Solitude, darkness and love


"I don't wanna admit, but we're not gonna fit"

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Elope, 01 A Moldura


Belial
- O que você está fazendo?
- Você não está vendo?
- Vendo o quê?
- Aquelas duas meninas, elas não param de olhar pra cá. Estou com medo.
- Pare de imaginar tanto, Belial, assim você me assusta.
- Eu não estou imaginando!
- Então venha, vamos olhar mais de perto, talvez assim elas vão embora.
Louis ofereceu a mão para Belial, que se contentava em ficar sentado na grama atropelando carros e imaginando explosões, em vez de enfrentar as duas garotas arrumadas com vestidos pretos e sempre de mãos dadas, olhando fixa e unicamente para ele. Mas Louis estava lá, e com Louis o mundo parecia menos aterrador.
Louis segurou sua mão com força e as duas crianças foram caminhando cautelosamente para o lugar das meninas, debaixo da sombra de uma frondosa árvore que erguia um pouco de serenidade e ar fresco naquele clima abafado. Louis parou para amarrar os cadarços do seu tênis e então voltou-se para Belial, sempre sorrindo, limpando a mão suada para segurar a trêmula do amigo novamente.
Ele tinha os cabelos escuros e lisos, com poucas mechas sinuosas, e a pele talvez mais pálida e leitosa do que a de Belial, mas a sua pele era incrustrada de sinais, como estrelas escuras em um céu de amanhã. Era um menininho magricela, porém mais alto que seu amigo. Mas Belial não o amava por ser seu amigo, e sim porque Louis tinha uma confiança cega de que ele pudesse espantar seus fantasmas insistentes, que conseguisse enfrentá-los até fazê-los desaparecer, fluir-se nas sombras de uma árvore ou nas folhas secas acumuladas na grama de um quintal. Porque era assim que funcionava, e nunca algo determinado por ele.
Seus olhos eram seus ditadores, de um mundo intrínseco em negro e vermelho em pêndulos de incerteza e solidão, embora ele nunca decodificasse isso muito bem dentro de si mesmo.
Quando chegaram nas sombras das árvores, as meninas não estavam mais lá. Belial não entendeu, pois piscara poucas vezes, ele queria vê-las desaparecendo, esvaindo-se no ar, todavia isso nunca acontecia. Era sempre inusitado. Ele não via, e depois aparecia, e depois ia embora.
- Viu? É apenas medo.
Belial sorriu, meio aliviado meio nervoso. E percebeu que, mesmo com tudo resolvido, Louis ainda segurava sua mão.
- Louis...
- Ah sim, semana que vem é meu aniversário. Parece que no próximo ano vou pra uma escola nova, e vamos nos mudar... Devem achar que ter quinze anos te faz um pouco mais adulto.
- Você vai embora?
Belial largou sua mão como um gesto de ultimato. Louis olhou espantado, mas não respondeu.
- Você vai embora?
- Eu não sei, Belial. Meus pais querem que eu volte pra França, que eu nunca deveria ter saído de lá... Que eu deveria me afastar de você.
- Por quê? Eles também me acham estranho, não é? Sou estranho demais pra ficar perto de você? Isso pode te fazer mal?
- Belial, pare de fazer essas perguntas. Você sabe que não quero me afastar de você.
Belial apenas o fitava com rancor.
- Não me olhe assim.
- Eu olho do jeito que eu quiser.
- Se é meu amigo, por que continua me tratando desse jeito, quando o que eu menos quero é que isso aconteça?
Ele não entendia.
Belial foi se encostar no cercado de madeira e esconder o rosto pueril nas sombras. Louis apenas o olhava com espanto por toda aquela reação inusitada, Belial costumava ser tranquilo e ter um autocontrole assustador para uma criança de doze anos. Mas era apenas um ensaio, um pequeno teatro que profetizava, por vezes, um futuro verossímil ao passado.
Louis foi consolá-lo mas Belial correu para dentro de sua casa. Subir as escadas aos tropeços, trancar-se em seu quarto. Estava revoltado, e talvez Louis não fosse capaz de consertar isso, pois sabia que Belial não abriria a porta.
Resolveu fazer o que habitualmente fazia pela noite, quando sentia que Belial não estava bem e precisava de uma companhia. Ele sempre sabia das noites em que Belial ía para debaixo da cama, se escondia no guarda-roupa ou se deitasse na banheira. Era uma mania que ele adquirira com seus ataques, deitar-se na banheira, sentir o vidro branco e frio na pele e tapar os ouvidos para todos aqueles ruídos. E ele só destrancava a porta do banheiro para Louis, nunca a porta do quarto. Eram muitas as fechaduras que cobriam Belial.
