Solitude, darkness and love


"I don't wanna admit, but we're not gonna fit"

domingo, 14 de agosto de 2011

Lacrimosa, O Primeiro

Quando acordei, Abel fazia a barba no banheiro, enrolado numa toalha branca. Há algum tempo ele não me acordava com um beijo na bochecha e nem dizia “está na hora de tirar a areia do Sandman dos olhos”, ou qualquer coisa parecida. Era apenas o cheiro de pães quentes e o silêncio que me fazia despertar. Abel se tornara uma criatura despida de excessos, ou quase isso.
- Olá. – Eu bocejei.
- Bom dia, Liber. – Ele se concentrava na barba com poder, para não ter que conversar muito.
- O que você vai fazer hoje?
- Apenas ir trabalhar.
Levantei-me, havia um jornal ao lado dos pães anunciando uma notícia sangrenta na polida primeira página. Um grupo de rapazes fora assassinado brutalmente, e todos, segundo o legista, foram estuprados cruelmente antes de morrer. Suas tatuagens nas costas constatavam que eram neonazistas, e fontes afirmavam que eles costumavam atormentar qualquer pessoa que passasse pelos seus caminhos. Poderia ser qualquer grupo de jovens skinheads, mas aquela cidade não era tão grande quanto parecia.
Não sei se sentia alívio ou dor. Eu era ausente desse sentimento de vingança, de ressentimento, por mais que eu quisesse ter não conseguia. Se eu estava aliviado, não sei, mas se estivesse não seria cem por cento. Poderia surgir outro grupo de jovens rebeldes e donos da verdade a qualquer momento. Não?
Entrei no banheiro para escovar os dentes e Abel já estava na banheira, sentado, com o queixo entre os joelhos, sem ter certeza do que estava pensando, acho que sequer estava pensando. Seus olhos pareciam tão vazios e sua expressão tão dura... Não sei o que estava acontecendo, ou talvez soubesse, e estivesse com medo de pronunciar aquilo em voz alta.
Tirei minha camisa de manga longa de costas para meu irmão. Eu estava despreocupado, ele não, era esse o problema, eu acho. Ele voltou a si quando mostrei minha enorme cicatriz nas costas como se ela nem estivesse ali. Voltei-me para ele e sua cabeça estava afundada na água, assim como quase todo o corpo, exceto os braços que seguravam as bordas da banheira para impedi-lo de voltar à superfície.
Eu esperei quase dois minutos até me dar conta do que estava acontecendo. Corri naquele mínimo espaço e escorreguei, me sustentando na banheira, chamando Abel que borbulhava e engolia a água com uma tranquilidade desesperadora.
- ABEL! ABEL! – Meu coração acelerou e não me deixou ver nada claramente, mas consegui puxá-lo segurando seu pescoço e o abraçando com força. Abel sugou todo o ar a sua volta e então me empurrou. Ele começou a gritar e chorar ao mesmo tempo, balançando a cabeça para frente e para trás num descontrole ímpar. Depois se silenciou por um único segundo e recomeçou sua loucura dando socos na parede lajotada, manchando-a com o sangue do seu punho esfolado. Havia parado de gritar, mas ainda estava se ferindo como se nem sentisse o que estava fazendo.
- Por favor... Pare! – Eu implorei, soluçando, e me reerguendo para tentar abraçá-lo mais uma vez.
Abel voltou a me empurrar com o outro braço musculoso, mas eu não desisti. Levantei quantas vezes foi preciso até conseguir fazê-lo olhar para mim, e parar. Ele estava estático, parecia que sua alma estava longe e aquele corpo fosse só uma concha vazia. Mas então acho que percebeu o meu calor agarrado no seu corpo molhado, e finalmente piscou. Abel não era mais tão bonito e saudável como antes, estava mais magro e vivia com olheiras, sua aparência estava beirando à morbidez.
- Abel... – Eu continuava soluçando.
Ele apenas deixou a cachoeira nos seus olhos seguir seu rumo, e então levantou os braços e também me abraçou, tranquilizando-se com meu calor que ele tanto conhecia. Estava trêmulo, e com certeza não era pela água, pois esta se sentia quente. Suas mãos passearam na minha cicatriz e ele chorou ainda mais. Eu não sabia o que dizer ou o que fazer com ele. Abel agora era uma criatura tão confusa e enigmática que eu acertaria dois pensamentos se ele pensasse cem vezes.
- O que eu posso fazer se não consigo nem protegê-lo?
- Você faz mais do que me proteger, Abel. Você me ama.
- Mamãe sentiria vergonha...
Afastei-me dele.
- Ela teria muito mais orgulho de você do que teria de mim.
- Como você sabe?
- Toda vez que ela vinha me buscar na escola, dizia que você era o maior homem que ela já conheceu.
Seu olhar cansado tentou expressar espanto, acredito. Abel deu um meio sorriso torto, nessa hora seu coração deve ter se aquecido, evaporando a correnteza fria que passava por ele. Com calça e tudo, eu entrei na banheira e deitei em cima dele, respirando com lentidão no seu pescoço. Eu poderia dormir ali mesmo, acreditando que eu sempre poderia controlá-lo de todas as formas, acalentá-lo sempre que ele precisasse, transformar sua ira em abraço, sua dor em sorriso.
