Solitude, darkness and love


"I don't wanna admit, but we're not gonna fit"

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Bruxas, Black Cherry e o ano novo



Olá (pouquíssima) gente que acompanha meu blog, como vão? Eu vou ótimo, cansado, mas ótimo de alguma forma. Andei estressado porque meu notebook me fez o favor de apagar o gigantesco capítulo 10 de Witch Fire a qual me empenhei cinco dias pra tecer, agora estou levando um tempinho pra reescrever depois do choque que tive, mas em breve termino de novo e posto por aqui. Garanto que será o melhor capítulo desta série, ou um dos melhores, dependendo do desenvolvimento da série (a qual vai ser bem grandinha... Em comparação com outras daqui.), mas enfim.
Como foi o ano novo de vocês? Eu não consigo descrever o meu em uma única palavra, porque foi algo tão longe do que costumo viver que... É preciso começar do começo. Vamos lá.

Estava conversando com um amigo de Belo Horizonte sobre passar o ano na Praça da Estação e tudo mais, e ele me indicou a Lagoa da Pampulha, pra ver os fogos e também visitar o local, achei um local melhor, então veio minha busca fálica de ir com alguém, o que não deu muito certo. Chegou dia 31 e tive que conversar com a minha tia (ela ía passar o ano novo na Igreja, e seria MUITA ironia eu também virar o ano lá né) sobre onde eu gostaria de sair de 2011 e dar boas vindas a 2012.
- Tia, a senhora conhece a Lagoa da Pampulha?
- Conheço sim.
- Sabe de alguém que vai?
- Eu não sei não, olha... Por quê? Você quer ir pra lá? É muito longe...
- Eu queria sim... É que ninguém merece sair de Macapá pra passar o ano enclausurado né, tia?
- É verdade... Olha, você vai ter que pegar dois ônibus pra chegar lá. Vou te falar isso melhor depois.
- Tudo bem.
Esperei mais um tempinho, conversei no MSN com minha amiga Aureana, até que fui tomar um bom banho e me arrumar. Dado o horário de seis e vinte, entrei no ônibus que me tirava de Sabará e me levava ao centro de Belo Horizonte. Chegando lá, o dia já estava desaparecido e o início da noite se condensava pelas ruas do centro, ainda mornas sabe-se-lá-por quê. Comprei uma capa de chuva, aquelas de saco plástico mesmo de cinco reais, e fui me informar sobre a rua Caetés, a rua em que eu pegaria o próximo ônibus para chegar à Lagoa da Pampulha, caminhando mais um pouco perguntei pra um homem tatuado e com a cara carrancuda se aquela rua era mesmo a tal Caetés, ele só me olhou com uma expressão de quem detesta seres humanos, mas uma moça simpática ao seu lado me informou que era só descer a ladeira em que estávamos. Agradeci, desci, dobrei e cheguei, ainda pensando no homem mal-humorado... Imagina virar o ano com cara de cu? Que coisa mais triste de se fazer...
Me aproximei de um rapaz impaciente e perguntei se o ônibus 2215 C (o ônibus que eu deveria pegar) já havia passado, ele disse que há pouquíssimo tempo um já havia vindo, então cuidei de esperar por outro. Socializei e conversei com ele até o seu ônibus vir, ele me chamou para eu perguntar ao motorista se aquele ônibus também ía para a Pampulha, o motorista respondeu que não. O rapaz era um palmo mais alto que eu, acredito, tinha a pele parda e o rosto com uma expressão constantemente etérea. Despedi-me e ele entrou no ônibus, foi por aí que lembrei de que não havia perguntado seu nome. Ele também não. Foi quase como ter a certeza de uma estrela bem alí, e de uma hora para outra ela desaparecer.
Passou-se pouco tempo até que chegou o ônibus que me levaria ao tal lugar dos fogos. Os passageiros estavam fazendo a maior baderna, e o motorista estava com uma expressão idêntica ao do tatuado, mas ele ao menos tinha motivo aparente. Trabalhar em 31 de dezembro...
Foi quando, enfim, cheguei a tal Lagoa. Pulei do veículo e caminhei onde um aglomerado de pessoas fazia o mesmo. O nome era mesmo óbvio, uma lagoa enorme e, envolta dela, bares, restaurantes, salões, e várias barracas montadas vendendo churrasco e hot-dog. Quando passeei ao redor do local e cheguei próximo a um palco montado, voltei e comprei um hot-dog e uma coca, depois me sentei debaixo de uma concha (não me pergunte o que era aquilo), e fiquei comendo e conversando com minhas amigas por SMS. Quase chegada a hora, isso devia ser umas onze da noite, fui assistir o que tinha de interessante naquele palco: pagode, samba, etc. Broxei e fui pra um campo onde algumas pessoas se sentavam no gramado, decidi fazer o mesmo. Pousei minha capa de chuva na grama e me sentei, e então comecei a ouvir música. Mas os gritos que vieram foram mais fortes: dez, nove, oito, sete, seis, cinco, quatro, três, dois, um... E nesse mesmo momento eu estava ouvindo Shake it Out do Florence + The Machine, e já estava com a capa de chuva de volta no meu corpo porque chuviscava, então os fogos começaram e pareciam que nunca iam parar, e olhei para cima, para os fogos quase vindo na minha direção, e começou a pingar gotículas nos meus óculos e senti um aperto no coração e minha visão começou a embaçar e eu não sabia se mais se era lágrima ou chuva ou qualquer outra coisa, porque nada mais tinha importância e aquele sentimento de que alguma coisa o está invadindo, e eu sabia que não era nada de errado, que era uma nova vida porque a minha vida eu deixei para trás no dia 09 de dezembro de 2011. E só então percebi que estava realmente chorando porque as lágrimas saíam mornas no meu rosto gelado pela chuva. E eu nunca havia sentido aquilo antes porque é tão estranho estar dopado de felicidade e assolado por uma tristeza indestrutível. E pela primeira vez na minha vida eu estava completamente sozinho e até me deu vontade de dar boas-vindas ao mundo. Olá mundo. Olá para eu mesmo que me abandonei dia desses e até agora estava chorando não se sabe porquê, não se sabe por onde, não se sabe no entanto o que que sabe, era apenas choro quente e chuva fria.
Foi praticamente meia hora só ouvindo Shake It Out, e eu nem havia me tocado disso, só deixei no repeat e a música estava fazendo parte de tudo aquilo...

