Solitude, darkness and love


"I don't wanna admit, but we're not gonna fit"

domingo, 11 de setembro de 2011

Lacrimosa, A Janela

Entrei no seu quarto desorganizado, Janis Joplin rasgava sua voz numa canção inquieta no velho tocador de vinil, e Seth residia numa cadeira perto da janela. Nove da manhã, a neve descia como flocos de algodão lá fora, em meio a suave ventania cáustica e abusada. Molhei meus lábios secos com a língua e esperei ele fazer ou falar alguma coisa. Ele era um boneco de porcelana olhando para o nada.
- Acho que estou condenado a ficar nessa cidade pelo resto da minha vida. – Seth descansou os ombros tensos.
Eu engatinhei na cama até chegar nele, e abraçá-lo por trás, me agarrando no seu pescoço. Senti seu cheiro matutino, que para mim era mais um aroma, e beijei sua orelha gelada, ele me deu mais espaço para encaixar meu queixo perto do seu rosto, mas não parecia muito empolgado com isso. Minhas mãos deslizaram no seu peitoral nu e exploraram seus músculos com suavidade. Ele ainda estava com o olhar vazio.
- O que eu posso fazer por você? – Perguntei com tranquilidade.
Seth não respondeu, apenas tirou seu corpo da cadeira e me deitou sutilmente na cama, iniciando seu ritual de beijos afetuosos que pouco a pouco ficariam fortes. Passeei meus dedos nas suas costas na trilha das suas vértebras e cheguei às suas nádegas, apertando-as e depois segurando seu órgão entre as coxas. Ele virou meu rosto com força e, acariciando minha orelha, chupou meu pescoço e tirou minhas roupas de cima, lambendo meus mamilos e fazendo uma trilha de beijos na minha barriga. Depois senti aquela sensação úmida e quente no meu íntimo, engolindo as fibras da minha vulnerabilidade, me fazendo gemer e morder a pele da costa da minha mão, enrubescendo-me por completo. Desfaleci-me mais alto para anunciar a chegada do meu ápice, e Seth voltou para a minha boca e penetrou sua língua entre os meus dentes, fazendo-me sentir meu próprio gosto. Forte e agridoce.
Ele se deitou ao meu lado e me agarrou com força, como se eu pudesse fugir a qualquer momento. Então ficou somente a afagar meus cabelos louros por um bom tempo. Coloquei minha cueca de volta, mas permaneci sem meu jeans, enquanto ele estivera o tempo inteiro com um pequeno short preto.
- Não faça nada. Quem está perdido sou eu.
- Eu poderia lhe procurar, se você quisesse.
- E o que você encontraria?
Não soube responder, ou não queria. Há pouco tempo os “amigos” de Seth não falavam ou ligavam mais para ele, nenhuma garota se interessava em transar e sua bolsa de estudos que ele ganharia ainda jogando futebol estava fora de questão agora. Ele era somente meu agora, mas por que não me sentia vitorioso? Seria esse o preço do egoísmo?
Eu não me importava com a carreira de Seth, eu o queria e não gostava de compartilhá-lo com ninguém.
- Acho que já encontrei. – Respondi.
Seth me deu um longo e profundo beijo, como se aquele fosse o último, e fizemos amor. Tomamos um banho quente juntos e depois descemos para preparar alguma coisa e almoçar. Sanduíches de frangos e um ou outro molho pra deixá-los mais suculentos. Seth comeu com violência e me ordenou a fazer mais. Aquele era um dia simples, porém feliz. Eu passaria o resto da minha vida naquela casa, fazendo almoço para o meu namorado, e o amando.
- Você cozinha bem demais. Porra, eu vou engordar desse jeito.
- Atletas não engordam. – Eu disse com certa ironia.
- Faz duas semanas que não sou chamado pra treinar. – Ele disse, fazendo uma leve textura de tristeza surgir na minha testa, e depois desaparecer.
- Você poderia tentar outro esporte. – Palpitei.
- Acho que não, eu só sei jogar futebol.
Virei-me e entreguei o prato com um considerável sanduíche para ele. Ele mordeu e então falou com as bochechas inchadas, sorrindo como um molequinho:
- Eu te amo, Caim.
Sentei na cadeira de frente pra ele e fiquei admirando suas mastigações, dando um leve sorriso em resposta. Meu coração estava quente, confortado, mas também cortado, com medo de ter um ferimento maior. E tudo por culpa minha. Eu não deveria reclamar do peso que estava sentindo.
- Quando seus pais voltam de viagem? – Mudei de assunto.
- Amanhã. – Ele cuspiu farelos de pão na mesa, eu ri.
Certa vez, aos braços de Seth, eu tive um sonho estranho. Ele estava numa ruela escura, e caminhava com medo, quando me alcançou, a sombra de uma corda se enlaçou nos seus braços e ele desapareceu. Eu vi uma coruja branca voar no céu sem lua e pousar numa janela aberta. Então acordei, suado e nervoso, sem saber o porquê.
A sua expressão no meu sonho agora aparecia de vez em quando na vida real, e nos momentos em que ele percebia a minha observação, parava e se esvaía num sorriso.
Depois de termos passado fio dental e escovarmos os dentes, Seth me pediu para tocar com seu velho violino. Eu não compreendia o fato dele ter um instrumento e não saber usufrui-lo, então perguntei.
