Solitude, darkness and love


"I don't wanna admit, but we're not gonna fit"

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Lacrimosa, O Irmão

O teto da cor mais sem graça do mundo, apagado, desbotado e inquieto me ameaçou. Não sei se ele ficou constrangido por eu estar completamente nu na minha cama, mas ele estava bastante irritado. Já não me bastava a lua semear ódio contra mim, agora tinha o próprio teto do meu quarto.
Me virei de lado e fitei a janela que estava sempre aberta. Abracei um travesseiro, meu único amante daquele bairro sem grandes alardes, e voltei a fechar os olhos. O frio escorregava pelo meu pescoço e banhava as partes íntimas do meu corpo, suspirei em aprovação. Um pássaro começou a piar, o despertador do amanhecer, e então pausou e voltou à sua vida entediante. Voar e voar, que idiota iria querer isso?
Tinha entrado no meu apartamento há exatamente uma hora atrás. A madrugada acompanhada com o homem loiro do banco da ruela chegou ao seu fim. Esperei ele ir embora para depois me levantar, como sempre. Depois do mês que se passou, aquela fora a oitava vez ao seu lado.
Era essa a nossa única relação, nossos beijos e nossa transa: um ao lado do outro, sentados, em completo silêncio. É verdade que ele havia me dado um miserável “olá”, mas isso provavelmente acontecera porque ele estava muito triste. Aposto que foi difícil pra ele dizer isso em voz alta. Mas pra dizer a verdade, eu não estava nem um pouco interessado em saber o porquê da sua tristeza. Eu queria aquele corpo, sim, aquele corpo alto, musculoso, loiro, bonito, um verdadeiro banquete para um lobo esfomeado como eu. Talvez quisesse mais do que isso, e estivesse negando. Quem sabe?
Para conseguir o meu prêmio, eu ainda teria que esperar. E ele parecia disposto a fazer isso demorar o quanto pudesse. Saboreando a minha impaciência, meu joelho apressado, meus dedos se agitando em cima da minha coxa, minha tosse de hora em hora...
Esfreguei os olhos e voltei a dormir. Nada que o mundo dos sonhos não resolva.
Mas depois da inconsciência quase completa, fui transportado para o que eu mais detestava: minha história.
Lá estava eu correndo na grama verde debaixo do sol causticante, suado, com areia na cueca, na hora do intervalo do colégio. A professora balofa nos chamou bufando pelas ventas e tivemos que entrar novamente na sala de aula. Era o dia de sermos artistas, teríamos que pintar belas obras de arte com tinta guache num papel A4. Claro que ser artista não era um ramo para todos, e como consequência tiveram muitos potes de tinta derramando nas mesas e menininhas enfeitadas com pompons chorando porque fez algo errado, e a professora lhe daria uma bronca. Mas a nossa professora, apesar de gritar constantemente, era amável com as meninas e sempre cuidava das feridas nos joelhos dos meninos. Eu adorava o momento em que ela nos contava histórias cheias de fantasia, princesas raptadas e guerreiros corajosos, enfrentando até o mais forte dos dragões, ela se sentia viva quando nos contava essas histórias, e nós também. Nesse momento todos ficavam sentados formando um grande círculo e ouvindo com uma atenção digna de qualquer moleque peralta.
Ela foi a professora que eu mais amei. Gorda do jeito que era, eu a imaginava como uma bolha de felicidade que explodia sempre que chegava para buscar a fila indiana da nossa turma. Acho que comecei a pensar nisso porque o nome dela remetia à isso, Felícia.
Com o passar dos anos, percebi que a cada professor novo que eu conhecia, ele vinha com o olhar mais cansado e sem paciência alguma para chamar a atenção de aluno. Geralmente já expulsava da sala e deixava com medo os tagarelas de plantão. Mas em todo aniversário que eu tinha, mamãe nunca deixava de convidar Felícia. Ela e mamãe eram a única coisa que me faziam olhar para o passado. Felícia era como uma avó pra mim, daquelas fofas com as bochechas rosadas e que passam o dia fazendo biscoitos no forno velho e bufante.
Mas Felícia foi apenas um detalhe desse sonho, como todos os outros. Então veio a cena que eu já previa que iria aparecer. Aquelas pessoas vestidas de terno, altas e carrancudas, me chamando. Era hora de eu ir para casa, mas não com mamãe suada cheirando a verduras do almoço vindo numa grande bicicleta, nem com papai silencioso caminhando como uma estátua viva. Se eu soubesse, iria preferir isso.
