Solitude, darkness and love


"I don't wanna admit, but we're not gonna fit"

sábado, 14 de maio de 2011

Vidro - Capítulo 3


Eles falavam alguma coisa incompreensível. Usavam máscaras que mostravam apenas suas bocas, e falavam sem parar. Depois, o amordaçaram numa cadeira, e começaram um ritual, pegando velas e incensos, gastando cera derretida na sua garganta, e ele mal conseguia gritar. Mais adiante, Inverno-falso ardia numa fogueira, mas sua voz também estava desligada. Tiraram-no da cadeira, despiram-no, e o estupraram como naquele início de noite de uma quarta-feira nublada.

Inverno despregou os olhos e uma enxaqueca dos infernos pulsou na sua cabeça como uma panelada na nuca, e os fechou de novo, levantando da cama e tirando a cueca colada entre as nádegas. Descortinou a janela e ainda era chuva, mas agora estava rala, e provavelmente acabaria no final do dia, e presentearia Inverno com uma noite mais estrelada do que outrora. Sua visão ainda estava meio embaçada, mesmo assim, conseguiu cortar as unhas com uma tesoura enferrujada, guardada na última gaveta do seu criado-mudo, e dar uma boa escovada nos dentes, antes de lavar o rosto.

Finalmente, sexta-feira, pensou ele. E não passou trinta minutos na banheira dessa vez. Mas tentou relembrar de como conseguiu chegar em casa, Jezebel obviamente o ajudara e ainda o colocara na cama antes de ir embora. Inverno entortou os lábios, estava pensando em Jezebel antes mesmo de vê-lo. Mas também se lembrou de João, seu amigo que o abandonara de uma forma tão súbita quanto assustadora. Era plausível se afastar por medo de ser espancado pelos valentões da escola, mas era terrível fazer isso sem falar nada, ou pelo menos manter contato fora da escola.

Foda-se o João.

~

Chegou cedo na escola, e uma estranha sensação de deja vu o invadiu. Mais adiante no gramado, Jezebel estava buscando seus cadernos no chão, mas aquilo era pior. Sua boca sangrava e seu olho estava meio inchado. Lá longe, os atletas populares do colégio riam e pegavam nas nádegas das garotas mais bonitas e louras, com tanta maquiagem que já era perceptível uma ou outra ruga de envelhecimento precoce. Eles sentaram num banco perto de bandeiras hasteadas e molhadas pela chuva.

- Parece que agora eu sou um ‘loser’, ou coisa parecida. – Disse Jezebel, rindo da própria piada cretina.

- Você teve a chance de ser um popular. – Disse Inverno, pegando um lenço da mochila e limpando a fonte de sangue nos lábios de Jezebel. Tinha experiência em ter uma roupa ou um pano extra para casos assim.

- Eu gosto de cérebros, sabe...

E ambos riram, aquilo era fato.

- Eu vou treinar um pouco hoje, a piscina vai estar vazia. Você quer vir comigo?

- Eu não sei nadar. – Disse Inverno, corado. – E você precisa tratar desse inchado primeiro.

- Não é tão grave assim. Amanhã já vai ficar melhor.

- Tem certeza?

- Eu não preciso de mais nada.

- Ei bichinha! Por que você não me chupa também? – Disse o valentão, e seu grupo logo atrás gargalhou, num sentimento ímpar de superioridade.


- Chupar o quê? Prefiro chupar meu mindinho, que é maior que o seu pau. – Disse Inverno, enfrentando alguém pela primeira vez.

E antes que pudessem fazer alguma coisa, Jezebel o puxou pelo braço e saíram correndo até encontrarem um banheiro masculino e se esconderem num box.

- Nossa, como você teve coragem pra falar isso? – Espantou-se Jezebel, abafando uma gargalhada. – E agora? A gente vai ter que se esconder ou sair daqui durante a hora do almoço também...


- Isso não me parece muito desagradável. – sussurrou Inverno, mais próximo de Jezebel. – Detesto essa escola e essa cidade.

- Eu gosto daqui... quero dizer, desse bairro. – Disse Jezebel, sentando na privada. – Ela me acalma.