Mas eu não era um salvador. Eu mal conseguia me tirar do meu próprio abismo. O que seria de Abel?
No fim de tudo, eu era igual a ele, vivia com medo de nos separarmos, ou sermos afastados pelas ondas desse mar furioso que era nossa vida. Mais desgraça do que vitória. Lucas tinha razão, o mundo era a própria tristeza.
Quando percebi, eu estava hesitante em seguir meu próprio rumo. Para Abel tudo voltou a se normalizar, em uma semana ele já estava melhor e sua pele debaixo dos olhos já não era tão cansada. Ele desabafou e passou toda a sua dor para mim sem perceber, e eu a aceitei sem sequer senti-la, pois ela cresceria mais tarde dentro do meu peito e se tornaria insuportável pelo tempo que eu aguentasse.
Foi na minha falsa felicidade que eu descobri o porquê de seu ataque na banheira.
Sigel, o que trabalhava no bar com Abel, certa vez me perguntou se eu tinha gostado do castigo que o grupo de skinheads recebera. Eu não entendi a pergunta, e questionei sobre por que estaria.
- Abel não lhe contou? Eu conheço uns caras barra pesada nessa cidade, talvez os piores. Seu irmão me deu uma boa quantia de dinheiro e eu os contratei para aquele pequeno serviço. – Seus olhos brilhavam de emoção.
- Isso é verdade?
Sigel me olhou assustado, não estava entendendo minha reação, afinal, eu deveria saber que meu irmão havia contratado assassinos para sua vingança. Agora eu imaginava o quanto a sua consciência deveria estar pesada, ou aliviada. Abel limpava os copos com um pano do outro lado, eu o encarei e ele sorriu para mim. Um sorriso que logo se desfez, pois ele percebeu a minha expressão.
Saí da boate e caminhei a passos largos na rua gelada, Abel corria atrás de mim e logo me alcançou, imobilizando minha caminhada veloz com sua mão no meu ombro.
- Você pode ser preso, sabia?
- Liber eu...
- Nunca passou pela sua cabeça sobre o quanto essas pessoas são perigosas? Nazistas ou não?
- Liber, eu posso explicar...
- Explicar o quê? – Levantei as mãos como que questionando o ar. – Não há nada pra explicar!
- Liber, me deixe falar...
- Não tem o que falar, Abel! – Minha raiva borbulhava por todo o meu corpo. – É isso que você chama de proteção?
- Liber! – Ele transformou sua expressão de piedade em fúria.
- Isso já tinha acabado, mas você recomeçou, e da pior forma, matando!
- Eu não matei ninguém!
- Não, claro que não! Só pagou pra matarem! Que diferença faz?
- Liber! Isso nunca iria acabar!
- Eles estavam em outra cidade, porra! Se ainda estivessem aqui teriam certeza que iriam ser presos!
- Deixa de ser otário! Se eles não estivessem mortos agora, estariam fazendo mal a outras pessoas!
- Nossa! O que você virou agora? Altruísta? Quantas pessoas mais você vai mandar matar? Existe muita gente assim, sabia?
Abel me deu um soco no rosto, cambaleei e me encostei-me à parede de um armazém fechado. Suas mãos estavam trêmulas novamente.
- EU NÃO SABIA O QUE FAZER! – E então ele respirou fundo. – Eu não suporto ver essa cicatriz nas suas costas todos os dias, esse seu silêncio que tenta esconder tudo o que você sente... A única maneira que encontrei de acabar com tudo isso foi essa! Se eu não consigo protegê-lo, deveria tentar pelo menos fazer outra coisa!
- Abel, você não pode me proteger do mundo! Esse tipo de coisa é inevitável! Pare de achar que é meu anjo da guarda! – Minha raiva estava se cansando. – Eu tenho medo de seguir meu rumo por causa de você, não sei o que você pode fazer e... – Foi então que percebi o que tinha acabado de falar. Abel franziu o cenho e se aproximou do meu rosto, seu nariz encostando-se ao meu.
- Você quer ir embora? – Sua voz estava quase desaparecendo.
- Não foi o que eu quis falar...
- Você quer ir embora? – Ele perguntou de novo.
Silenciei-me. Abel entendeu isso como um sim, e então depositou sua cabeça no meu ombro. Mas eu não o abraçava, ele também não.
- Eu não posso deixá-lo ir. Não consigo.
- Você é meu irmão, Abel. Não um maníaco obsessivo.
Ele se afastou e se sentou na calçada, sustentando seu peso num pequeno poste de ferro que iluminava aquele local.
- Abel...
- O que eu sou, se não posso protegê-lo?
Silêncio.
- Eu não conseguiria viver sem você.
- Não fale isso. Você está me machucando.
Ele ergueu o rosto derrotado.
- Machucando? Eu nunca quis te machucar.
- Abel, não posso passar minha vida inteira com você.
- Você é a única coisa que eu tenho, Liber. Você é a minha família.
- Mas eu não sou seu pássaro, Abel. – Minha voz estava tão baixa quanto a dele, mas ambos nos entendíamos.
- Me perdoa. – Ele sussurrou.
Eu também abaixei a cabeça, meditando sobre o que havia falado. Sim, é claro que eu era o seu pássaro. O seu pássaro que cantava um réquiem quando ele não estava por perto.


