Solitude, darkness and love


"I don't wanna admit, but we're not gonna fit"

domingo, 21 de agosto de 2011

Lacrimosa, O Destruído

Minha vida é um conjunto de mentiras tórridas, uma paixão que morre antes mesmo de nascer. Um pedaço de vidro penetrado na pele, ou a necessidade do calor de qualquer forma. Minha mãe e meu pai não passavam muito tempo em casa. Meu pai vivia caindo e se rastejando em bares deploráveis, e minha mãe só falava comigo para perguntar como estava o meu progresso na Escola de Música.
- Caim, a professora falou alguma coisa sobre você hoje? – Ela dizia sem nem mesmo me olhar.
- Eu estou na frente da turma, mãe. Ela acha que eu devo pular de nível, mas só se eu estudar mais para as aulas teóricas. – Eu respondia.
E então entrava no seu quarto e só saía de manhã cedo para me acordar. Eu não odiava minha mãe, precisava dela para tudo e ela queria resultado do seu trabalho para comigo. Mas eu necessitava de algo que só mais tarde consegui definir, afeto. Nunca soube se ela tinha afeto por mim ou por alguma outra pessoa. Acho que ela passava o restante do dia fora de casa porque tinha medo que meu pai a maltratasse.
Ela era um verdadeiro contraste, comigo parecia tão fria e com ele parecia um cãozinho de orelhas cabisbaixas. Era quase uma hipocrisia.
Meu primeiro amor foi uma menina nova que chegou à minha turma e causou escândalo por ser naturalmente ruiva, nunca vi o problema nisso, era como estar na Idade Média e considerarem tudo um grande pecado. Acho que o problema era que ela tinha uma beleza de porcelana. Seus olhos grandes e verdes cobertos por cílios longos e grossos davam uma aparência de espanto com os grandes cabelos ardentes e cacheados. Ela tinha uma ou outra sarda nas bochechas, pouco abaixo dos olhos, o que devia ser motivo de mais piada para aquele bando de dementes.
Foi um pouco difícil eu me aproximar dela. Ela era recatada e vivia com o olhar no chão, por causa de problemas que a fizeram acabar daquele jeito. De qualquer forma, eu já havia começado a odiar aquele gesto. Ausência de palavras ou motivos, cabeça baixa, fim. Um ano depois ela foi encontrada morta no seu quarto, sustentada por uma corda no pescoço. Eu só descobri o motivo muito depois: o pai dela a usava para suas aventuras sexuais.
Meu segundo amor foi ainda pior. Passei dois anos calado, como aquela pequena menina bruxa. Ele era do terceiro ano e eu do segundo, seu nome era Seth.
Seth tinha uma personalidade profundamente irritante e uma beleza abusada, daquelas em que dá vontade de estapeá-lo ao mesmo tempo em que se deseja beijá-lo o dia inteiro. Ele sempre andava com seu grupo de marmanjos admiradores, e transava com todas as garotas da escola que se ofereciam pra ele. Isso tudo era ridículo, mas de alguma forma e eu até então não sabia o porquê, ele era gentil comigo.
Na verdade era uma das poucas pessoas que tinham coragem de falar comigo. Ele provavelmente ria da minha cara com os seus amigos bajuladores, mas isso importava?
Foi em dezembro daquele ano que eu me declarei pra ele, não sabia exatamente como falar, gaguejei que o amava e que desejava beijá-lo. Ele me olhou e deu aquele sorriso que oscilava entre o cinismo e a bondade. Bondade, exatamente o contrário do que ele sentia, ou eu achava que não sentia.
No natal eu fugi para a casa dele. Ele sempre dizia que não tinha pais e que foi encontrado no lixo, algo parecido. A neve me engolia, mas eu estava obstinado a ir ao seu encontro. Nunca me senti tão feliz até então.
Quando cheguei no seu lar, suas palavras eram realmente verdadeiras. Naquela casa morava apenas ele. Seus pais estariam viajando? Nunca soube, e nem fiz questão de descobrir.
