Solitude, darkness and love


"I don't wanna admit, but we're not gonna fit"

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Aurora: 2 - Como pular das colinas


Caiu e quase bateu com a cabeça no chão, nossa, escapou de uma boa enxaqueca, mas nasceu de novo, ou simplesmente acordou de uma hibernação, longa ou curta, tanto faz. Corona Solaris olhou para o casulo vermelho-vivo em que habitava até há um minuto atrás, e sentiu um pouco de asfixia percorrer-lhe as veias de sangue dourado, azul, vermelho, negro e um pouco mais do que se consegue esperar. O lugar em que estava? Era frio, cinza, sombra, como um quarto sem portas nem janelas, não era tão grande nem tão pequeno, mas dava um pouco de desconforto, completamente diferente do seu casulo, que era quente, confortável apesar de um pouquinho apertado, e que lhe dava os mais doces sonhos pecaminosos.

Corona Solaris tocou na parede leste e, ao toque, surgiu uma janela aberta, como se estivesse escondida numa capa ilusória, mas ele não deu tamanha importância. Pulou a janela e entrou em outro quarto, aquilo parecia um labirinto bem entediante. Avistou no outro quarto uma cama bagunçada, de onde brotavam flores em galhos caquéticos, e na cama sentada uma criatura feminina, entristecida, admirando as paredes também floreadas, manchadas de água com ar de velhice, como se há muito tempo estivessem ali, junto à criatura, esperando o cubo-labirinto se dissipar.


- Eu não quero mais - começou a criatura - ficar aqui... estou tão cansada. - Revelou ainda olhando para as paredes, em vez do invasor.

- Pare de reclamar, você é apenas uma boneca de cera. - Bradou Corona Solaris suavemente.

- Mas... eu sinto... sinto sentimentos. - Ríspidou.

- Imaginação sua.

- Se eu imagino, por que dizes que não posso ter sentimentos?

- Eu não disse isso, disse apenas que você é uma boneca de cera. - Falou agora mais paciente.


- Você só me criou... para eu velar por sua segurança. - Entristeceu-se ainda mais.

- Me perdoe.

- Está tudo bem, já que agora eu sei que não posso ter sentimentos.

Corona Solaris olhou para a boneca de cera uma última vez, era tão viva, tão profunda, parecia uma humana de verdade. É, era isso, Corona Solaris queria uma filha, queria muito uma filha, uma filha se desenvolvendo no útero de uma humana, seria perfeito, ela seria meio-humana, e seria mais feliz, talvez mais do que ele. Corona Solaris estava tão só, apesar de ser pai do Alvorecer, do Crepúsculo, do Sol, e de toda a luz calorosa existente nos mundos em que ele passara, ele precisava de uma filha, uma companhia a mais. O Alvorecer, o Crepúsculo e o Sol já estavam tão velhos quanto o pai, apesar de que todos nunca transparecessem isso nas suas formas físicas, eles eram imortais, porque nasceram nas conspirações universais movidas à forças inimagináveis, eram imortais porque também nasceram de um deus, de um rei em algum mundo agitado, e de um monstro, irmão de outros três monstros, sendo um desses o pai mais monstruosamente enigmático.

- Não me deixe. - Lamúriou a boneca.

- Eu preciso. - Disse Corona Solaris.

- Então tire a alma que tu impregnaste nesta cera de constelações.

- Eu mal consigo destruir meu coração, como posso fazer isso contigo?. - Revelou o deus.


- Então eu mesma faço. - Falou tão súbitamente quanto pegou uma vela, acendendo-a com um sopro da sua garganta de cera, e postando fogo nas suas vestes de garotinha mimada.

Corona Solaris não quis assistir, entrou por outro quarto misterioso, dessa vez menos triste e cinza, e pegou suas vestes intactas jogadas naquele chão impetuosamente limpo, nem um pouquinho de poeira cósmica, ainda bem. Olhou mais uma vez para o quimono amarelo-quase-não-dá-pra-perceber-que-é-amarelo-de-tão-claro, e decidiu outra coisa. Sua decisão: ele não podia entrar naquele mundo com aquela roupa tão... de outro mundo. Iria nu mesmo.

E assim, Corona Solaris partiu para a Terra, completamente pelado. A viagem era meio difícil, mas valeu o esforço. Um minuto depois se contorceu numa banheira de alguma casa desconhecida, tinha caído ali, e até agora não tinha entendido o porquê.

Olhou para as paredes lajotadamente brancas do banheiro, ainda meio entorpecido da viagem, e resolveu se levantar. A porta se abriu, e por ela entrou um garoto também nu, pronto para tomar um banho, exceto pelo fato de ter um sobressalto ao ver Corona Solaris pálido o encarando. O rosto de Arthur corou, sem saber o que fazer ou o que falar diante daquela criatura, agora com aparência totalmente humana, postada na banheira do quarto de hóspedes.

- Não se preocupe, eu já vou sair. - Disse Corona Solaris despreocupado, colocando os pés na banheira pro tapete do chão.

- Q... quem é você? - Perguntou um Arthur com olhos arregalados.

- Um deus de um universo qualquer.

- O quê?


- Bem, mesmo se eu explicasse, você não iria entender.


Agora Arthur parecia ter voltado a si.


- Então explique. - Desafiou, dessa vez espantando Corona Solaris.

- Certo. Eu nasci há milhões de anos, sou uma criatura inexorável, imortal, e vim para este mundo com apenas um objetivo, não sei se voltarei aqui depois de terminá-lo.

- Que objetivo? Se é que eu poderia saber...

- Ter uma criança metade-humana.

