Solitude, darkness and love


"I don't wanna admit, but we're not gonna fit"

domingo, 22 de maio de 2011

Vidro - Capítulo 5


Ele caminhou e caminhou, indo com esperança para mais adiante, onde um beco escuro pudesse salvá-lo e oferecer a ele um pouco de privacidade, para seu ritual de escapismo novamente. Outono sentou-se a um metro próximo de uma lixeira, e injetou a heroína no seu braço viciado. As mesmas sensações, os mesmos prazeres. Até a penetração da seringa era excitante. E de repente, era Inverno de volta. Desnorteado, perdido, confuso, dolorido, desesperado.
Ele saiu do beco e voltou a caminhar agora mais rápido, não sabia para onde, não conseguia lembrar o caminho de casa, nem sabia se estava no bairro Veraneio. As casas pareciam imperiais e tinham a impressão de estarem crescendo, as luzes dos carros da madrugada ofuscavam e ondulavam o ar, o vento frio e cortante era como lâminas microscópicas invadindo sua pele corada, ele parou no meio de uma esquina, um carro buzinou, e ele foi puxado.

Era um dos valentões, pra ser mais exato, o namorado de uma garota mentirosa chamada Maria. Jorge o fitou como se fita uma aberração, era estranho ver um garoto certinho e comportado estar numa madrugada de amnésia temporária. Inverno o olhou envergonhado, e tomou seu braço de volta, tocando-o com o outro para se certificar de que não estava quebrado.

- Você é um retardado ou o quê?

Inverno ficou calado.

- O que está fazendo aqui? – Voltou a falar incrédulo.

- Eu... Eu... Não sei.

Jorge gargalhou.

- Você está perdido? E... Nossa! Sua cara está péssima! Alguém morreu?

- Certo, agora é o momento em que você quebra a minha cara.

- Não estou afim hoje. É divertido te ver como eu fico às vezes.

Inverno o encarou, estressado, e depois voltou a caminhar. Sua mão tremeu, ele queria injetar mais, queria mais daquele mundo de prazeres primitivos.

- Ei, volta aqui! Como você quer ir embora se não sabe nem onde é o norte?

- É claro que eu sei. – Disse envergonhado.

- Então me aponte.

Inverno apontou para o oeste.

- HAHAHA! Você é uma piada! – novamente gargalhou. – Eu te vi com o Thomas.

- O que tem o Thomas?

- O que o Thomas vende pra você, ele vende pra mim também, e bem... pelo menos eu pago com dinheiro.

- O que você quer dizer com isso? Eu não vou te chupar.

- E quem disse que eu quero isso? – e sorriu. – Está na cara que você quer mais do que o suficiente hoje, e eu posso lhe dar. Só preciso que me faça um favor.

A mão de Inverno tremeu novamente, e um riacho de suor frio brotou nas bordas da sua testa. Outono o consumia cada vez mais.

- O que é?

- Quero que dê uma liçãozinha na Maria.

- Liçãozinha?

- Quebrar a cara dela. Digamos que ela está muito... hãn... Cachorra demais.

- Sério mesmo? – Disse Inverno, irônico.

Jorge o olhou mortalmente. E foram para uma outra boate, a segunda de Inverno naquela noite, procurar uma garota prepotente chamada Maria. As músicas desta eram mais populares, e as pessoas ali presentes eram mais libidinosas que o normal. E ali estava Maria, dançando sensualmente entre dois rapazes, um deles era amigo de Jorge.
Jorge se controlou, e depois falou ao ouvido de Inverno:

- Fique sentado perto do balcão do bar.

E Inverno foi. Sentou-se em uma cadeira e esperou, por um momento achou ter visto Outono ao seu lado, pedindo-lhe uma taça de sangue, mas era apenas outra de suas muitas ilusões. Jorge o observava de longe, seu amigo já estava longe do corpo suado de Maria, estava saindo da boate e fugindo dos punhos do namorado desta. Maria discutia alguma coisa e batia os pés com raiva para o outro e, cansada, sentou-se coincidentemente ao lado de Inverno. Inverno a olhou de relance, e ela já estava o encarando sensualmente.

- O que você faz aqui? – Perguntou sorridente.

- O que a gente faz num lugar desses além de se divertir?

- Você tem razão... Quer transar?

- É claro.