- Era da minha melhor amiga, ela foi embora e me deixou esse violino como lembrança. Mas desde então, nunca mais falei ou me encontrei com ela.
- Você nunca fez questão de aprender a tocá-lo?
- Não. Prefiro ouvir você tocando.
Aquilo me deixou vermelho, porém satisfeito. Não se passou muito tempo até ele tirar o violino e o arco das minhas mãos, e guardá-los no seu baú preto debaixo da cama. Ele gostava quando eu tocava Lacrimosa, de Mozart, mas aquilo sempre o deixava mais mal do que já estava.
Seth e eu transamos durante a tarde inteira. Não esperávamos dez minutos de descanso até voltarmos a nos beijarmos e penetrarmos. Todo o meu corpo estava com odor de sexo, mas aquilo era irrelevante para a vontade e o desespero que eu tinha de tocá-lo o tempo inteiro.
Sua cama já estava nua de lençóis, e nós estávamos banhados apenas com o suor um do outro. Ele me carregou e me sentou na janela, colidindo minhas costas ardentes no vidro gelado, enlouquecendo-me de calafrios, abriu minhas pernas e me descobriu com agressividade. Seus olhos exibiam sua necessidade de prazer instintivo com as pálpebras trêmulas enquanto ele me inundava de beijos e mordidas. Eu tentei abraçar seu corpo por completo, mas tudo o que podia fazer era arranhar suas costas, como se quisesse entranhar minhas unhas na sua pele e segurá-lo até a eternidade. A janela já estava abafada de hálito.
Ele me carregou novamente e me jogou no chão, urrando em êxtase, me posicionando de quatro e apertando seus dedos na minha cintura para me segurar e não reclamar. Eu não reclamei em momento algum. Seth usou a sua língua para umedecer o meu íntimo e só então fez novamente o que fizera por horas. Mordi meu braço e aguentei a dor, que tão logo virava um prazer absurdo. A sensação de tê-lo dentro de mim afogava toda a tristeza que eu escondia, e a transformava em sussurros que desapareciam na ventania da nevasca.
A neve era o nosso amor.
Quase satisfeito, ele se despregou do meu corpo e buscou outro preservativo na gaveta, enquanto eu levantava do chão, com o coração descompassado e a vista turva. Antes que pudesse fazer alguma coisa, eu beijei suas coxas suadas, cheguei ao seu órgão cansado, e o acendi novamente com a minha boca. Eu o suguei e explorei cada pedaço da sua pele, senti a máxima rigidez antes de Seth chegar ao céu novamente, sujando o meu rosto com seu prazer involuntário. Seth me puxou pela cintura e colocou o preservativo em mim, ofegando e tentando falar que era a minha vez.
Meu namorado se deitou na cama ausente de cobertas enquanto eu escalava nos seus músculos. Ele afastou as pernas e colocou seus pés nos meus ombros, enquanto eu o descobria devagar, deixando-o se acostumar com o meu tamanho. As suas costas molhadas e suas nádegas cheias e musculosas em movimento expostas aos meus olhos esfomeados me deixaram em frenesi. Fui tão forte quanto ele, talvez até mais. De início eu o fiz gritar, entretanto, seus ecos se tornaram arrepios obrigando seu corpo a se movimentar freneticamente com o meu.
Eu me desprendi do seu calor apertado e quente e ele entendeu. Tirei o preservativo e banhei sua barriga e seu peitoral com a consequência do meu ato. Deitei-me sobre todos os fluidos do nosso dia selvagem e o beijei, querendo mais, porém mal me aguentando deitado.
Cinco da tarde.
Tomamos outro longo banho e saímos para um velho parque alí perto. Brincamos de guerra de bola de neve e fizemos um pequeno e horroroso boneco, com olhos e nariz de pedra, sem boca. Sentamos naquele frio dos infernos e assistimos o sol se pôr entre as árvores esqueléticas, escurecendo cada vez mais quando descia sob os tetos das casas. Ao longe, uma ambulância entoava sua canção de desespero, como anjos tocando trombetas tristonhas naquele céu preto e branco.
Meus pulmões estarreceram com sutileza, talvez porque eu estivesse feliz demais para acreditar em tudo aquilo, ou porque ainda me sentia culpado por ser tão egoísta com a única pessoa que me tratava bem. Pedi para Seth para voltarmos à sua casa, e voltamos.
Ele se deitou no sofá e eu deitei em cima dele, me acalmando com o calor íntimo da sua pele, a sua respiração quente no meu cabelo, suas mãos pesadas me segurando, e a sua alma incendiando a minha.
Ele era cego por mim, e nunca soube se aquilo fez bem ou mal para si mesmo, ou eu simplesmente não quisesse pensar muito nisso.
- Aonde isso vai acabar? – Eu sussurrei. Talvez ele tenha sentido as vibrações das palavras no seu peito, porque minha voz era quase imperceptível.
- Não vai acabar.
- O que nós somos, Seth?
- Nós somos apenas dois gladiadores romanos numa arena, Caim. Sendo assistidos pela multidão que espera ver o nosso sangue.
Uma arena cheia de leões famintos, pensei.
- Não quero o seu sangue.
- Caim, eu te amo tanto que poderia morrer.
- Você vive falando isso.
- E você nunca dá atenção.
~

