Solitude, darkness and love


"I don't wanna admit, but we're not gonna fit"

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Aurora: 3 - Como beijar

A manhã estava nublada, e Arthur estava se sentindo muito melhor do que na noite anterior, quando se encontrou à companhia de uma fuga, ao lado do seu novo amigo, Corona Solaris. Mas ele também estava diferente, não pelos lençóis de seda ou por todo aquele conforto exacerbado, era acostumado aquilo na mansão de tia Andréia. Ele estava diferente porque todo o seu corpo reagia de uma forma que nunca reagira em toda a sua vida, como se uma droga estivesse dando resultados explosivos dentro dele, como se ele estivesse completamente dopado disso, uma sensação de calor e ardência. E um forte cheiro de um perfume novo, um último lançamento, ou veio de outro mundo também?
Outro mundo? Mas que baboseira, era grandinho demais para acreditar em outros mundos, principalmente em outras vidas, só que, tudo aquilo parecia uma estranha baboseira também, e por isso, resolveu acordar calado até constar que estava no mundo real, e não sonhando sobre a fuga de uma mansão para entrar em outra.
Mas tudo aquilo era verdade, ah se era...
Corona Solaris entrou no quarto, bem vestido, como se tivesse se arrumado recentemente, mas era dez da manhã, e ele estava com aquele terno há um bom tempinho. Fitou um Arthur esfregando os olhos com paciência, e um sorriso estampado na face, como se esperasse alguma coisa, preparado para a hora certa de aprontar sua artimanha, e estava, pois já havia aberto o pacotinho macio nas mãos confortantes.
- Bom dia, Arthur. – Disse mostrando os dentes. – Tenho um presente para você. – E jogou o pacote do objeto no chão.
- Um pano preto? – Desconfiou-se Arthur.
- É claro. – Respondeu se aproximando da cama.
E andou um pouco com os joelhos durante a cama, ficando em cima de um Arthur deitado, ainda arregaçando a boca, ele estava mesmo bem arrumado. Arthur já não sentia mais tanto medo ou confusão na sua cabeça jovem, e pôs as mãos nos ombros de Corona Solaris, agora sem sono algum, aproximando-o de seus lábios quentes e rosados. Sentiu o corpo pesado preencher seu peito nu, e logo depois um hálito com cheiro de vontade se aproximar ainda mais de sua boca, beijando-a, descobrindo-a numa imprudência, mordendo-a com petulância.
Arthur soltou um pequeno gemido, enquanto Corona Solaris lambia seu pescoço, enquanto seu calor entrava em atrito com o seu, e seu sexo rígido reclamando do desconforto na roupa íntima que lhe restara na noite anterior, mas Corona Solaris, ao contrário dele, estava vestido demais. Arthur se ergueu um pouco mais e despiu seu casaco, desenlaçou sua gravata, desabotoou sua camisa formal branca. E depois, sem pudor algum, tocou nas suas pernas grossas e musculosas, abrindo o zíper da sua calça preta social, e deixando-o apenas de roupa íntima como ele, evidenciando o sexo grande e louco de êxtase por baixo do pano pálido.
O jovem beijou seu peitoral, não deixando escapar nenhuma parte do seu corpo, e logo veio a barriga, até chegar no seu sexo. E beijou, ainda por cima da cueca, até tirá-la num voyeur cáustico e ali descobrir seu sexo explícito. Lambendo-o, fez o deus gemer indo para frente e para trás, até enfurecê-lo.
A resposta de Corona Solaris foi violenta. Ele atirou e estapeou as nádegas branquelas de Arthur, deixando-o de quatro, e colocando o pano preto nos seus olhos, como uma venda, era uma venda.
E Arthur sentiu uma dor brutal nas suas entranhas, deixando escorrer uma lágrima, enquanto se contorcia de dor e desespero ao ser desvirginado por trás, nunca sentira uma dor assim antes, era diferente daquelas em que costumava sentir no peito. Corona Solaris foi mais violento, penetrando mais forte e fazendo Arthur gritar como uma prostituta numa orgia. E se passaram vários minutos nisso, até Arthur sentir um pouco menos de dor, e mais prazer, começando a mover seu corpo para frente e para trás, no ritmo do deus insaciável. O prazer começou a cheirar por toda a parte do seu corpo agora, e ele estava mais à vontade, gemendo agora de prazer pelo sentimento de invasão incrível, como era bom sentir aquilo penetrando e saindo por entre suas nádegas!
- Arthur? Arthur? - Perguntou uma voz preocupada.