Maria tascou-lhe um beijo, seu hálito tinha gosto de sexo masculino, e Inverno empurrou-a um pouco, levou-a para fora da boate, e foram para o também segundo beco de Inverno, este porém, era um pouco mais iluminado, e não tinha pequenas escadarias para sentar. A poucos metros, Maria parou para ver Jorge terminando de esmurrar a face do seu ex-amigo, gargalhando alto, triunfante. Ela ficou horrorizada, e tentou ir embora.

Inverno a empurrou, e também lhe deu um enorme soco. Sua mão doeu, e ele perdeu os sentidos. Outono despertara, os dentes à mostra, e ofereceu socos mais fortes do que Inverno conseguiria dar. Maria tentou gritar mas sua boca logo recebia um punho duro e avermelhado, arrebentando seus dentes careados e rasgando sua gengiva.

Maria jogada no chão, chorando, inchada, sexo para ela e sangue para Outono. Outono ofegou, pronto para receber sua recompensa.

Jorge se aproximou dos dois abandonando o corpo imóvel do seu ex-amigo lá atrás, e avaliou o rosto da ex-namorada. Ele se agachou e encaracolou uma mecha de cabelo no seu dedo indicador, sussurrando alguma coisa que Outono não se importava em saber. O jovem popular pegou uma viga de ferro velha ali jogada e entregou para o adolescente, que expressava apenas indiferença, e desejo de viajar no seu mundo onírico de prazeres o quanto antes.

- Ainda não é o bastante. Use isto. – Disse Jorge, oferecendo a viga para Outono.

- Está bem. – Respondeu Outono, pegando o pedaço de ferro.

Outono deu a primeira paulada nas costelas expostas de Maria, fazendo-a gritar desesperada e ao mesmo tempo chorar agonizante. Depois deu a segunda nas suas pernas, e voltou-se para a costela, a barriga e os seios. Maria era uma condessa de sangue, em silêncio, apenas um fio de respiração.

- Por favor... – Sussurrou ela, implorando. Não havia mais nada dentro dos seus olhos sedutores.

Outono se ajoelhou, estarrecido, e levantou a blusa preta da adolescente. Vergões se abriam como uma rachadura espessa e bizarra, sangue, sangue e sangue. Ele passeou o dedo pelas aberturas num total orgasmo espiritual, estava quente como o inferno. E, com uma ordem de Jorge, tirou suas roupas, recebeu a recompensa, e foi embora, enquanto o rapaz a estuprava.

Abriu a porta do seu banheiro e ligou a luz, o olhar suavemente semicerrado, e se avaliou no espelho, não sentia mais medo de Inverno voltar para o seu corpo. Sim, aquele corpo era dele, sempre pertenceu a ele, ninguém sabia, ninguém descobriria, apenas ele carregaria aquele peso.

Não, não, não! Aquele corpo era de Inverno, Inverno oscilou, querendo voltar a consciência, querendo seu corpo de volta, e Outono chorava para não voltar, Outono detestava a escuridão que era sua mente, onde era guardado, onde vez ou outra fugia para deleitar-se com os prazeres mundanos quando podia. Outono era um impostor. E o impostor pegou a seringa, a droga, e se injetou mais uma vez naquela noite, inconsequente, primitivo, louco, gemendo baixinho. Aquele demônio peralta que era, aquela diversão personificada. Outono era o que queria ser.

Então Inverno conseguiu despertar, tomou controle de seu corpo novamente, e tentou chorar, tentou urrar, mas não conseguia. Arrancou a seringa com força e um pedaço de agulha quebrou dentro da sua pele, percebeu as mãos sujas de sangue apenas depois, e tentou lavá-las, num desespero ímpar, estava dentro das bordas de suas unhas, dentro de si. O que ele fizera? Como chegara aqui? O que aconteceu? Ele só se lembrava do sexo de Thomas na sua boca, num dos boxes do banheiro masculino da boate, e depois mais nada.

Seu braço ardeu, doeu, reclamou, rogou pragas. Outono queria mais, sim, Outono queria mais. O buraco consequente da seringa estava horrendo, arroxeado, com uma tonalidade meio amarelada, meio azulada, e começou a derramar um pus denso, estava maior do que o que seringa causava quando era penetrada na sua pele, como uma cratera de uma lua amaldiçoada, estava com um leve odor, e depois do pus, o sangue. Por que tudo acabava em sangue? Ele estava cansado de sangue.