O sol do meio dia que normalmente era impiedoso estava morno, anunciando a provável chegada de chuva. As pessoas altas e sérias me levaram de carro pra casa, eu olhava as casas e comércios passando pela janela como vultos despreocupados, sem entender porque meu dia na escola havia acabado tão rápido, e porque pela primeira vez eu estava andando de carro, mas sem meus pais.
A porta se abriu e uma senhora que eu nunca vi me direcionou para a minha própria casa. Cheguei na sala de estar abafada e poeirenta (sinal de que mamãe ainda não tinha terminado o almoço), e então vi meu pai soluçando com as mãos sobre o rosto, como se estivesse com vergonha de chorar daquele jeito, meu irmão mais novo e cego parado no vão da porta que levava à cozinha, e meu irmão mais velho perto da grande janela na frente da casa, chorando para o céu.
Meu irmãozinho sentira o chão sendo estralado com meu pé esquerdo se agitando, e então soube que eu já estava lá. Chegou até onde eu pairava sem ajuda de ninguém e segurou minha mão. Ele também estava triste, mas não estava chorando. Seus olhos claramente azuis olhavam sem ver o meu pescoço.
Foi nesse momento que papai tirou o rosto enterrado nas mãos, e meu irmão parou de orar para o céu com suas lágrimas.
- Liber... – Papai disse.
- Mamãe morreu. – Bellenus, a pequena criaturinha na minha frente, disse sem hesitar.
Abel se aproximou de mim e me abraçou. Era a primeira vez que eu sentia o calor do meu irmão mais velho, geralmente era de mamãe. Mamãe que não iria mais na escola toda sorridente com sua velha bicicleta vir me buscar, sem ligar para as outras mães que a olhavam feio por vir com o cabelo todo desalinhado e o avental manchado da cozinha. Mamãe que não convidaria mais Felícia para comer uma enorme fatia de bolo de morangos no meu aniversário. Mamãe que não me tiraria mais debaixo da cama e me contaria suas aventuras até de madrugada, enquanto ela sutilmente esperava Abel chegar em casa vivo depois das suas bebedeiras e namoradas possessivas.
Mas eu não queria aquele abraço sufocante com o cheiro masculino de Abel, nem os cílios distantes de Bellenus que navegava numa melancolia infinita, tampouco o olhar de papai que mal conseguia falar uma notícia. Eu queria mamãe. E eu não sentia que ela estava morta, que todo o fim estava naquele lugar. Exceto pela sala ainda não limpa com o aspirador de pó barulhento, o cheiro da comida exalava por toda a casa. Mamãe nem precisava nos chamar, sua comida era tão boa que o próprio cheiro nos chamava.
Mas aquela era a última refeição feita por mamãe.
Eu afastei o corpo cheio de músculos e ossos sufocantes do meu irmão e fui almoçar. Depois passei o fio dental no banheiro e escovei os dentes, como mamãe sempre ordenava que eu fizesse. Me sentei na cama e observei o chão. O dia estava esfriando cada vez mais. O dia se despedia. Então fui para debaixo da cama e esperei a minha contadora de histórias chegar de mãos dadas com Bellenus e juntos ficarmos até altas horas da noite empolgados com suas narrações emocionantes.
Mas ela não veio. E eu dormi desconfortavelmente no chão.
No dia seguinte tomei um banho e resolvi descer, mas na sala agora sem sofás, estantes, e a televisão, havia apenas um longo caixão no centro, com pessoas envolta dele enfeitando tudo de preto. Era um ritual feito com cuidado para aquela manhã nublada.
Abel segurou minha mão e não a largou pelo resto do dia. Quando uma de suas namoradas ligou, ele atirou o nosso telefone na parede. A resposta era simples: ela queria o seu corpo, e ele queria chorar.
Bellenus se prostrou no colo de papai, que ainda fazia um dilúvio desde o dia anterior. A qualquer momento a grande janela central poderia se rachar com a represa que era a nossa sala, e deixar fugir cem mil litros de água salgada do mar que era o luto.
Apenas Abel e eu ficamos em casa, enquanto todo o resto da família ia para a marcha fúnebre enterrar o corpo de mamãe. Já era início da noite quando papai e Bellenus chegaram em casa, e foram para a mesa da cozinha meditar.
Subi as escadas e tirei as roupas pretas e calorosas, para me banhar novamente e me deitar na cama. Mas tudo o que eu conseguia era me afogar entre os lençóis, eu precisava ir para debaixo da cama novamente. Passei duas horas esperando mamãe chegar, mas quem chegou foi Abel. Abel que normalmente fazia um cafuné na minha cabeça e depois ia embora festejar e beber com os amigos, estava ali agindo como mamãe.
