Solitude, darkness and love


"I don't wanna admit, but we're not gonna fit"

domingo, 29 de maio de 2011

Vidro - Último Capítulo

- Ele está lá no quarto, você quer ir acordá-lo? – Perguntou a mãe sorridente para um Jezebel postado na frente da sua casa.

- Quero sim senhora. – Disse Jezebel, simpático.

Jezebel subiu as escadas, entusiasmado. Faltava apenas uma hora para a campainha da escola tocar e os alunos começarem a estudar. Ele decidiu vir buscar o seu amado. Sim, seria ótimo caminhar ao seu lado e conversar sobre tudo, até sobre o seu passado, ele estava pronto para abrir seu passado para Inverno. Inverno, somente ele estava na sua mente. Inverno de manhã, de tarde, de noite. Inverno durante o café-da-manhã, do almoço e da janta. Inverno durante o banho, durante as suas masturbações, o tempo inteiro, até quando ele estava dormindo. Que preguiçoso, ainda estava dormindo! Ele iria acordá-lo com um beijo! Sim! E depois abraçar seu corpo magro e branquelo, menor que o dele de nadador, e massagear o seu sexo para provocá-lo, e pegar com força nas suas nádegas cheias, e passear a mão na sua barriga lisa, e beijar a sua orelha fria, e cheirar a sua nuca cheirosa. Beijar os seus olhos...

Girou a maçaneta, e a porta estava destrancada, que bom! Assim seu plano não iria por água abaixo. Mas algo estava errado. O carpete, a cama, até o criado-mudo estava tingido de um vermelho seco. Sentiu algo estranho palpitando no seu peito, e entrou no banheiro.

~

Inverno despertou, como alguém que desperta de um grande sonho, tudo estava mais claro agora, tudo estava mais límpido do que antes. E a primeira coisa que viu foi o rosto do seu amado Jezebel, desesperado, estapeando-o, apoiado na banheira em que ele dormira. Jezebel o encarava amedrontado, chorava como uma criança. Ele franziu o cenho, e depois seu rosto desabou.

- Eles querem me internar... Me ajude Jezebel... Não quero... Ficar longe de você... Não quero.

Jezebel não falava nada, toda sua alegria se transformava em gotas salgadas de amor. Ele o carregou e o levou para a cama, seu corpo era tão leve...

A mãe abriu a porta, e observou em silêncio por um minuto, até cair em si.

- Senhora... T-temos que levá-lo ao hospital. – Chorava Jezebel.

- De novo... Está acontecendo de novo. – Disse a mãe, perdendo o olhar. – Deus quer me tirar mais um filho! Deus quer me tirar mais uma criança! – E lágrimas também brotaram dos seus olhos.

Inverno puxou, com o braço gangrenado, a gola da camisa de Jezebel, para contar a ele um segredo.

- Ela matou meus irmãos, Jezebel. Ela matou Primavera, minha irmãzinha, e matou Outono, meu irmão gêmeo, e enterrou os dois no quintal desta casa... Por favor, me tire daqui! Ela é uma assassina!

Jezebel não sabia o que fazer, a mãe tinha sumido da porta. E ele parou de chorar, ao som de uma pancada que quase rachou seu crânio, deixando-o instantaneamente inconsciente.

Acordou com uma dor sem igual na cabeça, que pulsava como se uma grande mão áspera e espinhosa estivesse segurando seu cérebro com força. Estava numa cadeira, amarrado, e percebeu que residia agora no porão da casa. Fedia a verniz e mofo. Uma outra presença se aproximou, era o pai de Inverno, segurando uma faca afiada, e logo atrás, Verano velava os dois, sentado na escadaria que levava ao porão.

- É cansativo sabe... Estranhos destruírem os nossos filhos.

- Do que você está falando? – Chorou Jezebel.

- Do que você está falando? – Remedou o pai de Inverno. – Sabe, minha mulher tem um pequeno problema, e eu faço de tudo para cuidar dela, para manter as coisas sob controle... Mas é difícil quando alguém como você se aproxima de um dos meus filhos para levá-lo à decadência.
Minha mulher, digamos assim, tem um descontrole em relação à depressão pós-parto. Nosso primeiro filho, Verano, ela queria matá-lo, mas eu a mantive sob intensas doses de remédios, até que ela melhorasse. Então vieram nossos gêmeos, Inverno e Outono, dois pequenos anjinhos, que nem choraram quando saíram do seu ventre. Ela não teve problema com eles, então acreditei que fosse uma espécie de redenção para ela, entende?

Jezebel chorava em silêncio agora, aterrorizado com a faca.

