Solitude, darkness and love


"I don't wanna admit, but we're not gonna fit"

domingo, 18 de setembro de 2011

Lacrimosa, O Trovador

Seth me deixou com a culpa e o frio.
E quem era eu para reclamar?
Mas naquele dia, eu ainda sonhava em abraçá-lo e sentir seu hálito no meu um pouco mais. Desejei fazer mais um sanduíche e vê-lo falar que me ama com a boca cheia, espalhando farelos na sua camisa e calça como uma criança desleixada. Provar dos seus calafrios e escolher cada gemido como algo especial. Eu era daqueles adolescentes repletos de jactância no peito, sem olhar muito para o horizonte ou sequer distingui-lo.
Acordei e a neve tinha ido embora. As ruas estavam úmidas e tudo derretia como um grande sorvete branco. O sol parecia até mais forte, como se tivesse sido fortalecido durante a madrugada para nos dar o grande presente que era a ausência de casacos no corpo durante o dia.
Saí de casa sem tomar café, com o objetivo de comer ao lado de Seth, como fizera no dia anterior, apesar de que a falta de cafeína no sangue me deixa muito lerdo até para uma simples caminhada. Fiquei imaginando o sabor do toque do seu velho violino, e a nossa canção agonizante.
Mas eu acordei atrasado.
Quando abri a porta do seu quarto, nenhum vinil fazia barulho e nenhum Seth me aguardava olhando a vista da sua janela. Era apenas uma corda e um corpo segurado numa corda.
Eu podia até escutar o som da gangorra enferrujada, e uma ou outra criança no parque em que íamos todas as tardes.
Uma vibração silenciou todo som que vinha aos meus ouvidos. E depois outra, e depois outra. A vibração se tornou um baque surdo e desesperador, que se multiplicou em mil e só assim pude perceber que era o meu coração.
O silêncio de novo.
Meus pulmões ofegantes rasgaram toda a atmosfera ao meu redor. Minha visão embaçou e eu não sabia se estava soluçando ou gritando. Sei que senti um peso no chão, meus joelhos doeram, eu devia ter caído. Sei também que engatinhei até o corpo flutuante e me levantei segurando suas pernas que balançavam no ar como um pêndulo.
Então eram realmente gritos, pois a vibração surda partira e tudo o que me restara fora um quarto frio e um corpo gelado sem o movimento que eu tanto necessitava para sobreviver. Minha garganta ficava cada vez mais rouca, mas aquilo pouco me importava. Eu o abracei e o segurei como se ele ainda estivesse vivo, ele estava apenas com uma cueca branca no corpo pálido. Era quase um anjo no mundo real.
Implorei pela sua vida como se aquilo fizesse alguma diferença, e inundei seu corpo pendurado de lágrimas quentes para tentar reaquecê-lo novamente.
- SETH! SEEETH!
Seth não respondia, e aquilo me deixava profundamente furioso. Mas a tristeza já havia cavado tanto a minha alma que não sobrou espaço para mais nenhum sentimento.
- VOCÊ ME AMA! ESQUECEU? VOCÊ NÃO PODE IR EMBORA DESSE JEITO!
No final de tudo, eu sempre imaginei que isso poderia acontecer. Eu era tão cego e estúpido que nunca olhei para todas as coisas que escureciam Seth e nunca tentei resolver. Covarde. Não, eu era pior do que covarde. Eu era fraco, impotente, um nada.
Depois de quase uma hora chorando como um bebê, eu me desvencilhei, derrotado, do corpo do meu namorado e desci as escadas com passos lentos. Consegui ter um pouco de voz para ligar e a ambulância logo chegou.