Arthur acordou, e olhou para os lados atordoado, suando frio, presenciando apenas janelas cortinadas escondendo a luz azul-escura das cinco da manhã, a porta do quarto, objetos ilustres, paredes e Corona Solaris ajoelhado na cama, quase em cima dele, movendo seus ombros, com a testa franzida. Era um deus ainda desacostumado com seres humanos.

- Você está bem? - Questionou. - Estava gemendo... era um pesadelo?

- Eu... não lembro. - Disse Arthur com sinceridade. - Mas... como você me ouviu se eu estava gemendo e não gritando? Você estava no seu quarto, não? - Perguntou.

Corona Solaris fitou com aspereza para Arthur, e ainda tentando se adaptar às devidas expressões de cada sentimento, naquele momento não sabia se sorria ou se fazia uma careta, mas permaneceu apenas encarando-o.

- Meus sentidos ficaram mais aguçados neste mundo. - Disse colocando a mão sobre o peito nu e suado de Arthur. - Até as batidas do seu coração.

Arthur até então não piscara nem uma vez, se sentia súbito demais às cinco da manhã. Corona Solaris piscou duas vezes, parecendo nervoso, e foi embora, fechando a porta com carinho. Deuses sentiam nervosismo também? E com o quê ele estava sonhando para gemer ao ponto dele ouvi-lo? Arthur preferiu se enroscar nos lençois e adormecer, no amanhecer desse dia, ele iria visitar uma amiga, e não poderia aparecer com os olhos murchos de sono.

- E se descobrirem sobre nós? - Questionou Emilie aborrecidamente triste, para Annie, que se recompunha de alguma coisa no banheiro do convento.

- Não vão descobrir. - Respondeu Annie, que mais parecia uma penúmbra de ansiedade.

- Annie, eu... eu não posso mais continuar com isso. - Explicou Emilie. - Isso é tão errado...

- Emilie - Annie respirou fundo. -, mesmo se descobrirem, eu não vou deixar nada de ruim acontecer com a gente.

Emilie, que até então expressava um profundo medo, pôs os cabelos negros e cacheados por trás da orelha e fechou as pálpebras por alguns segundos. E ainda concentrada, disse:

- Eu não quero que isso acabe nunca. - Pronúnciou na voz doce que possuía.
A garota, jovem e reprimida, se encostou na parede, sem abrir as pálpebras uma vez sequer. Annie se aproximou dela, marejada de confusão, sono e desespero, deixando seu corpo pesar sobre o de Emilie, sentindo seu calor fluir pela pele lisa e frágil, tocando em seu ombro direito e provando do seu cheiro, comendo-o no ar, e fechou as pálpebras também. Emilie sentiu um gosto de morango nos lábios, agora úmidos pelos lábios de Annie, que a beijava apaixonadamente, entre hálitos ofegantes e toques impróprios, Emilie tinha uma aparência de garota desprotegida, que excitava ainda mais os póros de Annie, dona de seus próprios anseios, se não dona, por que mulher?

- Assim você vai me matar... - Gemeu Emilie.

- Eu nunca vou te matar - Sufocou-se Annie. - Tua alma é fonte de sangue para o meu coração...
- E se eu escondê-la?

- Eu vou sempre encontrá-la.

Uma batida ensurdecedora cessou sobre as garotas sobressaltadas, que logo pararam a sessão proibida. Já sabiam o que era, e destrancaram a porta do banheiro.

- O que vocês estão fazendo aí? - Grunhiu uma madre envelhecida e rabugenta.

- Emilie estava passando mal, madre. - Mentiu Annie, apontando para uma Emilie falsamente abatida.

- E por que esta porta estava trancada? - Desconfiou-se a velha.

- Bem... ela precisava conversar sobre seus problemas, e queríamos privacidade, sabe...

- Voltem já para suas camas! Isso não é hora de moças como você estarem acordadas. - Respondeu ainda com os olhos murchos de sono e velhice, e o pijama pinicando o corpo.

- Sim senhora, madre.

O dia se espalhou igualmente claro e quente por Londres. Emilie, Annie e as outras estudantes acordaram mais cedo para ajudar nos jardins do convento e estudar os salmos um pouco mais do que o suficiente. As duas não pouparam esforços para trocas olhares e sorrisos, o que deixou os dias um pouco mais suportáveis, aliás, estudar num convento era como um castigo naquela época, e não deixa de ser atualmente.

- Emilie, visita para você. - Disse uma das madres que surgiu dentre as outras observadoras de suas pupilas.

Emilie correu, não tão sorridente quanto antes, lavou as mãos para se encontrar com Arthur, seu melhor amigo e confidente. E lá estava ele, gracioso e branquelo como sempre, os olhos sempre penetrantes demais, como se enxergassem através das vestes, o sol a brilhar na cabeça (a de Emilie estava coberta), lustrando os cabelos do jovem, que já vinha para abraçá-la.