Ele me puxou por debaixo das minhas axilas, como se eu fosse apenas um molequinho, e então se deitou atrás de mim, me abraçando e adormecendo no mesmo instante. Seu terno tinha cheiro de rosas e sua respiração era como álcool evaporado na minha nuca. Mamãe tinha cheiro de sabonete e colônias, e seu hálito vivia doce, suas mãos eram incrivelmente macias e qualquer toque no meu pescoço já me fazia dormir. A mão áspera do meu irmão que descansava sobre as minhas era como concreto, mas de alguma forma começou a me acalmar. E então percebi, e chorei até amanhecer, e pela tarde comecei a escrever.
Cheguei à adolescência e meu irmão ainda dormia comigo. Mesmo quando ele chegava bêbado e praticamente inconsciente de suas ações, era para o meu quarto que ele ia. Logo me acostumei com o cheiro de álcool, cigarro, e até mesmo o odor de sexo que ele exalava das calças.
Nosso pequeno mundo de serenidade se destruiu quando descobri que me sentia atraído por homens. Comecei a me apaixonar por um garoto da minha turma, e passava horas prestando atenção apenas nele em vez de estudar. Aparentemente eu não era correspondido, e conheci o sentimento de ser rejeitado.
Contei para Abel sobre ele e Abel me ouviu com atenção, perguntei se aquilo era errado, Abel disse que errado seria eu não amar. Obviamente eu não podia contar aquilo para Bellenus, pois meu irmãozinho estava agora com a idade que eu tinha quando mamãe faleceu. Não sei se ele entenderia, de qualquer forma. Durante a vida sem mamãe, ele costumava passar o dia inteiro lendo ou contando os passos no quintal esmeralda de casa. Eu também não poderia contar para papai, disse Abel, pois papai acharia aquilo completamente errado e as coisas só iriam piorar.
Eu entendi o que ele quis dizer, e então me silenciei. Mas papai começou a questionar a queda das minhas notas, que sempre foram tão boas, e acabei falando sem querer. Papai pegou seu cinto grosso de couro e arrancou minhas roupas me deixando apenas de cueca. Ele me surrou por um bom tempo até Abel chegar em casa e o empurrá-lo de cima de mim.
- Mamãe jamais o perdoaria por fazer isso com ele! – Abel gritava, sabendo que mamãe era o ponto fraco do papai.
- Seus merdinhas, saiam da minha casa! – Papai bufava, mas já estava sentindo a espada de Abel penetrada no seu coração.
Abel fez nossas malas e mochilas com uma velocidade sem igual, e só lembro de Bellenus chorando no vão da porta do meu quarto, com sua bolha de paz falsa estourada. Não era como a professora Felícia que era naturalmente uma bolha, e se espocava e atirava alegria para a sua turma. Era mais como voltar à vida real.
Saímos de casa sem abraçar Bellenus, aquele que estava condenado a definhar pelo resto de sua vida naquela casa, que ainda cheirava à mamãe, ao lado do rancoroso papai. Eu desejei como nunca desejei nada na minha vida abraçar Bellenus, que para mim seria sempre uma criancinha doce, empolgada, de voz aguda e narizinho empinado, e não o cego silencioso, amargo e de voz sussurrada, quase um fantasma. Mas passei mais de cinco anos dormindo com meu irmão, e desde então sempre acreditei que só precisava dele na minha vida.
Chegamos de ônibus num apartamento apertado, e Abel me confidenciou que estava guardando dinheiro dos seus bicos desde o fim de mamãe. Tudo o que tinha ali era uma cama, que irônico. Dormimos juntos agora completamente sós, com uma vida superficial que eu tive que abandonar do meu lar quente e sem cheiro de boa comida, para uma vida conturbada que me obrigou a aprender as coisas, sozinho.
Abel logo me ensinou como usar camisinha, o que me deixou bastante constrangido, pois eu nunca havia visto o sexo dele ereto, ele disse que isso era viadagem, e então começamos a rir. “Seja mais macho!”, ele exclamava com um sorriso de escárnio. Mas eu jamais deveria me preocupar. Na minha vida solitária com Abel eu nunca sofri um mínimo ato de violência por parte dele. Mas apenas por parte dele.
Houve duas manhãs em que eu voltava da padaria (agora já tínhamos um frigobar, um fogão de duas bocas e dois travesseiros) e fora espancado por neonazistas, que logo depois urinaram em cima do meu corpo encaramujado na calçada. As pessoas apenas olhavam com espanto, ou simulação de espanto, até mesmo prazer.
Acordei quatro da tarde, agora com ódio do frio, que afastava do meu corpo a lembrança de Abel.







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Andrew Oliveira

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