Solitude, darkness and love


"I don't wanna admit, but we're not gonna fit"

sábado, 11 de dezembro de 2010

Aurora: 1 - Como fechar os olhos



"Venha, venha conosco comemorar essa nova era, meu filho", ouvia Arthur Martyr pra lá e pra cá, no meio de toda aquela gente burguesa, vestindo seus vestidos brancos mais caros e seus ternos mais engomados para a festa de ano novo, de um século novo, 1900, todos como a moda daquela época ditava, com Arthur Martyr não era diferente. A diferença: ele era um garoto entediado e inconformado, cruzava os braços e ficava com a cara fechada em algum canto do salão de lustres belíssimos iluminando aqueles rostos hipócritas cheios de uma falsa modéstia e uma auto-confiança suficientemente barata. Na verdade, até o carpete vermelho-vinho daquele salão de gente esnobe na mansão da sua tia o incomodava, pior de tudo era ter que aturar e ser obrigado a aturar tudo aquilo nos aposentos dela, bem, essa era a condição quando ele ia passar uns tempos pra lá e esquecer um pouco dos irmãos chatos e ficar com os primos legais.

Arthur Martyr tinha dois irmãos novos, e uma irmãzinha, a caçula fofa e mimada, bom, ele era um irmão mais velho deveras excluído, talvez porque ele não tivesse tantos alardes e talentos para mostrar, e ele bem que gostava de viver no anonimato, era menos incômodo. Sua mãe era uma mulher solteira, quer dizer, na verdade viúva, teve que cuidar de quatro crianças sozinha, desamparada pelo mundo, forçada a abandonar o marido na fronteira de uma morte. Arthur de fato era muito apegado à ela, pois, como todo irmão mais velho e mãe solteira, ele teve que ajudá-la muito a cuidar dos seus irmãos mais novos, e pra ser sincero, ultimamente eles andavam um pouco afastados, e era um dos motivos de Arthur estar na casa de sua tia, não apenas porque os primos são mais legais que os irmãos, é claro. Vamos voltar um pouco na noite fatídica de uma briga bem feia:

Era aniversário de morte do pai de Arthur e seus irmãos, e claro, apenas a mãe deste lembrava disso claramente, ela não era uma criança quando o perdeu. Chegou em casa e a casa estava normal, não haviam orado nem velado pelo pai, e foi bem aí que a discussão começou. A mãe simplesmente surtou, e xingou todos os filhos, berrando loucamente sobre o quanto eles eram ingratos por estarem vivos, por terem comida todos os dias, tudo porque, segundo ela, o seu marido era o anjo da guarda de todos eles, e nunca deixaria nada de ruim acontecer com eles. Mais tarde ela vai se arrepender de ter falado isso, mas vamos deixar os outros alardes para depois. Arthur retrucou na mesma hora e disse que se eles estavam vivos era por causa dela, e não por causa de um defunto bêbabo. Bom, foi bem aí que a mãe parou de berrar, falou quase num tom rouco para todos irem se recolher e dormir, e foi para o quarto chorar e declamar poemas da sua solidão com vinho e cigarro.

Agora vamos voltar à nossa divertida festa de ano novo:

- Por que essa cara, Arthur? Vamos, se agite um pouco, ah como eu amo essa música! - Divertiu-se Andréia, a tia de Arthur, mas ele não respondeu e continuou com a mesma cara.

Andréia pegou uma cadeira e se sentou ao seu lado, olhando atentamente para ele, enquanto seu lindo chapéu de flores e rendas balançava mesmo na cabeça mais ereta e parada possível, seu vestido da costura mais bem feita e do pano mais confortável de se vestir também pareciam estar se agitando, mas isso não incomodou Arthur Martyr. Apesar da extravagância, ele gostava de tia Andréia. E ficou ainda mais cabisbaixo.

-Ei... ei! - Disse a tia alisando as costas de Arthur com as mãos brancamente enluvadas. - Está tudo bem?

