Solitude, darkness and love


"I don't wanna admit, but we're not gonna fit"

sábado, 1 de outubro de 2011

Lacrimosa, A Promessa - Parte I.

Abel vestiu sua cueca boxer branca e passou perfume forte por todo o corpo, enquanto eu meditava na mesa e tomava um café preto com muito açúcar, esperando algo vir na minha imaginação para escrever. Ele se direcionou em minha direção e chegou aos meus ombros tensos, fazendo-me uma massagem com seus dedos ásperos. Eu respirei fundo por um momento, mas depois abri os olhos e voltei à vida real. Há muito tempo eu não via Abel sorrir.
- Vou para a boate daqui há pouco. Quer ir comigo? – Ele disse me dando um beijo na cabeça.
- Não, obrigado. – Respondi, seco.
- Liber...
Continuei olhando para o papel em branco, e batendo o lápis quebrado com impaciência em cima dele.
- Você quer me dizer alguma coisa?
Por um único segundo pensei que ele estivesse finalmente compreensivo, como sempre foi.
- Quero ir embora.
- NÃO! – Seu grito me fez pisar cada vez mais na realidade, aquilo era tão perturbador.
- Abel, eu...
- Não! Você não pode ir! Você não pode me abandonar! Temos que ficar juntos!
- Quero viver minha própria vida.
- Pare com isso! Pare de ser tão egoísta! Eu só tenho você!
- Pare de gritar comigo.
- O quê?
- PARE DE GRITAR COMIGO! ESTOU CANSADO DESSE MEDO ABSURDO QUE AGORA TENHO DE VOCÊ. – Saí da cadeira e ela caiu, minha fúria me consumiu rapidamente. – VOCÊ NEM PARECE MAIS O MEU IRMÃO, AGORA É MAIS UM ESTRANHO DO QUE MINHA FAMÍLIA!
Ele franziu o cenho e se afastou com aspereza. Senti-me cansado e despenquei no chão, encostando minhas costas na parede e batendo a cabeça no concreto frio. Abel continuou me fitando sem falar nada.
- Me deixa viver. – Eu disse, os olhos úmidos e as mãos trêmulas. Tudo aquilo era uma grande mentira mal contada.
Abel trancou a porta e se foi. Joguei a mesa e os armários no chão, fervendo de raiva. Peguei a minha primeira e única mala e joguei minhas roupas amassadas dentro dela, detestando até meu rosto úmido e meu nariz fungando. Coloquei um casaco por cima da camisa longa e folgada e chutei a porta até arrombá-la. Saí como uma sombra em frente ao nada, e fui de ônibus até a estação de trem.
O dia estava indo embora se definhando no céu fortemente laranja, não sei se futuramente eu me sentiria bem ou mal por não ter dado adeus a Abel. Mas naquele momento eu estava determinado a me afastar para sempre dele. Acho que ele sabia dos meus objetivos, e provavelmente estava se preparando para isso. Eu ainda amava muito meu irmão, e jamais deixaria de amar, mas todo o sentimento de proteção que ele alimentava por mim se transformou em dor. Eu não aguentava me sentir como um pequeno animal capturado nas suas grandes mãos.
De alguma forma, ele chegou quando eu estava comprando minha passagem. Eu tinha uma quantidade suficiente para me sustentar, graças ao meu quarto livro lançado naquela pequena cidade etérea. Pelo visto gostavam muito dos meus contos e poesias, apesar de eu sempre permanecer no anonimato sendo sustentado pelos meus heterônimos. Abel só soube disso quando chegou à estação.
- Liber!
Virei o rosto e passei na roleta. Minha mala emperrou por um instante, mas depois voltou ao normal. Ele continuou anunciando o meu nome, chamando a atenção de algumas pessoas que por alí passavam. Tive que encará-lo.
- Por favor, eu preciso de você! – Ele disse, enquanto eu pensava em desaparecer do seu horizonte por completo como o sol batendo na sua nuca.
