Solitude, darkness and love


"I don't wanna admit, but we're not gonna fit"

domingo, 31 de julho de 2011

Lacrimosa, A Canção

- Você já provou vodka? – Abel tirava o suor das taças no balcão do bar da boate com um pano. – É um bom remédio pra essas horas.
- Você é um péssimo irmão, sabia?
- Eu sei, por isso que você me ama.
Olhei para seu sorriso cínico em total repreensão, mas ele já estava dando atenção para outra pessoa que pedia um energético. Olhei para o pequeno palco improvisado, onde uma mulher negra de voz vibrante cantava ao som de um piano que ela mesma tocava. Sua voz era tão verdadeira que me senti exposto. Eu estava tomando bebidas leves até então, mas mesmo assim já estava meio grogue.
Foi quando percebi que eu era o único que estava só naquele lugar, exceto por Abel que era barman, todas as outras pessoas tinham alguma companhia, dançavam e gargalhavam e bebiam juntas numa simetria perfeita. Senti-me frustrado, sempre acreditei que fosse bonito e que eu não teria problemas com o amor (Abel me chamava a atenção por ser tão narcisista, mas eu ignorava). Meus cabelos grossos, pretos e lisos, meus olhos azuis da cor do mar ao pôr-do-sol, meu rosto branco e minhas feições que oscilavam entre o viril e o frágil não eram notáveis o suficiente? Eu estava sendo fútil, certo. Mas acredito que seja como dizem, não é preciso um novo amor para superar o antigo? Ou nem sei se falam realmente isso.
Na verdade, eu estava começando a amar Lucas quando ele foi embora roubando o meu beijo. Fui abruptamente parado no meio da trilha, e meu trem descarrilhou e colidiu com as próprias engrenagens.
Isso não era certo. Eu era mais atraente do que meu irmão e não deveria ser eu a estar sozinho.
- Abel, você nunca pensou em namorar? – Ele pegou uma taça e depositou uma azeitona no seu fundo, derramando uma bebida que eu desconhecia logo em seguida. Estava meio estressado, pois seu colega de trabalho ainda não havia chegado.
- Já namorei, mas acho que não vou namorar de novo porque eu vou morrer de estresse nesse balcão se aquele preguiçoso não chegar. – Desabafou. – Quando essa mulher vem – Ele apontou para a cantora negra que já estava a lágrimas em cima do piano. -, essa boate fica cheia em menos de uma hora.
- Não pretende namorar de novo?
- Não sei, se eu encontrar a pessoa certa quem sabe...
- Você acredita que existem pessoas certas pra cada um de nós? – Soltei uma gargalhada gostosa.
- Pare de agir como se fosse experiente nisso. Você beijou dia desses, moleque. – Parei de rir no mesmo instante, detestava com todas as forças da minha alma ser chamado de moleque. – E sim, eu acredito. Acredito que tenha alguém nesse mundo, em algum lugar, que me faça parar e ser feliz.
- As vezes me sinto um velho perto de você.
- Impressão sua.
O colega de Abel chegou suado e ofegante, o rosto vermelho, provavelmente viera correndo.
- Desculpe o atraso, minha mãe teve um ataque cardíaco e eu tive que levá-la ao hospital. – Ele se explicou.
Eu e Abel nos entreolhamos, conhecíamos aquele problema, afinal, foi por culpa dele que fez mamãe parar com sua bicicleta no meio da rua e ser atropelada por um carro enorme e preto. Ela estava apenas indo me buscar na escola, não sei que diabos de problema tinha nisso para Deus tirá-la das nossas vidas tão rápido. É verdade que ela sempre vinha com cheiro de produtos de limpeza, verduras e legumes, o cabelo negro bagunçado e mal ajeitado num coque, com um lenço na cabeça, a testa lustrosa de suor, e vivia sempre com um sorriso estampado no rosto para maior desprezo das outras mães. Deus não deveria se importar com status social. Não mesmo.
- Ela está bem? – Abel perguntou, dando a volta no balcão e depositando sua mão áspera sobre o ombro do rapaz.
- Sim, está melhorando pouco a pouco, graças a Deus. – Ele sorriu, saboreando as próprias palavras.
