Solitude, darkness and love


"I don't wanna admit, but we're not gonna fit"

domingo, 2 de outubro de 2011

Lacrimosa, A Promessa - Parte II.

Abel Amadeus entrou cambaleando na casa de seus pais, seu hálito de álcool e seu corpo impregnado de sexo já eram uma boa explicação. A manhã ainda chegava ao horizonte como que escalando uma montanha rasa. Amait Amadeus já exalava a sala e a cozinha com o aroma do café recém-nascido. Quando viu seu filho, sorriu e ofereceu uma cadeira.
Mas Abel não se sentou, no momento em que ela sentiu um arrepio na espinha e mãos aflitas chegando aos seus seios, percebeu que seu filho queria muito mais do que café. Amait o afastou com delicadeza e o fitou em total horror.
- Abel, o que você pensa que está fazendo? – Ela se abraçou como que se protegendo do toque quente de Abel.
- Eu... Eu te amo.
- Vá para a cama. Durma um pouco, você está fora de sí.
- Eu te amo, eu quero te possuir.
- ABEL! – Ela exclamou, o olhar em fúria e desprezo, e depois a mão direita sobre a testa, trêmula. – Saia daqui, por favor.
Aquele não foi o único dia em que isso aconteceu. Em vários momentos Abel chegava de surpresa e tentava beijar Amait na boca de todo jeito. Certa vez, numa manhã dublada, ele a estuprou na sala enquanto o noticiário fazia um barulho suficiente na TV. Seu corpo alto e forte seria capaz de destruir qualquer coisa em poucos minutos. Mas Amait sentiu prazer em provar a carne de seu filho, e até o deixava ejacular dentro do seu corpo, pensando que nunca mais teria outras proles.
Quando Amait sentiu, ela desejou abortar, mas seu marido impediu, dizendo que estava tudo bem ter mais um terceiro filho, ele aguentaria sustentar todos os três. Ela continuou a gestação por ele.
E então chegou Bellenus, cego e silencioso, fruto do pecado de Amait e de Abel. Amait nunca mais amou Abel, e Abel não chegava mais em casa durante o amanhecer. Apenas quando tinha luz no horizonte, tanta luz que seria capaz de ofuscar qualquer feiúra da sua alma.
Amait passou sete anos em completa privação da sua dor, e toda vez que olhava para aquela criatura mais bela que Abel e Liber Amadeus, seu amor proibido voltava à tona. Aquilo se tornou uma tortura. Quando não aguentou mais, se jogou na frente de um carro com sua bicicleta, esquecendo-se de buscar Liber na escola, e morreu no mesmo segundo.
Ataque cardíaco, disseram os médicos. Mas provavelmente seu coração parara de funcionar por causa da tristeza que a consumia. Ela era a pior mãe do mundo, e apenas ela sabia disso.
Sem mais o seu grande amor, Abel olhou para seu irmão Liber, e o mundo estremeceu com seus olhos azuis e gelados, que congelariam qualquer coisa sem precisar de muito esforço. Abel e Liber tinham os olhos da mãe. Bellenus tinha os olhos do pai, o pai que nunca soube amá-lo.