- Não Abel, você não precisa mais. E eu também não. É a minha hora de ir embora. Não posso mais ficar com você.
Ele se calou por um minuto, depois de raciocinar um pouco balbuciou as palavras que chegavam.
- Eu fiz alguma coisa errada?
- Não.
- Então por que você tem que ir embora?
- Porque não há mais nada para eu fazer aqui. Meu tempo nessa cidade acabou, meu tempo com você acabou. Deixe-me ir, Abel.
Ele chorava, acho que eu também.
- Posso ao menos ficar ao seu lado enquanto você espera o seu trem?
Eu sorri.
- É claro.
Abel teve que pagar para passar pela roleta, o que ele não achou problema algum. Pagou qualquer ticket e me acompanhou até um banco, levando minha grande mala. Sentou-se ao meu lado como uma criança ansiosa e segurou minha mão com força.
- Abel, acho que você já sabe que nunca mais nos veremos.
Ele continuava com os pés frenéticos, chorando o tempo inteiro. Eu já não tinha mais lágrimas, ou pelo menos achava que não.
O trem chegou.
- Preciso ir.
Abel não respondeu. Eu me ajoelhei e abracei seu corpaço, afundando meu queixo no seu ombro. Peguei minha mala e entrei no trem sem olhar para trás. Se eu olhasse, com certeza sairia no mesmo instante e voltaria para os seus braços com medo do que ele fizesse se eu não estivesse ao seu lado, ou pela simples covardia de não desatar o nosso laço.
~
- Você não vai ao enterro de Seth? – Mamãe perguntou, abrindo levemente a porta do meu quarto e colocando a cabeça para me fitar.
- Não.
Ela se aproximou e depositou os dedos afetuosos em um dos meus braços enfaixados que descansavam na escrivaninha perto da janela. Não fazia um dia que eu saíra do hospital, pois só precisava lavar minhas feridas e em pouco mais de uma semana tirar os pontos dos meus cortes mais profundos. Eu estava bem, afinal, não me machucara o suficiente para morrer. Por que não coloquei uma corda no meu pescoço também? Eu não pertencia mais àquele mundo.
- Ele iria gostar, Caim. – Ela sussurrou ao meu ouvido, e então me beijou na cabeça.
Antes de sair do quarto, eu me senti menos mórbido e tive que perguntar:
- Você acha mesmo, mãe?
- Tenho certeza.
Ela sorriu carinhosamente, seus cabelos dourados partidos ao meio e descendo em cascatas pelos ombros mais pareciam um lindo véu bordado de ouro e prata do que suas madeixas leves e grisalhas. Desde que Seth morrera, ela estava sempre presente ao meu lado, e eu realmente não entendia o porquê.
- Você pode me levar?
- Eu adoraria.
Depois de um banho demorado, eu estava me arrumando com cansaço e lentidão. Quando me senti pronto não queria sair do meu quarto, mas tive que me empurrar até descer as escadas e entrar no carro de minha mãe. Ela não participaria do enterro, apenas me deixaria no cemitério como uma carona qualquer. Mas aquilo era de muita ajuda, tanta que eu com certeza me retalharia de novo para me juntar à Seth. Se isso §voltasse a acontecer, ela lavaria minhas feridas por quanto tempo fosse necessário.
O sol residia morno e etéreo, deitado em nuvens de areia, algumas poucas estrelas já nasciam prematuras mesmo com a sua luz, provavelmente não gostavam da escuridão. Caminhei até onde estava sua pequena família, mas apenas a mãe me deu boas vindas e me recebeu com um abraço. O padre já proclamava suas orações de praxe. Não tinha vento.
Eu não chorei, ou não conseguia mais fazê-lo. Minhas roupas pesavam no meu corpo como se tivessem quilos, meus ombros curvaram-se e ficaram mais tensos do que já estavam, minha garganta emitia um som rouco e seco, um lamento que eu não conseguia pronunciar muito bem. O pai se agarrava na mãe de um jeito que este parecia um gêmeo siamês, o irmão ninava a filha de quatro anos no colo ao lado da esposa nova e magricela.
