Solitude, darkness and love


"I don't wanna admit, but we're not gonna fit"

domingo, 8 de abril de 2012

Falling Free



Eu estava sozinho de novo.
Há algo de estranho e confuso nos meus gestos, algo indigesto, como se eu quisesse de alguma forma evitar explicar pelos meus trejeitos. É difícil entender, até hoje não entendo, ele tampouco, acho que não dá pra entender esses pequenos alardes que aparecem vez ou outra, pra variar. Eu vejo a textura da cidade por um sentido peculiar, ela é cheia de praças e é fria. Aqui não tem neve, aqui tem chuva e um vento forte e inconstante. Sei que não posso me mostrar, sei que não posso colidir sempre que quiser, sei que não dá pra cair ao bem-querer. Ouça as ambulâncias, os gritos, o desespero humano em ter atenção. Mas o que não sei, é se esse tipo de vida realmente fosse pra mim. Sou tão pequeno, sou um chaveiro, a chave está do meu lado, eu não a seguro, ela não me pertence. Não sou eu quem abre portas. E mesmo assim ele me escolheu.
Ele fazia eu me sentir, de todas as formas possíveis, livre.
Ele me gostava, eu o queria.
Eu estava numa dessas várias praças, rebuscadas de árvores, bancos, chafarizes, um mendigo mais adiante e uma senhora rechonchuda e melancólica olhando os pássaros. Eu não olhava pra nada exatamente, talvez nunca tenha olhado, ou sequer tentado olhar. Sou cego, não num sentido literal, é claro, mas sou o pior tipo de cego que existe, aquele que não enxerga não por falta de opção, mas porque simplesmente não quer. Esse tipo de decisão não deveria ser tomada de forma tão brusca, simples e superficial. Que horrível.
Eu deveria estar enlouquecendo.
O final da tarde se aproximava, eu desejei minha cama e um outro desejo apareceu.
Creio que eu já me permitira a partida.
~

Acordei com a respiração profunda e rouca de Merlyn. Eu havia adormecido com a cabeça no seu peitoral liso, flexível e musculoso, eu gostava daquele sensação extrema de proximidade, daquela urgência em acordar e não se ver só. Me veio também um sentimento de dependência, um pequeno incômodo que eu logo cuidei de esquecer. Aproximei-me mais daquele estranho adormecido, coloquei a perna esquerda em cima das suas coxas, e comecei a enrolar uma mecha do seu cabelo liso e escuro com meu dedo indicador enquanto meu joelho se aconchegava com o calor do seu sexo despido por debaixo do lençol, sensível. Não demorou para Merlyn acordar com meu abraço mais apertado, bocejar e me dar um beijo na testa e outro demorado na boca com seu lábio ressecado.
Eu ouvia o barulho dos carros no mundo exterior, das ambulâncias e aviões, das crianças esbravejando sua soberania infante em parques anarquistas e tudo isso me parecia tão distante, tão impossível do mundo em que eu estava residindo agora. Era quase como se eu estivesse desperto nos meus próprios sonhos, imerso numa quantidade desoladora de desejos insistentes em se fazer físicos, fortes, indestrutíveis.
Suspirei.
- Algum problema? - Ele perguntou, fungando meu cabelo.
- Espero que não. - Respondi.
Merlyn desapareceu entre os lençóis, e logo em seguida fui rendido pelos seus beijos dedicados na minha virilha, seu nariz afundando meus pelos pubianos com o ar quente e apimentado que saía da sua boca enquanto sua língua fazia uma trilha retilínea no meu sexo. Senti leves cócegas quando ele subiu beijando meu umbigo, mordiscando impiedosamente meus mamilos, sequestrando meus dentes, minhas pupilas.
Eu o empurrei e me sentei na cama, não tão devagar, nem tão rápido a que ele se sentisse ofendido.
Dessa vez quem ouviu um suspiro fui eu.
- Me desculpe. - Justifiquei.
