Solitude, darkness and love


"I don't wanna admit, but we're not gonna fit"

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Lacrimosa, A Perdição

- Já disse que não. – Abel calçou seu par de botas de cano curto com impaciência.
- Por que não? Por que eu não posso sair com ele? – Perguntei, fazendo voz mimada.
- Não gosto daquele garoto. – Ele se levantou e pôs desodorante nas axilas constantemente depiladas, depois depositou uma considerável quantidade de gel nos cabelos negros e lisos, como os meus.
- Por que não?
- Liber, não insista, não vou deixar você sair com ele. – Por último, vestiu uma camisa preta com uma estampa branca do Charlie Brown, dos Peanuts.
- Por que não?
Abel me olhou com uma expressão cética, e então me deu um beijo molhado na bochecha e um abraço, mas eu não movi um músculo, o que o deixou mais irritado ainda.
- Não abra a porta pra ninguém. Tchau.
- Monte de músculos sem cérebro...
- Eu ouvi isso. – Gritou ele tirando a chave da porta, e depois trancando-a por fora. De qualquer forma, eu tinha uma cópia.
- Não sei como eu iria sair se eu já não tivesse outra chave, idiota.
Tirei minha roupa e me afundei na banheira quente, me lavando com dedicação para o meu primeiro encontro. Passei um litro de perfume no corpo com total alegria e então saí do meu apartamento como um gato de rua espreitando tudo pela escuridão. Abel provavelmente já estava entrando na boate, que não ficava tão distante da nossa morada, na verdade até a lanchonete em que ele trabalhava era na segunda esquina.
Lucas estava sentado na calçada do outro lado da rua, que por algum motivo só concentrava alguns carros e motos perto da boate-ou-bar, transparecendo tédio e até mesmo angústia. Caminhei contando os meus passos até ele.
Ele me recebeu com um sorriso discreto, porém convidativo, e então sentei ao seu lado.
- A lua está bonita hoje. – Ele disse.
- Eu não gosto da lua.
- Por quê?
- Ela parece me condenar.
- Você fez alguma coisa de errado para isso acontecer?
Não respondi, apenas o encarei com uma expressão que percorreu como um choque por todo o resto do meu corpo. Lucas se aproximou ainda mais e pôs a cabeça no meu ombro, fungando o meu pescoço. Fechei meus olhos e ele permaneceu continuando sua trilha de ofegos no meu rosto, até chegar aos meus lábios e me beijar, escalando suas mãos debaixo dos meus braços e me abraçando. Era diferente do beijo de Abel, sempre na minha bochecha, mas que apenas me causava um leve arrepio.
O beijo de Lucas me fez explodir, me impulsionou a abraçá-lo também, apertando as minhas calças com meu órgão excitado. Aos poucos fui aprendendo a seguir seu ritmo, que era desesperado e forte e as vezes até seus dentes se encontravam com os meus. Ele penetrou sua língua e lambeu o céu da minha boca, eletrizando cada movimento do meu corpo que implorava por mais. Não sabia o que aquilo significava, era o meu primeiro beijo e ele me deixou completamente selvagem.
E então veio aquele gosto salgado que eu tanto conhecia. Mas não saltavam dos meus olhos, eram os de Lucas.
Lucas me afastou lentamente, ofegante, meus cílios estavam semicerrados, mas se abriram de uma vez quando percebi que sua expressão passou de excitada para triste. Eu só não estava compreendendo, e pra dizer a verdade, nunca compreendi.
- Seus olhos me lembram o mar... Quando me concentro neles parece que estou sentindo o cheiro e o barulho das ondas. Como se eu só pudesse ser feliz na correnteza. – Ele disse, limpando as lágrimas, e então foi embora.
Fui abandonado, pensei.
Tive meu primeiro beijo e logo em seguida fui abandonado como algo descartável. Que valor eu tinha? Nada? Nenhuma relevância eu causei?
Um peso profundo me abateu, me fazendo tremer e voltar para o meu pequeno lar com a certeza de não querer mais nada naquela noite. Lucas nunca voltou para me explicar, e eu nunca havia beijado outro garoto até então.
Arrastei uma cadeira para perto da janela, e fiquei observando os poucos carros irem e virem, como peças de um jogo qualquer. Foi assim até as cinco da manhã, quando Abel chegou do seu trabalho nos fins de semana, e eu finalmente me mexi. Logo que ele pôs a mão sobre o meu ombro e estava prestes a falar alguma coisa, eu me ergui e o abracei com força, sentindo o calor que eu tanto conhecia, retardando ao menos um pouco aquela sensação de solidão desesperadora. A cadeira no chão, a lua no pequeno apartamento escuro, duas estrelas despencadas sobre o céu azul-escuro, os músculos sempre quentes de Abel, feitos para me proteger.
Abel beijou minha cabeça e foi tomar um banho. Colocou uma cueca e então se deitou atrás de mim, o meu cobertor. Talvez eu ainda estivesse chorando, minha memória é tão fraca.
- Eu não gosto quando você se machuca. – Ele sussurrou com o queixo enterrado nos meus cabelos. – Me sinto impotente.
Eu apenas deixava o rio percorrer com sua correnteza nos meus olhos que refletiam gaivotas esquecidas numa praia imaginária. Abel me puxou para mais perto dele, até eu sentir seu batimento cardíaco vibrando na minha pele, e só então eu adormeci. No final, era só ele que eu tinha. Quando cheguei a conclusão de que somente as coisas efêmeras eram as que me restavam, jamais pude imaginar que Abel pudesse ser uma delas.

