Solitude, darkness and love


"I don't wanna admit, but we're not gonna fit"

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Lacrimosa, A Estigma


- Acho que ela gostou de mim. – Abel deu um sorriso triunfante.
- Eu acho que não. Ela estava mais se divertindo com a sua cara. – Eu ri, fitando o céu das cinco e cinco da manhã.
- Cala essa boca, viado. Você não sabe nada de mulher.
- Sei o suficiente para perceber que ela estava te achando um babaca.
Abel bufou, e me olhou feio.
- Acha mesmo? – Ele parecia derrotado agora, e eu, triunfante.
- Bem, acredito que sim...
- Então por que ela pediu meu número? – De derrotado passou para desafiador.
- Para te fazer sofrer esperando uma ligação dela. – E era verdade.
- Eu não ia sofrer, isso é exagero da sua parte.
- Não, não é. – Me senti pisando no orgulho de Abel, e estava adorando.
Ele puxou seu maço de cigarros e tirou um, acendendo-o com o isqueiro que estava no outro bolso. Aquilo fedia, e eu não fazia ideia de como ele gostava tanto, até então. Aquele fim de noite não estava tão frio quanto deveria estar.
Abel parou, e sua tranquilidade se transformou em apreensão, foi quando eu olhei para o ponto em que ele se concentrava. O grupo de neonazistas. Ele segurou minha mão que já estava trêmula como se estivesse recebendo choque, e então me fez correr ao seu lado. O grupo percebeu, e acredito que tenha achado um atalho, pois dois minutos depois quando rodeamos a quadra os quatro rapazes carecas nos encurralaram. O aparente líder foi o primeiro a se aproximar com a alegria estampada no rosto, enquanto os outros esperavam alguma ordem. Era todo tatuado nos braços e tinha o rosto carrancudo, a boca fina e os olhos castanho-claros, seu nariz era pequeno e seus dentes eram o significado da falsa inocência que seu rosto retangular causava.
- Saiam do nosso caminho. – Abel exalava odor de fúria nos seus olhos. Os meus exalavam terror.
- E você vai fazer o quê? Bichinha... – Os subalternos do líder riram.
Antes que pudesse ou quisesse responder, Abel esmurrou seu rosto prepotente e o fez cambalear, com a gengiva estourada. Os dois que estavam atrás de mim me seguraram pelos braços no mesmo instante, e o terceiro, tão forte quanto o líder, imobilizou Abel, ou tentou imobilizar, pois meu irmão o atirou no chão e chutou suas costelas. O líder recuperado partiu para cima dele e devolveu a agressão nos ouvidos, fazendo-o muito provavelmente ter uma dor aguda no tímpano.
Abel caiu no chão urrando de dor e foi a oportunidade do subalterno dolorido se erguer e segurá-lo, apesar de estar tão arrebentado quanto ele. O líder estava sorridente mais uma vez. Minha voz não saía.
- Vocês não passam de aberrações, escórias da humanidade. – Ele se deliciava com o que falava, como se fosse a verdade absoluta, palavras que saíram da boca do próprio Jesus Cristo.
- O que podemos fazer para curá-los? – Ele perguntou para os seus rapazes. – Qual lição nós deveríamos dar para essas pobres criaturas sem Deus?
- Seu filho da puta. – Abel ainda espremia os olhos.
- Não é educado ofender a mãe, sabia? Ou você nunca teve uma? Ela abandonou vocês quando percebeu que eram lixo humano? Mãe esperta...
Os subalternos riram, aquilo era a mais pura diversão.
Abel se agitava, mas era em vão.
- Que tal colocarmos A Marca de Deus neles? – Um dos dois que me seguravam opinou.
- Boa ideia, Rick. Está virando um garoto esperto. – O líder elogiou.
Pela primeira vez Abel olhou para trás, seu ouvido sangrava, o tímpano esquerdo estava destruído. Então ele viu o que eu mais evitava que ele visse, meu desespero, minha ausência de proteção, minha completa impotência diante de tudo aquilo. Eu queria ser forte e defender o meu irmão como ele me defendia, mas o mundo real é bem diferente dos filmes repletos de finais felizes e heróis indestrutíveis.