O deus saiu do banheiro e passeou pelo quarto vantajoso de Arthur, ou de hóspedes. Abriu o guarda-roupa e olhou atentamente para as roupas, tocando-as e escolhendo-as como se estivesse numa loja grátis. Pegou uma camisa branca sem mangas e uma calça social, achava-as feias e cafonas, mas não tinha muitas opções no momento. Enquanto isso, Arthur também se direcionava a ele, agora voltando a se assustar, seria ele um ladrão? Ou o estuprador atacando sua casa?

- Você tem um...

- Corona Solaris. - Respondeu bocejando.

- Corona Solaris? - Questionou Arthur. - Que nome estranho.

- Arthur Martyr também é um nome estranho, Arthur. - Respondeu agora pegando sapatos.

- Eu não me lembro de...

- Está na cara que seu nome é Arthur, só isso. - Disse quase sorrindo - Você pode me emprestar essas roupas?

Arthur corou mais uma vez para o pseudo-humano nu na sua frente, e Corona Solaris entendeu, o jovem estava com uma ereção, mas logo tratou isso como se fosse uma coisa normal, trancou a porta do quarto e disse para o deus esperar enquanto ele tomava um banho. Corona Solaris se sentou, e esperou até que Arthur pudesse pensar em alguma maneira de tirá-lo de lá, na verdade, o deus não estava se importando muito com isso no momento, ele sabia como sair, era bem fácil, aliás.

- Foi bom o banho? - Perguntou Corona Solaris, descarado, olhando para o jovem que tirava a toalha da cintura para se enxugar.

- Foi... - Disse Arthur.

Um olhar malicioso, não se sabe de que lado, percorreu e deslizou pelo quarto, não que aquilo fosse o sinal de perigo, do contrário, aquilo era muito bom, e ninguém se importou de falar um pio até então. Arthur já estava vestido, e ainda não conseguia entender como aquela coisa havia entrado no seu quarto, e estava nu na sua banheira, aquilo era tão irreal e...

- Você quer ir comigo, Arthur?

Arhur arregalou os olhos.

- Para onde? - Questionou. - Pelo que soube, você chegou agora aqui.

- Eu tenho uma casa.

- Uma casa?

- Sim, uma linda casa, que as estrelas escolheram para mim (obrigado, irmã Akasha).

- Vo... você já parou pra pensar que estamos num mundo onde temos que pagar para ter casas? - Irritou-se um pouco.

- Bem, há vários outros mundos que basta você construir uma casa e se denominar dono de tais terras,é fácil.

- Mundos?

- Sua mente é tão pequena, Arthur, vamos logo.

- P... Peraí... quem disse que eu quero ir com você? - Franziu a testa agora completamente irritado.

- Está na cara, sua vida é um tédio, e você odeia todo mundo, o que mais quer fazer? Fugir! Não é? - Sorriu Corona Solaris.

- E... Eu não odeio todo mundo... - Disse cabisbaixo.

- Mas uma boa parcela. - Revelou. - Estamos ficando sem tempo, tia Andréia já virá bater nesta porta e te chamar para ir jantar, aliás, essa noite será linda. - E gargalhou gracioso.


- C... Como você consegue saber dessas coisas?

- Eu sou um deus, já não lhe disse? E as estrelas também me contam muitas coisas.

- Que tipo de coisas?

- Como por exemplo, você está louco para ir comigo.

- Já... Já chega! Eu não estou entendendo nada! Para onde você quer me levar?

- Arthur! Arthur! O jantar está pronto! - Esbravejou tia Andréia batendo na porta. - Você já tomou seu banho?

Arthur não respondeu.

- Arthur? Você está aí? - Insistiu a mulher.

- Responda, estúpido! - Sussurrou Corona Solaris, meio cético.

- Estou tia, eu já vou descer! - Gritou Arthur.

- Tudo bem. - Sumiu a voz.

Corona Solaris revelou um pentagrama no peito, e pegou na mão de Arthur, sem tempo para pensar ou questionar a existência e os motivos dele, e logo já estavam numa mansão tão ou mais grande do que a de tia Andréia, cheia de luminárias belíssimas, tapetes importados, janelas cortinadamente bem costuradas, uma escadaria esparramada no centro de uma sala, e outras salas, cozinhas, quartos lá em cima. Arthur se assustou mais uma vez, para a coleção de sobressaltos naquele dia, tudo de repente ficara espantosamente mágico, era impossível de acreditar, ainda mais de se ver. Mas ele estava vendo, ouvindo e sentindo, então, o jeito era agir como as circunstâncias permitiam.

- Bem vindo a minha mansão, Arthur Martyr. Quer morar comigo? - Sorriu Corona Solaris, enquanto uma, das várias empregadas, passava apressada com lençóis na frente dele.


Arthur andou um pouco para alargar o horizonte de salas daquele lugar, será que ele ainda estava em Londres? Bem, então ele tinha deixado pra trás todo o resto de vida que ainda possuía, mas as coisas naquele momento pareciam tão levianas e sem graça, ele queria experimentar, desde o início, desde que vira Corona Solaris nu na sua banheira, ele queria experimentar um mundo novo, e não um tédio sem igual. É, ele queria estar ao lado de Corona Solaris.

- Quero.





~






Black Cherry

2 comentários:

  1. AI, AI, A PARTE DO CASULO FOI PERFEITA! EU TENHO QUE DESENHAR ISSO, NÃO SEI PORQUE, MAS ME LEMBROU O ÚLTIMO VIDEO DA IAMAMIWHOAMI! aquele que tem ela com o saco na cabeça dentro da banheira '-'

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  2. *-* é uma referência a Cocoon, queria que a descrição deixasse isso bem claro *o*

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