Eu podia ver pelas janelas da sala os vizinhos se aglomerando com curiosidade, enquanto eu apenas sentava na cadeira que eu costumava sentar e esperava por algo que não teria mais. Um enfermeiro parou na minha frente e perguntou se eu estava bem, é claro que eu não estava bem, não consegui falar mais nada e apenas balancei a cabeça.
Algo estranho ocorreu lá fora, boa parte dos vizinhos foi embora quando um carro chegou, eu compreendi no mesmo instante. Eram os pais de Seth chegando da longa viagem.
A mãe foi a primeira a abrir a porta e entrar com passos turbulentos no seu lar. Quando entrou, pôs a mão entre os seios ao ver vários paramédicos andando para lá e para cá. Ela me viu e se direcionou a mim. Seth havia herdado seus cabelos e seus olhos, até mesmo suas expressões de dor.
- Caim? – Ela havia me visto poucas vezes, mas conhecia o meu nome. Provavelmente acreditava que eu era apenas mais um dos vários amigos do seu filho. – O que está acontecendo aqui?
Meu rosto ficou tenso novamente, e mais lágrimas chegaram aos meus olhos inchados. Acho que consegui falar o que estava acontecendo, pois seu belo rosto também ficou horrendo com a chegada do pânico. De qualquer forma, a maca já estava sendo carregada escada abaixo, com Seth guardado numa grande sacola preta.
- Seth? Seth? – Ela balbuciou. – O que vocês estão fazendo com o meu filho? – Aquilo era impossível aos seus olhos. – PAREM COM ISSO! SAIAM DA MINHA CASA AGORA!
Nesse momento o pai chegou, com o rosto sério e duro, mas também com a visível dor no olhar. Segurou a mãe descontrolada e a abraçou com todo o amor que pôde oferecer naquele momento. A mãe ainda o espancou e o arranhou de todas as formas que conseguiu se mover, mas logo estava berrando e o abraçando também.
Ela rogou maldições ao céu como uma verdadeira bruxa, e então se atirou no chão para lamentar toda a culpa que nascia no seu coração agora. Dessa vez, o seu homem nada se pôs a fazer, pois não havia coisa alguma para fazer.
Fiz meus músculos voltarem a funcionar e me ergui da cadeira, fechando a mão em punhos e apertando-as na maior força que tinha. Flutuei com sutileza até a porta da sala para não mais incomodar aquelas pobres criaturas, mas a mãe rastejada foi até onde eu estava e prostrou a mão fina e longa sobre meu ombro esquerdo. Eu não olhei para ela.
- Agradeço por ter ligado, Caim. – Ela então forçou a voz rouca para que não chorasse enquanto falava. – Eu não conseguiria...
Mas era tarde. A vontade vinha como impulsos involuntários do corpo e transcorria pelas veias, mais rápida do que o sangue, causando uma eletricidade na nuca e um ofego no peito.
- Eu ligarei para você. – Ela disse, e retirou a mão do meu ombro.
Entendi aquilo como uma despedida. Voltei para casa da mesma forma que saí dela, a neve estava desaparecendo rapidamente, mas aquilo não se formava no meu campo de visão. Foi quase um instinto meus pés conhecerem o caminho de volta para o meu lar.
Entrei no meu quarto e me encolhi atrás da porta, encostado na parede, minha garganta só conseguia soluçar, meus dedos e minha boca tremiam e minha cabeça explodia, junto com o ar que eu sugava a minha volta e meus olhos que estavam prestes a se fechar para sempre, cansados de tanto derramar oceanos.
