Solitude, darkness and love


"I don't wanna admit, but we're not gonna fit"

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Mamãe


Subiu numa das várias árvores frutíferas daquele distante lugar, comeu uma maçã qualquer e foi para o jardim dela cuidar de suas rosas, que estavam prestes a florescer. Correu tanto que caiu num caminho de pedras e ralou os joelhos, ela cuidou deles ternamente, ele se sentia seguro com ela, quando ele não conseguia dormir, ela o acalmava, quando ele chorava, ela o fazia sorrir, ela era a pessoa mais especial do mundo, eu queria que você vivesse para sempre.

A noite estava chegando, Pedro Arthur tão logo recolheu-se, o jantar já estava pronto, ao sentir o delicioso aroma, correu para lavar as mãos e o rosto suado de tanto brincar, mas estava tão silencioso, onde estão as músicas clássicas de mamãe tocando agora na hora do jantar? Foi para o quarto dela, e ali ela estava, sentada na cama, olhando um retrato.
- O que foi mamãe?

- Estou com muita dor, Pedro.

- Eu não sou mais Pedro, mamãe.

- Black Cherry não é nome, Pedro... Ah, que seja. Por que você quer ser chamado assim? Deixa pra lá.

- Você está bem?

- Estou, vá logo para a mesa, já estou indo.

- Tá bom.

~

A janta foi amarga e calada, sem muitos gestos, e nada compreensível, Pedro tomou um banho e foi para a cama, mas seus olhos não fechavam, os galhos perto da sua janela tocavam nas paredes da casa, um doce ar de suspense e solidão invadia Pedro, onde está o papai?
A porta se abriu devagar, Maria Ana entrou no quarto, um beijo de boa noite, que alívio, acho que ela se sente melhor agora. E logo percebeu o filho desperto:

- Pedro? Por que ainda está acordado? Não consegue dormir, filho?

- Meus olhos não querem se fechar, mamãe, eles tem medo de nunca mais enxergar.

- Não se preocupe, seus olhos ainda enxergarão o mundo depois que você acordar, filho.

- Você promete?

- Prometo.

Que sono.

~

Manhã fria, cheia de névoa ao redor da casa, Pedro se sentia no limbo, o que está acontecendo? Estou com medo.
Lavou o rosto na pia do banheiro, e desceu em direção ao quarto da mãe, ela tinha sonhado um pesadelo, ainda estava com medo, e logo um trovão ressoou pela casa avisando a chegada de uma tempestade, Pedro chorou, mamãe! Mamãe!
Uma ânsia no peito o impedia de respirar, algo estava preso na sua garganta, algo queria estrangulá-lo, não quero morrer ainda. A porta do quarto de Maria Ana estava rangendo, Pedro sentiu cheiro de depressão, pílulas estavam espalhadas pelo chão, tesouras e gotas de sangue, os pés de sua mãe flutuavam no ar, seus pulsos rasgados, uma cadeira jogada, mãos imóveis, língua pra fora, uma corda grossa no pescoço, ferindo-o, seus olhos não enxergavam mais, só podia se ouvir o chiado da chuva grossa, e um vento forte entrando pela janela, a lâmpada ainda acesa piscou, a janela bateu com força, era Black Cherry nascendo no corpo de Pedro Arthur.

Você ainda consegue enxergar aquela chuva negra, Black Cherry?



~








Andrew Oliveira

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