E então ele se lembrou da primeira vez em que esteve na boate, e da segunda, e dos becos, e de Maria ensaguentada no chão, uivando seus lamentos humanos. E se lembrou de Jezebel, ele queria Jezebel naquele momento. Jezebel para abraçar, para beijar, para trepar. E ele se lembrou também de que quando Outono tomava controle do seu corpo, sua alma também sentia prazer, e se lembrou de que tinha um pequeno estoque reserva de esquecimento total da dor. A dor, a dor de novo, aquele pedaço de agulha doía como o inferno! O que ele faria?

Ele saiu do banheiro tropeçando nos próprios pés, abriu a última gaveta do criado-mudo, tirou uma tesoura enferrujada, e voltou ao banheiro. Levantou o braço, ressaltou na luz o lugar onde o pedaço de agulha nadava no seu braço, seu olho já estava inchado de tanto chorar. E esperou alguns segundos para tomar coragem. Cortou um pedaço de pele.

A tesoura enferrujada caiu no chão, e ele abafou um grito agonizante com a mão agora ocupada, sangue e mais sangue fazia um filete e manchava o tapete do banheiro, o vidro da pia, e num milésimo de segundo atrás, até o espelho. Uma ponta da mini-agulha estava lá, no meio do sangue e da pele, misturando-se ao pus e ao desespero, era maior do que imaginara. Inverno usou as unhas do polegar e do indicador, puxou o pedaço pontiagudo da carne exposta, jogando-o em qualquer canto, e segurou o urro de dor novamente com a mão banhada de vermelho, chorando, chorando. Dor, dor.

Suas olheiras, suas veias oculares, seu suor, tudo se ressaltava. Ele se sentou por um momento se apoiando na parede do banheiro, e depois engatinhou de volta para o criado-mudo, de onde tirou da última gaveta um frasco e outra seringa. Ele tinha que se livrar da dor, sim, essa era sua missão. E injetou, pela terceira vez daquela madrugada, na carne viva que se decompunha lentamente. Inverno se arrastou como se arrasta uma minhoca na pele de um animal morto, e deitou-se na banheira para dormir, para pensar no calor de Jezebel. O calor que o salvara da sua vida morta por tão pouco tempo.

~

- Inverno! Outono! Verano! Está na hora do almoço. – Gritou a mãe, entusiasmada.

Inverno e Outono saíram do seu quarto, famintos, eram gêmeos idênticos, exceto pelos olhos, os de Outono eram negros. Verano veio logo em seguida, sem tanta ansiedade quanto os irmãos.
A casa estava ensolarada, era domingo, o pai também estava presente. Logo todos se sentaram à mesa, farta e bonita. Tudo era uma perfeita aparência de sabedoria e serenidade. Outono tossiu um pouco de sangue e disfarçou limpando a palma atrás do pano da mesa. Inverno o encarou, ele sentia quando o irmão estava mal, ele sentia tudo o que Outono sentia, como uma máquina automática.

- Soube que teve um grande incêndio na outra cidade. – Disse o pai, cedendo o jornal para preparar seu prato.

- Sim. Só conseguiram apagar o fogo dois dias depois, foi terrível. – disse a mãe, arrepiada. – Aliás, uma família mudou-se para cá depois disso. – observou.

- O que é um grande incêndio? – Perguntou Verano, entortando o pescoço, como que avaliando o pai.

- É quando o fogo queima várias coisas importantes. – Respondeu Inverno.

- Irmão, eu quero subir. – Disse Outono.

Inverno olhou cada um na mesa atentamente, e depois saiu de mãos dadas com Outono. O irmão dois minutos mais novo vomitou sem parar vaso sanitário adentro. Depois lavou a boca na pia, e deitou-se na cama, ao lado de um Inverno aflito, usando as mãos como travesseiro.

- Não conte pra mamãe. – disse Outono. – Já é difícil ela me deixar sair.

- Eu não vou contar. Prometo.

Outono o abraçou, e postou a cabeça no peito do irmão, aterrorizado.

- Eu tenho medo, Inverno. E se ela me enterrar no quintal de casa como enterrou Primavera?

- Não vou deixar ela fazer isso. Se ela quiser fazer, a gente foge.

- E pra onde?

- Não faço ideia.

- Você é um idiota, sabia?

- Você também.

E riram. Inverno se recordou por um momento da notícia do incêndio, e da família que se mudou para o bairro Veraneio. Como eles estariam? O que eles estavam sentindo?

Somente um ano depois, ele conheceria um membro daquela família, conheceria como nunca conheceu outra pessoa antes, além do seu irmão, é claro. Somente um ano depois, ele se tornaria uma criatura calada, submissa e quieta, em luto para sempre, pela morte do irmão.






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Andrew Oliveira & Black Cherry

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