Coloquei o colete impecável em cima da camisa branca social, e admirei os inchaços, agora consideravelmente menores, no banheiro, Caim tinha razão, bastava eu ficar comportado na minha cama que melhoraria e eu ficaria decente visualmente para a sua apresentação, se passasse uma tarde inteira com um saco de gelo no rosto. Eu não passei, porque precisava escrever e não queria nenhuma mão ocupada, mas fiquei pouco mais da metade da tarde, isso é um avanço, não?
Sentei-me e calcei o par de lindos sapatos pretos que ele também teve o cavalheirismo de comprar pra alguém como eu. Eram tão negros e lustrosos que tive até dó de usá-los, e empolgação também.
E parei, olhei para a porta agora trancada por um instante. Senti medo que ela fosse esmurrada com violência, e de seus escombros surgisse Abel furioso como um tigre que tem seu território invadido, ou seus filhotes capturados.
Ontem foi um dia tão assustador que eu passara a madrugada tentando tirá-lo da cabeça. Mas não mudou muita coisa.
Tomei outro banho de perfume e, colocando o terno por último, saí e desci as escadas. Para minha pouca surpresa, um táxi me esperava na frente do apartamento. Eu ri, pensando no sorriso cínico de Caim, e entrei no automóvel. Acho que nunca tive um dia de tanto luxo e cuidado assim. Aquilo era maravilhoso demais.

