Solitude, darkness and love


"I don't wanna admit, but we're not gonna fit"

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Amargo


Seis e meia da manhã, poucos raios solares, cheiro de pão, café forte, Cat Power ainda tocava na vitrola, como se nunca mais quisesse parar de cantar, recordações doces da madrugada em Paris com Stella, odor de sexo pelo corpo inteiro, ainda nu, um pouco de arrependimento, observava a cereja devassa ainda pousando em sono, parecia tão desprotegida. O peitoral todo arranhado, como um disco furado, resolveu ir ao banheiro para lavar o rosto, tudo aquilo ainda parecia tão irreal.

Tirou a agulha da vitrola, e abriu uma janela, pegou um pouco de vodka, se tudo aquilo era um sonho, beber logo após sair da cama não seria um problema, gostava do frio penetrando na pele nua, daquela vista cheia de arranha-céus, de certa forma, sentia-se feliz com aquilo, mas ainda estava morrendo de saudades de Stella, se ele fosse para o inferno pelos seus pecados, que fosse ao lado dela. Com tudo aquilo, não sabia se estava respirando, seu corpo ainda estava quente, estou confuso.

Lucas já havia conseguido seu sol, e quem seria sua lua?

Pôs a agulha de volta no vinil, Metal Heart tocava e tocava sem parar, Black Cherry despertou, Lucas deitou-se atrás dele, afagando sua nuca.
- Olá Lucas Lustat. - Sorriu, sonolento.
- Olá Black Cherry. - Disse sentindo o cheiro gostoso dos longos cachos de Cherry.
- Como está seu coração agora? - Sussurrou.
- Confortável. - Suspirou.
Black Cherry fechou os olhos.
- Que bom que ele está assim. - Aliviou-se, por algum motivo que eu não sei.
- Por quê? Como está o seu? - Questionou Lucas.
- Você não tem um encontro pra ir? Está catorze horas e trinta e sete minutos atrasado.
- Black Cherry, como está seu coração? - Entristeceu-se.
- Está atrasado, é melhor se apressar, Stella parece ser uma mulher ocupada demais para alguém como você, e impaciente demais para qualquer um.
- Black Cherry... - O coração de Lucas apertou.
- Ela é muito bonita, gosto daquela beleza exótica, aquele olhar admiravelmente demoníaco.
- Eu quero ver o seu coração, Black Cherry.
- Pegue o meu gatinho persa e dê de presente para ela, aposto que ela vai gostar, aliás, eu também nem sou tão apegado a ele, aquele algodão ambulante solta muito pêlo, e eu sou alérgico.
- Black Cherry... - Lucas sentiu uma dor no peito, não eram os arranhões. Mas desistiu. - Tudo bem, eu falo com ela sobre seu longa-metragem.
- Não, eu mesmo quero falar. Anote num papel o seu número de celular e o dela, agora vá embora, se quiser.
- Vá embora? - Lucas levantou-se cama. - É só isso que tem pra falar? Vá embora?
- O que mais eu posso falar?
- Não sei! Alguma coisa que não me fizesse sentir como um mero corpo.
- Mas não é isso que você é? - Sorriu. - Um mero corpo?
Lucas estava perplexo, Black Cherry parecia mais frio do que nunca. Por quê?
- De qualquer forma você foi um ótimo passatempo. parabéns.
Lucas vestiu-se, melancólico, anotou os números num pedaço de papel, e despediu-se de Black Cherry dando-lhe um beijo na testa.
- O meu coração Lucas. - Ainda estava de olhos fechados, sentou-se na cama, e bocejou. - Está tão negro quanto uma floresta densa, um pântano, e você não poderá encontrar nada por mais que procure, pois ele também é uma infinita escuridão.
Lucas sentiu-se como uma mentira.
E eu sou apenas um maço de cigarros dessa escuridão?


~


Decidiu voltar.
- Eu posso ficar um tempo aqui com você?
- Fique à vontade. - Fumava Black Cherry, no sobrado. - O sofá é bastante confortável. Aliás, você não tinha um encontro?
- Eu ainda nem liguei pra Stella, na verdade, queria fazer uma surpresa pra ela.
- Que bom, você vai poupá-la por um tempo a mais?
- Se amor significa isso pra você, então sim.
Black Cherry encarou indiferente os olhos de Lucas. Quer me enfrentar, idiotazinho?
- E o que as coisas significam pra mim, Lucas, você sabe?
- Não significam nada, pra você, elas são um vazio como você.
- Vazios não ficam milionários de um dia para o outro.
- Vazios, assim como começam, terminam sem nada. Você tem alguma coisa que signifique algo pra você, Black Cherry?
- Essas baboseiras não me interessam. - Apagou o cigarro num cinzeiro de porcelana, num banquinho ao lado da cadeira do sobrado.
- Eu não consigo entender você, Black Cherry, você é um poeta!
- Eu não fui feito para se "entender", Lucas Lustat. - Desdenhou. - Eu sou apenas uma máquina de escrever.

Lucas se enfureceu, e pegou Black Cherry pelo pescoço, prendendo-o na parede. Seus olhos o tragavam como um cigarro, olhos ácidos os de Black Cherry, tão negros quanto a sua vida, ou seu inalcançável coração.

- Vai ficar só olhando?

Lucas transpirou, excitado, e começou a morder os lábios de Black Cherry, tocando-o, respirando-o, sentindo seu sangue ferver por todo seu corpo. Black Cherry, intenso, entrou em erupção.

Mon petit vulcan, My lovely drug

My tongue in your mouth

My eyes in your soul

My body in your body

Your secret body

Excite my sex

Ignite my mind

Stupid dreams of my dreams

My dark dreams

My erotic dreams

Son of my darkness...


E Black Cherry adormeceu mais uma vez na coroa do sol.







~








Andrew Oliveira (:

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