Com mais dificuldade consegui me arrastar até a cama, meu hálito saía frio e só então entendi: a janela estava aberta. Quando pensei em fechá-la percebi uma criatura branca que piava de uma forma gutural. Uma coruja. Deixei-a alí para me velar, entretanto, ela foi embora antes mesmo de ter tempo para isso.
Olhei para a minha escrivaninha e o estojo onde meu violino, que eu quase não usava mais, residia. Um estilete também estava em cima dela. Esse eu resolvi usar. Quem sabe a dor física superasse a espiritual, pensei.
Aproximei a lâmina da minha pele e então comecei a cortá-la. A cada corte eu ía mais fundo, meu choro não deixava espaço para eu pensar na dor lancinante que as aberturas no meu braço causavam.
Quando meu braço já estava feio o bastante. Fiz o mesmo com o outro, dessa vez tentando forçar minha mão que mais tremia do que cortava. Então fatiei como se estivesse usando um machado em vez de uma pequena lâmina.
A porta do meu quarto se abriu, era minha mãe, provavelmente meus gritos que eu não ouvia saindo da minha boca me acusaram. Ela pulou em cima da cama e arrancou a lâmina dos meus dedos elétricos, e depois me abraçou, sem se importar com o seu vestido caro ou suas jóias adornando seus pulsos ou sua expressão fria e despida de excessos.
- Caim! – Ela gritava. E nunca me senti tão ligado a ela até aquele momento. Meu nome sendo pronunciado por suas cordas vocais eram o verdadeiro milagre.
Ela enrolou duas toalhas nos meus braços o mais forte que pôde, e me levou de carro com toda a velocidade que pôde, atravessando sinais vermelhos e fazendo outros motoristas berrarem palavrões quando ela avançava em momentos indevidos. Senti-me fraco e pude ver pelo espelho retrovisor que eu estava mais pálido que um fantasma. Meus olhos estavam tão fundos que imaginei que fossem cavar seus nervos no meu rosto cada vez mais até desaparecer por completo.
Acordei e ela dormia numa poltrona desconfortável ao meu lado, com a cabeça pendendo para o lado, muito provavelmente teria um torcicolo desgraçado. Olhei para os meus braços enfaixados até a metade e só então me lembrei do porquê de estar lá. Um soro pingava naqueles suportes de metal, e um fino tubo acompanhado de uma agulha penetrada no meu pulso completava a missão.
Tossi e ela despregou os olhos, sorrindo para mim, o que achei ser outro milagre.
- Olá, filho.
- Oi mãe.
- O que aconteceu?
De novo aquela maldita ânsia de querer soluçar. Já estava exausto e me concentrei em apenas falar.
- O Seth.
- Seu amigo?
Hesitei.
- Pode me falar, Caim. Não vou fazer nada com você.
Esperei mais um pouco para recomeçar.
- Ele morreu mãe.
No mesmo instante ela se levantou da poltrona, horrorizada, e buscou meu corpo com seus braços ágeis para me abraçar. Aquele calor me tranquilizou mais do que pensei que o faria.
- Eu o amava mãe. – Minha voz saiu numa rouquidão patética.
Acho que ela estava chorando junto comigo, pois senti seu rosto úmido no meu pescoço. Ele me apertou ainda mais contra seu corpo e seu coração violentava o meu numa briga incansável.
- Eu sei, filho. Não havia mais nada nesse mundo que eu desejava a não ser a sua felicidade com ele.