Uma coruja branca me despertou, ela estava na janela aberta da minha escrivaninha. Mal me lembrava do meu próprio sono.
Sem muita empolgação, escovei os dentes e deixei a água fazer o seu trabalho no meu corpo.
Fiz a minha rotina.
Caim ainda não estava lá, eu o esperei, e ele chegou. Se sentou ao meu lado como quem não quer nada além de uma companhia quase invisível, mas dessa vez ele foi o primeiro a encarar.
Não percebi que ainda estava com o cigarro na boca. Ele o tirou dela e fumou um pouco antes de jogar no chão e amassá-lo com o sapato.
- Você tem um péssimo gosto pra cigarros. – Caim tossiu.
- Acho que não tenho um bom gosto pra muita coisa. – Eu disse, sem parecer triste tampouco alegre.
- Eu ainda estou esperando um bom motivo do porquê de você ser uma chaminé ambulante.
- Eu não sou. Só fumo de madrugada.
- Que diferença faz? Fuma de qualquer jeito...
- E são só dois cigarros por dia.
- Está mentindo. Todo fumante fuma mais do que... – Ele deu um sorriso irônico. – Dois cigarros por dia.
- Não preciso mentir.
- Qual é o seu nome, moleque?
- Tenho vinte e dois anos, não sou um moleque. – Suspirei, ele estava se divertindo com a minha irritação. – Me chamo Liber.
- Baco.
- É. É o nome dele em latim.
- É um nome poético.
- Eu sou um escritor.
- Então, Liber... Pode recitar um poema seu para mim?
Corei. Não me lembrava de boa parte dos meus poemas. Então me veio qualquer coisa na cabeça.
- O rugido do vento é um pedaço meu. A praia de sal é minha alegria. Meu coração está inquieto como o pêndulo de um relógio mal-feito. Não há mais para dançar nas músicas da lua cheia. Ela se foi com o meu grito que se dissipou, e manchou a terra com o sangue do meu anjo demoníaco.
Não percebi quando ele se debruçou sobre o meu rosto e me beijou com força, pressionando abruptamente os seus lábios ressecados contra os meus. Eu não queria aquele beijo, não agora, pois depois dele, Caim com certeza iria embora como Lucas foi. Mas o beijo foi mais longo, mais intenso, passei mais de um minuto sem respirar direito, ele sugava todo o meu ar e parecia mais que desejava a minha morte do que o meu prazer.
Nada daquilo importava, nem a minha vida. Eu me entreguei a ele sem medos como me entreguei a Lucas, mas sentia que algo seria diferente, não sei. Seu beijo tinha gosto de café com leite e muito açúcar, quem diria, ele só colocava leite. Então ele me pressionou contra o seu peito e me fez sentir seu batimento cardíaco acelerado, o completo oposto de Abel, que vivia calmo e constante. Era um beijo urgente e inconsequente, nossas línguas estavam quase se amarrando, seus lábios eram tão apetitosos que eu poderia sobreviver apenas deles pelo resto da minha vida.
Seu beijo era um crime. O maior erro do mundo. Algo que nunca deveria ter acontecido.
Mas eu estava adorando.
Onde estava o seu violino gemendo? A minha voz penetrando na noite como há muito tempo eu não fazia? Os seus movimentos discretos e a minha impaciência?
Não era melhor sermos mais do que feras vorazes pelo toque? Criaturas que passavam toda madrugada espreitando passo a passo o avanço que tanto queríamos?