Louis subiu na árvore e caminhou pelo galho mais grosso que ficava próximo à janela triangular do quarto do amigo. Por sorte ou talvez também por hábito, ela estava aberta, era por ela que Belial espantava as sombras, e era por ela que seu salvador chegava. Ele a abriu mais um pouco e entrou. Aquela maldita árvore sempre projetava sombras horrendas no quarto de Belial durante os pôres-de-sol, talvez ela fosse a causa de Belial ver tantas coisas estranhas, não?
- Belial. Estou aqui.
Nenhuma resposta, o quarto estava como sempre: sem personalidade alguma. Nada de pôsteres esportivos, ou algum brinquedo notável de uma cor vibrante, tampouco lençois enfeitados com super-heróis, desenhos animados ou qualquer outra coisa que projetasse vivacidade e alegria. Certa vez sua mãe comprara uma coleção de fronhas e lençois temáticos do Tom e Jerry, mas Belial queimara todos, pois Tom costumava ficar calado e Jerry costumava latir. Ele fez isso repeditamente até sua mãe levá-lo para as compras, e ele escolher lençois, travesseiros, fronhas e roupas brancas ou escuras. E quando sua mãe comprara pôsteres de jogadores de vôlei e futebol, ele os rasgou pedacinho por pedacinho com dedicação, não por ódio, tampouco por diversão, mas por precaução, ele não queria aqueles estranhos na sua parede, sorrindo ou pegando bolas no ar com capturas fotográficas que detalhavam até o suor e as dobras dos uniformes. Aquilo era grotesco.
Até mesmo hoje, o dia inusitado de uma futura despedida, Belial estava com uma camisa branca, uma bermuda preta e um suspensório, como um menininho saído de um filme da década de 50. Nada que transparecesse as cores que se instalavam nas suas cavernas internas. A não ser seus quadros, seus quadros que apenas Louis sabia onde ele os escondia. Quando Belial chegava com as mãos molhadas de tinta, as roupas manchadas e os olhos fundos, Louis já sabia que ele havia passado no jardim que ninguém conhecia, o seu Éden e o Éden dele também.
- Belial? Vamos garoto, não tenha medo.
Sem resposta.
- Vou roubar seus quadros.
Uma respiração se acelerou e não pôde disfarçar o seu nervosismo.
- Pode pegar, eu não me importo com eles. Minhas tintas me assustam.
- Não mais do que as meninas.
Silêncio.
- Vou pegar seus quadros e levá-los pra França. Vou abrir uma galeria e pegar todo o lucro pra mim.
- Pegue um.
- O quê?
- Pegue um. Leve pra você. Ou se você quiser, posso lhe fazer um quadro de presente...
A porta do guarda-roupa foi aberta, Louis já tinha conhecimento disso, e estava apenas sentado na cama de Belial esperando que suas chantagens funcionassem. Belial ligou a luz e fechou metade da janela, para só então se sentir suficientemente forte de olhar para Louis sem que chorasse.
- Pegue um quadro. - ele repetiu. - Pegue um, ou posso fazer mais, quantos quadros você quiser. Se você gosta dos meus fantasmas, fique com eles. Mas não quero te ver indo embora, não quero que você se torne um fantasma.
- Vem cá. - Louis bateu na sua coxa.
Belial sentou no seu colo, agora parecia ainda menor que Louis do que já era, e encostou a cabeça no seu ombro, a respiração apressada e prestes a mostrar seus primeiros sinais de desespero enquanto Louis usava sua forma mais simples e eficiente de fazê-lo se acalmar.
Transformar o seu calor num porto seguro.
- Você não quer ir embora. - Belial lhe sussurrou no pescoço.
- É claro que não. Mas por que você ainda repete isso?
- Está na forma que você me abraça.
Louis se afastou, deitou na cama e deixou um braço aberto para aconchegar Belial, que depositou o peso da sua cabeça com cuidado sobre ele, mas Louis foi mais íntimo e o puxou para beijar-lhe a testa e acariciar os cabelos louros da sua nuca até que ele adormecesse. Pois quando acordasse, seria o vazio sem Louis.
E Belial acordou. Estava deitado na banheira, com uma enxaqueca insuportável. Quando conseguiu se erguer, os pés ainda fracos e os músculos dormentes, se encheu de remédios e depois correu para o estúdio. O apartamento estava escuro, mas ele só tinha tempo de ligar algumas luzes, trabalharia com pouca iluminação, a noite sem nuvens também estava favorável.
Mas ele não conseguiu.
Os sonhos não deixaram, as sombras também não. Algo estava errado com ele, e a culpa era daquela pintura, daquele menino francês de nariz grande e cabelos nos olhos, os lábios pequenos como rabiscos rosados e pouco detalhados numa folha de papel, e o rosto um pouco largo, pintado à dedo com o verde, o vermelho e o preto numa manhã imatura. Não que todas as suas manhãs fossem imaturas, mas era apenas o vazio sem Louis.

