Solitude, darkness and love


"I don't wanna admit, but we're not gonna fit"

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Lacrimosa, A Neve

O inverno impiedoso lambia a janela de Seth como um enorme monstro invisível, esperando a presa sair da toca para devorá-la com seus dentes enormes e afiados. Seus olhos enevoados aguardando o momento chegar. Enevoados como os de Seth.
Ele ainda estava sentado na beira da cama e eu ainda permanecia com meu braço direito em cima dos seus ombros enormes.
- Eu queria ingressar numa faculdade longe dessa cidade. – Ele falou de repente, então me preparei para ouvir com atenção. – Meu irmão mais velho engravidou uma menina antes do tempo, e trouxe uma neta para os meus pais. Meus pais é claro, preferiram ela e meu irmão do que eu. Teve um tempo em que eu era o melhor aluno das escolas e era sempre motivo de orgulho.
“Então veio essa atração desgraçada por garotos. Mas continuei mantendo as aparências. Apesar de ser o melhor jogador de futebol daquela escola e passar parte do meu tempo livre transando com garotas, eu me sinto sufocado. Não é isso que eu sempre quis. Queria sair daqui pra sempre e fazer o que eu mais gosto, artes.
Quando minha mãe descobriu, ela me ordenou a não falar nada, ou meu pai me mataria de porrada. Eu continuei calado, é claro. Mas esse meu mundinho falso já estava me cansando...
Meu pai só queria saber de sustentar meu irmão, a mulher e a filha dele, como se fosse uma espécie de obrigação, e eu nunca entendi o porquê. Eu cometi meus erros, mas não são nada comparados a levar uma criança para casa, não é?
Falei para minha mãe que queria viajar e fazer meu futuro longe daqui. Por dois momentos ela concordou e me apoiou. No último momento ela desistiu, como sempre. Meu pai ainda tem a família medíocre dele pedindo dinheiro o tempo inteiro e essa droga de neta. Agora ele está falido, e eu não sei como sair daqui sem a ajuda de um deles.”
- Como você está agora? – Mal tentava pensar em alguma coisa boa o suficiente para confortá-lo.
- Eu percebi você. – Isso me deixou calado. – Você sempre estava assistindo meus jogos de futebol, até quando eu mal te conhecia. Eu sabia que de alguma forma eu poderia ser eu mesmo com você. E estou me sentindo tão leve agora ao seu lado que...
- Desculpe, eu não sei falar coisas confortadoras...
- Eu só preciso da sua presença, Caim, ela é o suficiente para me fazer sentir melhor.
- Faz pouco mais de dois meses que nos conhecemos, como você pode falar isso?
- Eu não sei. Há algo em você que me faz sentir melhor.
Por um mínimo instante pensei que tudo aquilo fosse um sonho, um devaneio estúpido de alguém que sonhou com um grande amor. Seth e eu não éramos um grande amor, mas era algo parecido com isso, que depois enfim se tornou amor, ou quase.
Ele me velou com sua paixão ocular e eu me transformei em água. Água do mar que afogou seu pescador.
Seth me abraçou e seu peso me fez deitar novamente na cama. Fechei os olhos e senti a maciez dos seus cabelos castanhos. Nunca imaginei que pudesse ter aquilo. E se imaginei, com certeza me repreendi depois por ter uma ideia tão improvável.
- Eu nunca tive certeza sobre o que fazer com a minha vida. – Eu falei, em tom de sussurro. Aquela ausência praticamente completa de barulhos da vida real estava perfeita. Seu quarto era um santuário de paz. – Na verdade, até agora eu não sei.
- Você poderia ser músico.
Seth escalou no meu corpo e colou sua boca no meu rosto.
- Não sei se a minha realidade é compatível com a arte.
- Eu sou?
- Também não.
- O que eu posso fazer, então?
Seu calor me pareceu tão grandioso que decidi não falar mais nada.
Mas eu pensei.
“Seja meu, por favor, pertença somente a mim.”
Talvez ele tenha escutado. Ele pode ter aberto a porta do meu esconderijo e alí ter descoberto a minha carta.
Por algum tempo eu pensei que meu sentimento de satisfação e completude era tudo o que eu precisava. Seth falava comigo normalmente na escola, mas raramente saíamos juntos para algum lugar, ele ainda tinha vergonha de se aceitar e vergonha de mim também, acredito.
Poucos meses se passaram até eu começar a me sentir tão sufocado quanto ele. Nossa vida se resumia e se mostrava entre quatro paredes, um banheiro e um tocador de disco de vinil. Aquilo era mais do que desesperador, era insuportável.
- Quanto tempo mais nós vamos ficar assim? – Eu dizia, e então ele fazia o gesto que eu mais odiava: abaixava a cabeça e por alí o assunto se finalizava.
Nossa relação escondida começou a piorar quando eu, atrevido e aborrecido, o beijei na frente dos seus “amigos” e garotas. Quando fiz isso pensei que ele pudesse finalmente tomar coragem e falar o que sentia por mim. Eu não queria apenas ser aquele amante na escuridão. Eu queria ser a sua luz.
Seth já não falava mais comigo na escola e raramente vinha me ver em casa. Quando vinha, quase não me beijava mais. Ele estava furioso comigo, mas o que mais eu poderia fazer?
- Eu quero que você seja o meu primeiro. – Eu disse, passando a costa da mão na sua bochecha áspera pelo crescimento da barba.
Ele me olhou com amargura, mas não desviou seu olhar para o chão.
- Primeiro no quê?
- A fazer amor comigo.