" I am done with my graceless heart, so tonight i’m gonna cut it out and the restart... "

Acabou a sessão de fogos, acredito eu, já era 00: 24, então comecei a caminhar de volta para a entrada da Lagoa ao som de Skin da Zola Jesus e Born To Die da Lana Del Rey, estava pensando em ir para alguma boate ou coisa parecida, eu precisava desesperadamente dançar. Mas minha sessão de pequenos azares não havia nem começado...
O chuvisco poético e bonitinho e blábláblá que me emocionou junto com os fogos se transformou numa chuva escandalosa, histérica, chovendo de todos os quatro ventos na Lagoa e por toda Belo Horizonte, e as pequenas poças de água aqui e alí se transformaram em cachoeiras, córregos, mares, um verdadeiro mapa oceânico. E o lago na Lagoa da Pampulha me pareceu tão pequeno...
Nesse meio tempo eu já havia desistido da boate ou qualquer outro lugar, porque mesmo com a capa de chuva, as barras da minha calça começaram a molhar e, consequentemente, molhando minhas meias e meus sapatos, inchando toda aquela porra, apertando meus pés e esmagando meus dedos mindinhos. Oh dó...
Mas esse era só o prólogo do sofrimento pelo qual eu passei depois, calma aí.
Quando cheguei naquelas estradas por lá (não me pergunte por que estou narrando assim, moro há exatamente vinte e um dias aqui em Minas Gerais ok), comecei a esperar por taxis. Mas nenhum parava, e quando paravam, pessoas se materializavam do nada como se soubessem os segredos da aparatação e os tomavam de mim. Desisti dos carros e fui para os ônibus, eu poderia estar completamente lascado porque não sabia qual ônibus pegar pra voltar ao centro de BH, e os motoristas mal faziam questão de olhar pra nossa cara devido ao mau humor de estar trabalhando em plena virada de ano, então me era impossível ficar perguntando pra todo motorista de todo ônibus que passava, mesclando ao fato de uma quantidade bem formidável de pessoas estarem se espalhando naquele quilômetro quadrado, entrando desesperadamente nos ônibus e entupindo tudo como autênticas latas de sardinhas.
Eis que então, naquele mar e naquela multidão eu vejo um nome familiar estampado na lista de linhas de certo ônibus: Praça da Estação. E pareceu que aquele ônibus estava iluminado por aura de salvação que até agora não consigo explicar (nada mais me lembro dsahudsahsudahsadu’).
- É você mesmo, vadia.
Me comprimi num grupo que ainda estava na escadinha do ônibus (e minha sorte que sou baixinho e pequeno) e consegui embarcar. O motorista me fez o santo favor de fechar a porta e eu fiquei lá, envolta do tal grupo. Olhei pra trás um pouco estressado com uma certa esfregação nas minhas costas e nuca e vi dois rapazes altos, branquelos e musculosos na maior baderna, e bêbados. Eles pertenciam àquele gênero chamado “playboy”: shorts floridos (nojo), camisa regata (hum), óculos Tryton (argh!), correntes no pescoço (eca!), cueca de fora (rá!). Mantive a calma e tirei meus óculos que não paravam de ficar embaçados, só desejando chegar logo na casa da minha tia pra me livrar da maldição dos meus sapatos, então a movimentação atrás de minha pessoa retornou com mais violência. Eles simplesmente começaram a dançar e cantar funk enlouquecidamente, e um dos branquelos tinha uma autêntica voz de funkeiro! E de um minuto pro outro metade do ônibus começou a se divertir com os dois playboys metidos a “funkistas”, ou seja lá que porra era aquela. A cena então me pareceu cômica: encharcado, cansado, perdido, num ônibus desconhecido e no meio de funkeiros branquelos rebolando e cantando. Não me segurei e comecei a rir da situação, já que o bom humor era a única coisa que me restava no meio daquela madrugada exaustivamente fria, e eu realmente não tinha mais nada a não ser sapatos molhados, uma capa de chuva de cinco reais, e eu mesmo sabe-se-lá-em-que-cafundó-do-mundo.
