Solitude, darkness and love


"I don't wanna admit, but we're not gonna fit"

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Lacrimosa, A Madrugada

Ele não era daqueles homens comuns, dos que vêem as coisas como não são realmente, distorcendo a vida para um grande e profundo amor, na verdade ele não era muito de se ter ideias, enormes e complexas ideias para se ter argumentos em meios sociais. Ele era comum ao seu jeito, ou mal isso, nunca entendi muito bem. Na verdade, até hoje eu não entendo. Ele chegou como uma pequena brisa e se transformou num furioso tornado. Ah, suas lágrimas de papel que embranqueceram o meu coração.
Eu estava saindo do meu apartamento magnificamente bagunçado, e fui tragar um cigarro no meio da noite. Isso é tão clichê, mas eu não resistia, meus pulmões ardiam de desejo pela fumaça da morte. E lá estava a lua, um copo de leite visto de cima, sobre uma lâmpada branca a iluminá-lo. Não gostava muito da lua, ela parecia me condenar a cada vez que eu saía da cama na madrugada durante as minhas crises de insônia. Não me olhe assim, não é culpa minha.
A tinta fortemente púrpura decaía sobre a ruela de pedras em que eu me encontrava, os postes fracos davam mais sombra do que luz, os seixos do chão estavam úmidos, apesar do frio seco que feria os meus lábios, adiante, uma música lenta tocava em algum bar ali perto. Uma leve fumaça exalava de um bueiro, mas o odor logo partia com o vento sul.
Uma luz se acendeu em uma daquelas janelas vitorianas, e vozes embriagadas e furiosas rugiam numa discussão sem fim. Comecei a caminhar, meu estômago roncando e minhas mãos enluvadas dentro dos bolsos do meu casaco, minha calça jeans apertada e meus coturnos eram mais silenciosos do que eu. Ele apareceu, ou sempre esteve ali, não sei, sentado num banco esperando o tempo decidir alguma coisa sobre seu destino. Era bonito, não o mais bonito do mundo, mas bastante atraente. Tinha cachos louros flutuando na cabeça e caindo sobre a testa do rosto em forma de losango, lábios quase finos, quase carnudos, olhos escuros, o nariz proporcional às suas expressões. Era o Pequeno Príncipe crescido, eu acho, mas com feições bastante masculinas, rígidas, exalando seriedade e disciplina. E alto, eu deveria ser um adolescente perto dele.
Eu parei, no meio da ruela, e descaradamente comecei a observá-lo. Ele percebeu no mesmo segundo e também fez o mesmo. Joguei meu cigarro no chão e tossi um pouco, que decadência. Mas nada daquilo pareceu importar pra ele, ele apenas me olhava como se eu não estivesse nem ali, olhava para o vácuo que eu era. Um nada. E então virou o rosto.
Me senti desprezado e dei as costas para ele, não saí correndo mas meus passos eram rápidos. Quando subi as escadas curtas do apartamento onde eu estava, senti um leve arrepio na espinha e sabia que estava sendo velado. Não olhei para trás, apenas fui para o meu quarto e me joguei na cama, com calças, coturnos e tudo o mais. Morava sozinho, de qualquer jeito, ninguém se incomodaria com os meus desleixos.
Infelizmente, chegou a manhã mais veloz do que eu esperava, ou desejava. Levantei ainda dormindo e tirei minhas roupas com maestria lerdeza. Me prostrei sobre a banheira e deixei a água quente do chuveiro que chicoteava com força me despertar, estapear a minha pele e esmurrar meus músculos. Abra seus olhos, estúpido, o mundo não espera por você. Abra seus olhos cabisbaixos e tire toda a areia do velho Sandman.
Saí do banheiro como uma lesma, mesmo que já completamente desperto, e então me cobri com uma calça e uma camisa pretas, um par de tênis All Star velhos e nada atraentes, e leves luvas completamente desnecessárias. Cheguei no meu pequeno mundo feio e me sentei na escrivaninha perto da janela nublada para escrever, ou ao menos tentar. Estava há dias sem nada na cabeça, sem uma mínima ideia, na verdade eu nunca soube bem como começar uma história, tampouco como terminar. Acho que isso refletia como eu realmente era, alguém inacabável, sem início e sem fim.
Passei exatamente duas horas batendo a ponta da caneta no papel e olhando para a vista das janelas. Tetos sujos de chaminés açoitando o céu de cinza. Mas o céu já estava naturalmente cinza, um universo numa gota d’água. Ergui meu corpo desajeitado e coloquei meu vinil preferido, Françoise Hardy e sua voz suave e confortadora, como se ela estivesse nos confessando seus segredos mais pecaminosos, seu amor era tão intocável que eu poderia passar semanas de olhos fechados ouvindo apenas seu timbre massageando meus ouvidos. Mon Amie La Rose, Il n’y a Pas D’Amour Heurex, e Comment Te Dire Adieu, minhas preferidas. Le Premier Bonheur Du Jour me parecia mais uma valsa, tocada na meia noite quando a princesa maliciosa esquece-se do seu sapato nos degraus do castelo, pensando no quanto o príncipe seria louco pela sua beleza ao ponto de procurar por todo o seu reino a sua escolhida para o coito. Que tristeza.
O dia foi praticamente uma tortura, mais lento do que eu, e eu não estava entendendo muito bem. Geralmente meus dias se passavam como minutos, e eu estava desgraçado a morrer como um simples anônimo, sem lançar sequer uma pequena obra de contos, poesias, seja lá o que for.
E então chegou novamente a parte do dia que eu mais amava e odiava, a santa madrugada dos desesperados, as horas daqueles que mostram seus segredos das sombras, suas feiúras, seus demônios. De madrugada o inferno ficava praticamente vazio, era assim que eu imaginava.