~
Caim me beijou pela milionésima vez, apertando suas mãos nas minhas nádegas enquanto eu usava as minhas para acariciar seu órgão. Ele parou e riu, fazendo o clima quebrar totalmente, e então vestiu sua cueca e sua calça, para depois arrumar o seu cabelo.
- Está na hora de irmos embora. – Ele disse, verificando a hora no relógio de pulso, adornado com prata. – Poderemos terminar isso no meu apartamento.
Soltei um sorriso malicioso, e então me levantei do sofá para me vestir também. Fiquei com medo de sentirem meu hálito e o odor do meu corpo se eu saísse, de qualquer jeito, acho que não falaríamos com ninguém a não ser Amaterasu. Amaterasu e Bellenus, eu nunca imaginei um casal assim. Na verdade, nunca imaginei ver Bellenus novamente, ele estava tão distante das minhas memórias que mais parecia ter saído de um sonho conciso, daqueles que você tem por menos de um minuto antes de acordar.
- Estou com fome. – Eu disse, ronronando a voz, e dando um beijo no ombro ainda nu do meu homem.
- Termine de se arrumar. Não quero ficar excitado de novo. – Ele cortou minha empolgação depravada.
- Você é insuportável, sabia? – Eu disse buscando minhas roupas amarrotadas no chão.
- Pelo menos não sou chorão como você. – Ele retrucou com a voz sarcástica.
- Vá se foder.
Caim sorriu e estralou minha bochecha com sua boca. Terminamos de nos arrumar e voltamos para os bastidores das apresentações teatrais e musicais, Amaterasu estava mais adiante com o olhar preocupado, sentada sobre um piano velho. Caim reparou no mesmo instante e correu até ela, tive que fazer o mesmo para ouvir a conversa.
- Minha querida, está tudo bem? – Ele perguntou, esquecendo-se do seu cabelo bagunçado pairando na cabeça, fazendo-me segurar o riso.
- Bellenus... Um homem veio aqui dizendo que queria conversar com ele, não vi problema, pois pelo visto ele o conhecia pela voz. Mas pude ouvi-los discutindo antes de irem embora e não sei o que está acontecendo. Senti medo quando vi o olhar daquele homem... – Nunca imaginei que Amaterasu tivesse a personalidade tão frágil, sua altura e seu rosto de deusa deixavam parecer que era impossível ela transbordar de emoções ao público. Agora parecia mais uma menininha que se perdera da mãe, prestes a chorar.
- Você viu onde eles foram? – Caim perguntou, como um bom amigo atencioso.
- Acho que saíram pelas portas dos fundos.
Enquanto caminhávamos para a saída lateral do grande teatro, fiquei imaginando que Amaterasu falara de mim para Bellenus, e Bellenus falara para Abel, que me encontrou dias depois no meu apartamento para muito provavelmente tentar me matar. Ou me prender numa gaiola e me levar de volta para o seu apartamento.
Eu estava certo, afinal, pois quando chegamos ao beco mal iluminado atrás do teatro, a primeira pessoa que minha visão captou foi Abel, chutando Bellenus na costela com seus belos olhos azuis exalando uma força fria e demoníaca. Bellenus cuspia sangue e molhava o rosto numa poça de lama. Amaterasu gritou e tentou correr até ele, mas Caim a impediu e correu no lugar dela.
Antes que pudesse lutar com Abel, meu irmão sacou uma arma e apontou para ele com agilidade. Caim parou e levantou os braços, sem sequer respirar. Eu me aproximei ao lado de Amaterasu, e com ela caminhei até o inglorioso Abel, que percebeu minha presença e transformou sua expressão de raiva em tristeza, com grande maestria.
- Liber... – Seus olhos amaldiçoados umedeceram no mesmo instante.
- Abel, por favor, pare com isso.
Ele me encarou com horror.
- Você tem que voltar pra mim.
- Por que Abel? Por que tenho que voltar pra você?
- Você me pertence. Você é meu irmão. Meu dever é proteger você pelo resto da minha vida. – Suas olheiras deixaram seu rosto ainda mais soturno.
- Veja o que você está fazendo, Abel! Está machucando todas essas pessoas, está tentando matar o nosso irmão! – Senti meu rosto esfriar, acho que eram as lágrimas ao frio.
- Eu não estou tentando matá-lo! Ele não me trouxe até você!
- Ele é cego, seu idiota! – Amaterasu gritou, ninando Bellenus no seu colo.
- Cala a boca, sua puta! – Abel voltou a rosnar, e então se aproximou ainda mais de mim, ainda apontando a arma para Caim.
- Pare de machucar todo mundo por mim, pare de me machucar! – Solucei, mas com muita raiva.
- Por favor, Liber... Eu morro se passar mais tempo sem você. – Ele passeou a mão áspera no meu rosto cabisbaixo, provavelmente não ouvira nada do que eu acabara de dizer.
Levantei os olhos para encará-lo novamente.
- Eu voltei para buscar Bellenus, nós podemos viver juntos! – Ele disse como se fosse a ideia mais brilhante do mundo.
- Por que você voltou? – Retruquei. – Para aprisioná-lo também?
Ele soluçou.
- Porque ele é meu filho.
Caim segurou ainda mais a respiração, engoli em seco e pude ver de canto-de-olho que Bellenus formava uma expressão de dor e sobressalto, abraçando Amaterasu ainda mais e preparando os lábios para falar alguma coisa.
- Ele matou o nosso pai, Liber. Ele matou o nosso pai e o jogou num rio. Obrigou-me a ir com ele e nunca mais me deixou sorrir. E agora diz que é meu pai! – Pude perceber pela sua voz que ele segurava as lágrimas com esforço.
- Aquele lixo precisava morrer! – Abel gritou, enrubescido da fúria que voltara em milésimos de segundos. – Ele não merecia nossa mãe!
- E você merecia? – Esfreguei a mão direita nos olhos, mas não adiantou de nada.
- Ela me amava, e eu a amava. Bellenus foi a prova do nosso amor. – Sua voz transbordava sua insanidade.
Minha garganta ficava cada vez mais seca, ouvir tudo aquilo da minha mãe era um completo absurdo. Minha mãe jamais teria uma relação com algum de nós.
- Você está mentindo.
- ELA ERA MINHA! MINHA! E SE FOI! – Ele bateu as mãos na cabeça como que tentando tirar tudo aquilo do cérebro e deu um tiro acidental no céu, ficando surdo por alguns segundos.
Abel largou a arma no chão e me abraçou com força, pendendo seu corpo musculoso sobre o meu, acariciando meus cabelos e me beijando na boca. Só então pude entender o motivo de tudo. Eu era a nossa mãe para ele, e não seu irmão Liber. Nunca fui Liber para ele. Eu era sempre a própria Amait encarnada.
- Amait, sou eu, estou aqui, fale comigo... – Ele sussurrava enquanto me beijava com força, sem ligar para os meus soluços de medo e impotência, pronunciando o nome da minha mãe com sensualidade como se ela realmente tivesse sido sua maior amante na vida.
Outro barulho surdo ecoou naquele beco mais iluminado pela madrugada que me detestava do que pelos postes fracos que piscavam como vaga-lumes. O corpo de Abel pendeu ainda mais sobre mim, obrigando-me a cair de joelhos para segurá-lo. Senti um gosto metálico no seu beijo e só quando abri os olhos notei que era sangue saindo da sua boca num pequeno riacho, quase uma lágrima. Sua agonia ficou maior e ele uivou, me abraçando e morrendo lentamente.
- Liber, me salve. – Ele implorava, a expressão numa perfeita simetria de dor e desespero.
- Não posso lhe salvar Abel, eu mal sei onde você está.
- O que eu posso fazer por você?
Uma ideia me veio à mente.
- Você está vendo o céu branco de nuvens logo alí?
- Sim.
- Não se perca dele, continue caminhando até encontrar o sol. Eu sei que ele está em algum lugar, eu sei que ele...
O corpo de Abel desabou por completo em cima de mim, eu gritei como ele gritou há um minuto. Ergui os olhos e vi Caim ainda segurando a arma fumegante, trêmulo e petrificado ao mesmo tempo. Bellenus já estava de pé, e Amaterasu tirava a arma com cuidado do domínio de seu melhor amigo.
No meu colo, Abel olhava para o nada. Aproximei meus dedos das suas pálpebras e fechei seus olhos com a certeza de que ele não se perdera.
- Está tudo bem agora. Eu sei que você encontrou o sol, ele não sabe se esconder muito bem. – Eram apenas coisas aleatórias saindo das minhas cordas vocais, como uma canção esquecida na neve.