E então me veio mais outro pequeno problema. Acabei descendo muito antes do ponto, que segundo o motorista, “bem alí já era a praça da estação”. Bem alí pr’aquele filho da mãe, porque tive que andar uns quatro quarteirões, descer e subir umas duas ladeiras, me perder mais umas três vezes até chegar numa rua que dava direto na Praça da Estação. Foi nesse momento em que ri internamente da sua desgraça de trabalhar em pleno ano novo, o que me confortou um pouco.
Na Praça da Estação já estavam apenas os restos da festa também, e então comecei a procurar a rua em que passava o meu ônibus que me levava à Sabará. E lá vai eu me perder de novo, dobrar na esquina errada, entrar por lugares inapropriados, me esquecer de lugares familiares já, etc etc. Isso mesclando ao fato de eu estar morto de frio, meus sapatos encharcados e meus pés amortecidos, minhas mãos molhadas e meus óculos embaçando a todo momento de frio (e se eu tirasse iria ficar pior porque eu estaria cego e perdido, em suma, mais lascado do que já me apresentava). Se houve alguma vez em que meu espírito de sobrevivência me fez caminhar e correr, essa vez foi no dia 1° de janeiro de 2012. Eu também fazia questão de não parar pra descansar, e acredito que se parasse, a dor excruciante nos pés iria piorar e se mostrar realmente completa.
Enfim cheguei na parada de ônibus já conhecida, na rua Guaicurus, e então vieram vários e vários ônibus, e em todos eles eu perguntava se passavam em Sabará, e todos me respondiam que não. Foi então que eu me lembrei: os ônibus pra Sabará só voltavam a circular a partir das seis da manhã, e ainda era três e meia. Enfim, se não fosse pelos meus sapatos afogados eu esperaria esse horário numa boa, mas estava com medo de pegar uma doença séria por isso então cuidei logo de procurar um táxi, minha última oração para voltar vivo em casa.
Caminhei até uma estrada mais aberta e consegui parar um táxi. Um homem apresentavelmente bonito e que ainda fez questão de se perder em ruas que jamais levariam à sabará. Ele tentou dialogar, mas eu estava tão cansado que nem sabia do que tava falando. Só me toquei de um detalhe depois:
Ele: - E então, pegou muito?
Eu: - Peguei o quê?
Ele: - Por lá, pegou muitas garotas?
Eu: - Não, garotas não fazem meu gênero.
Silêncio.
Ele: - Peraí, você é gay?
Eu pensando: “Puta merda! Eu não devia ter falado isso, ele deve ser homofóbico e agora vai me quebrar de porrada aqui na estrada D: Me fudi.”
Mais silêncio.
Acabou que ele não fez nada, graças aos céus, enfim conseguiu chegar a Sabará pedindo informação de um garoto que caminhava tranquilamente pela madrugada com um guarda-chuva preto, desci do táxi e fiquei por lá vendo o dia amanhecer, o primeiro ônibus do dia e do ano surgir, e minha tia abrir a porta pronta para me aquecer e me salvar da vida real, com muito café, chuveiro quente, roupas de frio e amor.
Não sei se posso dizer que foi o melhor ano novo da minha vida, talvez não chegue nem perto disso, talvez chegue, de qualquer forma, foi um dia mais do que inesquecível, Scarlett O’Hara bateria palmas pela minha sobrevivência.
E se querem saber como estavam meus pés depois que tirei meus sapatos e meias encharcados, basta olhar pra cor deste céu nublado e chuvoso de Minas Gerais e... Ah, é mesmo, não tem cor. Voltou a circular sangue e ter sensibilidade quando entrei no chuveiro, ou mais ou menos isso.

Black Cherry & Andrew Oliveira

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