Indestrutível. Confuso. Perdido. Um grão de areia afogado. Cinco e quinze da manhã.
O subalterno que segurava meu irmão o posicionou de quatro. O líder tirou o cinto de Abel e abaixou sua calça jeans e sua cueca, exibindo suas nádegas como algo natural e sem tanta relevância. Um dos adolescentes ao meu lado atirou um canivete para seu ídolo, que aceitou com empolgação. Era o dia dele, pensei, seu mestre está orgulhoso e vai lhe recompensar muito bem depois.
O mais velho buscou o canivete no chão e então passou a lâmina no dedo, avaliando sua qualidade, enquanto meu irmão chorava em silêncio de humilhação, naquela posição constrangedora. Por um momento eu não me sentia mais preso, o que durou poucos segundos, pois deixaram as mãos livres para tirarem meu casaco e minhas camisas, me deixando apenas de calça na rua, tremendo de frio, e voltando a me imobilizar. De qualquer forma, mesmo que eu já estivesse livre daqueles braços eu não me moveria, e nem se eu enfiasse uma faca na minha coxa eu conseguiria me mover. Eu poderia ser morto alí mesmo e continuar em pé, olhando para o meu irmão.
Abel não gritou nem gemeu, estava silencioso como uma estátua enquanto o líder desenhava o emblema da suástica na sua nádega direita, penetrando o ferro do canivete com força para deixar a futura cicatriz suficientemente visível.
- Sua bunda branquela agora está tão vermelha quanto a de um macaco. – Ele gargalhou alto, e todos os outros também. – Isso é para todos os caras que te comem se lembrarem que estão fazendo algo contra a nossa natureza. – Sua felicidade era obscura, como um cão raivoso na meia noite, envenenado pela raiva.
Mas nossa noite ainda não estava no fim. Eu Fora despido da cintura pra cima porque o mesmo iria acontecer comigo. Fui empurrado no chão e uma dor intensa na barriga me fez perder a respiração. Finalmente gritei quando retomei o fôlego, minha voz saiu como o rugido de um leão preso na arena, sendo assistido por esnobes mesquinhas e que só viam alegria quando presenciavam sangue.
Não sei quem foi, mas talvez tenha sido os dois. Lembro-me de uma dor lacinante e sem fim nas minhas costas, que fez curvas seis vezes na minha pele até finalmente acabar. A marca estava feita, um enorme emblema nas minhas costas que ía do final da minha nuca, até o final das minhas vértebras, e nas laterais das minhas costelas. Fora o grito de horror de Abel que ainda me deixou consciente. Fúria e dor se transformando em lágrimas.
Abri os olhos e Abel vestia lentamente suas calças, não havia mais ninguém além de nós dois naquela esquina, o dia estava cada vez mais claro. Quando um carro passou, ele gritou quase chorando até o automóvel parar.
Ele parou, soube disso porque fui carregado por Abel até o banco traseiro, e quando abri um pouco minhas pálpebras que estavam novamente fechadas vi o teto cinza do carro. Minha cabeça estava no colo do meu irmão, que muito provavelmente chorava mais por mim do que pela humilhação que sofrera.
Senti meus lábios secos e depois o cheiro de remédios e doença do hospital, minhas costas latejavam, mas logo depois fui deitado de bruços, o que me aliviou um pouco pelo frio. Lembro da voz de Abel falando alguma coisa para um médico, talvez o meu tipo sanguíneo, pois colocaram uma bolsa de sangue em vez de soro naquele suspensório de metal, e me penetraram uma agulha no pulso em um dos meus braços. Acho que me injetaram mais outra coisa, pois desmaiei num instante depois.