A polícia e a ambulância não demoraram a chegar. Eu ainda estava ajoelhado e Caim ainda permanecia parado quando carregaram o corpo de Abel e o depositaram na maca. Fomos levados nos carros policiais e demos nosso depoimento. Legítima defesa, todos concordaram, e depois de doze horas insuportáveis numa sala espelhada e com uma câmera gravando tudo, finalmente nos liberaram e chegamos ao apartamento de Abel. Amaterasu estava no hospital com Bellenus, pois ele teria que levar alguns pontos perto da sobrancelha e lavar os outros ferimentos no rosto, mas ficaria bem.
Arranquei minha roupa e não tive vergonha da minha cicatriz nas costas sendo exibida para Caim. Entrei no seu chuveiro, mas não consegui tomar um banho decente. Ele entrou ainda vestido com suas roupas da apresentação no teatro e me lavou com carinho e compreensão. Mesmo na água quente eu estava trêmulo, e seu toque por um momento me lembrou de Abel lavando o meu corpo após o ataque que sofri dos jovens nazistas.
Fiquei até às cinco da manhã acordado, e dormi nu na sua cama enquanto ele me abraçava e me aquecia com seu grande corpo, beijando a minha cabeça de vez em quando e afagando os meus cabelos o tempo inteiro. Sua respiração me deu paz, e só assim consegui pregar os olhos e deixar o velho Sandman jogar sua areia em minhas pálpebras.
Todo o passado que sufocava o meu corpo e não me deixava sentir a liberdade tinha acabado. Não quis pensar na minha mãe nem no meu pai. Não quis pensar em mais nada. O calor do meu amado Caim ofuscava toda a minha história. Acho que de algum jeito, em alguma parte de tudo aquilo, eu estava mesmo destinado a pertencer a ele.
- Liber, está dormindo? – Ele me sussurrou, de repente.
- Estou. – Respondi com a voz obviamente sonolenta.
- Eu quero um poema.
Gemi em reclamação.
- Por favor.
Suspirei como quem diz “está bem...”.
- Oh, minha bela rosa quebrada, anunciai sobre vós a tua vida oculta. Oh, meu belo ramalhete de solidão – bocejei -, expire sobre a minha alma a vida que provém da tua dor. Não me venhas mais com tua expressão trágica, o céu despencará com os teus segredos, e nada mais será tão magnífico e único quanto o amor que tu teceste para a minha pobre sombra. Minha alma será sua, tome cuidado com ela.





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Lacrimosa - Fim




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Andrew Oliveira

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