Ele abriu a porta, estava apenas com uma cueca boxer branca, tomando café e obviamente entediado como se nem fosse natal. Não havia nenhum enfeite na sua casa, tudo o que iluminava ali era a lareira na sala ao lado da cozinha. Não me segurei e o abracei com força, entorpecido com seu aroma doce de perfume francês, e seu hálito de açúcar me dando boas vindas. Seu calor acelerava o meu coração, um automóvel sem freios.
- Eu quero você, eu te amo. – Eu balbuciava, melado como mel.
- Caim... – Ele sorria, e fazia transbordar uma torrente de prazer nos meus olhos trêmulos.
Seth me levou ao seu quarto bagunçado, enquanto Janis Joplin berrava no seu vinil, e uma televisão chiava lá embaixo. Estava um pouco escuro, exceto pelo abajur ao lado da sua cama, da qual eu estava sentado, esperando por sabe-se-lá-o-quê. Ele tirou de um baú preto um violino e um arco, um pouco desgastados, mas suas cordas eram aparentemente novas, e colocou no meu colo.
- Soube que você toca violino. – Ele disse, e tirou a agulha do vinil, silenciando a voz gutural de Joplin. – Toque para mim, faça que isso seja meu presente de natal.
Eu segurei o violino entre o queixo e o braço e comecei a tocar. Era Mozart, um pedaço do seu réquiem, meu preferido. Lacrimosa. Acho que só faltava uma boa voz de soprano para acompanhar e deixar tudo mais claro. Seth me observava no vão da porta, assistindo com atenção. Acho que percebi uma ou duas vezes seus olhos fechados.
Quando acabei, ele sentou-se ao meu lado e arredou meu cabelo da testa com sua mão fria e macia. Acho que estava drogado, pois seus olhos claros agora me pareciam suavemente injetados de sangue, e ele estava mais ofegante, mas nem por isso estava menos bonito. Essa beleza violenta que roubou os meus pensamentos, e os transformou em desejos.
Seth se aproximou com maestria e encostou o nariz no meu pescoço, tudo tão devagar que eu pensei que fosse passar toda a minha eternidade naquele momento. Eu tirei meu casaco e minha camisa, e o frio do seu quarto instantaneamente me possuiu. Ele depositou sua mão direita no meu ombro e a passeou até os meus cabelos, chegando aos meus olhos e roçando nos meus cílios, afundando o polegar no meu lábio superior. O que eu era para os olhos dele?
Desviei seu olhar e me entreguei ao crepúsculo pintado na sua janela, a morte do Rei Sol. Estava tudo tão púrpuro e tão alaranjado que me senti cinzento de emoções. Neve cinza e escura, sol negro, mas eu gostava da luz. Quando ela fervia a minha pele antes de ser tornar o fim, quando eu me afogava no que eu não era, e nunca seria. O que jamais fui.
Lá estava eu me perdendo nos meus devaneios de novo.
Seth me deitou com carinho na cama e tirou o meu cinto das calças como quem captura uma serpente com as próprias mãos.
Sua respiração descompassada arrepiou os poucos pêlos do meu corpo, seu peso me deixou desconfortável, mas o meu primeiro beijo com ele compensou tudo aquilo. Primeiro ele apenas aconchegou seus lábios aos meus, necessitando daquela aproximação com urgência, depois se moveu e se afastou por um leve segundo até voltar e me beijar mais fortemente.
Então se afastou num pulo, e se sentou no canto da cama, segurando as mãos como que numa prece silenciosa.
- Seth... O que foi? – Eu perguntei baixinho, me levantando e colocando meu braço envolta dele.
Seth não chorava, mas acho que estava perto de fazê-lo.
- Eu não... Eu não... Isso é errado.
Então eu olhei para a cama, olhei para ele, e por último para eu mesmo. Eu estava na casa de um garoto, prestes a transar com ele. O que havia de errado com a gente, oras?!
- Não sei se é errado. Mas eu quero continuar.
Ele respirou fundo, assentindo com sutileza.
- Eu também.