- Eu não entendo, por que pra ela é tudo o papai? - Revelou envergonhado.

- Vai ver ela ainda não superou, não é? - Respondeu Andréia num sorriso tristonho. - Arthur, esqueça disso um pouco, vocês vão ficar todos de bem depois. Agora vem, vamos dançar!

Agora o sorriso era radiante, e Arthur não teve como escapar daquilo. Se levantou e dançou uma música atual machucando os músculos da face enquanto sorria também, e tia Andréia caindo na gargalhada ao ver os trejeitos desleixados de Arthur, mas no fundo sentia uma certa angústia por se sentir impotente em relação aos problemas da irmã, bem, eram os problemas dela, e Andréia não tinha nada haver, mas era uma pessoa bastante afetada quando se tratava dos problemas alheios, era sim.

Arthur conseguiu esquecer um pouco da família, e logo já estava bebendo com permissão da tia e cortejando com algumas garotas bobas que só faziam soltar risadinhas. Se sentindo meio bêbado, resolveu subir os degraus e deitar na cama do quarto de hóspedes, era fraco para bebidas, afinal. E sentiu um pouco de frio na roupa que agora não estava apenas úmida de suor, mas de vinho. Olhou para a taça quebrada no chão e depois para o causador do acidente, ainda um pouco grogue de sono.

- Nossa... me desculpe! - Disse a voz masculina, franzindo a testa lisa.

- Ah... tudo bem, eu já ia tirar essa roupa mesmo... - Respondeu Arthur forçando a vista.

- Mas deve ser uma roupa cara, não? - Questionou.

- Minha tia não se importa muito, ela é rica. - Falou meio debochado.

- Pra onde você ia agora? - Perguntou.

- Para o meu quarto... ou quarto de hospédes, sei lá!

- Eu o acompanho.

E o acompanhou, fazendo Arthur se sentir bastante desconfortável, aliás, ele queria mais é ficar só. Enquanto o homem se sentava na cama, Arthur já tirava o sobretudo e o restante das vestes, ficando apenas de roupa íntima, era um garoto de dezessete anos forte, com um corpo bem trabalhado, e a pele nem tão escura nem tão clara. Arthur era daqueles adolescentes que permanece com um rosto infante, diferente apenas pela barba rala, ainda em fase de desenvolvimento, tinha o nariz fino e os olhos esbugalhados, a boca delineadamente bem desenhada, as orelhas médias e o cabelo liso penteado para trás.

- Você tem um nome? - Perguntou o homem, tonto com alguma coisa.

- Arthur, e você?

- Sir Gustavo. - Respondeu sorridente.

- Um bom nome. - Disse Arthur limpando o rosto molhado pela pia do banheiro ali pertinho.

- Obrigado.

- Senhor Gustavo, pode me dar licença? - Falou num tom de dó.

- Claro. - Disse Gustavo se levantando.

Por um momento Arthur se sentiu até melhor com o silêncio, ainda de pé olhando para a cama onde jazia um pequeno desarrumado pelo traseiro de Gustavo, e subitamente sentiu um arrepio. Uma mão áspera e forte passeava pelo seu pescoço, até descer ao ombro e depois ao braço, Arthur permaneceu petrificado, sentindo Gustavo provar do seu aroma adolescente com os olhos a mil, e depois, com uma voz acalentadora e assustadora, suspirou nos ouvidos do rapaz, com seu corpo bem perto do dele.

- Arthur é um bom nome, também.

E partiu, deixando Arthur confuso e exausto de tantos calafrios, com certo medo ainda. Ele não estava entendendo nada daquilo tudo, e, deitando-se na cama, preferiu continuar assim. Ao pregar os cílios, sonhou com várias coisas, entre elas estrelas, sóis e alguma sombra branda que se aproximava como se fosse eternamente bem-vinda, falando palavras numa outra língua, uma língua monstruosa, mas que ele também entendia, ele entendia porque aquilo também fora feito pra ele. Um presságio, e um despertar num sobressalto. Acho que bebi demais.