- Você não é mesmo daqui... é? – disse o garoto de pé, franzindo o cenho.

- Me mudei ano passado.

- Por quê?

- Alguns problemas. – disse, suavemente cabisbaixo, e depois saiu dos seus devaneios e sorriu. – Acho que o primeiro horário já começou.

O final da tarde também começou, e, como previsto, a quadra da piscina olímpica estava vazia. Inverno e Jezebel se encontraram no vestiário, onde o nadador já estava colocando sua sunga azul-escura. Inverno percebeu novamente, agora mais próximo, a cicatriz no ombro esquerdo do amigo, e se contorceu de vontade de perguntar o que aconteceu para obtê-la. Uma ânsia e um certo nervosismo. Mas sem prestar muita atenção, já estava na arquibancada enquanto Jezebel nadava no estilo borboleta, seus músculos dos braços e das pernas ficavam mais ressaltados quando treinava. Ele decidiu pegar seu caderno e escrever um poema, mas não entendeu o porquê. Seus poemas geralmente ficavam guardados numa gaveta, ou então jogados fora. Era tudo uma baboseira.

- Hoje eu tive um sonho estranho.

- O que era? – Perguntou Jezebel, tirando sua sunga e espremendo-a.

- Parecia ser um ritual, depois era tudo fogo, e depois nada. – por um momento pareceu se lembrar novamente dos detalhes, foi como se sua pele estivesse sentindo o fogo...

Jezebel se sentou ao seu lado, segurando uma cueca branca, e depois se deitou no banco, postando a cabeça na coxa de Inverno, de peito pra cima. Inverno passeou os dedos nos seus cabelos negros de fios grossos e lisos, mas Jezebel não parecia tão alegre naquele instante.

- Acho que não é estranho você sonhar com isso. – Disse olhando para o queixo de Inverno, que abaixou o rosto para fitá-lo.

- Por quê? Nunca tive medo de fogo, e agora não consigo me imaginar segurando uma vela depois disso.

- Quando a gente está triste, costuma sonhar com coisas que antes não fascinavam... – e voltou a se sentar. – Teve um tempo em que todo dia sonhava que a escuridão me sequestrava.

- Estava tão triste assim para sonhar com ela todo dia?

O nadador abriu uma expressão quase alegre, um quase sorriso, e foi tomar uma ducha. Voltou mais aquecido e desvencilhado do cloro, e vestiu a cueca branca, seguida da calça. Inverno balançou os pés, numa espécie de torneio entre o esquerdo e o direito, e observou as costas de Jezebel, que tinha a tatuagem de uma grande rachadura, da nuca até o início das nádegas. Saindo da rachadura, mãos negras que chegavam até as axilas, de unhas pontiagudas que cobriam de preto metade das costelas. Tinham a impressão de estarem se mexendo, prestes a levantar vôo. Um anjo demoníaco. A mancha de um unicórnio. E depois, não estava mais lá, eram apenas as costas lisas e brancas com um ou outro sinal de Jezebel.

- O que é isso? – Perguntou o nadador, apontando para o papel amassado em uma das mãos de Inverno.

- Não é nada. Só... só um poema. – Disse apagando a imagem da tatuagem satânica da cabeça.

- Posso ver?

- Não.

Jezebel o tomou de sua mão.

- Me devolva seu idiota!

Mas era tarde. Jezebel já estava lendo o papel com a mão esquerda, enquanto que com a direita afastava Inverno e seus muitos braços. Inverno se aborreceu e saiu correndo próximo à piscina.

- Inverno! – Disse Jezebel, correndo também.

Inverno parou, ofegando, e girou os calcanhares para encarar Jezebel. Jezebel não estava entendendo muito bem, era um rapaz de mais atitudes do que palavras, apesar de que algumas de suas atitudes não fossem tão convenientes quanto deveriam. Inverno estava novamente com aquela expressão triste que ele detestava, mas que também o atraía. Seu olho ainda doía, e estava meio roxo ao lado, mas não estava mais inchado, o que era um verdadeiro milagre. E com um olho roxo, uma expressão de aflição, e a incógnita que era Inverno, ele se aproximou.
Dizia o poema:

Me toque
Eu quero sentir sua mão áspera
Encostando-se em meu rosto
Sua respiração perto do meu pescoço,
Fervendo meu sangue.
Quero sentir seus músculos em mim,
Em ressaltos e sabores
Quero beber da tua fonte de suor e saliva,
Na madrugada do meu coração
Quero prová-lo e...