- Não se desculpe. Você está com alguma coisa e não quer me contar. - Sua voz estava menos cavalheiresca.
- Eu preciso ter mesmo essa obrigação?
Merlyn se levantou da cama e pegou uma toalha na gaveta do criado-mudo. Tirou sua cueca e foi em direção ao banheiro.
- Pensei que pudesse ajudar.
Com o começo bruto e imprevisível da nossa manhã, vesti minhas roupas e saí do seu apartamento, creio que ele não tenha se importado quando eu bati a porta. Esperei impaciente o elevador chegar ao térreo, e só quando chegou foi que eu sabia que tinha feito uma baboseira. Mas ele também não tinha uma parcela de culpa naquilo?
Não.
Quem era ele para interferir em qualquer coisa que pertencesse a mim? Quem tinha esse direito a não ser eu mesmo? Minhas pequenas guerras internas nada tinham haver com Merlyn, mas acho que eu devia ter um talento especial para culpar os outros por qualquer motivo que fosse.
A noite estava chegando como que por uma consequência, uma garoa alimentava o asfalto e o monóxido. Resolvi sentar numa praça alí próxima, de fato sem saber o que iria fazer. Acho que sempre tive esse pequeno problema de agir e depois não ter muita certeza do que fosse fazer depois, como se só o ato em si fosse importante, e não sua consequência. Ninguém iria querer saber de um cara que foi beber pela madrugada e teve seu carro roubado, tudo por culpa de sua mágoa desleixada, isso é desinteressante e irrelevante. A história termina quando ele sai da casa de sua ex-namorada e não sabe se ela se sentiu aliviada ou horrível com isso. Aliás, havia se passado uma semana desde o dia em que conheci Merlyn, e estou no apartamento dele até então, sendo sua concha, seu abrigo, ao mesmo tempo em que ele se faz de mar. Eu nunca tive certeza sobre o sentimento que pode brotar de mim por determinada pessoa, com Merlyn não foi diferente, e ainda não sei se o amo como achei que amasse. Isso pode parecer prepotente, afinal foram apenas sete dias de reflexão e carne. Mas Merlyn é súbito, escancarado, ininterrupto, uma violência, um acidente de carro que quebra minhas costelas, torce meu tornozelo no freio, espatifa meu rosto no vidro supostamente indestrutível. Eu achei que o amava porque ele me pegou desprevenido e frágil, eu estava rechaçado com o sentimento que ainda lutava para vomitar pelo meu último amor, e o que eu faria agora?
Com Merlyn eu ainda não havia tido tempo para pensar melhor, e mesmo que eu fosse uma bagunça interna, ainda precisava me organizar um pouco de vez em quando, pra variar.
Resolvi ligar para o número que ainda não havia tido a coragem de apagar.
- Malcolm?
- Sim, sou eu.
- Malcolm eu...
- Por favor, Danielle, não liguei pra brigar com você ou coisa parecida. Não quero que fique nervosa por nada. Quero apenas conversar...
- Oh Malcolm, é o que eu mais gostaria. Você não sabe o quanto me partiu o coração quando...
- Danielle, vamos esquecer isso. Sei que ainda dói, e comigo não é diferente, mas quero conversar com você com calma sobre outra coisa, e se talvez quando olhar pra você eu me sentir melhor pra conversar sobre o que você quer, talvez falemos sobre isso.
Danielle ficou alguns segundos sem falar nada, como uma criança oprimida por ter pego os doces antes da hora e sem permissão.
- Está tudo bem pra você? - Perguntei.
- Sim, claro. Você está desocupado agora?
- Estou.
- Bem, eu vou tomar café naquela confeitaria em que sempre íamos aos sábados, se encontre comigo lá daqui a pouco.
- Te vejo lá.