O auditório tinha uma arquitetura tão clássica quanto o apartamento de Caim, repleto de lustres e até candelabros enfeitados com velas, a iluminação era fortemente amarelada e branca, escadas para todos os lados, e até mulheres com vestidos de época. Aquele devia ser um evento à caráter, com tema e tudo mais. De qualquer forma, as roupas sociais masculinas não mudaram tanto com o tempo, e eu estava vestido tão bem quanto os homens que caminhavam no grande salão a passos largos.
Não sabia por onde começar, eu estava perdido e as apresentações iriam começar em poucos minutos. Não conhecia nada até que surgiu Amaterasu, a amiga do meu namorado, para salvar a minha vida.
- Liber, que prazer vê-lo aqui! – Ela me deu um abraço apertado, estava com um longo vestido negro e os ombros à mostra, a aparência de deusa como sempre.
- Amaterasu... Você sabe...
- Sim, é claro. Eu vou cantar. Venha, lhe mostro um bom lugar para você assistir a nossa apresentação. – Ela deu um gritinho de alegria e me levou à longa escada do centro do salão. Por que eu não pensei nisso antes?
Amaterasu me guiou até os assentos que ficavam de frente para o grande palco. Por sorte, ainda havia um lugar para eu me sentar. Pude ver os violoncelistas chegando e sentando, e depois os violinistas, mas Caim não estava entre eles. Chegaram também os tocadores de flautas transversais, entre outros instrumentos. A multidão conversava com empolgação, mas num instante se silenciou, pois quase todas as luzes se apagaram, e o espetáculo começou.
A orquestra começou a tocar com sutileza, arranhando os violinos em agudos chorosos, sendo cobertos em seguida pelos violoncelos mais vibrantes, e um ou outro tambor também se juntava a canção. As cortinas se abriram e dois dançarinos surgiram em passos pecaminosos, um homem com uma máscara branca e uma mulher com maquiagem forte, movimentaram seus corpos numa sincronia perfeita que somente anos de dança poderia ser capaz de sintonizar.
Após longos minutos, a orquestra foi embora e as cortinas se fecharam, para abrirem mais devagar desta vez. Uma voz iniciou seu soprano poderoso, logo reconheci que era Amaterasu. Enquanto o palco voltava à mostra, ela caminhava com exatidão. Seus longos cabelos estavam formados em pétalas, como uma flor desabrochada, sua pele negra refletia a luz do holofote ainda mais, sua voz era um absurdo.
Quando as cortinas se abriram por completo, Caim surgiu sentado num banco tocando seu violino. Aquela música se chamava Lacrimosa, e estava sendo acompanhada por um piano também, mesmo que a versão original não o tivesse.
Outro holofote se acendeu e iluminou Caim, que piscou com desconforto por um instante, mas sem perder a concentração da música. O último holofote se posicionou no pianista, que usava uma meio-máscara branca, como o fantasma da ópera. Seus olhos claros não olhavam para as teclas pretas e brancas do grande instrumento, na verdade não olhavam para nada. Porém, seus dedos eram ágeis e experientes, deixavam a lacrimosa de Mozart como uma canção ainda melhor.
Sua paixão pela música era tão forte e tão explícita que fiquei comovido, era uma necessidade ele estar alí tocando como um louco. Eu poderia me apaixonar perdidamente por ele e esquecer Caim, se aquele pianista não fosse Bellenus, meu irmão mais novo, cego e adormecido no luto, mas despertado para me destruir.







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Andrew Oliveira

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