~
Briana
Olhou-se no espelho.
O espelho a torturava, a enganava, e era dona do seu corpo. Ela se sentia péssima, embora sentisse que já estava magra o suficiente para entrar na roupa de uma menina, o espelho dizia exatamente o contrário. Estava na hora de colocar tudo pra fora.
E ela bem que tentou, mas não tinha mais nada, era só água e obsessão.
Caminhou pelo corredor, calma e inquietamente, mordiscando a ponta da língua, ajeitando a franja ruiva para trás que sempre lhe caía no rosto, descascando o esmalte vermelho das unhas. Sentou-se no sofá e ligou e desligou a televisão várias vezes até ter certeza de que não era uma tela midiática que desejava. Desejava olhar-se no espelho de novo, e havia passado tão pouco tempo, só alguns minutos, não havia?
Ainda estava lá, os cílios escuros, as sobrancelhas acobreadas, mas não mais do que os cabelos lisos, cheios e tão chamuscantes que era estranho Briana sentir tanto frio. Seu nariz era pequeno, e sua boca, quase um coração rosado, naquele rosto oval e simétrico, os olhos azuis que sempre pareciam espantados, as bochechas quase sempre enrubescidas naturalmente na pele lisa, intocada, de uma criança que não mais existia alí.
- Briana?
- Oi Nolan.
- Você tá legal?
Ela bocejou, olhando entediada para a camada de esmalte destruída.
- Estou ótima.
- Mamãe e... - Briana lhe lançou um olhar furioso. - E Christopher foram ao parque, nos deixaram aqui com algumas notas, parece que hoje vão dormir na casa da vovó.
- Que divertido.
- Briana...
- Não quero que você insista nesse assunto, Nolan. Pare de chamá-lo de "papai". Isso é tão irritante, e me dá vontade de vomitar.
- Não vejo mal nisso.
- Ele não é nosso pai, Nolan. Só está morando aqui. Ou sei lá que função ele tem nessa casa...
- Eu só acabei me habituando... A gente precisa de uma figura paterna, não é?
- Não, a gente não precisa. Estávamos indo muito bem sem ele aqui.
- E do que adianta você continuar o odiando se a mamãe já casou e ama esse cara até o fundo das entranhas dela?
- Ah, eu só... Ele me dá nojo.
- Ele te fez alguma coisa?
- Não, não. Claro que não. Eu não gosto dele e ponto. Preciso te dar uma análise detalhada disso?
Nolan riu. Briana adorava quando o irmão mais velho ria. Surgiam covinhas nas bochechas levemente sardentas, e os seus cabelos louro-avermelhados sempre ficavam mais belos do que comumente já eram quando ele apresentava bom humor. Ele ficava... Mais vivo? Sim, Nolan era mais vivo que Briana. Ele tinha carne, músculos, um belo corpo com ombros largos por consequência dos anos de natação e as pernas esguias e grossas pelo seu atual desempenho no balé. Ele era humano. Briana era um espectro, uma espécie de sombra que desejava se sentir viva. Seca, seu coração era sua boca, e seus olhos azuis eram seus únicos músculos, e no entanto tinha o corpo mais bem desenhado do que o de uma modelo, embora ela não percebesse isso, estava sempre impaciente, frustrada e cega com a própria beleza. Uma verdadeira egoísta inconsciente.
