhuma lágrima, mas seu peito doía ainda mais, e dessa vez não era o gancho de um anzol, era a âncora de um navio, afundando sobre o seu peito e estilhaçando sua caixa torácica com força.
- Louis, me abrace Louis. Eu não vou fazer nada. Eu juro.
Louis fez que não.
- Por que você faz da minha vida um lugar escuro e severo? - Nenhuma lágrima. Era a falta de ar, eram as palavras chorosas, desaguadas. Pó.
- Por que você faz do meu amor um lugar escuro e severo?
- O que mais ele pode ser?
Lunn tossiu. Sua garganta não sentia a água há dias, e seu corpo estava sendo alimentado apenas por algumas doses de heroína. Ele ergueu o braço mutilado, afetuoso. Dessa vez Louis obedeceu, se sentou ao seu lado e Lunn o abraçou com força, manchando sua camisa branca como uma tinta derramada num papel, absorvendo o vermelho, sugando as bordas escuras do quarto. Mas Louis não moveu um braço para abraçá-lo, para recebê-lo com o calor do seu peitoral, e deixá-lo descansar sobre o seu pescoço, fazendo dele uma cachoeira de respirações e sussurros, era apenas Lunn quem o agarrava.
- E te abraçar tão forte que a nossa pele vai se fundir em uma só.
Essa é a minha lei, e o meu vício.

~
Briana
Jogou a bolsa no sofá, exausta, e correu para a cozinha para fazer um sanduíche natural, o celular sempre no ouvido direito, pronto para tudo.
- Que horas vai ser sua apresentação, Nolan?
- Às cinco. Te falei isso a semana inteira. - A voz no telefone era de "eu não acredito que você está me perguntando isso."
- Ah, ótimo. Acabei de chegar. Estou cansadíssima.
- Dá tempo de você descansar.
- Claro que não, bobo, acha que demoro quanto tempo pra me arrumar? Cinco minutos?
- É o tempo que eu passo...
- Que seja. Você deixou o ingresso no meu quarto?
- É claro. Embora eu preferisse que você tivesse comprado...
- Por que eu pagaria pra te ver dançar?
- Porque eu sou adorável.
Um barulho de algo quebrando veio da sala.
- Seu... Espera, depois eu falo com você. Nos vemos aí no teatro.
Briana foi ver a sala, sua bolsa não estava mais no sofá.
- Mãe? Christopher?
Correu para o hall de entrada, e depois subiu as escadas. Ninguém nos quartos, nas salas. A casa estava vazia, e um temporal anunciava os prelúdios em forma de garoa, pedrinhas nos telhados e o frio ficando mais presente.
Decidiu se trancar no seu quarto. Obviamente era um ladrão, e ela não queria correr riscos por uma bolsinha preta de couro, embora ela tenha sido cara e tivesse um grande valor sentimental. Se ele ainda estava na casa, ela esperaria até que ele pegasse o que queria. A droga do seu celular estava lá embaixo em cima da mesa da cozinha. Ele demoraria muito? Ela já estava nervosa e precisava se arrumar para ir ver a apresentação de Nolan no teatro.
A apresentação... Briana abriu a porta do banheiro e o homem, cobrindo o rosto com uma touca escura, a agarrou e lhe tapou a boca com a mão suada, segurando seus braços finos e fracos com a outra. Briana tentou gritar e lhe morder, mas era impossível, ela se sentia enfraquecida havia semanas, e o seu vício em regurgitar a maioria das suas refeições agora de nada lhe servira a não ser a impotência completa.
O homem a jogou no chão e tirou seu cinto, rindo baixinho, não por deboche, mas por triunfo. Briana arregalou os olhos e começou a chorar.
- Por favor, não faça isso.
Briana certa vez sonhara com uma praia inóspita, em que o ar era carregado de um cheiro doce e gostoso, e ela corria para todos os cantos, pois alí ela estava livre e só, e o seu coração estava fora do corpo, estava preso num colar no seu pescoço, em forma de pérola. Não havia fome e nem dor. Não existiam espelhos naquele mundo e, no entanto, ela não sentia vontade alguma de conhecer o seu reflexo. Não existia imagem, não existia espectro. Era a praia vazia e o doce na areia, era o sal na ponta da língua e o sol na ponta dos cabelos, nos seios e no ventre. Ela se sentia aquecida e segura, porque aquele lugar era seu, e desde o começo sempre foi. Mas foi uma tempestade vermelha que tomou tudo dela, e não mais havia os sabores e a felicidade plena da solidão onírica, pois as ondas a puxaram para o fundo do mar, e os trovões tomaram a sua pérola. Ela sentiu a água nos pulmões e a ausência do seu coração, e acordou triste, num luto súbito, como alguém que acabou de perder o seu grande amor.
A sensação era parecida.







~












Andrew Oliveira

Um comentário:

  1. "E no entanto, não havia mais nada naquele apartamento. A não ser os sapatos de Louis presos no chão" aiai, esses junkies

    Maravilhosa a analogia do último parágrafo...

    me preparando para o pior

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