Caminhei até a estação mais próxima e entrei num metrô para chegar mais rápido. Sentei de frente para um rapaz sério, de aparência abatida. Olhei discretamente e ele estava me encarando sem escrúpulo algum, poderia dizer que com certa fúria. Ele parecia extremamente cansado, o que não tinha tonalidade alguma com seus olhos que eram o mais puro mel congelado e depois exposto ao sol, seu rosto era levemente redondo e seu maxilar, robusto. Os cabelos negros, lustrosos, cacheados nas pontas. Completamente esquecido da vergonha e da ética, sorri para ele, mas ele não retribuiu o gesto, apenas colocou os dedos indicador e polegar nos olhos e apertou as pálpebras, aparentemente com muito sono e sem enxergar direito. Ele teria esquecido os óculos em casa?
Ele me lembrava um rosto que eu já havia visto num cartaz... Uma peça de teatro? Eu não tinha tanta certeza disso, mas poderia arriscar que sim. O metrô foi freando e ele saiu. Saí uma estação depois.
A confeitaria que Danielle e eu costumávamos namorar e tomar café continuava inexorável desde que eu me recordava dela na infância. Nem a tintura mudou. Era um lugar estranho, parado no tempo, mas extremamente acolhedor, calmo e com bolos deliciosos à mostra nas pequenas vitrines. Sua cor branco-amarelada e seus telhados ornamentados com gessos em detalhes mínimos dava-nos a impressão de que era mais uma casa de bonecas da década de 50 do que uma padaria.
Senti aquele ar familiar que durante toda a minha vida foi presente (não que a minha vida seja longa, até então). Um ar cítrico, de bolo de limão, ou laranja, e uma cobertura discreta, meio amarga meio doce, pra não deixa a degustação enjoativa. Pedi um café uma fatia de bolo de morangos, e sentei perto da janela, de frente para a rua pouco movimentada. Aquele bairro era bem calmo, aliás. Danielle entrou na confeitaria logo em seguida.
Fitou-me discreta e educada, como que com certo medo de agir com alguma intimidade que perdemos em tão pouco tempo. Pediu um cappuccino e uma fatia de torta holandesa, se sentando de frente para mim, como um verdadeiro juiz observando o réu.
- Como você está? - Ela começou.
- Não sei como eu estou, e você?
- Um pouco indisposta, ultimamente.
- É estranho, porque disposição nunca lhe faltou.
Danielle abaixou a cabeça, pegou o garfo meio trêmula, como se aquele gesto fosse um verdadeiro desafio a ser articulado, e um pedaço da fatia branca e negra foi arrancado e subitamente engolido pelo cappuccino que o perseguia na garganta.
Meu bolo de morangos ainda estava na metade. Ela esperou que eu tomasse a iniciativa dessa vez.
- Bem... Também estou me sentindo indisposto nesses últimos dias... Ainda me sinto destruído pelo que você me fez.
Vi que ela estava começando a segurar seus dutos lacrimais.
- Danielle, não pense que liguei pra você pra vir julgá-la agora... É só que... As coisas simplesmente não deram certo. Mas não é isso que eu quero conversar.
- Se não seria apenas isso, então o que é?
- Eu estou confuso.
Ela enfim tirou os olhos da maldita torta pra prestar mais atenção em mim.
- Não sei como começar isso, mas... Bem, eu estou tendo uma relação, uma relação estranha, com um cara chamado Merlyn.
- Um cara?
Fuzilei-a com os olhos, aquilo me envergonhava e ela ainda estava fazendo questão de ressaltar.
- Sim. - me contive. - Ele é extremamente atencioso, e uma boa pessoa. Mas eu não sei o que está acontecendo comigo, estou me sentindo confuso porque nunca senti esse tipo de atração por outro homem antes... Até então isso me era distante, quase impossível.
- E então?
- E então o quê?
- Vai fugir de novo, por que está com medo? Está confuso? Quantas vezes mais você vai continuar assim, Malcolm?
- Assim como, Danielle?
- Acomodado na sua covardia.
Olhei-a com fúria novamente, mas dessa vez vencido pela razão que ela tinha.