~

A multidão se irrompeu em lágrimas e aplausos, a apresentação de Amaterasu, Caim e Bellenus fora a maior de todas até o momento. Caim foi o primeiro a se erguer, enquanto entregava o violino para um assistente, e fazia mesuras de agradecimento. Amaterasu guiou Bellenus até o centro do palco junto com meu namorado e também fizeram o mesmo. Algo que nunca imaginei jogarem rosas vermelhas para Caim, ou pelo menos estava com preguiça demais para isso.
Bellenus vivo, radiante, tão alto quanto a esplêndida Amaterasu, provavelmente estava com seus dezoito anos. Então aconteceu algo mais surpreendente do que sua presença: Amaterasu o beijou apaixonadamente, e ele correspondeu abraçando seu corpo. Isso durou pouco tempo, pois estavam sorrindo demais para conseguir se beijarem.
Fui chamado para ir para trás das cortinas, a pedido do “senhor Caim”, e acompanhei um dos vários assistentes com rádios até o local. Era quase como ver os bastidores de um filme, roupas e camarins para todos os lados, instrumentos em grandes estojos, arcos velhos e novos, cordas, pessoas para todos os lados. Eu estava bobo com tantas coisas bonitas em um só lugar.
Não tive muito tempo para isso, pois num segundo depois Caim me puxou com entusiasmo pelo pulso direito e entramos num camarim espaçoso e desocupado. Antes que pudesse dizer alguma coisa ele me encheu de beijos e abraços, emocionado. Nunca o vi demonstrar tantos sentimentos fortes de uma só vez. Apenas sorri como resposta, orgulhoso da apresentação do meu homem.
- Obrigado por ter vindo. – Ele disse, como se não tivesse feito tudo por mim há um dia.
- Você não precisa agradecer.
- Calado.
Rimos e nos beijamos logo após. Os beijos ficaram mais quentes e eróticos, Caim me segurou com força e pressionou suas coxas ardentes entre as minhas pernas frenéticas. Engoliu cada pedaço dos meus lábios como se estivesse loucamente faminto, um lobo selvagem entre quatro paredes, eu era sua mais desejosa presa. Seu hálito estava tão fervente que pensei estar me queimando, eu emaranhava seus cabelos penteados para trás e os deixava com uma aparência insana. Ele me puxava pela nuca e lambia meu pescoço, saboreando meu cheiro e chupando minha pele. Senti-me sem ar e ignorei as necessidades respiratórias. Eu só precisava da vida de Caim.
Ele desabotoou minha camisa e arrancou meu colete com uma habilidade admirável. Eu fiz o mesmo e logo estava sentindo o calor do seu peitoral e mordiscando com raiva seus mamilos duros, Caim gemia e pressionava sua mão na minha cabeça, fazendo-me ser afogado em pele e músculo, sangue e água.
Oceano.
Meu homem puxou o cinto da minha calça preta social e arrebentou o zíper com suas mãos fortes de veias. Eu beijei os músculos dos seus braços, sua barriga dura, suas axilas suavemente peludas. Segurei meus dentes com ferocidade no seu queixo dividido e sorvi a atmosfera perfeita do seu pescoço. Ele me carregou até a mesa onde residia o grande espelho bordado de lâmpadas e retirou minha calça de uma só vez, abrindo minhas pernas, arredando minha cueca, e engolindo meu sexo que não estava tão longe de explodir. Sua boca me umedecendo fez-me revirar os olhos e soltar gemidos rasgados, ele voltou a me beijar na barriga trilhando um caminho até meus ombros, e eu tinha certeza que ele havia engolido tudo o que eu expelira. Sua boca novamente se encontrou de uma forma rude com a minha e quando ele me pressionou contra seu corpo segurando-me pelas costas e sentindo minha grande cicatriz, eu parei e o afastei. Comecei a chorar como um bebê sem mãe.
- Eu... Eu tenho vergonha do meu corpo. – Minha voz saía numa tonalidade ridícula. – Não gosto da luz...
Ele segurou meu queixo com a mão cuidadosa e me obrigou a encará-lo.
- Então eu serei sua escuridão.
Seu novo beijo não foi excitado tampouco desesperado. Foi o sabor do seu amor por mim que senti em seus lábios feitos para se encaixar nos meus. Ele passeou suas palmas por toda a minha cicatriz como se ela fosse apenas um detalhe de um passado em que eu lutava todos os dias da minha vida tentando esquecer.
Eu me ajoelhei e o provei. Ele o empurrava com força na minha garganta e urrava em frenesi inacabável. Caim me carregou novamente e me atirou no sofá preto enfeitado de travesseiros retangulares e brancos. Experimentou meu íntimo e começou a me penetrar.
Eu mordi minha mão para evitar gritar e esperei até me sentir mais confortável. Ele ía e vinha com força e a cada minuto aproximava mais meu corpo no dele, naquele momento mais especial da minha vida. Minha primeira vez, e com Caim.
Ele me engoliu com sua língua enquanto ofegava e entrava no meu corpo, me abraçando cada vez mais forte e sentindo minha cicatriz no seu peitoral suado. Por que ele não se horrorizava mais ou se afastava de mim como uma pessoa normal o faria? Aquilo me deixou assustado, mas ao mesmo tempo fez-me sentir numa completude que eu jamais senti ao lado de nenhuma outra pessoa. Eu seria o seu pássaro despedaçado pelo tempo que durasse.
Agarre o poder fascinante da minha escuridão,
Ela surge em cada fibra do meu ser como as flores brotam da terra.
Eu poderei ser a sua navalha, o seu domínio, o eclipse que ferve o meu mundo,
E me estremece em ode ao teu poder,
Pois é assim que tudo termina,
Não com um sussurro, mas com o silêncio.




~






Andrew Oliveira

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