Peguei o papel onde estava o endereço escrito para constatar que estava no lugar certo, e estava. Não era longe, aliás, bastava apenas dobrar a esquina após o bar deplorável que vivia aberto, logo adiante à nossa ruela de encontros. Era um velho palácio vitoriano disfarçado de apartamento, mas por dentro era bem conservado. Havia várias pinturas à óleo de mulheres e homens e que davam uma tonalidade sensual em contraste com os lustres e os carpetes vermelhos. Subi dois lances de escada e cheguei ao segundo e último andar da mansão-apartamento. Enfim achei a numeração da sua porta, senti uma vibração, uma música forte tocava lá dentro.
Dei três toques, acho que ninguém escutou, esperei um minuto e, impaciente, decidi tentar abrir a porta, que por sorte estava destrancada. Era simplesmente enorme, provavelmente o quarto principal daquele lugar. As janelas eram retangulares e espaçosas, alguns sofás de aparência antiga (e não duvido se eram mesmo antigos) por alguns cantos, lustres como no salão principal, lâmpadas apagadas nas paredes enfeitadas com bordas de ferro. O meu apartamento deveria ser do tamanho do banheiro desse lugar, pensei.
A música voltou, e dessa vez acompanhada de uma voz forte, com certeza um soprano poderoso. Foi quando pude distinguir.
Mozart.
Um dos instrumentais que fazia parte do seu grande réquiem, só não me lembrava do nome. Estava há muito esquecido nas minhas lembranças.
O violino emperrou e parou, a voz se silenciou, e percebi que fora por causa de mim. Me Aproximei um pouco demais e estourei a dimensão etérea do lugar e dos que faziam a dimensão etérea do lugar. Caim e uma mulher. Ela me fitou em total espanto e ele me encarou em absoluta seriedade, como se eu fosse algo indiferente à sua pessoa. Eu detestava isso.
- O que você está fazendo aqui? – Ele perguntou grosseiramente.
- Eu... Eu... Bem, você me convidou.
- Não lhe convidei, só disse onde eu morava.
Mordi o lábio, a mulher me avaliava com curiosidade.
- Pensei que não teria problemas...
- Mas está tendo agora. – Ele devia estar realmente aborrecido.
- Caim, quem é este garoto tão bonito? Parece uma pintura de Botticelli... – Percebi que o olhar da mulher morena era de admiração. Botticelli? Eu não tinha nada haver com Botticelli. Minha beleza era vulgar... Ela deveria falar isso para Lucas, ele era Marte suspirando em êxtase.
Ela se aproximou com leveza para perto de mim, e então levantou meu queixo. Era tão alta quanto Caim, a pele era quase dourada. Parecia uma deusa de lábios carnudos.
- E estes olhos... Não lhe lembram o mar ao pôr-do-sol, Caim? – Minha beleza parecia mais um objeto a ser estudado do que admirado. – Gostaria de fotografá-los.
- Amaterasu, você está assustando o garoto. – Caim agora parecia entediado. Que diabos de homem era esse?
Para meu deleite, Amaterasu o ignorou com natural superioridade.
- Você gostaria de ser meu modelo, Liber? – Ela sorriu, eu me perguntei como já sabia o meu nome.
- Eu... É...
- O que foi, Liber? Parece até que o gato mordeu a sua língua. – Ele deu um sorriso malicioso.
Que desgraçado! Me constrangendo na frente das pessoas! Do que mais ele seria capaz de fazer?
- Preciso ir. – Foi a única coisa que consegui falar.
Apesar de estar indo embora, ainda olhei para trás e Amaterasu continuava deslumbrada, Caim me estrangulava com seus olhos. Fechei a porta com força sem querer e desci as escadas correndo. Não ouvi mais nada, talvez tenham recomeçado seus exercícios de Mozart.
Cheguei ao meu quarto e sentei na cama, ofegante e confuso. O que tinha acabado de acontecer?
Tirei meu casaco sem vontade e me deitei na cama, era quatro da tarde quando mirei o despertador. Acho que seria quatro da tarde para sempre se não batessem a minha porta. Só que eu não conseguia acreditar.
Caim.
Ele entrou como um vulto no meu apartamento e então me esperou no quarto. Eu caminhei devagar e olhando para os meus próprios pés, gelados e descalços.
- Você é um moleque bastante mal-educado, sabia?
- Pare de me chamar de moleque...
- Entra no meu apartamento como um ladrão e sai sem explicar nada. Que espécie de educação te deram?
- Pare de levantar a voz pra mim...
- Você pensa que é o quê? Que somos casados e que você pode me encontrar o tempo que quiser? Acha que eu não tenho vida alguma?
- Eu... Eu...
- Fala alguma coisa, porra!
Ergui meu rosto e o estapeei. Minhas pálpebras já estavam morrendo afogadas. A raiva de Caim se transformou em sobressalto. Ele levou a mão à bochecha rosada como se não estivesse acreditando na ardência da pele, e então se afastou, os olhos arregalados.
- O QUE VOCÊ QUER QUE EU FALE? O QUE VOCÊ QUER DE MIM? QUER QUE EU SIRVA DE PALHAÇO? QUER QUE EU FAÇA ME SENTIR UM LIXO INCÔMODO O TEMPO INTEIRO? FALE ALGUMA COISA VOCÊ!
Caim ainda estava pressionando o rosto com os dedos, então voltou a olhar para mim mais espantado ainda, e fez o que era experiente em fazer: foi embora.




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Andrew Oliveira

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