- Arthur! Vamos Arthur! Precisamos sair! Já chega de dormir! - Gritava tia Andréia batendo na porta, um pouquinho irritada para cuidar de adolescentes preguiçosos, mas ela preferia guardar isso para si mesma.

Arthur logo se levantou, bocejando e abrindo a porta, ainda vestido apenas com a roupa de baixo, e depois indo em direção a janela, arregaçando as cortinas e fechando os olhos automáticamente com o sol forte das oito matutina.

- Seu despudorado! Como você atreve a se apresentar pelado pra uma dama? - Indignou-se tia Andréia.

- Eu não estou pelado. - Respondeu um Arthur sonolento, coçando o traseiro bem torneado.

- Bem... de qualquer forma, o café da manhã está pronto. Se apresse e vamos sair em trinta minutos. - Avisou e saiu rastejando o vestido inédito escadaria abaixo da sua mansão.

- Tudo bem... - Respondeu Arthur para si mesmo, fechando a porta e tirando o restante de roupa do corpo.

Apesar de estar sendo pressionado, Arthur tomou um longo banho, primeiro de pé, depois enchendo a banheira e se deitando. Lembrou da voz de Gustavo bem perto dos seus ouvidos, seu hálito de álcool e sua fragância londrina, sua cintura rígida encostando atrás dele, e começou a se tocar. Não com muito tempo, saiu da banheira, se enxugou e se vestiu, Londres estava fria como um iceberg, e ele logo teve que se vestir como estava na noite anterior, sobretudo, terno, calças e sapatos sociais, a moda era sempre assim, pra dizer a verdade. A moda é um tédio, dizia para si mesmo.

Desceu e tomou seu café com tia Andréia, que estava lendo o último jornal publicado, assustada com uma notícia de gelar os ossos. Enquanto comia um pãozinho, Arthur ficara curioso com tal notícia, fitando o jornal atentamente.

- Meu Jesus amado! - Começou tia Andréia. - Tem um estuprador solto perambulando por aí! E ele está atacando mais no nosso bairro, acredita? - Questionou numa expressão de total espanto.

- Bem... sempre há gente ruim espalhada por aí, não é? - Respondeu Arthur pegando outro pãozinho, despreocupado agora.

- Mas ele pega crianças... aquelas criaturinhas tão pequenas e inocentes! Esse homem deveria ir pro inferno. - Reclamou tia Andréia até com a governanta.

- E ele vai... todos serão punidos um dia, não é? - Respondeu Arthur na expressão entediada de sempre.

- Arthur, pare com esse seu sarcasmo, isso é sério! - Indignou-se ela chamando sua atenção.

- Mudando de assunto, a senhora falou com Gustavo ontem? - Disse Arthur curioso.

- Gustavo? Quem é Gustavo? Não lembro de ter convidado Gustavo nenhum. - Respondeu a tia, estranhando tal pergunta.

- Bem, deixe pra lá... - Respondeu Arthur um pouco pálido agora.

Ao terminarem, tão breve saíram com o cocheiro para as ruas úmidas de Londres, tia Andréia adorava visitar as várias lojas caras da cidades, deixando Arthur e o cocheiro um pouco cansados, mas ela era assim mesmo, uma pessoa geniosa, entusiasmada e gentil. Arthur adorava avaliar a personalidade das pessoas, claro, porque naquela época elas costumavam ter. O cavalo parou por um instante, pela ordem da tia, que já fitava Arthur com seriedade, suficientemente satisfeita das compras. Arthur olhou ao seu lado e avistou sua casa, uma casa normal, nem tão rica nem tão pobre, onde sua mãe jazia triste, orando com seus filhos pela morte do marido, o sol já estava indo embora.

- Eu... eu não quero falar com ela ainda. - Respondeu Arthur abaixando a cabeça.

- Tudo bem, Arthur. Vamos pra casa.







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Black Cherry

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