Fiz minha refeição preferida das horas, café preto e muito açúcar, queimando a minha língua, fumegando meu nariz, ardendo meus olhos, que delícia. Saboreei cada gole como se estivesse fazendo preliminares, de certa forma estava. Na vida real aquilo era apenas café. Para mim era amor, o amor cego e destrutivo de Scarlett O’Hara por Ashley, por exemplo. Eu não achava café nem um pouco destrutivo, tanto faz.
Tomei outro banho fervente na minha banheira, para ocupar aquela ausência que era meu cotidiano, e me vesti com as mesmas roupas do dia anterior. Desci as escadas daquele corredor mal-iluminado e saí rumo à minha amada lua, que tanto me odiava. Eu imaginava que a qualquer momento ela poderia descer e falar comigo pessoalmente, me ordenando a ficar quieto e parado no meu ninho de rato, sem fazer um único movimento para vislumbrar a noite. As noites estavam cansadas da minha presença. Eu já era um amante incômodo.
Então eu caminhei e o vi novamente. A mesma posição, a mesma inexpressão, o mesmo casaco e o mesmo cansaço voluntarioso nos olhos. Aqueles olhos tão impiedosos cobertos por sobrancelhas levemente grossas, louras como os cabelos, porém mais escuras. Eu permaneci fitando seu rosto e ele correspondeu, o mesmo ritual da madrugada anterior. Ele me parecia como uma música que eu nunca havia escutado, ou como uma poesia que eu jamais seria capaz de escrever. Eu costumava me sentir incapaz para tudo, mas sua presença era tão forte que eu achei que poderia fazer qualquer coisa para manter aquele olhar. Nada fiz, e nenhum dedo ele moveu.
Era como ser possuído. Como se minha alma fosse expulsa do meu corpo e ele me puxasse com alguma força invisível, quando na verdade eu continuava no mesmo lugar sem mover um dedo e somente velando sua beleza com medo de tudo desaparecer e eu acordar para mais um dia de morte. É, era exatamente isso. Eu me sentia vivo quando olhava pra ele, apenas aquilo já bastava.
Para minha surpresa, ele se levantou e foi até onde eu me vegetava, e eu me senti completamente congelado pelos seus movimentos discretos. Ele se aproximou e eu tive que levantar o nariz para avaliá-lo também, por ser mais alto que eu. Usava um perfume forte que me acendeu, me deixou numa ponte entre o frenesi e o frisson, seu queixo e bochechas estavam lisos pela barba recém feita. Sua inexpressão se suavizou, e depois se pressionou numa inotável tristeza. Foi embora.
Amanheci naquele mesmo lugar onde fui parcialmente abandonado, com mil perguntas incendiando a minha mente. Minha boca estava mais seca e eu tremia de frio, precisava do meu ninho, e foi apenas aquilo que me impulsionou a sair de lá.
Acordei apenas pela tarde, e almocei qualquer coisa que vi na primeira lanchonete pelo caminho. Fui para o litoral e lá me estabilizei, com minha prancha cheia de papéis em branco e minha caneta. O céu nublado tinha um encanto assustador, o vento estava mais forte, as ondas levantavam seus braços e depois agrediam a areia com seus corpos. Nenhuma beleza daquilo me inspirou.
Desistindo das coisas terrenas, parti rumo às celestes. Adormeci sem nada haver e despertei nas horas daquela que tanto me detestava. Banho, roupas, café, maço de cigarros e uma da manhã, lá fora onde as portas do inferno estão sempre abertas.
Ma Jeunesse Fout Le Camp da minha bela Françoise ainda rodeava a minha cabeça, e fazia as trilhas sonoras das sombras que pairavam sobre os meus dias de sóis e gargalhadas histéricas. Aquilo que nunca existiria era o que mais me tentava. Era quase palpável e eu estava prestes a acreditar, arrebentando o único fio que me segurava à realidade. Um dedo mindinho que não tinha tanta confiança em mim. Uma aliança de casamento duvidosa.
Eu sinceramente estava desesperado, não por aquele homem em completo, mas pelo olhar dele. Era um vampiro peralta em forma de gato, brincando com o novelo de lã que era eu com suas patas afiadas. Foi o que comecei a construir. Minha imaginação é foda.
Ele não se levantou, nem se preparou para o nosso duelo de olhares. Estava de cabeça baixa e a barba não feita, pelo que pude perceber. Alguma coisa nele estava pior, mais forte, definhando-o por dentro. E, oh Deus, eu não poderia fazer nada?
Ele ergueu os olhos úmidos por um instante, me viu, e voltou à posição atual, eu não poderia fazer diferença alguma, pelo visto, mas tive uma pequena ideia. Dessa vez fui até ele e sentei ao seu lado, não o encarei diretamente, apenas fiquei lá como quem não quer nada e respirei bem baixinho. Meu cigarro estava longe. Na verdade, não lembro exatamente se estava fumando naquela noite. Talvez eu estivesse, mas tenha resolvido apagar antes de me fixar ao seu lado. Quem saberia?
Se passaram mais de duas horas e meia, comigo apenas parado e com ele apenas chorando, até seu choro era peculiar. Não era escandaloso, nem histérico, nem soluçante. Eram lágrimas descendo sobre seu rosto como contas de diamantes tentadores na noite perigosa. Eu poderia roubá-los e ficar rico, oras. Então veio algo em que não estava nada acostumado a receber.
- Olá. – Ele disse, a voz rouca e grossa, como se estivesse galanteando comigo. Mas longe disso, não por enquanto, e eu teria que me conformar com aquilo por mais um dia inteiro. O dia que me deixava tão morto e a noite que me dava tantas esperanças efêmeras.