- Bem, agora vou lhe castigar um pouco. – Abel sorriu maliciosamente. – Você vai ficar aí nesse balcão sozinho até a hora que eu quiser, porque agora eu vou dançar com Liber.
- Como quiser, você é quem manda. – Disse o rapaz.
Acho que nessa hora meu rosto ficou radiante.
- Você deveria parar de pensar que apenas porque é bonito não deveria estar sempre só. Isso não faz bem e só afasta boas pessoas de você. – Abel buscou uma das minhas mãos.
- Pare de ler meus pensamentos.
- Não leio, está na cara. Pra mim você é bem explícito.
Suspirei, cético. Abel levantou a minha mão que estava entre as suas e a beijou.
- Me daria essa honra?
- Isso não vai afetar a sua imagem?
- Nem um pouco, todos aqui me conhecem, e sabem que você é meu irmão.
- Existem relações incestuosas também...
- Cala essa boca, viado.
Nós rimos e depois nos aproximamos do grupo de casais que dançava lentamente na voz da poderosa cantora pianista. Um homem carrancudo nos olhou torto e Abel deu uma piscadela, fazendo-o se aborrecer e virar o rosto.
Meu irmão fez uma mesura e então colocou a mão esquerda na minha cintura, e a direita no meu ombro. Com aquelas canções lentas, nós mais nos movimentávamos do que dançávamos. Eu me aproximei um pouco mais e descansei o queixo no ombro de Abel, que ainda dava alguns passos lentos, quase desajeitados. Ele me abraçou, não tão forte nem tão fraco, e assim ficamos por exatamente uma hora.
A cantora foi calorosamente aplaudida antes de se despedir da platéia, um senhor até entregou a ela um buquê de rosas vermelhas e gordas. Abel voltou para o bar, rindo da expressão cansada do rapaz que até então estava trabalhando em dobro como ele há pouco tempo atrás, e então voltou a ser barman.
A noite acabou e faltava uma hora para a madrugada virar dia. Chegamos sonolentos no nosso pequeno lar e nos jogamos na cama como dois bêbados patéticos. De olhos fechados, Abel ainda mexia nos meus cabelos com a mão preguiçosa, e a respiração que saía do seu nariz esquentava a minha boca como uma pequena torrente de ar. Como seria a minha vida dali em diante? Eu simplesmente não poderia passar a minha vida toda dormindo como uma criança abraçada com Abel. Era eu conformado novamente, vendo o tempo passar e percebendo isso um pouco tarde demais. Talvez não.
Abel se ergueu um pouco e beijou a minha testa, e com um último suspiro adormeceu.
Se todas as nossas noites fossem assim, eu seria a criatura mais feliz e inspirada possível.
Eu havia terminado meu primeiro livro, que envolvia poesias, crônicas, contos e até algumas fábulas, chamado “As Montanhas do Vento Sul”. Abel pagara a documentação dos meus direitos autorais e indo de editora em editora, consegui numa nem tão conhecida assim o patrocínio, lancei meu livro apenas na cidade local, sob o pseudônimo de Pietro Mayfair, e já estava adquirindo meu próprio dinheiro. Ninguém sabia quem eu era, mas estava sendo reconhecido e respeitado, e tão logo abri uma conta bancária. A mesma pequena editora me propôs um contrato, do qual eu aceitei na hora. Com o dinheiro que eu conseguia escrevendo poesia e crônicas, me tornando o preferido anônimo naquela cidade, já era o suficiente para me sustentar, mas Abel ainda insistia em me segurar no seu colo de proteção.
Quando completei dezoito anos, Abel passou quase que o dia inteiro triste. Tive que confortá-lo e dizer que nunca sairia do seu lado, o que fez sorrir imediatamente e comprar um bolo pra mim. Abel era a única pessoa que eu amava, e conseguia amar, mas sentia que já estava na hora de sair dos seus braços grandes e musculosos. Abel me impedia de ir porque eu era a única coisa que ele tinha. Não que ele me aprisionasse numa gaiola ou coisa parecida, mas suas expressões melancólicas e seus abraços mais fortes na cama demonstravam isso. Eu tinha medo do que ele faria se eu fosse embora.