- Malcolm, você não vai poder ficar o resto da sua vida como uma criança medrosa, dependendo do apoio dos outros. Uma hora você vai se sentir só e desesperado, e quando não tiver ninguém ao seu lado, você vai começar a achar que você mesmo não é o bastante, ou não é tão forte quanto imaginava, e sabe o que isso significa? Ser uma pessoa vazia, sem o amor próprio suficiente pra fazer dele um escudo, uma corda quando você estiver num abismo e ninguém se der ao trabalho de lhe oferecer a mão. Pare com isso, pare com essa auto-indulgência, se você está gostando desse Merlyn, por que, em vez de se entregar a esse sentimento, ter medo mais uma vez? Não se sinta confuso com o que os seus instintos lhe oferecem, seu trabalho é apenas segui-los e deixá-los crescerem no seu coração, se isso é o certo ou o errado, ninguém tem o direito de doutrinar isso a não ser você mesmo.
Dessa vez fui eu quem não conseguiu enxergar nada a não ser a torta.
- Me desculpe. - ela disse.
- Não, tudo bem. Você tem razão.
Ela pôs a mão direita sobre a minha esquerda em cima da mesinha.
- Você era a única que tinha capacidade de falar isso em alto e bom som pra eu ter certeza. Por isso que lhe chamei.
- Oh, Malcolm...
- Eu sei...
Levantei-me e ela também, por puro costume ou quem sabe tristeza, nos abraçamos, e ela deu um beijo carinhoso na minha testa.
A tarde estava ficando mais fria, e o sol menos presente. Passeei de mãos dadas com Danielle por um parque abandonado, um parque em que era o significado da felicidade quando eramos pequenos. Porque antes de Danielle ser minha namorada, ela era minha melhor amiga, irmã, e uma mãe quando a minha não estava muito presente. Gostei de tê-la como suporte para eu pensar melhor, mas como ela me aconselhara, eu deveria parar de ser tão acomodado às costas dos outros. Talvez ela deixasse porque simplesmente me amava demais para não deixar. O céu já estava um azul mais marinho, embora no horizonte um amarelo borrado e um laranja insistente ainda permanecessem cobrindo as nuvens com seus longos dedos magros, tortos, frágeis.
- Eu preciso ir.
- Eu também.
Danielle me deu outro abraço e beijos na testa e nas bochechas, afetuosa, materna, embora eu me esforçasse pra voltar a sentir tanto a devoção que tinha por ela. Abandonar Merlyn, amar Danielle, de novo, por que não?
- Danielle... - me virei quando ela já estava quase atravessando a rua para descer as escadas subterrâneas que levavam ao metrô. Ela se virou e por um momento me senti puxado pela graciosidade do seu pescoço, seus cabelos lisos e louros esvoaçando na brisa gelada do outono vindouro. - Por quê?
Danielle engoliu em seco, piscou duas vezes como que para ter certeza de que eu havia mesmo perguntando aquilo, e enfim me encarou.
- Minha mãe está com câncer de mama, num estado grave. Meu padrasto terminou com ela e não temos plano de saúde. Então só havia uma forma de eu conseguir pagar as quimioterapias, os remédios e o cuidado médico que ela merece...
Sentei-me num banco alí próximo, comecei a me sentir tonto, desnorteado, como se tivessem dado uma pancada nos meus ouvidos. Algo zumbia lá dentro. Danielle se aproximou e se sentou do meu lado, tirou da bolsa um papel e colocou nas minhas mãos frouxas.
- Não quero que você pense mais nisso, não quero que você se condene pelo que fez. Eu também tenho culpa, embora não a entenda tanto quanto você. Pegue este ingresso, é uma peça de teatro que eu iria assistir assim que me despedisse de você, mas me lembrei que tenho um compromisso muito maior. Então - e ela me deu mais um beijo na cabeça -... Em vez de pensar em coisas tão ruins, vá assistir essa peça, alimente um pouco sua alma, ela está precisando. E depois, quem sabe, você entenda o que está sentindo por esse Merlyn.