Um dia se passou, três dias se foram, cinco dias morreram, dez dias desapareceram. Agora em toda madrugada eu sentava naquele banco e o aguardava, fumando meus cigarros antes dele chegar. Mas ele passou a não chegar, eu estava ficando cada vez impaciente. Logo quando tomo uma atitude, ele simplesmente desaparece e não deixa nem o seu perfume forte para eu imaginar que ele me queria? Quanta bobagem.
Mas eu não desisti. Não daquela vez. Havia desistido de muitas coisas, pois era fraco. De alguma forma, de algum jeito, eu me recusava a desistir.
Um mês e meio se passou até ele voltar para o banco e se sentar ao meu lado pela segunda vez. Como se houvesse passado apenas uma hora para ele, se prostrou ali e ficou a fitar a não-movimentação da ruela úmida, tendo como único som o bar mais para lá, e como único cheiro do mar. Eu nunca entendi como o vento era capaz de trazer o aroma salino do mar naqueles bairros estreitos. Não era hora, acho.
Por mais que eu desejasse que ele falasse alguma coisa, conversasse comigo sobre sua vida e me abraçasse e me beijasse, eu conseguia me conter, pois apenas a sua presença incontestável me dava segurança, conforto. Nunca o frio, a lua maldita e aquela ruela me pareceram tão especiais, tão únicos e essenciais para alguém como eu. Eu que passava horas pensando no que escrever, sobre o que escrever, e por que escrever, agora tinha um cotidiano magnífico, que me enchia os pulmões de tal forma que eu me expelia de mim mesmo e ficava exposto como nunca fiquei antes. Era só daquilo que eu precisava. Num dia ou outro, as poesias até voltavam à minha cabeça.
Na sexta vez em que sentei ao seu lado, ele olhou para mim como fez nas duas primeiras vezes em que eu ficava de pé esperando alguma ação. Virou o pescoço graciosamente, tal qual um cisne vela os seus filhos, e eu achei por um rápido momento que fosse sorrir.




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Andrew Oliveira

Um comentário:

  1. Excelente, linguagem rica e narrativa que aguça a vontade de ler até o final.

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