- E por fim, chegou Primavera. Nossa querida Primavera, nosso pedacinho de estrela, de tão bela que ela era, só que ela tinha um problema para respirar! Eu me descuidei... E numa noite, no hospital pela madrugada, minha mulher acordou e tirou os tubos respiratórios que deixavam nossa filha viva. Foi uma tragédia para Outono, que era o mais apaixonado por Primavera do que qualquer um de nós.

Outono herdou da minha vó o câncer. E ano passado tudo parecia estar bem com ele, até numa manhã de sol em que ele desapareceu desse mundo, deixando apenas Inverno e Verano para nós. Minha mulher estava enlouquecendo, acha que a sua insanidade é culpa de Deus, e numa forma de não se separar de nenhum deles, nós os enterramos no quintal desta casa. Os vizinhos nunca souberam disso, ninguém nunca soube, era nosso segredo, eles eram nossos anjos da guarda.

E agora você chega, leva meu filho ao mundo das drogas... E as consequências? Quem vai pagar por elas? É culpa nossa? Não. É culpa sua, é culpa desse maldito mundo que insiste em colocar desgraça debaixo deste teto!

- Por favor, acredite em mim, eu não fiz mal algum a ele! – Esperneava Jezebel, mais assustado do que nunca.

- Sim, você fez, e você vai pagar por isso!

Os olhos do pai sangraram, e também saiu sangue dos seus ouvidos, narinas e boca, e seu corpo se estatelou no chão como um prédio desabando. O mesmo aconteceu à Verano, que fazia uma mini-cachoeira de sangue na escadaria. Jezebel não entendeu, mas estava pouco se lixando no momento, ele entortou a cadeira e caiu com força no chão, conseguindo alcançar a faca e usando-a na corda por um bom tempo, até finalmente se ver livre.

Subiu a escadaria e chegou no primeiro andar da casa, a mãe estava numa poça escarlate que saía da sua boca, e a porta estava aberta. Jezebel saiu, e lá adiante, naquela manhã nublada que trovejava num anúncio ao que vinha, Inverno caminhava em linha reta, sem parar. Os carros se atropelavam, as pessoas caíam, o bairro Veraneio estava um caos.

Jezebel correu, espantado e decidido, até conseguir alcançar Inverno, mas quanto mais corria, mais distante parecia estar. Então ele chegou no colégio.

Os valentões foram os primeiros a cair, e depois alguns professores que vinham ver, e por fim todos os alunos, uma montanha de mortos, um oceano de sangue. Jezebel finalmente conseguira alcançar Inverno, o céu trovejava mais forte. Ele tocou em seu ombro e o parou.

- Inverno! Inverno! Por favor! Pare com isso! – Falou Jezebel, desesperado.

Mas não era Inverno. Os olhos o acusavam, seus olhos estavam negros como o fundo de um lago na noite. Era Outono. Mas Outono ficou ali por pouco tempo. E tão logo Inverno despertou. Desnorteado, confuso, amedrontado.

- Je... Jezebel... – Disse Inverno, e toda a dor voltou num misto de alívio e purificação.
Inverno o abraçou, ajoelhado, e Jezebel se sentou, para receber o corpo do seu amado, e fecharam-se para o mundo.

E de repente, não havia mais corpos, sangue, e qualquer sinal de tempestade. Eram todos girassóis, girassóis cristalinos, girassóis de vidro. Em todo lugar, nas paredes, nas ruas, nas casas, em todo o bairro Veraneio. E não era mais trovão, era neve, neve caindo pela primeira vez naquela cidade. Jezebel o carregou até a praia congelada, e o braço de Inverno não doía mais, estava tudo bem, estava tudo em paz.

Jezebel o deitou na areia, e depois deitou sua cabeça sobre seu peito. Aquele sinal de afeto que Inverno tanto gostava, que Outono vivia fazendo nele, aquele calor do qual o fazia não precisar de mais nada nesse mundo. Jezebel sentiu seu coração vibrar, estava calmo como um dia de domingo, e vez ou outra se descompassava, até se transformar numa mínima frequência. Jezebel se levantou, ele sabia, ele sabia sobre aquele sentimento, sabia quando ele estava chegando. A perda.

E então as ondas se congelaram como a boca de um animal empalhado, simulando uma grande mordida, e o horizonte também congelou. Ondas de vidro, sol de vidro, nuvens de vidro, apenas areia e neve verdadeiras. Mas era muito estranho, pois tanto Jezebel quanto Inverno não sentiam um mínimo sinal de frio, pelo contrário, estavam felizes por canalizarem com mais atenção o calor um do outro. Jezebel passou a costa da mão no rosto pálido do seu amado, e o beijou.

Outono se libertou do corpo de Inverno, e caminhou por entre as ondas cristalizadas, até sumir no horizonte embaçado.