O telefone chamou, esperei ele tocar duas vezes até atender. Já imaginava quem era, ou ao menos esperava que fosse. De qualquer forma, acertei. Era Caim.
- Oi. – Eu disse.
- Venha para o meu apartamento, agora. Estarei te esperando. – Ele falou, e num segundo depois era só eu segurando um telefone mudo.
Havia se passado dois dias desde a nossa discussão, pensei que ele nunca mais quisesse me ver, ou que simplesmente tinha me esquecido como se eu fosse um nada. Eu nunca tive muito talento pra compreender as pessoas.
Caim, o louro de vinte e oito anos que mudara a minha vida em pouco mais de dois meses. Céus, eu estava cansado de ter problemas com homens.
Desci as escadas e penetrei na tão conhecida ruela, em poucos minutos já estava subindo outras escadas, as que levavam a Caim. Hesitei por um breve momento, pensando que fosse ser recebido com um sorriso e um abraço, mas logo apaguei aquele pensamento absurdo da cabeça.
Bati na porta três vezes, e no mesmo instante ela se abriu, ele estava apenas com uma calça jeans preta e com os pés descalços. Seu corpo era mais bonito do que eu imaginava, provavelmente até mais do que o de Abel, mas pude perceber várias cicatrizes horizontais e verticais nos seus braços, formando alguns crucifixos tortos ou até mesmo um longo xadrez. Só que não tive muito tempo para me concentrar em devaneios sobre o que causara aquilo. Ergui o queixo e olhei pra ele. Sério, rígido, inexorável.
Ele saiu da minha frente e abriu mais a porta, sem falar nada. Entrei devagar e a porta foi fechada com leveza. Caminhei até o seu grande e belo quarto, e ele vinha atrás de mim. Quando cheguei, me sentei numa poltrona e esperei ele falar. Até aquele momento eu ainda não tinha encarado seus olhos, e não sabia o que pretendiam.
- Levante-se.
Finalmente o fitei, Caim continuava sério, não expressava raiva, tristeza, alegria. Nada. Uma estátua de mármore em movimentos discretos.
Levantei-me e ele se aproximou com passos capciosos, abaixei a cabeça novamente e ele a reergueu segurando o meu queixo com uma suave força. Então ajeitou suas mãos e tirou meu casaco. Agora estava apenas com uma camisa de manga longa no corpo. Caim tentou tirá-la também, mas eu me afastei da sua presença assustadora. Ele me encarou com fúria e eu abracei a mim mesmo.
Caim partiu para cima e me atacou com suas mãos habilidosas, eu ainda segurava minha camisa e apertava meus olhos. Foi a vez dele se afastar, ofegante.
- Você me provoca e agora não quer que eu te toque?
- Não quero que você me veja na luz.
- Você quer que eu te veja como, então?!
Não respondi. Caim retornou seu ataque de grande pássaro negro com garras afiadas no meu corpo e eu gritei. Ele me venceu e arrancou minha camisa com fúria. Caí de joelhos no chão e chorei. Nada disso era relevante pra ele. Nada disso tinha sentido e tudo seria ignorado como se fossem coisas sem importância.
Ele também se ajoelhou, perto o suficiente para me tocar. Eu não sentia prazer algum com seu calor e com suas mãos, tampouco com seus beijos agressivos no meu pescoço. Apenas chorava e ele se divertia com a cena. Ele passeou seus dedos ágeis nas minhas costas e sentiu o que eu temia que ele visse. Mas acho que não deu importância também, pois tirou suas calças e as minhas. Rasgou minha cueca e arredou a sua para o lado, exibindo seu órgão grande e enrijecido, melado. Meu pânico estava cada vez maior. Não queria transar com ele, não naquele estado deplorável, nem com o meu rosto inchado de lágrimas.
Ele apenas parou quando me virou de bruços e viu minha enorme cicatriz enfeitando a minha pele. A minha voz se transformava em choro e eu não conseguia mais pedir pra ele parar. De qualquer forma, ele parou, e muito provavelmente admirou com horror a marca do meu passado obscuro.
Ele me virou de novo, como se eu fosse leve e facilmente maleável, e finalmente se concentrou na minha amargura. Foi quando sua expressão se suavizou e se formou nas bordas dos seus olhos e na sua boca, a culpa.





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Andrew Oliveira

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