Meu rosto estava úmido.
- Danielle!
Mas eu não vi mais o rosto de Danielle, apesar de ter a certeza de que ela também estava chorando.

Enxuguei meus olhos e procurei o endereço do teatro no ingresso. Eu estava bem perto, aliás. Apertei o choro na minha caixa torácica, nas minhas colunas e nos meus ombros e entrei no metrô novamente. Não se passaram cinco minutos até eu chegar na estação que deveria descer e entrar na avenidade que levaria ao Teatro do Olimpo. Entrei no hall, subi as escadas, entreguei o ingresso e durante mais três minutos procurando um assento, a peça já havia começado.
Não havia tantos espectadores assistindo, o que foi bom pois pude sentar bem perto do palco. A peça era drama, algo como um drama fantasma mesclado a cenas mais psicológicas, sem sentido, deturpadas, tão intimistas que talvez até mesmo os próprios atores estivessem confusos com a história que estavam de fato contando. Mas um ator em particular me chamou a atenção, ele era parecidíssimo com o homem abatido e cansado que vi no metrô a caminho da confeitaria. Ou seria mesmo ele? Que coincidência forte seria essa...
Tive a impressão de que ele me notou no assento onde eu estava.
A peça durou mais ou menos uma hora e meia, antes mesmo dela acabar algumas pessoas já estavam indo embora, mas eu fiquei até o final, pois achava aquilo um desrespeito enorme com os artistas. Afinal, entendi a história que se passava nos últimos atos das personagens, metódicas, diretas, violentas, amargas, cruéis e ressentidas, e no entanto frágeis, pequenas, desesperadas por alguma atenção que aqueles a quem elas mais amavam nunca lhe deram.
Enfim as cortinas se fecharam e eu me levantei para sair. Que péssimo, agora estava chovendo escancaradamente e eu não trouxera capa nem guarda-chuva. Era desagradável a lembrança da semana anterior, do frio nas minhas meias molhadas, sapatos apertados, calças pesadas, rosto gelado, mãos sem sensibilidade. Senhor, que palhaçada mais horrível com a minha cara!
- Ei!
Olhei para trás, era o homem que eu havia visto no metrô, e um pouco depois atuando com ardor e melancolia no palco.
- Tudo bem? - Sorri com certa timidez.
- Eu... Acho que vi você no metrô.
Enrusbeci.
- O que era aquilo?
Não entendi sua pergunta.
- O quê?
- A sua tristeza?
- Bem... Foi algo que eu estava indo resolver.
- Não sabia que tristeza se resolvia.
Ele sorriu, e eu apenas dei de ombros. Parecia mais belo na noite.
- Quer caminhar um pouco? - Perguntou.
- Na chuva? Bem, tenho uma experiência desagradável com a chuva, e não quero tê-la de novo. Prefiro esperar ela passar.
- Então você vai passar a noite inteira aqui na frente do teatro, essas chuvas são longas e ninguém sabe quantos dias podem durar.
- Isso é um desafio?
- Você vê da forma que lhe convém.
O homem tirou seu casaco de couro preto e me ofereceu.
- Tome, coloque na sua cabeça, se quiser, não quero perder a única pessoa que falou comigo hoje.
- E os outros atores, não são seus amigos?
- Creio que não.
- E você não tem nenhum?
- Talvez.
Sem nada a fazer, aceitei o casaco e o vesti, pelo menos minha camisa não ficaria molhada, e eu não passaria a madrugada toda debaixo da chuva até que meus sapatos encharcassem e minhas calças pesassem uma tonelada. Caminhamos e conversamos por pelo menos uns quinze minutos, seu nome era Pietro e ele, desde pequeno, sempre amou atuar, o que já explicava também seu destaque na voz e na honestidade do seu personagem em comparação com os demais atores. Imaginei que esses outros atores o invejassem e, por isso, não deveriam ser mesmo seu amigo. Pietro sofrera duas perdas horríveis na sua vida, mas antes que ele pudesse me dizer quais foram, sua atitude em me puxar para uma rua mal-iluminada e me beijar ardentemente me assustaram.