Caim estava sentado na poltrona antiga do seu quarto, a lareira crepitava mais adiante, mas acredito que meus ouvidos estavam surdos naquela hora. Ele já estava coberto pela calça jeans novamente, enquanto eu ainda vestia a minha e buscava a camisa rasgada no piso gelado. Depois me enfornei com meu casaco e caminhei em direção à saída, sem olhar para trás pela segunda vez.
- Eu te amo. – Ele me disse, provavelmente sem olhar para mim também. De qualquer jeito, eu parei de andar para escutar melhor.
- Não. – Eu comecei. – Isso não é amor. – E parei.
Já não descia mais as escadas correndo, tudo se movia com lentidão na minha cabeça. Meus dedos tremiam como os dele, minhas pupilas estavam secas, mórbidas, e minhas pálpebras pesavam como se meus cílios fossem de concreto. Meu peitoral arfava, saía do ritmo e dava pontadas de dor. A moça da recepção até me perguntou se eu estava me sentindo bem, respondi que sim, e fui para o meu pequeno lar.
Agora minha mão inteira tremia, eu precisava de algo, a única coisa que era capaz de me acalmar, a minha corda jogada nos abismos em que eu caía. Eu precisava escrever.
Corri para a minha escrivaninha e quebrei dois lápis com a pressão até decidir usar uma caneta. Minha letra saiu em garranchos, mas eu compreendia o que queria falar.
A porta bateu, era Caim, ou pelo menos eu tinha certeza de que era Caim, até ouvir a voz que me assombrou por anos na minha nuca.
- Liber?
Como ele sabia que eu morava aqui? Aliás, como ele me encontrou aqui?
Decidi não abrir a porta, não queria aquela visão novamente, não o desejava com todas as forças da minha alma, aquele havia sido o fim. Ele não entendeu?
- Liber, você está aí? – Ele continuou batendo na madeira.
A pontada de dor no meu peito se transformou em algo maior, mais causticante e impiedoso. Olhei para a porta temendo que ele a descobrisse aberta, e então fui para o banheiro e me sentei na banheira.
Lembrei-me daquele gesto, eu estava fazendo a mesma coisa. A porta se abriu, ele entrou, e me chamou mais uma vez, até finalmente entrar onde eu me encontrava e me visualizar alí, pairado como um boneco de porcelana no lugar errado. Abel já estava com aquela expressão que eu tanto conhecia, apesar de nunca querer conhecer, e não sei se ele pronunciou o meu nome mais alguma vez, mas ele se ajoelhou perto de mim e me abraçou. Seu rosto úmido se pressionando contra o meu e seus braços fortes me sufocando fizeram-me despertar do meu mundo desconhecido, perdido em um lugar da minha mente que eu há tanto tempo não visitava.
- Vá embora. – Eu disse, e não balbuciei mais nada.
- Liber? Liber! Sou eu, Abel! – Ele estava mais mórbido do que quando tudo aquilo aconteceu. – Seu irmão! – A palavra “irmão” vinha carregada de amargura.
Eu me levantei e me deitei na minha cama, colocando o travesseiro sobre os ouvidos como uma criança mimada.
- VÁ EMBORA DAQUI!
Acredito que no seu rosto se formava aquela expressão de sobressalto e tristeza, como aquelas máscaras de teatro Kabuki. Abel sentou-se perto de mim e colocou a mão na minha coxa.
- Por favor, fale comigo! Liber! Sou eu! – Ele pronunciava as palavras desejando que eu acreditasse e tirasse o travesseiro do rosto e finalmente o abraçasse.
- VÁ EMBORA!
Era só o que eu conseguia falar, ou mais apropriadamente detalhando, gritar. Abel arrancou o travesseiro do domínio dos meus dedos e me obrigou a olhar pra ele. Apertei os olhos e enfiei o rosto na cama. Ele pulou em cima do meu corpo e com sua força quase descomunal imobilizou meus braços deixando minhas mãos perto das minhas orelhas. Eu ainda olhava para o lado. Por que aquele maldito dia não acabava?
- Olhe para mim. – Ele disse, agora sem excessos de emoções.
Não olhei.
- OLHE PARA MIM! – Os excessos voltaram.
Eu continuava com o rosto despencado para o lado. Meus olhos eram oásis, os dele eram oceanos.
- Saia daqui. – Eu sussurrei, ele não ouviu, mas entendeu.
Abel deu um grande soco no meu rosto, e depois na minha barriga, levantou meu corpo que não era nada para aqueles braços e me atirou na parede, continuando a sua sessão de punhos nas minhas bochechas e olhos que já inchavam. Cuspi sangue, mas aquilo não foi o suficiente para a sua fúria infinita. Agora eu era não a sua relíquia, mas o seu objeto de destruição. Não havia mais a nossa mãe dentro de mim que pudesse impedi-lo de me matar.
A porta se abriu novamente e Caim entrou, quando viu meu rosto inchado e meu corpo contorcido sob os músculos do meu irmão descontrolado, o atacou. Caim era mais alto do que Abel, pelo que meus olhos semicerrados puderam perceber, e aparentemente mais forte também.
Abel deu um empurrão em Caim, fazendo-o cair em cima da minha estante e quebrar meu abajur, Caim se ergueu num pulo e deu um golpe que seria o golpe final em Abel, se Abel não fosse tão insistente. Abel pulou como um lobo faminto sobre Caim, mas Caim era mais ágil, e logo o jogou no chão e chutou sua barriga com toda a força que podia, deixando-o sem fôlego.
- Saia daqui, vagabundo desgraçado. – Ele cuspiu as palavras com desprezo, e Abel foi embora como um cãozinho ferido entre as pernas, ainda sem ar e com as mãos na barriga, ele também estava cuspindo sangue antes de sair do meu apartamento.
Despenquei no chão pela segunda vez naquele dia, mas dessa vez Caim me levantou com sua força gentil, ele era naturalmente carinhoso, só não sabia disso.
Minha dor agora estava no meu peito e no meu rosto, eu sentia minhas bochechas e meus olhos pulsarem e arderem como se estivessem em chamas. Caim me fez sentar na cama e depois prostrou minha cabeça no seu peito. Por que ele estava fazendo isso, agora? Eu não era digno da sua piedade, de qualquer jeito.
- Não chore, criança. Eu vou curá-lo com a fonte de vida e desejo que escorre em mim e te dar todos os presentes que meu mundo criar.
Era um poema meu.
Qualquer coisa poderia me deixar triste, mas uma única me deixava realmente feliz.
- A madrugada é nossa, e nenhum filho da escuridão que outrora me atormentou irá nos separar. – Eu completei, ou achei ter completado, pois a minha voz saía num sussurro rouco e patético.
- E se algum dia a rosa que eu te dei se transformar em dor, eu te protegerei de todos os espinhos que ela criar. – Ele me ninava, afagando meus cabelos, e me acalentava de uma forma que eu nunca senti, ou nunca imaginei que aquilo viria dele.
Me ame, me ame, mas não me aprisione, pois eu serei seu homem por conta própria.
Me ame, me ame, mas não tente me amar, pois um dia eu posso querer te abandonar no mar.






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Andrew Oliveira

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