Não sei o que ele queria demonstrar, mas de qualquer forma suas palavras entregaram.
- Você não consegue pensar em mais alguém além de você mesmo? – Ele me perguntou.
Franzi o cenho.
- Por que tudo acaba em você? Por que de todos os problemas apenas os seus merecem atenção? Você nunca se cansa de ser tão egoísta?
- Eu não sou egoísta. – Ou não admiti que fosse.
- Não percebe que só tenho você nessa droga de cidade?
Corei, mas ele ainda não tinha acabado.
- Há quanto tempo você não me pergunta se estou me sentindo bem? Se eu gostei quando você me beijou na frente de toda a escola, como se a nossa vida fosse um belo romance adolescente?
Agora o meu rosto estava cheio de vergonha, mas ele não entendia que eu queria sempre o seu bem?
- Eu te amo, Seth.
- Pare de falar isso como se fosse uma coisa qualquer! Você é tão cheio de futilidades e vive falando de amor pra lá e pra cá e...
- Você não entende? Estou cansado de viver essa relação escondida, que me prende numa corrente no escuro e só há luz quando nos encontramos. – Agora era ele quem estava enrubescido.
- É impossível a gente viver juntos, seu idiota. – Ele vociferou.
- Não, não é! Porque você tem medo das pessoas! Porque você vive se importando com o que elas pensam, como se elas fossem donas da Verdade e apenas elas tem a Razão.
- Cale a boca! Você não passa de um filho único mimado e megalomaníaco que age sem medir consequências!
Agora ele estava em pé, meus braços abraçavam o ar. E então ele suspirou, convencido de que a conversa havia chegado ao fim.
- Encontre outro pra tirar a sua virgindade.
Ele desceu as escadas com pressa e dois minutos depois decidi ir atrás dele. Uma nevasca rugia lá fora e só depois me dei conta de que saí de casa sem camisa ou casaco, eu poderia pegar hipotermia no mesmo instante, mas preferi me importar com Seth, que ainda caminhava com determinação um pouco mais adiante.
Seth olhou para trás ao ouvir meus gritos e seus olhos se arregalaram, então ele disparou na minha direção e me cobriu com seu corpo e seu casaco molhado.
- Seu estúpido! Você quer morrer congelado aqui fora?
- Morra comigo.
- Pare de falar asneiras.
Ele me levou de volta pra casa, tirou seu casaco e o jogou no chão e imediatamente me pôs no chuveiro pra me livrar do frio com a água quente. Espirrei e ele limpou meu catarro com a mão, lavando-a depois.
- Não sei mais o que fazer com você, sabia?
Eu apenas me aliviava com a ducha no meu rosto. Tirei minha calça molhada e minha cueca e ele me trouxe uma toalha da minha gaveta. Seth se sentou no vaso sanitário e ficou me assistindo tomar banho, e sua presença me excitou.
Ele tirou sua camisa gelada e desabotoou a fivela do seu cinto, tirando o seu jeans como se cada segundo fosse um motivo para ficar mais excitado. Eu podia ver os mínimos detalhes do seu órgão em cima do pano do seu pequeno short, pulsando.
Seth me carregou até a cama como um bebê e me atirou entre os lençóis com suave maestria. Ele me beijou dos pés até as minhas pálpebras, e apertou sua mão entre as minhas pernas, me fazendo ter uma alta dosagem de calafrios.
Seth sugou todo o ar da minha vida com sua boca que poderia engolir até os meus pulmões, se ele quisesse. E quem era eu para reclamar?
~
- Ai!
- Pare de se mexer, sua cara vai ficar toda coberta de remédio. – Caim me chamou a atenção.
- De qualquer forma minha cara está toda arrebentada.
- Não tanto, só está um pouco inchada.
- Um pouco inchada? Parece que provoquei uma colmeia de abelhas africanas.
- Liber, você é bonito até com o rosto esfolado. – Ele disse agora sério.
Eu ri, um pouco discreto, mas logo se transformou numa gargalhada histérica. Caim, que estava puto da vida com a minha inquietação, começou a rir também, e ambos não sabíamos o porquê. Caim me deu um beijo na testa e então se ergueu como um verdadeiro cavalheiro decente.
- Preciso ir embora. – Ele falou. – Tenho uma orquestra para apresentar amanhã.
- Posso ir? – Fiquei cheio de expectativa.
- Com esse estado? – Caim franziu a testa, duas pequenas rugas de expressão se formaram nas bordas dos seus olhos.
- Isso não é relevante pra mim. – Fiz cara de quem não estava nem aí, e realmente não estava. Imagina ver o meu homem numa orquestra?
- Eu lhe dou um convite se você me fizer duas coisas.
- Quais?
- Se vestir adequadamente e me contar por que aquele homem entrou no seu apartamento pra lhe violentar.
Enrubesci.
- Eu não sei por que ele veio. Não o conheço.
Caim me olhou com tristeza, eu evitei engolir em seco pra ele não perceber o que eu estava omitindo.
- Talvez seja algum homofóbico que mora aqui perto.
- Acho que sim.
Ele se virou e abriu meu guarda-roupa, avaliando com desprezo para tudo que estava alí. Resolvi não falar nada até ele se pronunciar sobre o problema em questão. Caim me fitou com certa piedade no olhar, eu correspondi entortando a boca como quem diz “é isso aí...”.
- Você não tem nada?
- Acertou, campeão.
Caim revirou os olhos e bufou. Fechou as portas do meu guarda-roupa com discreta violência e então voou para a porta. O barulho da sola do seu sapato social revelava tudo.
- Venha, não tenho o dia inteiro pra ficar com você.
- Você vai sair comigo nesse estado?
Ele sorriu.
- Isso não é relevante pra mim.