Jezebel o puxou e empurrou seus lábios quase avermelhados contra os rosados de Inverno. Segurou seu corpo menor num abraço impossibilitando-o de respirar, apertando peito contra peito, barriga contra barriga, sexo contra sexo, coxas contra coxas. Inverno o abraçou abaixo dos seus braços, como que protegido, e não se deixou largar. Jezebel enfiou sua língua e cutucou na sua garganta, seus dentes trincavam com os dele, e sua respiração tinha o cheiro de uma brisa suave e morna numa tarde de quinta-feira. A pele de ambos ardeu, podia-se ver as bochechas de Jezebel avermelhando, como um ruge mágico pintando seu rosto. Inverno sentiu-se num frenesi incontrolável de entrega e paixão. Era terrível.

E se afastaram. Lentos e ofegantes. Elegia da excitação.

Foi a vez de Jezebel ir embora, não correndo como Inverno louco, mas apenas confuso e taciturno, caminhando como um zumbi, não acreditando no que acabara de fazer. Não entendendo por que quis fazer, e fez. A mão negra e imaginária das suas costas apertou e explodiu o coração de Inverno, e seus restos desmaterializaram sua caixa torácica, misturando todos os seus órgãos. A conseqüência foi um peso insuportável no seu peito. Os olhos dele, antes azul-marinhos, tornaram-se pretos. Aquele não era mais o Inverno verdadeiro. Era Outono, o monstro dentro dele.

- Seu estúpido! Pare com isso! – gritou, fazendo Jezebel parar sua caminhada. – Você quem quis entrar nessa escuridão por conta própria! Então saia dela e não me atormente mais!

Jezebel continuou criando fontes de lágrimas na sua face, tinha até esquecido de vestir sua camisa. Não falou nada, e foi embora. Outono correu pelos corredores da escola, agora vazia, com passos fortes, e entrou num banheiro masculino, deslizando a mão pela torneira e lavando o rosto. Deu um tabefe na própria face, e depois outro, e mais outro. E uma pessoa entrou.

Era o rapaz louro e bronzeado da boate, estava com a expressão mais mórbida do que o normal, mas sorria como se o mundo fosse uma grande piada, e logo postou a mão sobre o ombro meio torto de Outono.

- O que você está fazendo aqui? – Perguntou seco, franzindo a testa numa estranha forma de sobressalto.

- E aí, vai querer mais? – Perguntou o louro, massageando seu ombro tenso, num gesto de falsa camaradagem.

- Não tenho dinheiro... – Disse fitando-o de cima a baixo.

- Não tem problema. Você pode me pagar por um meio alternativo, se quiser. – Respondeu o traficante, com a mão agora sobre o peitoral magro de Outono.

- Certo. O que tenho que fazer?

- Me chupa.

Outono agora também estava sorrindo. O louro pegou sua mão direita e passeou pelo seu corpo definido, até chegar no meio de suas pernas, onde o garoto apertou e sentiu seu sexo rijo e meio torto. Tinha um odor viril e seus pêlos eram castanho-claros. Outono se ajoelhou e rezou.
Sua visão embaçou novamente, e tudo ficou lento como a cena detalhada de um filme. Sua boca estava com um gosto amargo, e ele nada mais ouvia, estava excitado, e sonhando com um vale, com montanhas, e um chalé fumegante na neve. Outono adormeceu e Inverno despertou, com o mundo dando voltas e sua cabeça explodindo, jogou a seringa usada na lixeira do seu banheiro, e se deitou na banheira para adormecer e ter doces sonhos com um sentimento que ele desejava conhecer, antes de estragar tudo. Felicidade.





~





Black Cherry & Andrew Oliveira

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