Seu hálito, seus dentes, sua língua. Tudo Inverno amava, por tudo ele estava pronto para amar. Exceto por eles e pela neve, tudo o mais estava parado como uma fotografia. E então, o sol descongelou, e refletiu em todas as outras coisas de vidro, e tudo ficou lindo como um caleidoscópio orgânico, arco-íris por todos os lados do mundo. Um deus desconhecido tocou naquele sol, um deus que fazia sóis e ressuscitava auroras, e nada mais.

Jezebel não percebia nenhum desses milagres. Estava concentradíssimo no beijo, assim como Inverno, que precisava apenas do calor de Jezebel para se manter. Veja! Não há mais nada no seu braço! Está limpo e curado como antes! Está tudo bem!

É claro que tudo estava bem.

Tudo deve estar bem.

~

Jezebel entrou no banheiro, e lá estava Inverno deitado na banheira, o braço necrosado, a boca ressecada, os lábios rachados, os olhos fechados e as olheiras ressaltadas, dormia tão frágil como um bebê após ser amamentado, na sua caminha cheia de pequenos lençóis fofos.

Uma onda de dor o invadiu. Seu peito pareceu rasgar, seus olhos perderam o foco, um grito arranhava a sua garganta, um choro já inchava suas pálpebras, ele queria falar alguma coisa, mas não conseguia. Tudo acabava naquele silêncio, naquele maldito silêncio. Incômodo, cortante, violento, desgraçado.

A onda se propagou, e se transformou num soluço, e depois outro, e mais outro. Jezebel desabou no piso do banheiro, ajoelhado, postando as mãos sobre a face, como que numa prece proibida, e depois rastejou de joelhos para perto da banheira, para perto do seu amado Inverno, que era mais um verão para o seu coração. Que irônico.

Jezebel ouviu um grito, mas parecia ser distante como um eco. Era a mãe de Inverno, lamentando pela perda de um terceiro filho. Outono falecera com um câncer descoberto em estágio avançado, e ela nada mais podia fazer. Primavera já nasceu morta, e ela nada pôde fazer. Enterrados num cemitério ali perto. Verdade.

- Senhor... pare de tirar meus filhos de mim desse jeito! – Rogou a mãe, chorando como se chora uma mãe de verdade.

O nadador carregou o corpo até a cama, e se deitou ao seu lado. A mãe já ligava para a ambulância e depois para o pai, Verano observava com lágrimas sutis.

- Inverno, por favor... Não me abandone... – Chorava Jezebel, postando a cabeça sobre seu peito, e sentindo um milagre. Uma batida! E depois várias!

- Inverno! Inverno! – Jezebel sacudiu o corpo de Inverno.

E Inverno abriu os olhos lentamente. Foi tudo um sonho? O que estou fazendo aqui? Ele apenas se concentrou em observar o seu amado, o sol invadia o quarto pela janela quebrada e descortinada. Inverno sorriu, e o mundo desabou.

- Você é o meu abrigo, Jezebel. – Disse.

Jezebel o beijou, desesperado, sentindo o hálito de Inverno oscilando.

- Me deixe ser a sua melhor constelação... eu prometo que vou sempre te observar. – Chorava o atleta.

- Constelação? Você não precisa ser mais nada... Eu preciso apenas do seu calor. Vê? Não pode existir mais nada para mim... Vamos! Diga-me aquilo de novo. Aquilo que você disse para mim na praia que eu nunca conheci. – E a voz frágil e rouca se transformava num leve sussurro, quase inaudível.

- Você é minha mais doce canção agora... – e parou para soluçar. - Eu nunca senti isso antes. Eu tenho necessidade de você. – e pausou mais uma vez. - Você é o meu santuário, o meu abrigo, o calor que transborda pelo meu corpo. O sangue que escorre no meu coração de vidro, que engrandece a minha alma, e dilui a minha dor.

Inverno sorriu, e tocou no rosto de Jezebel, guiando-o para os seus lábios. Jezebel o beijou mais uma vez, e todo o seu espírito foi sugado. Inverno estava finalmente feliz. Inverno não precisava de mais nada. Outono também estava livre, Outono fora morar no horizonte de vidro, no oceano parado, no oceano do seu coração, onde todo um universo se encantava com a magia complexa que era o amor, algo que nem a melhor das constelações saberia explicar. E para as constelações Jezebel caminhou, e se transformou numa esplêndida concha de estrelas, para velar a pérola que era sua, somente sua, e nada mais.










~Vidro~


Fim ?




~







Uma produção de Andrew Oliveira com co-autoria de Black Cherry

Photografias: Juha Helminen, Jonna Lee, Alexander McQueen, etc.

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