E o sorriso de Nolan continuava lá, com suas íris carameladas e os lábios presentes, não carnudos, mas suficientemente cheios para tornar seu bom humor ainda melhor de se ver.
Briana o fitou com um tédio mortal, e torceu a boca pro lado.
- Quero foder. - Nolan jogou-se no sofá, Briana por pouco não teve as pernas finas destroçadas com o seu traseiro.
- O quê? - ela fez uma careta de indignação.
Nolan soltou uma gargalhada gostosa, o que fez Briana não se segurar e rir também.
- Seu idiota. Achei que ainda fosse virgem.
- Mas eu sou. Só tô cansado de ficar batendo punheta.
- Ahhh... - Briana afundou a cara numa almofada.
- Para de ser tão fresca.
- Eu não sou fresca. Mas num minuto eu estou falando da nossa família e na outra você solta esse tipo de coisa.
- Normal.
- Não entendo, você é todo bonitão, tem dezenove anos e ainda é virgem?
- Foi uma escolha. - ele deu de ombros. - Não encontrei ninguém especial.
- Você tá numa das melhores faculdades de Artes da região, deve ter bastante gente interessante por lá.
- Eu não sei. - Pela primeira vez ele ficou sério. - Eu nunca presto atenção em nada, falo com duas pessoas na minha turma por pura conveniência. Mas minha única amiga é você, maninha.
- Isso é meio constrangedor.
- Eu não acho.
- Sua melhor amiga é uma adolescente de dezessete anos?
- Há algum mal nisso?
- Eu não sei... Existem regras pra esses convívios sociais, não? Geralmente alguém como você, bonito e talentoso em tudo que faz é popular, cheio de contatos, vive saindo. Mas prefere ficar tomando sorvete numa sexta à noite com a irmã assistindo clássicos de terror.
- Sabes que não me importo com regras. Ficar ao lado da minha irmã me acalma. Somos íntimos, e você é a única que faz eu me sentir à vontade pra falar sobre qualquer coisa.
Briana sorriu.
- Sinto a mesma coisa.
- Oras, geralmente alguém como você, bonita e talentosa em tudo que faz é popular, cheia de contatos, vive saindo.
Briana lhe jogou um travesseiro na cara.
- Voltando ao assunto do parque, vamos nesse novo que está na cidade amanhã?
- Amanhã ainda é quinta-feira, Nolan...
- E daí?
- Temos aulas e...
- Briana, isso nunca foi uma boa desculpa sua.
Briana bufou.
- É que eu já marquei amanhã com a minha amiga.
- A Miriam?
- Qual é a única pessoa que eu tenho além de você, Nolan?