Caim passeou os dedos nos meus vinis, puxando um ou outro e avaliando-os com interesse, visitou a minha estante de livros, depois se sentou ao meu lado na cama e finalmente se comportou. Eu o observava o tempo inteiro, apesar de fingir estar escrevendo. Ele engatinhou por cima de mim e me deu um longo e molhado beijo, deitando-se logo após.
- Como você veio parar aqui? – Ele se confortou em um dos meus travesseiros e virou a cabeça para me encarar.
- É uma longa história.
- Eu acho que não.
- Quem é você pra falar que não?
- A maioria das pessoas “complica” suas trajetórias de vida para torná-las mais interessantes.
- Eu não sou nem um pouco interessante.
- Pare com essas palavras auto-deploráveis. Isso é irritante.
- O que você quer que eu fale, então? – Contorci a boca num pequeno acesso de raiva.
- Quero que você me conte sua longa história. O que aconteceu depois que você fugiu de casa? – Ele bocejou. Mas que filho da...
- Fugi de casa com meu irmão. Na verdade eu fui mais obrigado a fugir. Meu pai descobriu que eu não era aquele que faria suas expectativas virarem realidade. Eu nunca seria o jogador de futebol campeão e fortão, e meu irmão mais velho, Abel, nunca foi motivo pra muito orgulho, exceto que ele sempre cuidou da minha mãe, ao mesmo tempo em que sempre a deixava extremamente preocupada com suas bebedeiras. Eu ainda tinha outro irmão, o mais novo, Bellenus. Mas até hoje não sei o que houve com ele.
- Você é um irmão bastante relapso.
- Eu sei. – Devaneei um pouco e então prossegui. – Abel tinha economizado uma boa quantia de dinheiro com os empregos temporários que ele tinha, nos mudamos para um pequeno, mas aconchegante apartamento, e pouco a pouco ele foi comprando os móveis.
Parei. Não conseguia mais continuar.
- Só isso? – Caim perguntou.
- Só isso. – Assenti.
- Você me decepciona.
O quê?
- Esperava algo mais instigante vindo de alguém como você.
- Me desculpe se não superei suas expectativas...
- Pare com esse seu jeito estúpido de falar, porra! – Ele franziu o cenho. – Eu mal cheguei aqui e essa sua ironiazinha já está enchendo o saco.
Ele se ergueu, raivoso.
- Eu devia fechar essa sua boca com cola quente.
Então pulou em cima de mim novamente, tirando seu cachecol preto e passando pelo meu pescoço. Ele o apertou, segurando as pontas com as duas mãos.
- Ou devia te matar agora mesmo, moleque.
Fiquei sem ar, fechei os olhos e ergui a cabeça, enquanto ele explorava a minha boca com sua língua ansiosa. Queria tossir e respirar, mas não conseguia. Caim tirou sua essência carinhosa da alma e se transformou numa criatura cruel, o que me excitou ainda mais. O ar da sua boca me fazia sobreviver, e eu não sabia se beijava ou se tentava gemer, mas tudo estava tão violento que resolvi não mexer um músculo para impedi-lo de me matar. Eu empurrei seu corpo contra o meu com as minhas mãos e seu beijo ficou forte e rude, mordendo os meus lábios e pressionando sua cabeça contra a minha ainda mais. Eu podia até sentir seus cílios roçando nos meus, como se as pontes que nos ligassem ao mundo real se unissem num único caminho.
Me mata, eu sussurrei em pensamento.
Me mata, eu te imploro.
Caim abriu os olhos lentamente, como quem acorda de um sonho maravilhoso, desejando tê-lo de novo, e então desapertou o cachecol do meu pescoço, deixando-o alí mesmo. Suguei o ar com sutileza também, e ele se deitou no meu peito, provavelmente constatando que eu ainda estava vivo. Era quatro da manhã, faltava uma hora para nosso paraíso particular fluir e terminar quando amanhecesse. Era por isso que ele havia parado?
- Você me faz lembrar alguma coisa boa, e ao mesmo tempo ruim.
- Como o quê?
- Não sei.
- Qual é a sua história, Caim?
- Minha história é breve.
- O que houve? Você acabou de me matar, tenho o direito de saber a história do meu assassino.
- Você não vai gostar.
- Eu sei, e por isso preciso saber.
Ele passou um bom minuto em silêncio. Eu soube que iria começar quando sua respiração ficou mais desconfortável, e por um momento eu esqueci do seu forte calor em cima do meu corpo.
- Eu matei a pessoa que eu mais amei na minha vida.








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Andrew Oliveira

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