Solitude, darkness and love


"I don't wanna admit, but we're not gonna fit"

domingo, 24 de julho de 2011

Lacrimosa, O Segredo

Eu já estava pronto, meu hálito de café e meus coturnos aquecendo meus pés, para vagar na madrugada agonizante e acalentadora que era ao lado do homem do banco. Saí e fui devastado pelo frio, mesmo com o cachecol, a minha touca azul e amarela do Snoopy e umas duas camisas antes de colocar meu casaco, eu podia sentir cada fibra do meu corpo implorando por um quarto fechado, abafado, e um lençol enorme sob travesseiros extremamente fofos.
E antes da sombra na árvore, veio o sol escaldante, a areia na pele suada, e depois Abel bagunçando meu cabelo.
Eu estava delirando. De qualquer forma, tudo aquilo se apagava quando eu via a sombra sentada no banco, com os cabelos louros e lisos cacheando nas pontas iluminados pelo poste logo acima. Era quase a luz no fim do meu túnel. A questão é que eu não tinha túnel, era tudo escuridão. Sem começo nem fim.
Duas da manhã, nosso horário habitual. Apaguei meu cigarro antes de me aproximar do meu local de namoro intocável e ele virou o pescoço lentamente, permitindo mais uma vez a minha presença ao seu lado. Era a décima segunda noite.
Soltei um urro de frio e tossi um pouco, esfreguei as mãos enluvadas e olhei para os meus joelhos. Tudo aquilo era gelado demais.
- Você deveria parar de fumar. – Ele fitou não o meu rosto mas os meus cabelos negros e bagunçados.
Sua voz era muito mais do que o seu corpo belo e tentador, que antes era a minha missão. Ela era uma cúmplice do seu olhar sugador de almas ou da sua discrição irritantemente excessiva. Eu ergui meu rosto e acho que nesse momento minhas pupilas dilataram.
- Acho que vou roubar seus olhos azuis para mim. – Ele também tossiu um pouco, noites demais num banco solitário, com uma alma penada como companhia. – Eles me obrigam a vir aqui todo dia, isso está me cansando.
Eu não falei nada, não conseguia falar. Dessa vez era eu quem estava fazendo o seu papel. Seu timbre rouco poderia me fazer escrever por meses sem respirar. Não sei o que era aquilo. Jamais conheci.
Acho que meus olhos estavam derramando lágrimas, pois senti gotículas salgadas resfriando nas minhas bochechas, provavelmente coradas. Ele entendeu, acredito, pois deu um sorriso encantador como presente. Aquele sorriso me pertencia agora.
Eu me acostumava facilmente com tudo e por isso era um pouco conformado. Passamos cinco dias um ao lado do outro, e então ele desapareceu por um mês. Passamos doze dias um ao lado do outro, e então ele falou mais de uma frase. Um gancho enfiado no meu coração e puxado com força, arrebentando a minha caixa torácica. Por quanto tempo mais eu aguentaria?
- Por que você começou a fumar? É tão novo e toda vez que te vejo lembro-me de uma chaminé.
Respirei.
- Eu fugi de casa.
- É esse o motivo?
- É.
- Que motivo bobo.
- Não, não é.
Ele me olhou com ar de indagação, corei e desviei seu olhar.
- Então me diga.
Eu não disse. Fiquei calado como ele ficara por tanto tempo e ele foi embora antes das cinco da manhã, se despedindo com um suspiro de irritação. Ainda era duas e meia. Nunca tive um encontro tão rápido.
Era eu para estar irritado, para ficar puto da vida toda madrugada. Era eu quem era impaciente, ansioso, impulsivo, inconsequente. Então por que ele fez o meu papel? Nossa relação não deveria ser trocada desse jeito, numa madrugada em que ele falasse sem aviso e quebrasse todo o cenário imaginário que eu construía naquela ruela.
Cheguei no meu quarto e chorei feito um bebê, sem compreender nada e com medo daquele sentimento que eu não conhecia. Não acho que era amor. O amor não deveria te fazer bem? Te acalentar? Te trazer a sensação de plenitude e te deixar completo? Tudo o que eu sentia era exatamente o oposto daquilo. É verdade que eu me sentia confortável ao seu lado... Mas o que mais aconteceria depois? Sempre pensei que fosse indestrutível, corajoso, e não uma criança mimada, birrenta e medrosa.
Fiz café pela segunda vez e adicionei mais açúcar do que o normal. Minhas mãos de gelo derreteram quando peguei na caneca fumegante. Meus olhos congelaram quando limpei as lágrimas e o catarro com um lenço preto. Joguei minha touca do Snoopy em qualquer canto e então me deitei na cama. Agora a madrugada, o teto e o banco da ruela me odiavam. Poderiam montar um fã-clube anti-Liber.
Descalcei meus coturnos e me enrosquei nos lençóis como uma minhoca.
~
Abel vinha furioso no canto da esquina, chegando com brutalidade e esmurrando o primeiro dos quatro neonazistas que ainda estavam cima de mim. Os outros três voaram sobre ele e então dois policiais e dois cidadãos imobilizaram a briga. O grupo de jovens carecas tatuados foi embora e meu irmão recebeu uma ameaça recheada de saliva como se ele estivesse fazendo a coisa errada.