Fiquei completamente rendido pela sua atitude abusiva e erótica, eu o bati no peito tentando me afastar, mas a verdade era que eu estava gostando. Não, eu estava adorando. Vê-lo no metrô com aquela expressão mais autêntica da depressão me fez ter vontade de beijá-lo. Vê-lo no palco fazendo aquela mesma expressão, só que com mais esforço e intensidade, me fez ter vontade de beijá-lo. E quando seu cheiro forte e másculo infestou minhas narinas quando vesti seu casaco, senti vontade de beijá-lo.
Mais ainda, eu não queria que ele parasse. Seus lábios eram urgentes, seu rosto se pressionava contra a minha pele e seu nariz duelava com o meu. Sua língua se afundou e abriu caminho entre os meus dentes e pousou sobre as papilas da minha que imploravam por mais, seu hálito era de um doce acanelado e quase tive a sensação de estar afundado num mundo açucarado, ao invés de estar beijando um desconhecido numa rua escura no meio do nada e na chuva.
O caminho foi rápido, e eu já estava num quarto médio, iluminado apenas por um abajur, com uma cama de casal, uma escrivaninha e um guarda-roupa, a janela aberta recebendo o frio do começo daquela noite. Tirei seu casaco e minha camisa enquanto ele puxava minha calça e beijava meu sexo enrigecido por cima da cueca boxer. Pietro me carregou até a cama e me jogou como se eu fosse uma criança leve e pequena, ele tirou suas roupas com tanta rapidez e voracidade que mal se passaram doze segundos, e estava com uma cueca samba-canção, o que deixava o volume do seu órgão ainda mais chamativo.
Pietro pulou em cima de mim, mordeu meu pescoço, segurou minhas mãos para me torturar a não fazer nada a não ser receber sua violência, e eu comecei a gemer mais alto. Ele me soltou, pegou uma das minhas pernas e beijou meus pés, lambendo meus dedos e fazendo uma trilha de chupadas nas minhas coxas até a minha cueca, arredando-a para o lado e engolindo meu pênis que babava como se já estivesse gozando.
Não aguentei mais. Tirei-o do domínio do meu sexo e o beijei acaloradamente, mordendo seu peitoral rígido e com alguns pelos, serpenteando minha língua na sua barriga dura e puxando os fios abaixo do umbigo, esperando que ele se dopasse com aquela dor. Tirei sua cueca e ele levantou as pernas, exibindo suas nádegas lisas e pardas como a sua pele, abri caminho entre elas e beijei seu íntimo, penetrando minha língua, mordiscando, até chegar nos seus testículos cheios e peludos, colocando-os na minha boca com gula e ansiedade. Pietro urrou e empurrou meu rosto contra suas bolas, cada vez mais agressivo e descontrolado, seu peitoral brilhando de suor e seu pescoço ficando grudento, peguei seu pênis pela base e afundei sua glande na minha boca, entre meus dentes, com minha língua trabalhando com afinco.
Pietro me puxou pelas axilas e me afogou num molhado e demorado beijo, me carregou pelas coxas e me penetrou, colidindo minhas costas na parede, mordendo meu queixo, meu pescoço, colando seus cílios aos meus de tal forma que nossos rostos estavam prestes a se tornar um. A dor era insuportável, Pietro era enorme, mas seu calor e seu carinho mesclados à sua crueldade em me ver torturado e gemendo eram mais fortes sobre a minha pele, dentro e depois dela.