~
Louis
Entrou no quarto sem falar mais nada, jogou aquelas seringas porcas no lixo e o carregou até o banheiro, fulminando-o com um jato de ducha fria. Ele não tirou suas roupas, ele as arrancou, rasgou como se fossem papel nos punhos bordados com veias fortes e dedos ágeis. Ele tentou abraçá-lo, beijá-lo, mas Louis fazia sua fúria ficar ainda mais insuportável com a forma com que o afastava dos seus braços, ombros e rosto. E depois do banho, jogou-lhe uma toalha e depositou algumas roupas em cima da pia seca.
- Louis...
Louis saiu do banheiro, abriu as cortinas do quarto abafado e se recostou na varanda. Ele precisava de um vício, de alguma coisa tóxica e que o matasse de forma lenta e deliberada. Ele não precisava de Lunn.
Dois braços magros e pardos o envolveram pelo pescoço. Ele sentiu o cabelo molhado na nuca e os beijos no pescoço. E poderia facilmente se entregar se não estivesse com tanta fúria a escorrer-lhe dos olhos, esfumaçar pela boca, instalar-se nos ouvidos e nos pulmões, como um parasita crescendo no seu corpo e depositando seus tentáculos pegajosos em cada parede carnal.
Louis o afastou pela décima segunda vez. Lunn o olhou intrigado. Louis apenas balançou a cabeça. Não.
- Vou embora.
Louis saiu da varanda em direção à porta do quarto.
- Louis, espere.
- Esperar o quê? - ele se virou agora gritando, manter o tom de voz baixo estava difícil.
- Eu não... Não foi culpa minha.
- Então foi culpa de quem, Lunn. Não estou vendo mais ninguém aqui. É só você. Tudo é você. Está tentando encontrar motivos aonde? Debaixo da sua cama? Ou tem mais heroína independente lá?
- Louis, não me trate dessa forma. Eu estou tentando parar.
- Boa sorte, Lunn.
- Louis!
O homem de cabelos negros, lisos e que caíam em suaves ondas sobre as orelhas e a testa, ocultando a nuca e as sobrancelhas grossas, os olhos escuros e profundos, a boca melancólica e a aparência constante de pessoa abandonada abriu a porta do quarto e Lunn tentou impedí-lo, puxando-o para um abraço urgente e humilhante. Louis lhe respondeu com um soco no nariz, arrebentando o corpo magro no chão, deixando-o como um inseto pisoteado naquela imundície de quarto, naquela imundície de vida. Lunn lhe puxou as pernas, ergueu-se no beliche da cama, puxou seu casaco, tentou tocar nos seus lábios, e recebeu outro soco, agora na maxilar, como retribuição.
- Pare de se humilhar.
- Então por que você não para de me machucar?
- Machucar? - Louis se voltou para ele com uma fúria ainda maior, empurrando-o pelos ombros contra a parede. - Você acha mesmo que tem o direito de dizer isso? Logo você?
- Louis...
- Cala a boca seu filho da puta! Eu tento te amar de todas as formas possíveis, eu tento construir alguma coisa. Mas você destrói tudo. Você pouco se importa. Vá se foder. Pare de me tratar como se eu fosse o causador do seu abismo!
- Eu te amo Louis.
Louis lhe deu mais um soco, dessa vez no estômago.
- Então engole esse teu amor e te mata por dentro.
Lunn correu para o banheiro para vomitar e foi a oportunidade de Louis de ir embora daquele pequeno inferno compactado num único quarto. Caminhou a passos nervosos pelos corredores daquele prédio, apertou várias vezes o botão do elevador, até enfim chegar ao ar livre. Longe do cheiro de Lunn, da voz de Lunn, da presença opressora de Lunn. Aquilo era obsceno, doentio, obscuro, algo como uma estrada sem volta. Porque um abraço espinhoso e distante não pertencia ao mundo de Louis, não dominava as suas doutrinas em acreditar que destilar suas sensações, esconder seus sentimentos, varrer para debaixo do tapete suas expectativas, valeria algum esforço em permear um amor que pouco ou nada duraria. Era mais um vício, uma obsessão disfarçada de carne, purificada em alma, transposta em delírios, toques e beijos agressivos. Não era dessa forma que ele conhecia as coisas.
Louis resolveu chegar no seu apartamento caminhando, quanto mais o ar frio nos seus pulmões, melhor. Era-lhe masoquista e prazeroso, embora ele também gostasse do calor do sol, era mais adaptável ao frio. O tempo estava feio, e no final da tarde provavelmente choveria. Tirou os sapatos, jogou o casaco com o cheiro de Lunn em qualquer canto, libertou-se da camisa e ficou como gostava de ficar: apenas com sua calça jeans preta, andando pelo apartamento descalço e tomando um café quase anêmico com tanto leite e o sabor do frio sobre os braços, o peitoral branco, os mamilos róseos, os ombros tensos e a barriga magra e dura. Esse era o significado do seu conforto.
Passou algum tempo olhando para a estante e então abaixou um dos retratos que estavam lá, um com bordas escuras, com o vidro mais polido, a fotografia mais maltratada. Ele só não sabia onde guardá-lo. E aquele retrato doía como a pele numa labareda rancorosa de fogo e ar.





~










Andrew Oliveira

3 comentários:

  1. Prazer Belial, Louis, Briana e Nolan..

    eu e minha paixão por coadjuvantes.. já me interessei por Briana e seu gene de Adonis..

    aguardando o próximo post.

    longa vida a Elope!

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  2. huahauhau', sua linda. Boatos de que o segundo capítulo sairá quarta feira ;)

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  3. Personagens bem trágicos. Gostei do Belial, tem nome de diabo e foi o que mais me interessou.

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