Eu ainda estava trêmulo, não sabendo se choraria ou se gritaria a qualquer momento. Abel me levou para o nosso pequeno apartamento e tirou minhas roupas encharcadas de urina. Então me fez sentar na banheira e deu um banho cuidadoso em mim, apertando a esponja sobre meu rosto ferido e lavando meus cabelos com xampu. Minha visão estava um pouco embaçada, mas podia ouvir seus soluços.
Ele me ergueu com seus braços musculosos, apesar da minha altura já estar alcançando seus ombros, eu ainda era apenas uma criança para toda aquela força. Abel tirou uma toalha da sua mala e secou com cuidado cada fio de cabelo, cada pedaço de pele do meu corpo, cada ferida aberta no meu rosto. Era a minha mãe, me secando quando eu saía da piscina de plástico no quintal esverdeado da nossa casa com a toalha quente que acabara de ser estendida no varal, e depois guiando o pequeno Bellenus para os seus braços.
Quem diria, até remédio ele tinha.
Finalmente falei um “ai” quando ele passou aquele líquido ardente nas minhas feridas no rosto e nos arranhões no peito. Ele me disse para eu parar com a minha viadagem, e então conseguimos rir após aquela longa hora de melancolia.
Uma semana se passou depois deste pequeno acontecimento. Meu irmão trabalhava como atendente numa lanchonete durante a manhã, e pela noite nos finais de semana ia para uma boate ser barman. Eu me sentia um completo inútil, e insistia em querer trabalhar também. Ele recusava, e dizia que a minha única função era escrever e ler muito. Sempre que podia, Abel comprava algum livro que eu me interessava, obviamente gastava mais comigo do que com ele. Na verdade, ele bem poderia sobreviver de cigarros, cervejas, um prato de comida de vinte dólares num restaurante qualquer, e uma ou outra garota para aliviá-lo das suas vontades excessivas de querer transar quase que o tempo inteiro. Abel se poupava de academias e corria às cinco da manhã todo dia, as seis fazia exercícios em parques aleatórios, e as sete chegava com pães e me acordava arredando nossa pequena cortina na segunda janela do apartamento.
- Está na hora de tirar a areia do Sandman dos seus olhos. – Ele dizia toda manhã, e então beijava minha bochecha até quando eu bocejava mau hálito no rosto dele.
Em alguns fins de semana, Abel conseguia um ou outro ingresso para eu entrar na boate em que ele trabalhava. Era mais como um bar vintage, o ambiente era recheado de luzes verdes, azuis e vermelhas, as vezes tinha música ao vivo, o que me agradava mais, outras vezes tinha até dançarinas e dançarinos sensuais, não tirando a roupa e exibindo seus sexos, mas como personagens de um teatro musical, numa falsa excitação de suas vidas.
Numa dessas vezes, um rapaz simpático e da minha idade me ofereceu a minha primeira bebida, algo como um coquetel de frutas e álcool. Aceitei, fiz cara feia, e não bebi mais. Meu irmão me olhava com repreensão, mas eu ignorei.
- O que vem fazer aqui? – Ele perguntou.
- Eu gosto do ambiente, meu irmão consegue entradas pra mim, então venho sempre que possível. – Sorri. – Qual é o seu nome?
- Lucas Lustat. E o seu?
- Liber Amadeus.
- O que você faz da sua vida, Liber? – Lucas se aproximou um pouco mais do que deveria, deixando o olhar do meu irmão ainda mais afiado.
- Escrevo. – Corei, e olhei para o meu par de sapatos. – E você, Lucas?
- Algo que ninguém gosta.
- Ninguém gosta?
- Eu transo, e ganho por isso.
- Transar não deveria ser bom?
- Não, não é. Faço isso pra pagar o plano de saúde da minha mãe. Ela está com câncer.
Eu o encarei, assustado, com a boca meio aberta.
- Tudo bem. Minha vida se baseia mais em tragédias do que em vitórias.
- Que maneira triste de ver o mundo.
- O mundo é a própria tristeza, Liber.
Conversamos pelo resto da madrugada, e Lucas ria vez ou outra com as observações de falcão do meu irmão, desconfiando da sua pessoa quase que o tempo inteiro. Eu entendia, é claro, há poucas semanas atrás fora atacado por um grupo de neonazistas furiosos e brincalhões.
Mas a fala de Lucas, seus trejeitos, seus gaguejos de vez em quando, sua beleza de anjo-Botticelli, até sua roupa amassada conseguiu me encantar rapidamente, e fez com que a hora do meu irmão ir embora chegasse logo. Eu praticamente fui arrastado pra longe de Lucas, o que me estressou profundamente e me fez socar Abel no peito até me cansar. Mas aquilo provavelmente só fazia cócegas nele. De qualquer forma, eu já estava sorrindo novamente.
Quando chegamos ao apartamento, fizemos o maior barulho com nossas gargalhadas histéricas. Abel tirou a roupa mais rápido e entrou na banheira primeiro, seu corpo todo músculos e sua altura me impossibilitava de compartilhá-la, ou de tomá-la. Ele se esparramava e seus pés ficavam pra fora, como se ele estivesse numa pequena bacia. Aproveitei e escovei meus dentes, apesar de estar quase dormindo com a escova na boca.
Meus dias com livros, banheiros compartilhados, boates nos fins de semana, poesias escritas todos os dias, pães às sete da manhã, Abel dormindo comigo e me sufocando com seu braço enorme, significavam a verdadeira felicidade pra mim. Eu não precisava de mais nada.