Suas estocadas ficaram mais fortes, minhas coxas estavam doendo talvez até mais do que eu mesmo, abracei Pietro mais forte e ele arranhou minhas costas me fazendo urrar. Fui colocado de quatro na cama enquanto ele praticamente pulava em cima de mim, colocando seu órgão duro e grosso entre as minhas nádegas e abrindo-as com as mãos fortes e ásperas até não suportar nem mais um segundo, me virar e ejacular no meu peitoral, barriga e pescoço.
Cansado, deitou-se ao meu lado enquanto eu ainda arfava, trêmulo, me recuperando daquele estupro delicioso. Ele se aproximou da forma mais íntima do mundo e entregou seu hálito às minhas pálpebras, nos meus cabelos, passeando a mão grande na minha costela e me fazendo ficar mais perto dele.
Ficamos provavelmente mais de meia hora assim, tendo como o único ruído os nossos pulmões trabalhando, acomodados no calor um do outro, até que eu, sem querer, fechei os olhos usando seu braço como travesseiro enquanto Pietro me agarrava como um ursinho de pelúcia.


Acordei entre lençois e sem calor algum. Pietro estava sentado numa cadeira próxima à janela, ainda nu, e pensativo. Esfreguei os olhos, bocejei, me senti culpado. Não necessariamente nessa ordem.
- Olá.
Ele não respondeu. Levantei-me da cama e toquei no seu ombro. Ele não fez nada. Abracei-o por trás. Ele continuou imóvel. Desisti e sentei na cama. Ele finalmente olhou pra mim.
- Eu fiz alguma coisa de errada?
- Não. Está tudo bem.
- Não estaria tudo bem se eu não tivesse lhe perguntado isso.
Ele franziu o cenho, mais para si mesmo do que para mim.
- Eu amo meu melhor amigo, desde que o conheci quando era era muito pequeno pra ter noção do que era o amor. Agora eu perdi minha mãe e minha irmã de criação, e só tenho ele. Eu só não entendo... Me sinto tão horrível por tudo isso. Eu quero amar e quero ser livre, mas não sei porquê. E quando ele me beijou, eu o espanquei e depois fui embora.
Sua atitude em ter me beijado e ter me levado para a cama estava explicada.
- Não sei bem o que falar para você, eu não sou muito bom com conselhos. Mas...
Pietro deu de ombros. Então, o que quer que eu falasse não teria relevância? Resolvi ir embora.
- Por favor... - Ele falou.
- Malcolm. - Falei.
- Malcolm... Não vá embora.
Parei, refleti um pouco, então resolvi falar.
- Por ele ser seu melhor amigo, não destrua nada do que você sente por puro medo de amar de outra forma. Não se arrependa como eu me arrependi.
Vesti minha cueca, minha calça e camisa e olhei para trás apenas para sorrir.
- Fique bem, Pietro.
Pietro voltou a fitar através da janela. Corri para o metrô e depois para a casa da minha mãe, naquele bairro nobre em que os moradores mais antigos resolveram preservar a arquitetura de 1920 até os dias atuais, como uma forma de patrimônio e de orgulho. Desejei do fundo do meu coração que ela já houvesse voltado da sua viagem, e meu desejo foi concebido.
- Mike! - Ela gritou ao abrir a porta como se eu fosse uma assombração, e depois pulando no meu pescoço para me abraçar bem forte. Senti uma dor excruciante nas costas e costelas pela noite anterior, mas preferi não demonstrar isso.
- Mãe... Como foi a viagem? - Perguntei com ela já me puxando pra dentro da sua morada.
- Minha viagem foi maravilhosa, se quer saber. E estou aqui desde domingo passado. O que aconteceu com você pra não ter me dado notícias?
- Bem, será que porque a senhora estava... Viajando?
- Que baboseira! - ela fez um gesto com a mão como que me enxotando. - Estou aqui sozinha e você nem pra dar importância pra sua mãe!
Comecei a rir, e ela também. Eu adorava o sorriso da minha mãe, seus cabelos eram de um louro escuro, mas suas sobrancelhas eram negras, ela tinha o rosto redondo como uma bolacha e quando sorria duas covinhas se formavam nas suas bochechas coradas e saudáveis.