Passei exatamente uma hora com Caim em várias lojas de grifes famosas, isso foi um pouco constrangedor, pois ele estava tão bem vestido perto da mim que mais parecia um mendigo, mas também foi de certa forma emocionante. Eu sempre ganhava livros de Abel na época em que ele era são, mas ele era meu irmão, não era a mesma coisa que andar por aí com um homem naturalmente cavalheiro e com dinheiro suficiente para comprar um par de sapatos sociais, uma calça, uma camisa esporte-fino, um colete, uma gravata e um terno para o namorado, sobretudo se o tal namorado estiver com o olho esquerdo e a bochecha direita inchados, e mais uns arranhões na pele.
Quando voltamos para o apartamento, ele pegou um saco térmico e pôs gelo, me obrigando a ficar deitado e colocando-o em cima do inchaço maior, como se eu fosse alguma criança peralta que teria que esperar se curar para enfim voltar a brincar.
- Me desculpe. – Eu disse, depois dos momentos de sorrisos terem cessado.
- Pelo quê?
- Quando você disse que me amava, e eu respondi que aquilo não era amor... Eu...
- Liber – Ele aproximou o rosto do meu. -, você é a segunda pessoa na minha vida em que eu declaro meu amor. E provavelmente será a última.
Aquilo me entristeceu, não uma tristeza destrutiva, mas uma espécie de culpa com arrependimento. Mas a tristeza se mesclou com a alegria que era ouvir aquilo, era quase um avanço.
- Você teve paciência comigo, esperando todos os dias a minha presença na rua, a minha decisão se eu iria ou não me envolver com você. E eu não estou nada arrependido de ter feito isso. – Ele continuou.
- Você é demais pra mim. A última pessoa que me amava me estilhaçou por completo.
- Liber...
- Eu sou só uma cidade destruída, Caim... Cinzas de uma guerra sem sentido...
Caim me beijou na testa, e então encostou os lábios no meu olho não-inchado, até descer à minha boca e apertá-la com a sua. Tão cuidadosa e esperançosa. Tão minha.
- Eu acho que por debaixo das cinzas ainda existe brasa queimando...
Meu coração se contorceu na minha caixa torácica.
- E quem vai querer andar nas cinzas em busca de uma mínima centelha de fogo?
Ele parou de me beijar e segurou a minha mão, colocando-a no seu peito, respondendo a minha pergunta.
“Eu”, seu olhar falou.
- Andaria descalço sobre a cinza e a brasa, por alguém como você vale a pena algumas queimaduras.





~






Andrew Oliveira

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