Acordei e eram dez horas matutinas. Não estava mais tão frio quanto a estranha madrugada passada, e que eu mal tivera tempo de respirar. Sequer me senti sufocado. Era melhor estar morto do que não saber as certezas do meu coração.
Então apenas aguardei o novo momento escuro chegar. Caminhando no litoral, escrevendo e comendo em qualquer canto, correndo. Mas ele nunca chegava. Era quatro da tarde e eu estava me definhando em agonia.
Quando voltei para o meu quarto, era noite. Comi um sanduíche natural, escovei os dentes e os sujei de novo tomando café, e fiz minha madrugada mais cedo. Onze da noite.
Então fiz algo que não fazia há um bom tempo, desde que Abel desaparecera da minha vida. Eu cantei.
Cantei alguma canção de Françoise Hardy, a primeira que veio na minha mente, e fiquei com vontade de chorar, mas não chorei, pois me desconcentraria. E então, ao longe, ouvi o arranhar de um violino, primeiro pensei que fosse apenas imaginação minha. Mas as cordas eram reais, vivas, gemiam cada vez mais forte, cada vez mais íntimas a mim, como se quisessem entrar na minha garganta e fazer parte da minha voz.
Era o homem do banco, ele se chamava Caim, e eu estava a cada dia mais apaixonado por ele.
Caim depositou o violino e o arco no banco, ao meu lado, e então ficou apenas de pé, me olhando com o que pareceu superioridade, mas não era. Na pouca iluminação eu podia distinguir sua expressão, tão clara e sensata quanto a minha voz atravessando cada partícula da escuridão, fazendo parte dela.
Não importava quanto tempo mais ele me fizesse esperar, quantas madrugadas eu contaria nos meus dedos ou quantas poesias eu escrevesse sobre as horas tão parecidas ao seu lado. Eu me ergui e o abracei, o abracei tão forte que ele jamais seria capaz de me arrancar do seu corpo. Seu corpo me lembrava Abel, mas como na história, Caim o matou sem piedade, de dentro da minha alma despedaçada.




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Andrew Oliveira

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