Passei a tarde na cozinha com ela, primeiro ajudando com o almoço, depois com o bolo da tarde que ela adorava fazer, com uma cobertura que só ela tinha o feitiço para deixar irresistível. Conversamos bastante sobre papai e eu falei de Danielle, mamãe me aconselhou a não perder a amizade com ela, pois aquilo custara muito para acontecer, e que, se eu não havia conseguido me controlar para amá-la, então não era para acontecer. Cheguei ao assunto Merlyn.
Ela colocou o garfo sobre o píres como se o bolo tivesse ficado amargo, e então me fitou séria e impassível.
- Você está gostando? Desse Merlyn?
- Sim.
Mamãe limpou as mãos no avental, se levantou da cadeira e eu automaticamente me levantei também. Ela me abraçou forte, segura, confiante.
- Estou aqui para amá-lo e guiá-lo aonde você quer chegar. Eu sou católica, Malcolm, e o que me ensinaram foi rigoroso e cruel quanto ao que as pessoas são e o que não podem ser. Mas eu o coloco acima do que eu sou, e quero que você faça a decisão certa, quero que você me orgulhe pelo que você é e pelo que é capaz de fazer. Eu nunca vou desistir de você. Não pense que, por ter me contado isso, eu lhe irei abandonar.
Senti vontade de chorar.
- Obrigado, mãe. - Só pude sorrir e lhe abraçar ainda mais forte.
A campainha tocou.
- Pode deixar que eu atendo.
Ela riu e voltou para a cozinha. Passei pelo corredor e abri a porta. Era Merlyn, com um buquê de rosas vermelhas e uma expressão de cachorrinho abandonado.
- Sabia que você estaria aqui.
- Por que sabia?
- Porque na noite em que o conheci, o primeiro lugar que você me pediu para deixá-lo foi nessa casa.
Corei e abaixei a cabeça, Merlyn me puxou com seus braços longos e fortes me deu um beijo. Não demorou muito até minha mãe e ele se familiarizarem, e tive uma das noites mais agradáveis e divertidas da minha vida. Chegando a meia noite, com mamãe cansada e sonolenta, nos despedimos e mais uma vez acabei no seu apartamento.
Achei curioso ele estar de sunga quando tirou a roupa.
- Bem, fui me divertir um pouco. - ele deu um sorrisinho de escárnio e então pulou na cama.
- Não a tire. Sempre tive tesão por caras como você usando esse tipo de sunga.
Ordenei-o a ficar de pé e ele obedeceu. Levantei uma de suas coxas musculosas e cheias e estiquei a sunga para o lado, beijando suas nádegas brancas em contraste com a pele bronzeada. Jurei que poderia sentir o cheiro do sol na sua pele.
Beijei seu órgão torto por cima do tecido, esfregando meu rosto, inspirando seu cheiro até expor um pedaço da glande e beijá-la com detalhes. Merlyn não se controlou e colocou tudo na minha garganta com toda a sua força, batendo com força como se já estivesse me penetrando. Tirei minha calça, abaixei minha cueca e sentei na cama, enquanto Merlyn sentava em cima de mim com seu par de nádegas malhadas e suas costas enormes. Era apertado e quente, e deslizava umedecido com a saliva. Não demorou muito até que eu jorrasse dentro dele, e ele me abraçasse para fazer o mesmo comigo.
- Eu te amo cada vez mais. - Ele sussurrou, me massageando com suas mãos e levantando minhas pernas.
- Eu tenho certeza disso. - Respondi, enquanto recebia seu dedos magistrais machucando a minha boca, torturando meus mamilos, socando meu sexo, cobrindo o mundo inteiro.








~








Black Cherry
Uma pequena continuação de Mon Petit Vulcán, para os fãs e sonhadores de Merlyn ;]

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