Solitude, darkness and love


"I don't wanna admit, but we're not gonna fit"

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Quando as mulheres sangram

É algo como uma tênue linha de esperança, desesperança e desapego. Nesse momento o clima está mais morno e, veja, até há uma brisa sobre as ruas e os carros de luzes embaçadas. A realidade também me embaça, quase como um véu de uma noiva numa pequena e aconchegante capela. Talvez o seu futuro marido tenha ido embora.
Eu perguntei uma vez:
- Mamãe, por que as mulheres sangram?
Ela me disse algo como “o pecado original”. Eu tinha seis anos, era uma menina miúda e atarracada, um pequena moleca que vivia correndo por aí só com uma calcinha com estampa de ursinho e os joelhos lascados. Eu passei seis anos pensando nisso. O que era o pecado para uma criança? Comer um doce depois de escovar os dentes? Talvez isso ainda seja um grande erro. Se todos os grandes erros fossem assim, eu provavelmente não seria esse resultado final.
Perto dos meus catorze anos, eu sangrei.
E aquilo não foi nada mágico, tampouco pecaminoso. Era aterrador.
Eu estava na sala de aula, a irmã Tereza, nossa freira-professora, nos ensinava álgebra quando senti uma dor dos infernos e não entendi se aquilo era um problema de estômago ou se eu estava apertada, pois senti vontade de fazer xixi. Um filete de sangue fugiu das minhas saias e passeou na minha perna até manchar a longa meia branca. Uma menina ao meu lado gritou e eu saí correndo para o banheiro chorar. Pensei que estivesse morrendo. Que estúpida. Morrendo!
Irmã Tereza chamou minha mãe e eu levei uma longa surra. Ela me disse que o pecado agora iria tomar conta do meu corpo, e que eu teria de enfrentá-lo com todas as minhas forças e a minha fé em Deus. Não me lembro de ter feito nada de errado para levar tantas chibatadas do seu cinto. Lembro-me que nesse dia minha pequena irmã me velava chorar no quarto e tirar meu uniforme e minhas meias. Eu pedi para ela ir embora, mas ela não foi. Eu estava estressada, cansada e menstruada, e com certeza daria um beliscão naquela garotinha malcriada, e realmente iria fazer isso. Mas Maria Alice deu uma gargalhada alta e aguda, daquelas de criança que foi flagrada enfiando a mão num pote de chocolate.
Foi a única coisa que me salvou daquele mundo repressivo, pesado e silencioso. Claro que uma gargalhada daquelas não poderia me salvar o tempo inteiro, ou quase isso.
As semanas se passaram como rápidos dias, e nenhuma garota daquele colégio me infernizou por causa do tal ocorrido. O problema foi em casa.
Uma crise econômica fez com que meu pai fosse demitido, ao lado da minha mãe, e eu fui transferida para uma escola pública. Ah, foi lá que conheci o amor, foi lá que comecei a construir minha personalidade, foi lá que as piores coisas aconteceram.
Lá, as garotas sangravam sem parar, o mundo era um caos sem paz, e eu era totalmente ingênua, indefesa, uma apalermada.
No meu aniversário de quinze anos, eu já estava com amigos de verdade, um pequeno grupo social no meio de centenas de grupos sociais. Levaram um bolo de chocolate na sala de aula e me parabenizaram. Foi emocionante e inesquecível, como todos os quinze anos de uma dama devem ser. Entretanto, o paraíso dos amigos não cobriu o inferno da família.
Desde o ano anterior, eu pedira a papai um lindo vestido de rendas e seda brancas que vi numa loja perto da esquina que levava ao nosso bairro, feito por uma senhora especialista em roupas femininas formais. Ele disse que era muito promíscuo da minha parte, mas que compraria de certeza. Quinze anos são datas cruciais, não são?
Ele não comprou. E com a crise, a tal compra estava fora de questão.
- Pare de ser tão egoísta, Maria Ana! Não vês que tenho que alimentar-te e alimentar tua irmãzinha? – dizia ele, como uma desculpa para o que ele se esquecera durante um ano. Eu jamais o perdoei por isso.
Numa tarde de sábado, no meu primeiro encontro, quando papai e mamãe saíram e eu fiquei tomando conta de Maria Alice, invadi o quarto deles e procurei suas economias. Encontrei uma considerável quantidade de dinheiro, numa lata de alumínio no meio de lençóis velhos e mofados. Peguei o quanto precisava para o vestido. Fugi e deixei Maria Alice sozinha em casa, e comprei o meu maior desejo. Quando pus as mãos nele, eu já pensava nas horas de uma noite estrelada e mágica de mãos dadas com o primeiro garoto que se interessara por mim.
Voltei para casa apenas para tomar um banho, mamãe e papai só chegariam pela meia noite, eu teria tempo suficiente para o encontro. Maria Alice, que já era uma garotinha esperta e inteligente, me prometeu que ficaria no seu quarto até a hora que eu voltasse. Pelo visto, alguma coisa estava dando certo na minha vida.
Cheguei num campo e depois Dante me levou até um horizonte onde podíamos ver a movimentação daquela pequena cidade. Dante era naturalmente cavalheiro e educado, e fora eu quem roubara um beijo dele. Enquanto o beijava, leves flashes do meu lar voltavam a minha mente, eu comecei a ficar preocupada com Maria Alice, e só então me dei conta do quanto estava sendo inconsequente.
Após o primeiro beijo, Dante não queria mais parar, e eu queria.
- Preciso voltar para casa. – sussurrei desesperada.
Ele não me ouviu.
Devia ser nove horas quando cheguei em casa, enfim, e senti um odor estranho e metálico. Chamei por Maria Alice e captei sua voz na cozinha. Uma boca do fogão estava ligada, ela acendeu um fósforo e deformou seu rosto.
Liguei para papai em meio a soluços e berros, ele e mamãe voltaram imediatamente. Mamãe levou Maria Alice para o hospital, enquanto papai me enchia de surra, e só então fui me dar conta de que ainda estava com o vestido, e ele estava manchado de sangue entre as minhas pernas.
Sangue.
Fui levada para um convento, meus pais mentiram sobre a minha virgindade. Nunca mais vi Maria Alice, nunca mais os vi.
É um pequeno trecho da minha história, de uma longa história. Uma história tétrica, assombrosa, um verdadeiro pecado original. Era tudo culpa do sangue. A realidade é um ácido na minha pele.




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Andrew Oliveira

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