Caim era extremamente carinhoso, enquanto sua barba mal-feita feria minhas bochechas lisas e seus lábios engoliam os meus, suas mãos me levavam para mais perto dele, e seu corpo se levantava numa autoridade imediata, como se eu pertencesse a ele. Provavelmente sim. Se Caim me prendesse numa gaiola e só me libertasse para beijá-lo, eu iria encontrar a felicidade novamente.
Sim, venha para mim, se inquiete na minha pele desesperada pela sua, a minha boca que tanto te chama e meu hálito que tanto te deseja, a minha língua só serpenteia para você. Meu corpo foi feito para te abraçar.
Após quase uma hora apenas nos beijando, Caim foi lentamente se desvencilhando de mim, eu já sabia o que iria acontecer. Ele iria embora de vez, claro, depois de ter provado o jantar era hora de ir embora e voltar à sua vida habitual como se nada tivesse acontecido. Fim.
Mas ele não fez nada disso, não se ergueu como um promíscuo satisfeito tampouco virou o rosto e desapareceu. Caim se sentou ao meu lado e pôs a cabeça no meu colo, assistindo a ruela entediante como quem não quer nada.
- Eu... Eu quero namorar você. – Droga, eu era péssimo nessas coisas, quebrei todo o clima e agora ele vai rir da minha cara.
- Namorar? Pensei que já estivéssemos namorando há um bom tempo. Quando você está tomado por sentimentos muito fortes, não precisa falar nada, moleque idiota.
Suspirei. Moleque? Abel iria quebrar ele de porrada.
- Fale alguma coisa, eu gosto da sua voz. Mas fale alguma coisa útil. – Caim virou o rosto para o meu queixo.
- O que você quer?
- Não entendi.
- O que você quer? Você me obriga a vir aqui em toda a madrugada me fazendo querer saber qual vai ser o final disso tudo.
- Nunca obriguei você a nada.
- Velho estúpido.
Ele se levantou num pulo, ficara furioso, acertei um ponto fraco e ri.
- Me chame disso novamente e eu...
Saí correndo e ele arregalou o olhar, antes que pudesse dar partida também. Quando cheguei perto das grades do meu apartamento, fui agarrado e imobilizado na parede.
- Que criaturinha atrevida você.
Sorri mais ainda, estava extasiado. Caim tirou o meu casaco e me expôs aquele frio ridículo, depois mordeu e chupou o meu pescoço como um verdadeiro vampiro faminto. Eu afagava seus cabelos e empurrava sua cabeça contra a minha pele o mais forte que pude, até ele ficar sem oxigênio algum, apenas o meu cheiro para esse cretino sobreviver.
Caim estava mais aceso do que antes, uma de suas coxas se ergueu entre as minhas pernas, sua calça jeans violentava as suas partes, enquanto ele mordia meus ombros, pescoço e queixo, até lamber a minha bochecha esquerda e afundar sua boca na minha. Nossos narizes duelavam numa batalha sem sentido, não existia mais um mínimo resquício de frio nos nossos corpos. Caim agora era o meu homem, e nada podia me separar dele, nem um passado que ainda me atormentava como se eu fosse apenas o que ele tanto falava: um moleque.
Esse moleque idiota que o deixou desesperado.





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Andrew Oliveira

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