- Por que demoraste tanto pra vir me ver? - Reclamou com um ar retórico.

- Eu estava, bem... com alguns problemas, sabe...

- É a sua mãe, não é?

Arthur corou, e pensou se mentiria para Emilie ou não.

- Também, mas eu... - E a sinceridade se espalhou no seu coração. - Fugi de casa.

- Você o quê?

- Por favor, não brigue comigo, eu estava meio que hipnotizado e...

- Arthur, você faz ideia da besteira que está fazendo? Você está aonde? Como vai sobreviver sozinho nesse mundo?

- Eu sei cuidar de mim, ok? - Irritou-se. - E também, é com um homem que eu estou e...

- Homem? Arthur, e se ele for esse tal estuprador que está à solta por aí? Você enlouqueceu?

- Pare de me interromper! - Gritou Arthur. - Esse homem está cuidando de mim muito mais do que qualquer um é capaz. - Defendeu.

- Cuidando? E sua tia Andréia? Ela deve estar preocupada com você. Você deveria pelo menos ter avisado pra ela que...

- Emilie - Disse pacientemente. -, como a gente vai falar que planeja uma fuga?

- De qualquer forma, tome cuidado com o que você for fazer. - Aconselhou. - Não esqueça que eu estou sempre aqui.

- Obrigado, Emilie. - Disse colocando a mão sobre a da moça.

- Arthur, antes de você ir embora, eu queria te dizer uma coisa. - Começou nervosa.

- Pode falar.

Emilie poderia falar mil coisas. Sobre o quanto estava só e esgotada naquele convento que sua mãe a obrigara a entrar, sobre sua paixão proibida e insaciável por Annie, sobre querer ter passado o ano novo ao lado dele. Mas ela estava pronta para começar uma superação de tudo aquilo, era uma jovem forte, determinada a não olhar para trás, aquele era um novo século, e ela não poderia começar mal.

- Hoje tem uma apresentação de castratos aqui no nosso auditório - Sorriu -, e eu também vou cantar e...

- É claro que eu venho, Emilie. Vou correndo tomar um banho, me arrumar e voltar para cá.

Emilie soltou um gritinho de alegria e abraçou Arthur, que se despediu da amiga logo após, pois a noite em breve chegaria. Ele voltou para casa num cocheiro veloz, e teve a nítida impressão de ter visto Gustavo sorrindo para ele. Corona Solaris já estava tomando um chá da tarde, para refrescar da melhor forma algumas ideias.

- Olá Arthur, por onde andou? - Perguntou simpático assistindo um Arthur apressado.

- Fui ver uma amiga.

- Eu poderia conhecê-la?

- Receio que não.

- Que pena. - E deixou a xícara no píres. - Por que a pressa?

- Vou ver uma apresentação dela, ela canta, sabe...

- Que bonito! - Falou num tom quase irônico.

Arthur subiu as escadas, se despiu e tomou um rápido banho, até esquecendo de se perfumar. Desceu sem prestar atenção nos lustres e nos carpetes aparentemente caros e difíceis de se encontrar, Corona Solaris ainda estava na mesinha, mas sem bebericar chá algum dessa vez, e continuou apenas fitando seu hóspede, por um momento Arthur pôde sentir uma certa melancolia naquele lugar, o deus estava calado demais naquele dia, não por Arthur se adaptar rapidamente à sua nova vida, mas por outros motivos. Motivos que vieram de constelações molhadas de segredos e vontades, que porventura eram cheios de objetivos ainda maiores. Os segredos do pai da luz.

- Arthur, posso conversar um pouco com você? - Perguntou num tom mais melancólico do que o aparente.

- Desculpe mas eu estou com pressa. - Explicou franzindo a testa.

- Tudo bem, pode ir. - E fechou o rosto numa expressão incoerente, algo parecido com tristeza.

- A gente não poderia conversar depois que eu voltasse? - Arriscou.

- Não há depois, Arthur. - Irritou-se Corona Solaris.

- Rodrigo eu...

Mas antes que pudesse dizer mais alguma coisa, Corona Solaris já estava subindo as escadas dando as costas para um Arthur levemente sobressaltado,e depois se perguntou o porquê de ter chamado um deus de Rodrigo. Quem é Rodrigo? Rodrigo era ele, não ele, mas outro ele. Arthur abriu a porta e partiu para o crepúsculo que o aguardava na entrada da mansão. Corona Solaris pegou uma taça e a encheu de vinho tinto e seco que, para ele, tinha um gosto doce como um algodão de açúcar e inocência. Inocência? Eu não sei.








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Black Cherry

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