Toda aquela visão me fazia sentir uma ânsia de nojo e desprezo.
O que eles estavam fazendo alí, afinal? Aquele irmão estúpido que estragou todo o futuro de Seth por causa de uma criança concebida antes do tempo, que sugou todas as economias dos seus pais e não deixou nada para investir no sonho do meu namorado. Minha raiva foi controlada pelas minhas unhas que penetraram nas palmas das minhas mãos, e tentei o máximo possível não fazer nada, triunfando no meu autocontrole.
Quando cheguei no meu lar com a ausência de ânimo habitual, mamãe me esperava na mesa da cozinha. Ela me pediu para sentar na sua frente. Obedeci e esperei suas palavras se formarem na sua boca. Tossiu um pouco e olhou para a janela, para o início da noite que se estendia tal qual um grande lençol azul escuro é arrumado na cama.
- A faculdade de música acabou de me ligar. – Não reconheci a expressão nos seus olhos levemente enrugados. Expectativa, talvez? – Você quer ir, Caim?
Não sabia o que falar, pois acredito que o completo silêncio soube explicar melhor do que eu. Ela saberia a minha resposta, de qualquer forma eu assenti com a cabeça, mas continuei com o demônio inquieto rasgando a minha garganta e tecendo teias de aranha nas minhas cordas vocais. Ele caminhou sua respiração fria pelas minhas veias e chegou ao meu coração, pressionando-o com força entre os seus dentes, pairando sua sombra flutuante e capciosa na minha alma, como se a minha alma fosse a sua terra.
Mamãe estava com uma aparência exausta e áspera, talvez estivesse limpando a casa por conta própria, há tempos não fazia isso. O enterro de Seth foi uma oportunidade para ela pedir um dia de folga. Ela gostava daquilo, afinal, tirar todas as suas jóias e roupas caras e arrumar a casa do seu jeito. Ainda tinha um cheiro bom na cozinha, percebi quando minha barriga reclamou.
- Eu fiz o jantar hoje. Dispensei nossa empregada.
Suas mãos maternas pousaram nas minhas, e então ela deu o sorriso mais amplo do mundo. Lembrei-me de Seth, com a boca cheia e os lábios sujos de farelos, as bochechas rosadas e o sorriso radiante, dizendo que me amava. Ele ainda me amava, eu jamais poderia reclamar. De alguma forma, de algum jeito, Seth ainda me abraçava. Eu poderia chorar e rogar maldições aos quatro ventos, me definhar no meu quarto e ferir meu corpo até derramar todo o sangue das minhas artérias. Eu poderia parar de viver e ser apenas uma concha vazia nesse mundo pelo tempo que tivesse. Mas tudo o que eu soube fazer naquele momento foi sorrir em resposta para a mulher na minha frente. Ainda não tinha acabado.
Depois de jantar o macarrão com almondegas, subi as escadas, escovei os dentes e tomei outro banho demorado. Deitei-me sentindo meu corpo mais leve, o demônio que pisava na minha alma não estava mais lá, e dormi sem a preocupação de chegar atrasado para o café-da-manhã do meu namorado. Bem, ao menos ele não reclamaria mais da minha falta de empolgação em acordar para os novos dias. Amanhã eu com certeza acordaria bem cedo por ele. Seth ainda era meu, não importava o quanto ele estivesse longe de mim. Eu poderia passar anos, décadas, séculos vivendo, mas ainda me lembraria dele e abriria os olhos, adiantado para não ter que ouvir besteiras de um garoto sonhador.






~









Aí está, a primeira parte do último capítulo =)

Andrew Oliveira

Lacrimosa está chegando ao fim TT_TT

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